Last Battle

29 A guerra


Durante cinco meses, Hogwarts havia vivido como se estivesse esperando uma tempestade cujo momento exato ninguém conhecia. Todos sabiam que ela viria. Sabiam que o exército de Luke não permaneceria escondido para sempre, que Voldemort e os Titãs continuavam sendo uma ameaça que precisava ser enfrentada e que, em algum momento, aquilo que havia sido treinado, planejado e ensaiado tantas vezes deixaria de ser preparação e se tornaria realidade. O que ninguém sabia era quando. Por isso, não havia um único dia em que o castelo realmente baixasse a guarda. As portas permaneciam protegidas por encantamentos, os corredores eram patrulhados, as varinhas nunca estavam muito longe das mãos e os Audaciosos dormiam com as armas próximas o suficiente para alcançá-las em segundos. Os semideuses haviam se acostumado a verificar as saídas de cada lugar por onde passavam. Até os momentos de descanso carregavam a consciência incômoda de que poderiam terminar a qualquer instante.


Naquela noite, porém, havia alguma coisa diferente.


O Salão Principal estava cheio. As quatro mesas das casas haviam sido retiradas de suas posições habituais havia semanas, e a antiga divisão entre Grifinória, Sonserina, Corvinal e Lufa-Lufa parecia cada vez menos importante diante do que se aproximava. Bruxos estavam sentados ao lado de semideuses, Audaciosos ocupavam bancos entre caçadoras de Ártemis e filhos de Ares, e pessoas que meses antes sequer imaginariam dividir uma refeição agora discutiam estratégias de combate como se fizessem aquilo havia anos. Havia armas apoiadas contra paredes, espadas mantidas próximas às cadeiras e varinhas pousadas sobre as mesas ao lado de pratos ainda fumegantes.


Ainda assim, por alguns minutos, aquilo parecia quase normal.


Quase.


Hailey estava sentada entre Gareth e Grace, enquanto Sara permanecia do outro lado da amiga, próxima de Draco. Tobias ocupava o lugar ao lado de Grace, e os seis formavam uma espécie de pequeno núcleo dentro daquela enorme reunião de combatentes. O cansaço dos últimos meses aparecia nos rostos de todos. Havia olheiras, cortes que ainda não tinham desaparecido completamente e músculos doloridos depois de dias de treinamento, mas também havia algo que se parecia com confiança. Eles tinham treinado juntos. Tinham lutado juntos. Tinham aprendido a confiar uns nos outros em situações nas quais um erro de poucos segundos poderia custar uma vida.


Naquela noite, ninguém sabia que aquela seria a última refeição tranquila que fariam por algum tempo.


O primeiro sinal não foi um grito. Foi um movimento. Uma sombra atravessou uma das janelas altas do Salão Principal. Depois outra. O professor que estava mais próximo das grandes portas interrompeu o que dizia e olhou para fora. Alguns perceberam a mudança em sua expressão antes mesmo de seguirem seu olhar. Então vieram os primeiros tremores, tão leves que poderiam ter sido confundidos com uma impressão passageira.


Não eram.


Os talheres começaram a vibrar sobre as mesas. Um copo caiu. O salão inteiro pareceu prender a respiração. O segundo tremor foi mais forte. As velas suspensas no ar oscilaram. E então alguém correu até uma das janelas.


Lá fora, muito além dos jardins, havia movimento. Muito movimento. As sombras avançavam pela escuridão. A conclusão percorreu o Salão Principal em segundos, sem precisar ser repetida muitas vezes.


A guerra havia começado.


O salão explodiu em movimento. Bancos foram empurrados para trás, pratos caíram no chão e centenas de pessoas se levantaram ao mesmo tempo. Professores começaram a dar ordens, e a confusão inicial foi rapidamente substituída por uma organização que havia sido treinada durante meses. Os bruxos pegaram suas varinhas. Os Audaciosos alcançaram espadas, facas, machados e armas de fogo. Os semideuses correram em direção aos pontos onde suas armas estavam guardadas. Os filhos de Ares assumiram posições avançadas, enquanto filhos de Atena começaram a organizar grupos e rotas de defesa. Filhos de Apolo prepararam arcos e flechas, os de Deméter se espalharam pelas áreas externas, utilizando o terreno como parte da defesa, e os filhos de Dionísio foram direcionados para pontos estratégicos onde seus poderes poderiam atingir grupos maiores de inimigos.


As caçadoras de Ártemis subiram para as posições mais altas do castelo, acompanhadas por alguns Audaciosos que haviam treinado durante semanas para atuar como suporte à distância. Do alto das torres e das muralhas, poderiam atingir criaturas que tentassem atravessar o céu ou escalar as estruturas. Professores posicionaram alunos mais jovens, todos com pelo menos quatorze anos, em áreas mais protegidas e estratégicas do castelo, longe das primeiras linhas de combate, embora ninguém ali tivesse a ilusão de que Hogwarts seria completamente segura.


Tobias puxou Grace pelo braço apenas o suficiente para chamar sua atenção.


— Fique perto dos outros e não tente bancar a heroína sozinha. A primeira linha vai precisar de você, mas isso não significa que você tenha que se jogar no meio de tudo sem cobertura.


Grace apertou a mão dele antes de soltá-la.


— Você sabe que pedir isso para mim quando uma guerra está começando é praticamente pedir o impossível, mas eu vou tentar não morrer. Faça o mesmo por mim.


Tobias sorriu de maneira rápida, sem qualquer humor verdadeiro nos olhos.


— Essa parte está nos meus planos.


Do outro lado, Gareth ajustava a empunhadura do machado enquanto Hailey verificava a varinha.


— Você está pronta? — ele perguntou.


Hailey olhou para ele por um instante.


— Eu estou pronta desde o dia em que percebi que passar cinco meses treinando sem saber quando tudo isso começaria estava me deixando maluca. Então, sim. Estou pronta.


Gareth tocou rapidamente o ombro dela.


— Então fique perto de mim.


Hailey sorriu de canto.


— Você também.


Sara ajustou a posição da arma junto ao corpo e olhou para Draco.


— Não faça nenhuma loucura.


Draco ergueu uma sobrancelha.


— Isso vindo de você durante uma guerra é uma exigência bastante hipócrita.


— Eu estou falando sério.


— Eu também. E pretendo continuar vivo o suficiente para discutir essa hipocrisia com você depois.


Ela segurou o braço dele por um segundo.


— Então volte.


Draco sustentou o olhar dela.


— Você também.


Foi tudo o que puderam dize antes de as luzes começaram a apagar. Primeiro, uma das tochas próximas às portas. Depois outra. As velas suspensas acima das mesas diminuíram até se extinguirem. Uma após outra. O ambiente mergulhou em uma escuridão tão completa que, por alguns segundos, ninguém conseguiu enxergar mais do que as silhuetas dos companheiros ao lado. Do lado de fora, as nuvens avançaram sobre o céu e esconderam a lua.


E então veio o silêncio.


Nenhum grito. Nenhum rugido. Nenhum passo. Nada. Até o vento pareceu desaparecer.


Então o chão tremeu. Dessa vez, não foi um tremor discreto. As pedras sob os pés de todos vibraram com violência. Algumas janelas estremeceram em seus encaixes. Uma armadura caiu em algum corredor distante. O castelo inteiro pareceu responder ao impacto de alguma coisa gigantesca se aproximando.


As luzes voltaram e Hogwarts conseguiu enxergar o exército. Centenas de criaturas atravessavam os jardins.


Lobisomens avançavam entre gigantescos cães infernais, fúrias cortavam o ar acima das árvores, Minotauros esmagavam arbustos e árvores enquanto corriam, ciclopes erguiam armas enormes sobre as cabeças e outras criaturas que nenhum dos presentes havia visto antes surgiam em meio à multidão.


Por um segundo, ninguém se moveu.


Então Hogwarts abriu fogo. Feitiços cruzaram o céu. Flechas foram disparadas das torres. Relâmpagos rasgaram as nuvens. As primeiras criaturas atingiram as barreiras externas. E a noite deixou de ser uma noite.


Tornou-se uma guerra.


Grace estava no pátio quando a primeira onda atingiu as defesas. A lança de bronze celestial estava em sua mão, mas naquele momento ela já não pensava na arma como sua principal vantagem. Havia água por toda parte. A chuva dos últimos dias havia deixado partes do terreno úmidas, havia fontes próximas às paredes e uma série de canais de drenagem cortava o pátio. Para qualquer outro combatente, aquilo seria apenas água espalhada pelo chão.


Para Grace, era uma extensão de si mesma. Ela ergueu a mão.


A água acumulada junto às pedras e das fontes do castelo se levantaram de uma vez. Não como uma simples onda, mas como uma massa viva que respondeu ao movimento de seus dedos. Subiu até a altura de seu peito e avançou contra três criaturas que corriam em sua direção, atingindo-as com força suficiente para lançá-las contra uma das paredes. Antes mesmo que caíssem, Grace girou a lança e avançou.


O primeiro golpe atingiu uma criatura no peito. Ela desapareceu em uma explosão de pó dourado.


Grace girou a lança e abaixou-se a tempo de evitar as garras de uma fúria. A criatura passou por cima dela, e Grace usou a própria água que ainda se movia atrás de seu corpo para agarrá-la pelas pernas. Um puxão violento a fez perder o equilíbrio. Grace se levantou e cravou a lança.


Outra explosão de pó. Ela respirou fundo. O coração batia tão rápido que parecia querer escapar do peito.


Ao redor dela, o pátio havia se transformado em um campo de destruição. Pedras haviam sido arrancadas do chão. Estátuas estavam quebradas. Árvores queimavam. Feitiços verdes, vermelhos e dourados atravessavam o ar, enquanto flechas disparadas das muralhas caíam entre os monstros. Grace mal teve tempo de olhar para o lado antes de uma criatura atingir seu ombro. Ela cambaleou. O golpe abriu um corte na lateral de seu uniforme.


Grace girou e acertou o joelho do adversário, depois o rosto, antes de usar a água acumulada no chão para formar uma espécie de braço líquido que surgiu atrás dela e golpeou a criatura no peito. O impacto a lançou vários metros para trás.


Grace avançou. Estava começando a ficar cansada. Não cansada como depois de um treinamento. Cansada de verdade. Os músculos dos braços queimavam. Sua respiração estava pesada. O cabelo cacheado grudava no rosto por causa da água, do suor e da chuva fina que começara a cair novamente. Havia sangue em sua testa que ela não sabia de quem era.


Mas ela continuava. Uma explosão atingiu o outro lado do pátio. Grace virou a cabeça. Um combatente caiu. Outro tentou ajudá-lo. E então ela viu o Minotauro. A criatura avançava sobre um dos aliados, levantando o enorme machado.


— Grace! Ajude-o!


Ela não pensou. Apenas correu. O Minotauro girou o machado. Grace se abaixou. A lâmina passou por cima de sua cabeça e arrancou um pedaço de pedra da parede atrás dela. Ela tentou atingir a criatura com a lança, mas o Minotauro bateu o braço contra seu corpo e a lançou contra o chão. A lança escapou de sua mão.


O impacto roubou seu ar. Por uma fração de segundo, ela ficou deitada. Então ouviu o rugido. O Minotauro ergueu o machado. Grace rolou para o lado. A lâmina atingiu o chão onde sua cabeça estivera um segundo antes. Ela se levantou com dificuldade.


A criatura avançou. Grace tentou usar a água. Nada. Não porque seus poderes tivessem desaparecido, mas porque ela estava zonza demais para conseguir manipular naquele instante e isso exigia mais concentração do que possuía. Então ela fez o que aprendera a fazer. Lutou. Desviou do primeiro golpe. Abaixou-se sob o segundo. Atingiu a lateral da criatura com o punho. Não adiantou.


O Minotauro a agarrou pelo braço. Grace sentiu os dedos apertarem seu corpo. Ela gritou e, usando o próprio peso, girou para o lado. O movimento fez a criatura perder o equilíbrio por um instante. Foi o suficiente. Grace viu a lança caída a poucos metros.


Soltou e correu. Pegou a lança. Virou. O Minotauro já estava atrás dela. Grace avançou antes que ele pudesse atacar. A lança atravessou o peito da criatura. O Minotauro congelou antes de se desfazer em uma explosão de pó dourado que cobriu Grace dos pés à cabeça.


Ela ficou parada por um segundo, ofegante. Tinha vencido. Mas não havia tempo para comemorar.


— Grace!


Ela reconheceu a voz.


Tobias.


Grace virou o rosto. Ele estava alguns metros adiante, lutando contra um ciclope. O monstro era enorme, e Tobias mal conseguia manter a distância. Uma espada em sua mão havia sido arremessada para longe, e ele segurava uma segunda arma enquanto tentava evitar o golpe de um porrete gigantesco. Grace correu.


— Tobias!


Ele olhou para ela. Por uma fração de segundo, pareceu aliviado. Então um movimento surgiu atrás de Grace sem que ela visse. Um golpe brutal atingiu sua nuca. A visão explodiu em pontos brancos fazendo Grace cair de joelhos. Ela tentou se apoiar com uma mão. A lança escorregou dos dedos. Ela ouviu Tobias gritar seu nome, mas a voz parecia distante, abafada por água.


Grace tentou virar o corpo quando uma dor aguda atravessou sua coxa. Quando ela olhou para baixo, uma faca havia sido cravada profundamente em sua perna. O veneno começou a se espalhar quase imediatamente. O homem que a atacara retirou a lâmina e recuou. Grace respirou com dificuldade. A sensação não era apenas de dor. Era como se alguma coisa gelada estivesse entrando em suas veias como uma anestesia. Ela ergueu a mão e tentou se levantar tentando entender o que estava acontecendo mas seu corpo não respondia. Sua mente dizia para procurar Tobias mas seu corpo não atendia seus comando. A visão começou a escurecer pelas bordas quando ela sentiu braços enormes envolvendo seu corpo e a tirando do chão.


Tentou reagir. Tentou atingir quem ou o que que a carregava. O braço não respondeu. Ela tentou chamar Tobias. Nenhum som saiu. O último pensamento que conseguiu formar antes de perder a consciência foi que precisava voltar para ele. Depois, tudo ficou escuro.


Tobias percebeu que Grace havia desaparecido alguns minutos depois. Ele havia conseguido derrubar o ciclope, mas, quando olhou para o lugar onde ela estava, encontrou apenas uma lança caída e marcas de luta espalhadas pelas pedras.


— Grace!


Ninguém respondeu. Ele correu até o local, olhando ao redor como se ela pudesse surgir de algum ponto entre a fumaça e os corpos. Nada. Nem Grace. Nem o homem que a havia atacado. Nem a criatura que a carregara. Apenas sangue, pó dourado e uma lança abandonada. Tobias se abaixou e pegou a arma. Seus dedos se fecharam ao redor da haste, mas ele mal percebeu o que estava segurando. O peito começou a apertar de uma maneira que não tinha relação com o esforço da batalha. Ele conhecia aquela sensação. Conhecia aquele vazio repentino, aquela ausência que surgia em um segundo e transformava tudo ao redor em algo distante.


Porque já tinha acontecido antes. Com Tris, bastara desviar os olhos. Ele havia olhado para outro lugar por alguns segundos. Quando voltou a procurá-la, ela tinha desaparecido. E Tobias havia passado pelo inferno até encontrá-la. Morta. Agora Grace também tinha desaparecido. Ele olhou novamente para o lugar vazio à sua frente, e a memória de Tris se misturou à imagem de Grace até que, por um instante, Tobias quase não conseguiu respirar. A mente começou a preencher aquilo que os olhos não conseguiam encontrar. Grace caída em algum lugar. Grace ferida. Grace sozinha. Grace morta.


— Não... — murmurou, balançando a cabeça.


Ele se recusava a aceitar aquela possibilidade, mas o medo já havia se instalado.


— Alguém viu a Grace?


Um filho de Ares que passava respondeu sem parar de lutar:


— Não sei. Achei que ela estivesse com você.


Tobias sentiu alguma coisa dentro dele desabar. Grace não seria Tris. Ele não permitiria. Tobias olhou para o campo de batalha, desesperado, procurando qualquer movimento que pudesse indicar onde ela estava. Queria sair procurando. Queria correr. Queria gritar o nome dela até que ela respondesse. Queria arrancar cada criatura daquele campo com as próprias mãos se isso significasse encontrá-la.


Mas três criaturas avançaram em sua direção. Ele apertou a lança. Precisava continuar. Talvez ela estivesse lutando em outro ponto. Talvez tivesse sido obrigada a recuar. Talvez estivesse ferida e esperando por ele. Talvez estivesse viva.


Viva.


Ele se agarrou àquela palavra com tudo o que tinha. Ele não perderia Grace. Não daquele jeito. Não depois de ter desviado os olhos por alguns segundos outra vez. Tobias ergueu a lança e voltou para a batalha, mas, pela primeira vez naquela noite, não lutava apenas contra o exército diante dele. Lutava contra o medo de que, quando finalmente conseguisse chegar até Grace, encontrasse exatamente aquilo que mais temia encontrar: o corpo dela sem vida.


Hailey estava dentro do castelo. A guerra havia atravessado as paredes. Os corredores que durante meses haviam servido como caminhos de treinamento estavam agora cobertos de destroços, fumaça e sangue. Armaduras haviam sido derrubadas dos pedestais. Portas estavam destruídas. Quadros gritavam e se escondiam atrás das molduras enquanto feitiços atingiam as paredes.


Hailey avançava entre tudo aquilo como se tivesse nascido para aquela batalha. Sua varinha estava em uma mão e a raiva dos raios corria pela outra. Os olhos, normalmente castanhos, haviam se transformado completamente. O cinza elétrico brilhava dentro deles, iluminado por pequenas descargas que percorriam suas íris. Ela lançou um feitiço contra um inimigo e, antes mesmo de vê-lo cair, ergueu a mão fazendo um raio atravessar o corredor. A criatura foi atingida e arremessada contra uma coluna antes de se desintegrar.


Hailey girou. Outro adversário vinha pela esquerda. Ela bloqueou o feitiço com um escudo mágico, avançou e atingiu o inimigo com uma descarga elétrica curta e concentrada. Ele caiu e ela respirou.


Mais três apareceram. Então cinco. Depois sete.


Hailey reconheceu imediatamente que aqueles não eram combatentes comuns. Eram bruxos. Bruxos que haviam sobrevivido à primeira linha de defesa e agora haviam conseguido entrar no castelo. Eles se espalharam pelo corredor e a cercaram. Hailey segurou a varinha com mais força.


Os primeiros feitiços inimigos vieram. Hailey bloqueou. Os segundos atingiram a parede. Os terceiros foram bloqueados.


Ela atacou. Uma descarga elétrica percorreu o chão e atingiu dois dos homens ao mesmo tempo. Um deles caiu e os outros avançaram. Hailey girou a varinha, lançou um feitiço e usou a eletricidade para atingir outro no instante em que ele tentou atacá-la pelo flanco. O combate tornou-se rápido demais para qualquer pensamento.


Ela desviava. Atacava. Bloqueava. Corria.


O som das destruições causadas pelos feitiços era quase ensurdecedor. Então Gareth apareceu.


— Hailey!


Ela virou o rosto. Ele vinha pelo corredor com o machado em mãos.


— Eu estava começando a achar que você tinha decidido me deixar fazer todo o trabalho.


— Eu estava dando a eles uma chance.


Gareth sorriu.


— Generosa.


Ele avançou. Os dois lutaram juntos. Era quase automático. Hailey lançava um feitiço e Gareth ocupava o espaço aberto com as chamas. Gareth derrubava um inimigo e Hailey atingia outro antes que pudesse se levantar. Ela usava eletricidade para interromper os ataques e ele aproveitava as brechas com o fogo. Durante algum tempo, funcionou perfeitamente. Até que um dos bruxos encontrou uma abertura na defesa deles. Um feitiço atingiu Gareth no peito. O impacto o lançou para trás fazendo-o bater contra a parede e ele caiu inconsciente. O machado escapou de sua mão.


Hailey congelou.


— Gareth?


Ele não respondeu. Ela correu até ele. Os sete bruxos pararam. Nenhum deles atacou. Eles apenas observaram. Hailey caiu de joelhos ao lado dele.


— Gareth, olha para mim.


Nada. Ela tocou o rosto dele e o sacudiu levemente. Nada.


— Gareth, acorda.


Nada. O mundo ao redor pareceu congelar. Hailey olhou para o rosto dele e, por um instante, a guerra deixou de ser importante quando tudo o que já havia superado voltou e a atingiu com força novamente. Ela viu o corpo dele imóvel. Outra vez aquele silêncio. Outra vez aquela sensação de chegar tarde. Outra vez a certeza de que alguém que ela amava havia sido arrancado dela antes que pudesse fazer qualquer coisa. A respiração dela ficou irregular.


— Não... — ela passou a mão pelo rosto de Gareth — Não faz isso comigo.


Os bruxos observavam triunfantes. Hailey não percebeu. Ela só conseguia olhar para Gareth.


— Você prometeu que ia ficar comigo depois disso. Você falou que a gente ainda tinha uma vida para viver, lembra? Você falou que queria conhecer o Rio comigo. Você falou de casamento. Então você não pode simplesmente cair aqui e me deixar sozinha agora.


Uma explosão aconteceu a poucos metros. Hailey não se moveu. Um feitiço passou por cima de sua cabeça. Ela ignorou. Outro atingiu a parede. Ela continuou ajoelhada. Os bruxos começaram a se aproximar. Hailey não levantou a varinha ou tentou afastá-los. Nem sequer olhou para eles. Tudo o que existia era Gareth. O corredor, os gritos, as criaturas, os feitiços e as explosões ficaram distantes. Ela apertou a mão dele.


— Você não pode morrer. Eu não vou passar por isso de novo. Eu não vou perder você também.


Uma das inimigas ergueu a varinha. O feitiço atingiu Hailey nas costas. Ela foi jogada de lado. Mesmo assim, voltou imediatamente para Gareth. E então ela sentiu uma lâmina atravessar seu ombro por trás. Hailey arqueou o corpo com a dor. Olhou para o ferimento e depois para Gareth. A dor deixou de importar. Ela se deitou sobre ele quando sentiu o veneno começou a se espalhar.


A eletricidade que antes corria por seus dedos parou. Os olhos cinzas voltaram ao castanho e ela se deixou levar pela anestesia. Se aquele fosse o fim, não queria enfrentá-lo longe dele. Foi então que sentiu o corpo sendo levantado. Não pelo próprio esforço. Alguma coisa a suspendia. Hailey tentou abrir os olhos. Duas silhuetas estavam à frente. Uma tinha cabelos rosados ou castanhos, iluminados de maneira estranha pelas chamas do corredor. A outra possuía cabelos claros, quase azulados sob aquela luz.


Hailey tentou usar Legilimência. Buscou as mentes delas. Nada. O veneno tornava os pensamentos lentos. Ela não conseguia mais lutar. Sua última percepção foi a de estar sendo carregada para longe de Gareth. Então tudo desapareceu.


Minutos depois, Gareth abriu os olhos. A primeira coisa que viu foi o teto destruído. A segunda foi a fumaça. A terceira foi o vazio ao seu lado. Ele piscou algumas vezes, tentando entender onde estava. A cabeça doía, o peito parecia ter sido esmagado e havia um zumbido persistente em seus ouvidos. Tentou se apoiar no chão para se levantar, ainda confuso, até que a memória voltou de uma vez. Hailey. Ele virou o rosto. Ela estava ali quando ele caiu. Gareth procurou o rosto dela entre os destroços. Nada.


— Hailey?


A voz saiu rouca. Ele olhou para o chão, para as paredes destruídas, para os corpos espalhados pelo corredor. Talvez ela tivesse se afastado. Talvez tivesse ido buscar ajuda. Talvez estivesse lutando em outro ponto.


— Hailey?


Dessa vez, mais alto. Nenhuma resposta. Gareth se levantou com dificuldade. As pernas quase cederam, mas ele se obrigou a permanecer de pé. Começou a procurar entre os destroços, afastando pedaços de pedra com as mãos, olhando atrás das colunas, para os corredores laterais. Nada. Então encontrou o sangue. Muito sangue.


O coração dele parou por um instante.


Gareth ficou imóvel, encarando as manchas no chão. Não havia corpo. Não havia sinal de Hailey. Apenas sangue e marcas de luta. Ele se abaixou e tocou o chão com os dedos, como se pudesse descobrir através daquele gesto o que havia acontecido. Então percebeu algo que fez seu estômago se contrair ainda mais: a varinha dela estava ali. A visão atravessou Gareth como um golpe.


— Não.


A palavra saiu quase sem voz. Ele pegou a varinha, guardou-a no bolso e começou a andar cambaleando pelo corredor. A cada passo, a respiração ficava mais pesada. Gareth fechou os olhos por um segundo. A culpa veio primeiro. Depois o medo. Um medo tão intenso que quase o fez perder o equilíbrio. Ele deveria ter protegido Hailey. Era o que tinha prometido. Tinha dito para ela ficar perto dele. Tinha pedido que ela não se afastasse. E agora ela havia desaparecido enquanto ele estava caído no chão, incapaz de fazer qualquer coisa. A mão dele fechou-se em um punho.


Ele abriu os olhos novamente. O corredor parecia maior agora, vazio demais, silencioso demais. Gareth conhecia Hailey. Sabia que ela não desapareceria sem sua varinha. Sabia que, se tivesse apenas decidido ir para outro ponto da batalha, teria deixado algum sinal, teria gritado por ele, teria voltado.


Não. Ela havia sumido e Gareth não sabia pra onde tinha ido. A ideia de ela estar sozinha foi pior. Mas havia outra possibilidade. Aquela que ele não conseguia sequer terminar de formular. Gareth engoliu em seco.


— Você está viva... — ele disse aquilo como se estivesse tentando convencer a própria mente — Você está viva, tempestade...


Precisava acreditar. Porque, se ela estivesse morta, ele não sabia o que faria. Gareth apertou o machado e guardou a varinha de Hailey no bolso. Os olhos estavam cheios de uma mistura de pânico, raiva e desespero. Ele não sabia onde ou como ela estava. Não sabia se ela estava consciente. Não sabia se estava ferida. Não sabia sequer se ainda estava dentro do castelo.


Mas sabia de uma coisa. Ele iria encontrá-la. Mesmo que precisasse procurar até o último canto daquele inferno. Agora era a vez de Gareth lutar por ela. Ele ergueu o machado e começou a avançar pelo corredor. Não estava mais lutando para vencer a guerra. Agora era pessoal.


No fundo do castelo, Sara já não conseguia distinguir direito o som das explosões. Ela havia lutado durante horas. Ou talvez minutos. Naquela altura, o tempo havia perdido qualquer significado. Havia sangue seco na testa, um corte profundo no ombro, outro ferimento na lateral do corpo e uma dor insistente na perna esquerda. A respiração estava curta, e cada movimento fazia alguma parte do corpo reclamar. Ela ainda segurava a arma, mas mal conseguia mantê-la levantada.


Draco havia se separado dela durante um ataque de criaturas no corredor principal. Antes disso, ela o vira desaparecer atrás de uma porta enquanto tentava impedir três inimigos de avançarem. Ele havia gritado que voltaria. Sara acreditava que voltaria, mas não sabia quando.


Ela entrou em uma sala de armazenamento próxima às masmorras e encontrou um armário estreito, antigo, praticamente escondido atrás de caixas. Era pequeno, escuro, mas suficiente. Sara entrou, puxou a porta quase completamente, deixando apenas uma pequena fresta, e sentou-se no chão. Respirou fundo enquanto o sangue escorria pelo braço e, com dificuldade, tirou uma bandana e pressionou-a contra o ferimento. Precisava recuperar forças. Precisava encontrar Draco. Precisava sair dali.


Passos ecoaram no corredor.


Sara congelou. Não eram passos humanos. Eram pesados, lentos, e cada um fazia o chão vibrar. A porta da sala se abriu e dois Minotauros entraram. Sara levou a mão à boca para conter a própria respiração. As criaturas carregavam duas pessoas inconscientes e feridas. Sara não conseguia ver seus rostos.


Atrás dos Minotauros vieram duas mulheres. Uma delas fez Sara sentir o sangue gelar. Jeanine. Sara conhecia aquele rosto, conhecia aquela postura, conhecia aquela expressão de alguém que parecia sempre estar analisando o mundo como se tudo pudesse ser reduzido a uma fórmula. Mas havia alguma coisa errada. Jeanine não estava ferida. A outra mulher também não. Nenhuma das duas parecia ter participado da batalha. Nenhuma tinha sangue nas roupas. Nenhuma carregava sinais de exaustão. Elas não haviam lutado. Estavam apenas recolhendo alguma coisa.


Os Minotauros colocaram os corpos sobre uma mesa. Sara estreitou os olhos, ainda sem conseguir ver os rostos. Uma das mulheres olhou para as duas pessoas inconscientes.


— Já temos duas.


A outra respondeu com irritação:


— Duas não são suficientes. Ainda não encontramos aquela ruiva maldita.


Sara parou de respirar por um instante. Ruiva. Ela não sabia de quem estavam falando, mas sabia que aquela conversa não fazia sentido. Por que duas garotas inconscientes seriam tão importantes?


A primeira mulher aproximou-se da mesa.


— Então me diga de uma vez por que estamos carregando essas garotas de um lado para o outro enquanto o resto do exército está morrendo lá fora.


A outra mulher ficou em silêncio por alguns segundos antes de responder:


— Porque elas são necessárias para o ritual.


Sara sentiu um arrepio percorrer sua coluna. Ritual. A palavra pareceu alterar o peso do ar dentro daquela sala.


— Que ritual?


— O ritual que vai trazer os mortos de volta.


Sara apertou a bandana contra o próprio ferimento. A outra mulher olhou para as garotas.


— E por que exatamente elas? Fizeram a gente lutar nessa guerra mas o motivo nunca ficou claro!


A resposta demorou.


— Porque o sangue delas é necessário.


Sara sentiu o estômago se contrair. A mulher continuou:


— Não é sangue comum. As três possuem uma combinação que nenhum outro humano possui.


A outra franziu a testa.


— Está falando das três garotas mais poderosas?


— Exatamente.


Sara sentiu o coração bater mais rápido. A mulher deu um passo em direção à mesa.


— O sangue delas carrega duas naturezas. Bruxa e divina.


Sara fechou os olhos por um segundo. Não. Não podia ser. Ela abriu novamente. As mulheres se afastaram o suficiente para que Sara finalmente conseguisse ver os corpos sobre a mesa.


O mundo parou.


Grace e Hailey.


As duas estavam inconscientes, feridas, pálidas e imóveis. Sara levou uma mão à boca. O medo que sentira até aquele momento era pequeno diante do que estava começando a compreender.


Grace. Hailey. Ela. As três humanas com sangue divino e bruxo.


A mulher continuou falando:


— Com o sangue das três, o ritual poderá ser concluído.


— E então Voldemort volta?


— Voldemort volta. Os Titãs também. E todos aqueles que morreram poderão retornar.


Sara sentiu o sangue abandonar seu rosto. A guerra, os ataques, as criaturas, a escolha de Hogwarts... tudo aquilo ainda não fazia sentido completo, mas uma coisa agora era impossível de ignorar. Elas não estavam sendo capturadas por acaso.


— E por que o sangue divino seria tão importante? — perguntou a segunda mulher.


A resposta veio com uma satisfação quase cruel:


— Porque não estamos simplesmente devolvendo poder a um homem morto. Estamos devolvendo ao mundo uma força que ele não está preparado para enfrentar. Se Voldemort retornar carregando a força do sangue dos deuses, nenhum bruxo será capaz de detê-lo. E como não conseguimos chegar até os deuses, vamos pra cima das filhas deles.


Sara olhou novamente para Grace e Hailey. Então percebeu outra coisa. As duas estavam ali. Ela era a terceira. A ruiva. A maldita ruiva. Eles estavam procurando por ela.


Sara recuou dentro do armário. O movimento provocou dor no ombro, e ela apertou a bandana contra o ferimento. Precisava sair. Precisava encontrar Draco. Precisava encontrar alguém. Mas seus amigos estavam do lado de fora. A guerra ainda acontecia, e ninguém sabia que ela estava ali. Ninguém sabia que Grace havia desaparecido. Ninguém sabia que Hailey havia sido levada. Ninguém sabia que as três haviam sido escolhidas.


Sara tentou controlar a respiração. Os Minotauros começaram a retirar Grace e Hailey da mesa. Ela esperou. Um, dois, três segundos. Então percebeu que a sala estava ficando vazia. Era a chance. Ela se preparou para sair.


Mas uma sombra passou pela fresta.


Sara congelou. Um dos Minotauros havia parado. Ele virou a cabeça e farejou o ar. Sara fechou os olhos. O sangue continuava escorrendo pelo braço, e uma gota caiu no chão. O som foi quase imperceptível.


Mas o Minotauro ouviu.


Ele avançou.


Sara tentou usar as sombras. Nada. Tentou novamente, mas seu corpo estava fraco demais. O armário inteiro foi arrancado do chão.


Sara gritou.


A estrutura foi lançada contra a parede, e sua cabeça bateu na pedra. A visão ficou turva. Ela caiu dentro dos destroços e tentou se levantar, mas não conseguiu. Uma das mulheres aproximou-se. Sara ergueu os olhos, mas a silhueta parecia se multiplicar diante dela.


— Apague-a.


O monstro segurou seu braço. Sara tentou reagir, tentou alcançar a arma, mas os dedos não obedeceram. Uma lâmina entrou em sua pele e ela sentiu algo metálico se espalhar rapidamente por suas veias. Sara ainda tentou manter os olhos abertos. Pensou em Draco. Pensou que precisava sobreviver. Precisava avisá-los. Precisava impedir o ritual. Mas o corpo já não respondia.


A última coisa que ouviu foi uma voz distante, quase divertida, atravessando a escuridão:


— Hora da festa, meus caros...


Então tudo ficou preto.