Last Battle
28 De volta à rotina
A manhã chegou devagar à Sala Precisa, filtrando-se pela luz suave que atravessava as janelas altas que a magia havia criado durante a noite. O ambiente continuava exatamente como Sara e Draco o haviam deixado: confortável, elegante e reservado, com o fogo da lareira reduzido a algumas brasas e as cortinas pesadas mantendo o restante do castelo distante.
Sara foi a primeira a despertar. Durante alguns segundos, permaneceu imóvel, sentindo o peso agradável do braço de Draco sobre sua cintura e o calor do corpo dele ao lado do seu. A lembrança da noite anterior veio naturalmente. Ela sorriu e virou o rosto na direção dele, observando-o dormir com os cabelos loiros mais bagunçados do que de costume e a expressão finalmente livre daquela arrogância que ele carregava quase como uma segunda pele. Ela passou os dedos de leve pelo cabelo dele, e Draco abriu os olhos alguns segundos depois.
— Você fica bem mais bonito quando não está tentando parecer insuportável, sabia?
Ele a observou por um instante, como se ainda estivesse despertando completamente.
— E você fica perigosamente linda quando acorda.
Sara sorriu. Draco se aproximou e deixou um beijo lento nos lábios dela antes de recostar a cabeça novamente.
— Você está bem?
— Draco, você realmente acha que eu tenho cara de quem não está bem depois de ontem?
Um sorriso pequeno apareceu no rosto dele.
— Eu só queria ouvir você dizer.
— Então ouça e grave na memória. Eu estou ótima.
A resposta veio com a segurança que sempre existira nela. Draco acariciou distraidamente o braço dela.
— Ótimo. Porque eu também.
— Eu sei.
— Como?
— Porque você está com essa cara.
— Que cara?
— A de quem está tentando parecer indiferente quando está muito satisfeito.
Ele soltou uma risada baixa.
— Você me conhece bem demais, garota...
— Essa é minha missão na vida.
Sara se aproximou novamente e o beijou, dessa vez com mais calma, antes de apoiar a cabeça no peito dele. Durante alguns minutos, permaneceram assim, sem necessidade de preencher o silêncio. Depois, ela comentou que não havia sentido ciúme naquela noite porque imaginasse que Draco pudesse se interessar por outra pessoa; o que a incomodara fora a insistência daquela garota em permanecer perto dele depois de ouvir um não.
Draco sorriu.
— Ainda bem. Porque eu não teria paciência para ficar explicando que não existe outra pessoa.
Sara levantou o rosto.
— Gosto quando você verbaliza que eu sou sua.
— Você gosta?
— Gosto.
— Então vou repetir muito durante toda a nossa vida.
Ela sorriu. Draco a beijou novamente, e nenhum dos dois sentiu necessidade de acrescentar qualquer coisa àquilo. Não havia nada para ser explicado, muito menos consertado.
Quando finalmente resolveram deixar a Sala Precisa, vestiram-se sem pressa, trocaram alguns comentários sobre a noite anterior e seguiram juntos pelos corredores de Hogwarts. O castelo estava mais silencioso do que de costume, como seria natural em um domingo, mas havia algo diferente no ar. O baile ainda parecia próximo, embora algumas horas tivessem sido suficientes para transformar completamente a atmosfera.
Na Torre da Grifinória, a manhã havia chegado calma. As cortinas vermelhas ao redor da cama de Gareth continuavam completamente fechadas, preservando o pequeno espaço de privacidade que Hailey havia criado antes de os dois dormirem. O Abaffiato ainda mantinha a cama protegida e não seriam ouvidos por ninguém do lado de fora, enquanto o Cave Inimicum permanecia ativo ao redor da cama para os dois serem alertados caso alguém se aproximasse. Mas ninguém os incomodou.
Gareth acordou primeiro e permaneceu alguns instantes observando Hailey. Ela dormia com a cabeça apoiada em seu peito, uma das pernas entrelaçada às dele e o braço repousado sobre sua cintura. Ele sorriu ao encarar o semblante sereno da namorada e, com cuidado, afastou algumas mechas de cabelo de seu rosto. Quando ela finalmente abriu os olhos, encontrou o sorriso dele.
— Você está me encarando a muito tempo?
— Estou. Gosto de acordar com você.
Hailey sorriu sonolenta e se aproximou para beijá-lo devagar com carinho. A conversa seguiu por assuntos simples, daqueles que pareciam pertencer a uma vida completamente diferente daquela que levavam. Falaram sobre como seria acordar sem pensar em profecias, batalhas ou criaturas tentando matá-los, sobre como seria ter como maior preocupação do dia preparar café, escolher para onde viajar ou decidir quem teria de levantar primeiro para buscar alguma coisa.
Aos poucos, a conversa chegou ao Rio de Janeiro. Gareth queria conhecer a cidade onde Hailey havia nascido, e ela começou a enumerar lugares que queria mostrar a ele, deixando claro que precisariam de muito tempo para conhecer tudo.
— Só espero que você não tente me levar para subir um morro no primeiro dia — Gareth comentou.
— Não posso prometer isso.
— Eu sabia… viver com você vai ser uma puta aventura
Hailey riu, mas logo percebeu que ele a observava novamente com aquele mesmo olhar que carregava alguma coisa além da brincadeira.
— O que foi?
— Nada... Eu só tava imaginando você de vestido de noiva e acho que você seria a noiva mais linda de todas.
Hailey sorriu largamente. Gareth já havia dito que queria se casar com ela, e ela já havia dito que sim. Havia ali uma imagem de futuro que, de alguma forma, começava a parecer cada vez mais natural e real entre os dois.
— Você pensa muito longe do presente.
— Talvez. Mas eu gosto de pensar no futuro. E sempre que eu penso, não consigo vê-lo sem você.
Hailey tocou o rosto dele. Gareth segurou a mão dela, sorrindo.
— Então você vai ter que conhecer o Rio antes de qualquer outra coisa... E você vai ter que encarar a minha família.
Ele assumiu uma expressão séria.
— Isso parece mais perigoso do que lutar contra monstros.
Hailey riu.
— Você ainda não viu nada.
— Exatamente. Estou tentando me preparar psicologicamente.
Ela se acomodou novamente contra ele e ele a apertou de leve.
Algum tempo depois, Hailey desfez as proteções mágicas ao redor da cama. Ela foi até o dormitório feminino para tomar banho e se trocar a contragosto do namorado que queria que ela fizesse isso com ele. Admitindo a derrota, Gareth foi fazer o mesmo.
Grace e Tobias demoraram um pouco mais. A pequena sala de descanso escondida próxima às cozinhas permanecia silenciosa quando Tobias abriu os olhos, encontrando Grace encostada nele, a cabeça apoiada em seu ombro e uma das mãos repousando sobre seu peito. A manta, entretanto, havia sido praticamente toda puxada para o lado dela. Tobias tentou movê-la discretamente. Grace apertou os olhos ainda fechados e puxou a manta de volta.
— Não.
Tobias parou.
— Eu nem fiz nada.
— Tentou mexer na minha manta.
— A manta é minha também.
— Era.
Ele soltou uma risada.
— Então você admite que roubou.
Grace abriu os olhos e sorriu.
— Eu prefiro dizer que reorganizei a distribuição dos recursos.
Tobias a encarou por alguns segundos antes de começar a rir e levantar as mãos em sinal de rendição.
Ela riu e se aproximou novamente. Havia ali conforto, confiança e a tranquilidade de quem não precisava transformar cada gesto em uma grande declaração.
Depois de algum tempo, Grace olhou ao redor da pequena sala.
— Ainda acho engraçado que a gente tenha passado a noite aqui.
— Eu gostei desse lugar. É confortável.
— É estranho que seja tão isolado...
— Talvez seja por isso que ninguém procura.
Ela riu, aproximando-se para beijá-lo. O beijo foi demorado e tranquilo, e quando se afastaram Grace permaneceu alguns segundos olhando para ele.
Quando finalmente deixaram a sala, o domingo já estava avançando.
Os seis amigos acabaram se encontrando no Salão Principal, que já havia voltado ao normal, quase ao mesmo tempo para tomar café. Não houve necessidade de perguntas ou explicações. Um olhar entre eles foi suficiente para que cada um entendesse que a noite havia sido boa para todos. Sara sentou-se ao lado de Draco, Hailey apareceu pouco depois com Gareth, e Grace e Tobias chegaram em seguida. Havia uma cumplicidade nova entre os seis, não porque alguma coisa tivesse mudado entre eles, mas porque a noite anterior havia acrescentado mais uma camada àquilo que já existia.
O baile foi mencionado algumas vezes durante a refeição. Sara comentou sobre a música, Grace lembrou do samba que queria aprender e Hailey falou sobre as Esquisitonas, enquanto Gareth reclamava, fingindo indignação, que ela havia dançado muito melhor do que ele. Durante alguns minutos, foi fácil fingir que aquela era apenas uma manhã comum de domingo.
Até que, do outro lado do salão, alguns professores começaram a conversar em voz baixa sobre os treinamentos daquela tarde.
A guerra voltou a ocupar o espaço entre eles. Ninguém precisou dizer que estava com medo. Todos sabiam. O baile havia sido uma pausa. Agora era hora de voltar ao que vinha pela frente.
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Nos dias seguintes, Hogwarts mudou completamente a atmosfera. O movimento que antes se concentrava principalmente nos corredores e no Salão Principal espalhou-se pelos terrenos do castelo, onde os gramados passaram a receber grupos de estudantes, semideuses e Audaciosos. Professores e adultos circulavam entre eles, ajudando na organização, observando os exercícios, corrigindo erros e cuidando daqueles que precisavam de atendimento depois de algum golpe mais forte.
As quatro casas treinavam juntas. Essa talvez fosse uma das mudanças mais evidentes. As antigas rivalidades ainda apareciam em pequenas provocações e diferenças de personalidade, mas haviam perdido importância diante do que se aproximava. Grifinórios treinavam ao lado de Sonserinos, Corvinos dividiam exercícios com Lufanos e ninguém podia mais se dar ao luxo de pensar apenas na própria casa. A guerra não perguntaria de qual mesa alguém vinha.
Os bruxos começaram pelos exercícios de combate mágico. Duplas se enfrentavam enquanto outros observavam, esperando sua vez, e os campos logo foram tomados por feitiços de ataque, escudos mágicos e contrafeitiços. Havia exercícios de desarme, duelos contra mais de um adversário e situações nas quais os participantes precisavam reagir sem saber de onde viria o próximo ataque. Também treinavam feitiços não verbais, encantamentos de contenção e maneiras de proteger outras pessoas durante um confronto.
A experiência dos estudantes que haviam participado da batalha anterior tornava os treinamentos particularmente intensos. Eles já conheciam a sensação de estar cercados, o medo de não saber o que surgiria depois de uma explosão ou de um grito, a dificuldade de pensar quando tudo ao redor parecia acontecer ao mesmo tempo. Agora tentavam transformar aquelas memórias em preparo.
Hermione circulava entre os grupos junto com Hailey, ambas corrigindo detalhes e ajudando quem precisava aperfeiçoar algum feitiço.
Harry Potter havia retornado a Hogwarts para participar dos treinamentos e rapidamente assumira uma posição natural entre aqueles que precisavam aprender a lutar em condições reais. Rony Weasley também estava ali, trazendo consigo a mesma mistura de humor e coragem que sempre parecia acompanhá-lo.
A chegada dos dois havia provocado uma pequena agitação entre os alunos de Hogwarts. Hermione foi a primeira a recebê-los e, assim que Rony se aproximou, ela o beijou antes de abraçá-lo, deixando claro para qualquer pessoa que ainda tivesse alguma dúvida que os dois estavam juntos. Harry recebeu a própria sequência de abraços, apertos de mão e provocações dos amigos que não o viam havia algum tempo.
Hailey correu até os dois. Abraçou Harry primeiro, depois Rony, rindo enquanto os dois riam do fato que ela quase os derrubara. Gareth ficou alguns passos atrás, observando a cena com um sorriso discreto, até que Hailey o chamou para perto. Apresentou-o aos dois, e a reação foi imediata e calorosa. Rony bateu no ombro de Gareth, Harry fez o mesmo, e os dois desejaram felicidades ao casal com uma alegria tão genuína que fez Hailey sorrir ainda mais.
Gareth respondeu às brincadeiras sem dificuldade e, em poucos minutos, a tensão inicial havia desaparecido. Harry e Rony já sabiam sobre Andrew e sobre tudo o que havia acontecido com Hailey. Hermione os mantivera atualizados durante o tempo em que estiveram longe, contando aos dois o suficiente para que acompanhassem o que ela havia vivido e soubessem o quanto aquele período havia sido difícil. Por isso, vê-la agora ao lado de Gareth não era apenas agradável; os dois amigos ficaram genuinamente felizes por ela ter encontrado alguém que estivesse ao seu lado naquele momento.
O modo como cumprimentaram Gareth carregava também essa compreensão silenciosa, sem necessidade de perguntas ou explicações diante de Hailey. Para Hailey, era uma cena simples, mas significativa. Seus amigos estavam ali, Gareth também, e por alguns minutos tudo parecia exatamente como deveria ser.
Até o próximo feitiço explodir alguns metros adiante.
— Muito bem! De novo! — chamou um dos responsáveis pelo treinamento.
Os grupos voltaram às posições. Dessa vez, o exercício era mais complicado. Os alunos precisavam reagir a ataques simultâneos, alternando entre defesa, desarme e contra-ataque. Alguns acompanhavam facilmente, enquanto outros ainda demoravam segundos preciosos para perceber o que estava acontecendo.
Draco estava entre os que treinavam com mais intensidade. Ele já possuía habilidade natural para duelos, mas agora estava sendo colocado deliberadamente em situações nas quais precisava enfrentar mais de um oponente. Em determinado momento, errou o tempo de um feitiço e foi atingido no ombro pelo jato de magia do adversário. Sara, que observava de outro grupo, ergueu uma sobrancelha. Draco percebeu.
— Não começa.
— Eu não disse nada.
— Esse olhar disse bastante.
Ela sorriu.
— Então talvez você devesse prestar mais atenção ao treinamento.
Ele voltou para a posição.
— Estou você me distrai.
O exercício recomeçou. Dessa vez, Draco bloqueou o primeiro ataque, desviou do segundo e desarmou o adversário com precisão. Quando voltou a olhar para Sara, encontrou um sorriso satisfeito no rosto dela. Não precisava de elogio. Ele sabia.
Mais adiante, os exercícios de Patrono começaram. A dificuldade era evidente. Muitos conseguiam produzir apenas uma névoa prateada, enquanto outros não conseguiam absolutamente nada. Ainda assim, ninguém era dispensado por falhar. O objetivo não era apenas executar o feitiço, mas aprender a encontrar dentro de si algo suficientemente forte para sustentá-lo.
Harry ajudava alguns dos estudantes mais jovens, explicando com paciência que não bastava repetir a fórmula; era necessário encontrar uma memória capaz de afastar o medo. O resultado foi uma sucessão de criaturas prateadas surgindo pelo campo, algumas pequenas e outras atravessando os gramados em velocidade impressionante.
Quando uma delas passou perto de Rony, ele desviou dramaticamente.
— Isso foi desnecessário.
Harry riu.
— Você quase derrubou o garoto ao lado.
— Meu Patrono está apenas tentando manter todos vivos.
Hermione, próxima deles, balançou a cabeça.
— Seu Patrono é um cachorro, Rony. Acho que ele está mais preocupado em correr atrás de alguma coisa.
— Isso é preconceito contra cães.
Os três riram, e a cena arrancou sorrisos de alguns estudantes próximos. Durante alguns segundos, o ambiente pareceu menos pesado, até que o chamado para o próximo exercício os fez voltar à concentração.
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Do outro lado dos gramados, os Audaciosos treinavam de maneira completamente diferente. Não havia varinhas, nem feitiços; havia corridas, quedas, golpes, armas, alvos e o som constante de metal se chocando. O treinamento físico havia se tornado ainda mais importante depois que perceberam que muitos dos inimigos que enfrentariam não poderiam ser derrotados com armas comuns. Uma lâmina humana podia ser inútil contra determinadas criaturas, enquanto uma bala convencional poderia simplesmente ricochetear.
Por isso, os Audaciosos começaram a trabalhar em conjunto com os semideuses e outros aliados para adaptar seus equipamentos. Bronze celestial, aço preparado e outros materiais capazes de ferir criaturas mitológicas eram cuidadosamente trabalhados e transformados em munição e armas. Não era um processo simples, e a Sala Precisa havia sido transformada temporariamente em uma espécie de oficina, com professores ajudando nos encantamentos, elfos domésticos transportando materiais e semideuses oferecendo conhecimento sobre as propriedades dos metais.
Os Audaciosos, por sua vez, cuidavam da adaptação das armas às próprias necessidades. Tudo precisava funcionar porque, durante a batalha, não haveria tempo para descobrir que determinada arma era inútil.
Tobias estava no centro do campo, acompanhando os exercícios. Observava cada movimento, corrigindo postura, velocidade e estratégia, porque não era suficiente saber disparar: era necessário compreender quando disparar, de onde fazê-lo e, principalmente, como não atrapalhar o companheiro ao lado.
Um grupo treinava tiro enquanto outro fazia exercícios de resistência e, mais adiante, dois Audaciosos praticavam combate corpo a corpo. Grace observava Tobias por alguns segundos antes de retornar ao próprio grupo, e ele percebeu o olhar. Os dois trocaram um sorriso rápido, tão discreto que ninguém ao redor prestou atenção.
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Os semideuses ocupavam outra parte dos terrenos, e ali o treinamento era ainda mais variado. Espadas, lanças, arcos e escudos eram usados enquanto diferentes grupos trabalhavam suas especialidades. Alguns filhos de Atena ajudavam a criar estratégias; filhos de Ares se concentravam no combate direto; os filhos de Apolo trabalhavam precisão e suporte; os filhos de Hefesto ajudavam na criação e adaptação de armas, enquanto outros semideuses utilizavam as próprias habilidades divinas.
Hailey estava entre os responsáveis por organizar alguns dos exercícios de combate, posição que combinava perfeitamente com ela. O objetivo já não era simplesmente ensinar alguém a lutar, mas fazer com que aprendessem a lutar em meio ao caos. Quando entrou no campo, a espada em sua mão girou rapidamente antes de atingir o escudo do adversário. Ela recuou, desviou de um golpe e utilizou a eletricidade apenas o suficiente para desestabilizar o oponente. Seus olhos haviam adquirido aquele tom cinza que surgia quando os poderes de Zeus se manifestavam, enquanto pequenas faíscas percorriam seus braços.
Gareth, que passava por perto, acabou parando por um instante. Hailey percebeu.
— Vai ficar olhando ou pretende treinar?
— Estou avaliando a situação.
— E qual é o veredito?
Ele sorriu.
— Que você continua perigosamente linda.
— E ainda assim você continua aqui.
— Acho que já estabelecemos que esse é um dos meus defeitos.
Ela sorriu e voltou ao exercício.
Grace também demonstrava controle cada vez maior dos poderes de Poseidon. A água respondia aos seus movimentos, formando pequenas correntes que se moviam ao redor dela antes de atingir os alvos. Sara treinava de maneira diferente e, quando seus poderes de Hades surgiam, os olhos ficavam completamente negros, sem qualquer sinal do branco dos olhos. As sombras se concentravam ao redor dela e obedeciam ao comando silencioso da semideusa.
Os outros já haviam se acostumado com aquilo. Não havia mais espanto; era simplesmente mais uma parte das habilidades que precisavam aprender a utilizar. E isso era exatamente o que os três grupos estavam começando a entender. Eles não precisavam lutar separados. Precisavam aprender a complementar uns aos outros.
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A ideia do treinamento conjunto surgiu ainda naquela tarde. Até então, cada grupo havia se concentrado na própria especialidade, mas a guerra não respeitaria aquela divisão. Quando o primeiro exercício começou, ficou evidente o motivo.
Foi um desastre.
Um bruxo lançou um feitiço ofensivo no instante em que um Audacioso atravessava seu campo de visão. O homem conseguiu se abaixar por pouco, rolando pelo gramado enquanto gritava alguma coisa que fez alguns espectadores rirem. Em outro ponto, um semideus avançou contra um alvo enquanto dois bruxos tentavam imobilizá-lo, quase atingindo um ao outro. Alguém deu uma ordem que ninguém ouviu, outro entrou na frente de um companheiro e um escudo mágico surgiu tarde demais.
Quando o exercício terminou, havia mais pessoas discutindo sobre o que tinha dado errado do que comemorando qualquer acerto.
Tobias passou a mão pelos cabelos.
— Se isso acontecer de verdade, nós vamos acabar derrotando uns aos outros antes que os inimigos tenham oportunidade.
Um dos bruxos próximos concordou.
— O problema é que estamos acostumados a pensar em combate de formas diferentes.
— Então precisamos parar de pensar separados — respondeu Tobias. — Os bruxos precisam saber onde os Audaciosos vão estar, os Audaciosos precisam reconhecer quando uma área está sendo coberta por magia e os semideuses precisam aprender a abrir espaço para os dois grupos. Se continuarmos tratando isso como três batalhas diferentes, vamos perder tempo demais durante a verdadeira.
A segunda tentativa foi melhor, embora ainda estivesse longe do ideal. Os bruxos começaram a aprender que os Audaciosos precisavam de espaço para se movimentar, enquanto os Audaciosos passaram a reconhecer os sinais que indicavam quando um feitiço seria lançado. Os semideuses assumiram a linha de frente contra alvos maiores, enquanto os bruxos ofereciam cobertura e os Audaciosos trabalhavam nos flancos.
Na terceira tentativa, os movimentos já pareciam menos desorganizados. Hailey entrou em um dos grupos e assumiu a liderança de uma pequena formação. Gareth avançou ao lado de dois Audaciosos, enquanto Grace mantinha uma barreira de água próxima aos combatentes. Sara utilizava as trevas para confundir os alvos, enquanto Draco e outros bruxos cobriam os flancos. Tobias coordenava os movimentos.
Pela primeira vez, os três grupos pareciam realmente funcionar como uma única força. Ainda havia erros, mas agora havia comunicação e, sobretudo, confiança.
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Foi durante um desses exercícios que algo saiu do controle. O objetivo era enfrentar criaturas mágicas conjuradas e controladas pelos responsáveis pelo treinamento. Elas não eram reais, mas possuíam força e velocidade suficientes para obrigar os combatentes a levarem o exercício a sério.
No início, tudo funcionou conforme o planejado. Até uma das criaturas romper a formação.
O movimento foi inesperado e um dos bruxos perdeu a concentração. O alvo mudou de direção, um Audacioso caiu e, por alguns segundos, ninguém soube exatamente se aquilo ainda fazia parte do exercício.
Hailey reagiu imediatamente. A eletricidade percorreu seus braços quando ela atingiu a criatura, enquanto Grace ergueu uma barreira de água para proteger os que estavam próximos. Sara abriu as mãos, fazendo as trevas se espalharem pelo chão, e Draco lançou uma sequência de feitiços para conter o avanço. Tobias começou a gritar ordens enquanto Gareth entrava no combate físico, atingindo a criatura com força suficiente para desviá-la da formação.
Tudo aconteceu quase ao mesmo tempo, sem que ninguém precisasse parar para pensar sobre quem deveria fazer o quê.
Quando a criatura finalmente desapareceu, o silêncio tomou conta do campo. Todos respiravam com dificuldade. Alguns estavam cobertos de poeira, e um dos Audaciosos tinha um corte superficial no braço, mas ninguém havia se ferido gravemente.
O responsável pelo treinamento observou o grupo durante alguns segundos.
— Isso foi muito melhor do que eu esperava.
Tobias olhou ao redor.
— Ainda cometemos erros.
— Claro que cometeram. É por isso que estão treinando.
Hailey olhou para os outros. Não estavam prontos para uma guerra — talvez ninguém pudesse estar —, mas estavam muito mais preparados do que haviam estado algumas semanas antes, e aquilo importava.
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Quando o treinamento terminou, o sol já começava a descer. Os campos estavam espalhados de pessoas cansadas; alguns estudantes sentavam-se na grama, outros bebiam água ou simplesmente permaneciam deitados por alguns minutos, enquanto professores circulavam entre eles verificando ferimentos e ajudando quem precisava de atendimento.
O medo continuava ali. Não desaparecera porque haviam aprendido novos feitiços ou melhorado a pontaria. Alguns estudantes conversavam baixo sobre a batalha, outros tentavam esconder a ansiedade atrás de piadas e havia aqueles que simplesmente preferiam ficar em silêncio. Os adultos percebiam tudo isso e, por essa razão, mantinham os jovens ocupados. Esperar pela guerra era, em alguns momentos, mais assustador do que treiná-la.
Hogwarts, entretanto, não parava. Enquanto os estudantes descansavam, professores verificavam as barreiras mágicas do castelo. Os centauros patrulhavam os limites dos terrenos, os Audaciosos conferiam suas armas e os semideuses discutiam estratégias, enquanto os bruxos testavam novamente os feitiços de proteção.
O castelo começava a parecer menos uma escola. E cada vez mais uma fortaleza.
Ao anoitecer, os seis estavam juntos novamente. Não havia necessidade de conversar sobre o que acontecera durante o dia, porque todos haviam visto os outros treinando. Gareth tinha observado Hailey, Tobias acompanhara Grace e Draco vira Sara em ação, enquanto elas haviam feito o mesmo.
Os seis caminhavam próximos enquanto observavam os professores e funcionários terminarem os últimos preparativos daquele dia. Hogwarts estava diferente, com tochas acesas em pontos estratégicos, encantamentos de proteção sendo reforçados e pessoas constantemente entrando e saindo dos corredores.
Por algum tempo, nenhum deles falou.
Até que Grace observou os terrenos.
— Quando você acha que começa? Tínhamos o prazo mas a data certa a gente nunca soube…
Tobias olhou para o castelo antes de responder.
— Em breve.
Não houve necessidade de acrescentar mais nada.
Ao redor deles, Hogwarts continuava funcionando, mas já não era apenas uma escola. Era o lugar onde bruxos, semideuses, Audaciosos e tantos outros haviam escolhido se reunir para enfrentar aquilo que vinha pela frente.
E, depois daquele dia, ninguém mais podia fingir que a batalha era uma possibilidade distante.
Ela estava chegando.
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