Last Battle

11 A guerra pode esperar...


O mundo pareceu se dobrar sobre si mesmo. Por um instante, não existia chão, céu ou qualquer coisa que pudesse ser chamada de realidade. Havia apenas uma sensação violenta de queda, como se todos os seis tivessem sido arrancados do lugar onde estavam e lançados através de um espaço que não deveria existir. O ar passava por seus corpos com tanta força que respirar se tornou difícil, enquanto a escuridão ao redor parecia girar em todas as direções.

Sara sentiu o estômago revirar e agarrou o primeiro braço que encontrou. Grace não parava de gritar, enquanto Tobias tentava manter o corpo firme apesar da queda descontrolada. Draco estendeu uma das mãos às cegas, procurando qualquer um dos outros, e seus dedos acabaram encontrando os de Sara. Ele os entrelaçou imediatamente, apertando sua mão com força.

— Não solta!

A voz de Draco chegou distorcida, quase irreconhecível em meio ao vento.

Ninguém soltou. Durante aqueles segundos intermináveis, os seis se seguraram uns nos outros como se aquele contato fosse a única coisa capaz de impedir que fossem separados pela força daquele transporte. Tobias manteve uma das mãos presa à de Grace, enquanto a outra tentava alcançar algum ponto de apoio inexistente. Sara se agarrou ao braço de Draco, que passou o outro braço ao redor dela, puxando-a contra o próprio corpo sempre que a queda fazia os dois girarem. Gareth segurava Hailey com tanta força que praticamente a mantinha contra o peito, enquanto ela permanecia agarrada à mão dele.

Então Hailey percebeu que estavam se aproximando do chão.

— ARESTO MOMENTUM!

O feitiço explodiu no ar e, de repente, tudo terminou.

Os seis pararam a pouco mais de um metro do chão antes de despencarem sobre a grama.

Gareth foi o primeiro a atingir o solo, rolando alguns metros antes de conseguir parar. Tobias caiu de lado, imediatamente apoiando uma das mãos na terra. Draco simplesmente permaneceu deitado de costas, respirando profundamente, os olhos fechados como se estivesse tentando convencer o próprio corpo de que aquela viagem realmente havia acabado. Sara caiu praticamente sobre Grace, que soltou um gemido abafado antes de conseguir se ajeitar. Hailey foi a última a conseguir se mexer.

Ainda segurava a mão de Gareth.

E nenhum dos dois parecia ter percebido que continuava segurando.

Por alguns segundos, ninguém falou.

O silêncio era estranho.

Depois de tudo o que haviam acabado de viver, o silêncio parecia mais assustador do que qualquer grito.

Gareth abriu os olhos e encarou o céu.

Azul.

Um azul absurdamente tranquilo.

Nada de fumaça.

Nada de gritos.

Nada de explosões.

Nada de monstros avançando.

Nada de feitiços atravessando o ar.

Ele soltou uma risada curta, quase incrédula, e passou a mão livre pelo rosto.

— Estamos vivos, porra!

— Por enquanto — Draco murmurou, ainda deitado.

Gareth virou a cabeça para ele.

— Você sempre precisa estragar o momento?

Draco abriu os olhos.

— Estou apenas sendo realista.

Gareth se apoiou nos cotovelos e finalmente se levantou. Ainda estava ofegante, o peito subindo e descendo rapidamente por causa da adrenalina. Passou uma das mãos pelos cabelos e olhou ao redor, tentando compreender onde estavam. Foi então que percebeu.

O campo aberto.

As árvores.

As construções espalhadas pelo vale.

O mar ao longe.

E, sobretudo, aquela sensação familiar que ele já havia aprendido a reconhecer desde a primeira vez que estivera ali.

Acampamento Meio-Sangue.

Um sorriso involuntário surgiu em seu rosto.

— Conseguimos — murmurou.

Hailey ainda estava deitada na grama, respirando fundo. Quando tentou se levantar, as pernas vacilaram sob seu peso. Gareth percebeu imediatamente e se abaixou diante dela.

— Devagar.

Ele segurou sua mão e a puxou com cuidado. Assim que ela ficou de pé, o corpo de Hailey cambaleou outra vez, e Gareth passou imediatamente um braço ao redor de sua cintura, trazendo-a contra si antes que ela pudesse cair.

O movimento foi instintivo.

Forte demais.

O corpo dela se chocou contra o dele, e Hailey sentiu o calor atravessar a roupa, misturado ao cheiro de fumaça, metal e suor que ainda permanecia na pele de Gareth depois da batalha. Ele estava ofegante, os cabelos bagunçados e o rosto marcado pela sujeira. Havia um corte pequeno próximo à sobrancelha, outro no maxilar e vários arranhões espalhados pelos braços.

Ainda assim, naquele instante, Hailey só conseguiu pensar no fato de que ele estava ali.

Vivo.

Inteiro.

Perto dela.

A mão dele permanecia firme em sua cintura, enquanto a outra ainda segurava a dela. Gareth abaixou o olhar para seu rosto e demorou alguns segundos a mais do que deveria.

— Eu estou bem — ela disse, percebendo o olhar.

— Você acabou de cair do céu.

— Tecnicamente, nós fomos transportados.

A boca dele se curvou em um sorriso.

— Hailey.

Ela ergueu os olhos para ele.

— Estou bem. Eu juro.

Gareth continuou olhando para ela, como se tentasse encontrar qualquer sinal de que estivesse mentindo. Os olhos dele percorreram rapidamente seu rosto, os braços, os ombros, procurando outros ferimentos, além do corte que ela já tinha no ombro, que ela pudesse estar escondendo. Só quando pareceu satisfeito deixou o ar escapar dos pulmões.

— Ainda bem.

A voz saiu mais baixa.

Hailey percebeu então que a mão dele continuava em sua cintura.

E que ela ainda não havia se afastado.

O olhar dos dois se encontrou novamente. Por alguns segundos, nenhum deles disse nada. A adrenalina da batalha ainda corria pelo corpo, deixando os sentidos aguçados demais, e a proximidade parecia muito mais intensa do que deveria. Gareth apertou levemente a cintura dela, quase sem perceber, e Hailey sentiu um arrepio percorrer a pele.

Foi ela quem desviou o olhar primeiro.

Grace se levantou com dificuldade.

— Estamos no Acampamento?

Tobias imediatamente se virou para ela.

— Grace.

Ela ergueu os olhos.

O simples fato de vê-la de pé pareceu mudar alguma coisa na expressão dele. Tobias atravessou a pequena distância entre os dois sem pensar duas vezes e segurou o rosto dela entre as mãos.

— Você está bem?

Grace sorriu.

— Estou.

— Tem certeza?

— Tobias... eu tô aqui.

O uso daquele nome fez alguma coisa dentro dele se aquietar.

Por um instante, Tobias simplesmente ficou olhando para ela. Os polegares acariciaram involuntariamente as maçãs do rosto dela, afastando alguns fios de cabelo que haviam caído sobre sua testa. Grace levou uma das mãos ao pulso dele, sentindo a tensão ainda presente nos músculos de seu braço.

— Você está tremendo — ela murmurou.

— Não estou.

— Está, sim.

Ele soltou uma respiração curta, quase uma risada.

— Achei que tivesse perdido você.

O sorriso dela desapareceu por um instante.

Grace aproximou-se mais, até o espaço entre os dois praticamente desaparecer.

— Mas não perdeu.

Tobias fechou os olhos por um segundo. Quando tornou a abri-los, havia algo diferente neles. Alívio. Medo. Desejo. Tudo misturado de uma maneira que nenhum dos dois precisava explicar.

A mão dele deslizou da lateral do rosto até a nuca dela, enquanto Grace apoiava a palma contra o peito dele. O coração de Tobias ainda batia rápido, e ela sentiu cada batida sob seus dedos.

Ele inclinou o rosto, mas parou a poucos centímetros dela.

Não precisava perguntar.

Grace diminuiu a distância restante e encostou a testa na dele.

— Ainda bem — ele sussurrou.

Do outro lado, Sara permanecia sentada na grama, respirando profundamente. Draco percebeu um arranhão em seu braço e se ajoelhou diante dela.

— Ei.

Ela levantou os olhos.

— Oi.

Draco estendeu a mão e passou os dedos cuidadosamente pelo rosto dela, afastando uma mecha ruiva que havia grudado em sua testa. O gesto foi delicado, quase contraditório com o estado em que os dois haviam acabado de chegar. Os dedos dele demoraram um pouco mais do que o necessário junto à pele dela.

— Você está machucada.

Sara olhou para o próprio braço.

— Você também.

Draco soltou uma pequena risada e balançou a cabeça, sorrindo.

Sara observou o rosto dele por alguns segundos. Havia sujeira na lateral da mandíbula, uma pequena marca de sangue perto do lábio e os cabelos completamente desalinhados. Draco percebeu o olhar dela e ergueu uma sobrancelha.

— O quê?

— Nada.

— Está olhando.

— Estou verificando se você está inteiro.

— E?

Ela aproximou a mão do rosto dele e passou o polegar cuidadosamente pela marca próxima à boca.

— Quase.

Draco segurou a mão dela antes que pudesse afastá-la.

Os dedos dele se fecharam ao redor dos dela, e seu olhar caiu rapidamente para a boca de Sara antes de voltar aos olhos dela. A proximidade entre os dois fez o ar parecer mais quente.

— Você me assustou.

A expressão dela suavizou.

— Você também.

Draco puxou a mão dela até os lábios e depositou um beijo demorado nos dedos.

Sara sorriu.

Por alguns segundos, os dois simplesmente permaneceram ali, próximos demais para fingirem que a tensão entre eles não existia.

Foi então que uma voz conhecida atravessou o campo.

— Vocês seis!

Quíron vinha na direção deles. O centauro parou assim que os viu. Por um momento, sua expressão permaneceu impassível. Então seus olhos percorreram cada um deles.

Hailey.

Grace.

Sara.

Gareth.

Tobias.

Draco.

Todos estavam de pé.

Todos estavam vivos.

Mas nenhum deles parecia ter saído ileso.

Quíron respirou fundo.

— Enfermaria. Agora.

Ninguém discutiu.

Estavam cansados demais para isso.

Gareth ainda mantinha uma das mãos nas costas de Hailey enquanto caminhavam. Tobias permaneceu ao lado de Grace, os dedos entrelaçados aos dela. Draco seguia perto de Sara, segurando sua mão como se, depois de tudo o que haviam acabado de enfrentar, ainda precisasse ter certeza de que ela realmente estava ali.

Pela primeira vez desde que a batalha havia começado, os seis não precisavam lutar.

Só precisavam continuar juntos.

───

A notícia da chegada dos seis se espalhou pelo Acampamento em poucos minutos. Semideuses começaram a surgir de todos os lados, tentando descobrir o que havia acontecido. Alguns reconheciam Grace. Outros conheciam Gareth. Tobias e Sara eram conhecidos por aqueles que haviam participado dos acontecimentos anteriores. Draco e Hailey, porém, chamavam atenção por motivos diferentes. Mas ninguém teve tempo de fazer perguntas. Assim que chegaram à enfermaria, os filhos de Apolo assumiram o controle.

— Sentem-se. Deixem-nos examinar vocês. Não se mexam.

Os seis foram separados apenas porque os curandeiros precisavam examiná-los individualmente. Foi então que o cansaço realmente começou a aparecer. Enquanto a adrenalina diminuía, cada dor parecia se tornar mais nítida. Um corte no rosto. Um hematoma. Um ombro dolorido. Uma garganta arranhada. Músculos exaustos. Respiração pesada. E, por baixo de tudo aquilo, a lembrança do que havia acontecido na Audácia. A batalha ainda parecia presa à pele deles, como se seus corpos não tivessem entendido que, por enquanto, estavam seguros.

Quíron esperou paciente. Não os interrogou imediatamente. Deixou que fossem tratados primeiro. Quando finalmente entrou na enfermaria, encontrou os seis acomodados em camas próximas umas das outras.

— Agora — disse ele calmamente — eu gostaria de saber o que aconteceu.

Ninguém respondeu de imediato. Hailey olhou para os amigos. Depois para Quíron.

— Foi uma invasão.

— Isso eu compreendi. Os membros da Audácia me contaram.

— Eles vieram atrás de nós três – ela apontou para si, depois para Grace e depois para Sara

Quíron franziu a testa.

— Quem?

Draco respondeu.

— Comensais da Morte.

O silêncio caiu sobre a enfermaria.

Quíron olhou para Hailey.

— E os monstros?

Grace respondeu dessa vez.

— Também estavam lá.

O rosto de Quíron endureceu.

— Quantos?

— Muitos — disse Tobias.

— E vocês seis enfrentaram todos eles?

Gareth soltou uma risada sem humor.

— Não foi exatamente uma escolha.

Quíron permaneceu em silêncio por alguns segundos. Seu olhar percorreu cada um deles, como se tentasse avaliar o peso daquela batalha apenas observando seus rostos.

— Quero saber tudo. Mas não hoje.

Os seis o encararam.

— Vocês acabaram de sobreviver a uma batalha — continuou ele. — E, pelo estado em que chegaram, precisam descansar antes de tentar organizar o que aconteceu.

Ele olhou para cada um deles.

— Amanhã conversaremos.

A enfermaria ficou silenciosa depois que Quíron saiu. Por alguns minutos, apenas os sons dos curandeiros trabalhando podiam ser ouvidos. O ambiente tinha uma tranquilidade quase estranha depois do caos que haviam acabado de enfrentar. Havia luz suficiente para enxergar os rostos cansados, o cheiro de ervas medicinais preenchia o ar e, pela primeira vez em horas, ninguém precisava olhar por cima do ombro esperando um ataque.

Sara foi a primeira a quebrar o silêncio. Virou o rosto para a esquerda na direção de Draco e ficou alguns segundos simplesmente olhando para ele, como se ainda precisasse confirmar que ele estava realmente ali.

— Você está aqui.

Draco sorriu.

— Estou.

— Todos estão? Não to sonhando?

— Todos.

Ela fechou os olhos por um instante. O alívio atravessou seu rosto, suavizando a tensão que permanecera presa aos seus traços desde a batalha. Draco se aproximou da cama e sentou-se ao lado dela. Só então percebeu o quanto estava tremendo. Não de medo. De tudo. Do esforço, da adrenalina, do medo que havia sentido quando Sara desaparecera de seu campo de visão durante a luta. Ele havia lutado sem saber se voltaria a vê-la. E agora ela estava ali.

Viva.

Perto.

Ao alcance de suas mãos.

Ele segurou a mão dela. Sara imediatamente entrelaçou os dedos nos seus. O contato pareceu acalmá-lo de uma maneira que nenhuma palavra conseguiria. Draco levou a mão dela até o próprio peito por um instante, deixando que ela sentisse as batidas ainda aceleradas de seu coração.

— Você me assustou — ele murmurou.

Sara apertou seus dedos.

— Você também.

— Eu estava tentando proteger você.

— Eu sei.

Ela abriu os olhos e encontrou os dele. Havia algo diferente naquele olhar. Uma vulnerabilidade que Draco raramente permitia que alguém enxergasse.

— E eu estava tentando proteger você.

Draco sorriu.

— Parece que temos um problema.

— Qual?

— Nenhum dos dois sabe ficar fora de perigo.

Sara soltou uma risada baixinha. Draco ficou olhando para ela por alguns segundos, absorvendo cada detalhe. Os cabelos ruivos estavam bagunçados, havia uma pequena marca perto de sua testa e alguns fios ainda estavam grudados na pele. Mesmo cansada, mesmo ferida, ela continuava sendo a pessoa que fazia alguma coisa dentro dele se apertar de um jeito quase dolorosamente bom.

Ele levou a mão livre até o rosto dela e afastou delicadamente uma mecha de cabelo. Os dedos deslizaram pela lateral de sua face e permaneceram ali por um instante. Sara inclinou levemente o rosto contra a palma dele, fechando os olhos.

Draco aproximou-se.

O primeiro beijo foi suave. Quase cuidadoso demais para duas pessoas que haviam passado horas lutando pela própria sobrevivência. Mas, quando Sara segurou a frente da camisa dele e o puxou um pouco mais para perto, a delicadeza começou a ganhar outra intensidade. Draco apoiou uma das mãos na lateral da cintura dela, com cuidado para não tocar nenhum dos lugares machucados, e aprofundou o beijo. Sara sentiu o corpo inteiro responder à proximidade. A respiração dos dois se misturou, quente e irregular, enquanto os dedos dela permaneciam fechados no tecido da camisa dele.

Quando se afastaram, nenhum dos dois foi realmente para longe.

As testas permaneceram encostadas.

— Sara...

Ela percebeu a mudança na voz dele.

— O quê?

Draco respirou fundo e levou a mão ao bolso. Retirou uma pequena caixa.

Sara franziu a testa.

— Draco...

— Eu sei que talvez seja o pior momento possível para isso.

Ele abriu a caixa.

Dentro havia um anel de ouro branco. Uma pequena serpente envolvia o aro, com duas esmeraldas minúsculas formando os olhos.

Sara ficou imóvel.

— Eu estava com isso antes de irmos para a Audácia — explicou ele. — É da minha família... Quando te conheci, te associei à ele imediatamente. Eu não quero continuar fingindo que o que existe entre nós é alguma coisa passageira.

Ele segurou o anel.

— Sara Champoudry, você aceita ser minha namorada?

Por alguns segundos, ela simplesmente o encarou. Então sorriu. Um sorriso tão aberto e genuíno que Draco sentiu o próprio coração acelerar.

— Sim.

Ele colocou o anel em seu dedo. Sara observou a joia por apenas um segundo antes de voltar os olhos para ele. Então segurou a camisa de Draco novamente e o puxou para um beijo.

Dessa vez, não havia hesitação.

O beijo começou delicado, mas rapidamente se tornou mais profundo. Draco segurou sua cintura, trazendo-a cuidadosamente para mais perto, enquanto Sara passou os braços ao redor do pescoço dele. O corpo dos dois se encontrou naquele espaço estreito ao lado da cama, e por alguns segundos pareceu que a enfermaria inteira havia desaparecido. Havia apenas o calor das mãos dele sobre ela, os dedos dela percorrendo a nuca dele e aquela sensação quase vertiginosa de finalmente poderem parar de lutar.

Quando se afastaram, Sara ainda mantinha os dedos presos na camisa dele.

— Agora é oficial.

Draco sorriu, ainda perto demais da boca dela.

— Agora é oficial.


Duas camas para a direita, Grace estava acordada. Pálida, cansada e ainda um pouco zonza, observava o movimento silenciosamente. Tobias se aproximou e sentou-se ao lado dela.

— Como você está?

— Como se tivesse sido atropelada por um trem.

Ele soltou uma risada.

— Então está melhor do que eu esperava.

Grace sorriu. Tobias passou os dedos delicadamente pelo rosto dela, mas o gesto demorou mais do que deveria. A ponta dos dedos percorreu sua têmpora e desceu lentamente pela lateral de seu rosto. Grace virou ligeiramente a cabeça, acompanhando o movimento.

— Eu fiquei com medo.

Ela o encarou.

A sinceridade em seus olhos era diferente daquela que ele costumava demonstrar.

— Eu também.

— Quando vi você cair...

Ele parou. Não conseguiu terminar.

Grace apertou sua mão.

— Eu estou aqui.

— Eu sei.

Ele respirou fundo. Tobias ainda conseguia lembrar perfeitamente da sensação de vê-la no meio daquela batalha, cercada por inimigos. Lembrava do impulso quase irracional de atravessar qualquer coisa que estivesse entre os dois para alcançá-la.

— Mas não quero esperar outra batalha para dizer o que deveria ter dito antes.

Grace arqueou uma sobrancelha.

— Isso parece sério.

— É.

Ele tirou do bolso uma pequena pulseira de prata. Dois pingentes pendiam dela. Um símbolo da Audácia. E um tridente.

Grace levou a mão à boca.

— Tobias...

— Você me perguntou o que eu sentia por você.

Ele colocou a pulseira na palma da mão dela.

— Eu ainda não sei explicar tudo. Talvez eu nunca saiba.

Grace sorriu.

— Isso é muito romântico vindo de você.

Ele revirou os olhos.

— Deixa eu terminar.

Ela riu.

Tobias segurou sua mão e passou o polegar lentamente sobre os dedos dela.

— Eu sei que quero você comigo. Sei que quero acordar e encontrar você. Sei que quero continuar conhecendo você. E sei que, depois de tudo que aconteceu comigo, eu achei que nunca mais sentiria alguma coisa assim.

Grace ficou em silêncio. Os olhos dela brilhavam.

— Então... — ele continuou — você quer ser minha namorada?

Os olhos dela se encheram de lágrimas, mas ela estava sorrindo.

— Você ainda precisa perguntar?

Tobias sorriu.

— Preciso ouvir.

Grace se inclinou e o abraçou.

— Sim.

Ele a envolveu com os braços, tomando cuidado para não machucá-la. Grace escondeu o rosto em seu peito e Tobias fechou os olhos. A mão dele subiu lentamente pelas costas dela, parando entre suas omoplatas. Ele sentiu o corpo dela relaxar contra o seu e, por alguns segundos, apenas a segurou.

Quando Grace ergueu o rosto, os dois ficaram próximos. Tobias passou o polegar abaixo de seu olho, apagando uma pequena lágrima.

— Não chora.

— Eu não estou chorando.

— Está, sim.

— Cala a boca.

Ele sorriu.

Grace segurou a nuca dele e o puxou para um beijo. Tobias correspondeu imediatamente. O beijo foi lento, mas carregado de tudo o que nenhum dos dois havia conseguido dizer durante a batalha. A mão dele permaneceu em sua cintura, enquanto Grace mantinha os dedos entre os cabelos dele. Quando o beijo se aprofundou, Tobias precisou se afastar por um instante apenas para respirar, encostando a testa na dela.

— Você ainda vai acabar comigo — ele murmurou.

Grace sorriu.

— Achei que você gostasse de desafios.

— De alguns.

Ela aproximou-se novamente, roçando os lábios nos dele.

— E eu?

Tobias segurou sua cintura um pouco mais firme.

— Você é o meu favorito.

Grace riu contra a boca dele antes de beijá-lo novamente.

Pela primeira vez desde a morte de Tris, Tobias sentiu que a felicidade não precisava ser uma traição ao passado. Ele poderia continuar amando a memória de alguém que perdera. E ainda assim amar alguém que estava diante dele.





Hailey estava na terceira cama ao lado da janela e do outro lado da enfermaria. Diferentemente de Grace e Sara, ela não estava tão pálida. Mas parecia exausta e seu ombro estava enfaixado. Gareth se aproximou devagar.

— Oi.

Ela levantou os olhos.

— Oi.

Ele se sentou ao lado dela. Hailey apoiou a cabeça em seu ombro quase imediatamente. Gareth passou o braço ao redor dela e a puxou um pouco mais para perto. O movimento foi natural, protetor, mas o corpo dos dois pareceu reconhecer aquela proximidade de uma maneira diferente. Hailey sentiu o calor dele através das roupas, enquanto Gareth abaixava o rosto até os cabelos dela, respirando profundamente antes de falar.

— Você me assustou.

— Você também.

— Eu?

— Você entrou no meio de três monstros.

— Eles estavam no caminho.

Hailey riu.

— Claro.

Gareth sorriu. Então percebeu que havia algo diferente naquele sorriso. Não era o sorriso que ela costumava dar para disfarçar a dor. Era verdadeiro.

— O que foi?

Hailey ficou olhando para o teto.

— Eu estava pensando no Andrew.

Gareth ficou imóvel por uma fração de segundo. Ela percebeu.

— Não do jeito que você tá pensando...

— Como assim?

— Antes, quando eu falava dele, parecia que tudo acontecia de novo – ela respirou fundo — A morte dele. Aquele dia. A guerra.

Gareth apertou um pouco mais o braço ao redor dela. O polegar começou a fazer movimentos lentos sobre o braço dela, quase inconscientemente.

— E agora?

Hailey sorriu tristemente.

— Agora eu consigo lembrar dele sem lembrar apenas de como ele morreu – Gareth não respondeu. Não precisava — Eu lembro dele rindo — continuou ela. — Lembro das coisas idiotas que ele fazia. Das nossas conversas. Das vezes em que brigávamos por bobagem – ela fechou os olhos— Acho que finalmente estou conseguindo guardar só as partes boas.

Gareth beijou delicadamente o topo de sua cabeça.

— Ele sempre vai fazer parte de você.

— Eu sei.

Ela ergueu o rosto.

— Eu não quero passar o resto da minha vida presa naquele dia.

Gareth encontrou os olhos dela.

— Não vai.

Hailey ficou olhando para ele.

Aquela resposta simples atingiu alguma coisa dentro dela. Talvez porque Gareth não estivesse tentando substituir ninguém. Não estava pedindo que ela esquecesse. Não estava exigindo que ela acelerasse o próprio luto. Ele apenas estava ali com ela e por ela.

E, naquele momento, ela percebeu o quanto queria que ele continuasse ali.

Hailey ergueu uma das mãos e tocou o rosto dele. Os dedos passaram pela pequena marca próxima à sobrancelha, depois desceram pela lateral do rosto. Gareth segurou delicadamente o pulso dela e virou o rosto para beijar sua palma.

O gesto fez a respiração dela falhar por um instante.

— Você está machucado — ela murmurou.

— Você também.

— Não muda de assunto.

— Não estou mudando.

Ele se aproximou um pouco mais.

Hailey sentiu o joelho dele tocar o seu. Depois a mão dele deslizou lentamente para sua cintura, mantendo-se ali enquanto os dois se encaravam. Havia algo diferente naquele olhar. Uma intensidade que vinha crescendo entre eles havia tempo demais para ser ignorada.

Gareth passou o polegar pela lateral da cintura dela.

— Hailey...

Ela não respondeu.

Apenas aproximou o rosto.

O beijo aconteceu devagar.

Gareth começou com cuidado, como se ainda estivesse dando a ela a possibilidade de recuar. Hailey não recuou. Pelo contrário. Seus dedos se fecharam na nuca dele e ela o puxou para mais perto.

O beijo ganhou intensidade.

Gareth segurou sua cintura com mais firmeza, trazendo-a contra si sem deixar de prestar atenção às marcas e ferimentos que ela tinha. Hailey passou os dedos pelos cabelos dele, sentindo os músculos de seus ombros tensionarem sob suas mãos. Quando ele se afastou apenas alguns centímetros, os dois ficaram respirando o mesmo ar.

— Isso está ficando perigoso — ele murmurou.

Hailey sorriu.

— Nós somos péssimos em ficar longe do perigo.

Gareth soltou uma risada baixa.

— Verdade.

Ele tornou a beijá-la, dessa vez mais demoradamente. Hailey sentiu o coração acelerar e segurou a frente da camisa dele, mantendo-o perto. A mão de Gareth deslizou pelas costas dela até a cintura, enquanto a outra permanecia apoiada ao lado de seu corpo, protegendo-a contra a cama.

Por alguns segundos, a única coisa que existiu foi o calor daquele contato e a sensação de finalmente poderem demonstrar algo que ambos vinham tentando controlar havia tempo demais.

Quando se afastaram, Hailey permaneceu com a testa encostada na dele.

Gareth respirou fundo e levou a mão ao bolso. Sentiu o pequeno objeto que havia colocado ali antes da batalha.

Um anel.

Ele havia forjado aquela peça pensando nela. Pensando em perguntar. Mas naquele momento percebeu que não precisava transformar aquilo em uma corrida. Não depois de tudo que Hailey havia vivido. Então deixou a mão voltar ao lado do corpo.

— O que foi? — ela perguntou.

— Nada.

— Gareth.

Ele sorriu.

— Só estava pensando que você ainda vai ter que me aguentar por muito tempo.

Hailey riu.

— Isso foi uma ameaça?

— Uma promessa.

Ela se aproximou novamente e encostou a testa na dele.

— Ótimo.

Gareth fechou os olhos.

Por alguns segundos, permaneceram assim, próximos, respirando juntos, enquanto o restante da enfermaria continuava ao redor deles. Não precisavam transformar aquele momento em mais nada. Não naquela noite. O que existia entre eles já era intenso demais para precisar de um nome. Pelo menos, naquele instante.


Do outro lado da enfermaria, Sara observava os dois casais. Grace estava encostada em Tobias, os dedos ainda entrelaçados aos dele. Hailey permanecia próxima de Gareth, e ele ainda mantinha uma das mãos apoiada na cintura dela. Sara olhou para o próprio dedo, onde o anel de Draco brilhava sob a luz da enfermaria, e então sentiu os dedos dele apertarem os seus.

Ela olhou para ele.

Draco sorriu.

Três histórias completamente diferentes. Três pessoas que haviam chegado à Audácia sem imaginar que encontrariam aquilo.

Amor.

Talvez fosse cedo demais para chamar tudo aquilo de amor. Mas, naquela noite, nenhum deles parecia disposto a discutir definições. Eles tinham acabado de sobreviver juntos. Tinham visto uns aos outros no pior momento possível e, ainda assim, continuavam ali. Feridos. Exaustos. Assustados. Mas juntos.

Quíron observava os seis pela porta da enfermaria.

A expressão em seu rosto era séria.

Porque sabia que aquela batalha não havia sido o fim.

Era apenas o começo.

Mas, por aquela noite, permitiria que descansassem.

A guerra podia esperar até amanhã.