Last Battle
12 Ela eletrocutou a maçaneta
A água explodiu pelos canos com uma força que ninguém ali havia visto antes. O estrondo foi tão violento que pareceu fazer a própria estrutura da arena estremecer. Tubulações se romperam dentro das paredes, parafusos foram arrancados e placas metálicas se soltaram, despencando sobre o chão já tomado pelo caos.
O grito de Grace atravessou a arena no mesmo instante em que ela bateu a extremidade da lança contra o piso. O impacto reverberou pelo concreto como uma onda de choque. Por uma fração de segundo, nada aconteceu. Então veio o estrondo. Um ruído metálico, profundo, percorreu toda a estrutura, seguido por uma sequência de explosões que fizeram os canos ao redor da arena se romperem de uma só vez.
Jatos violentos de água dispararam pelas paredes, pelo teto e pelo chão. A pressão era tamanha que alguns soldados foram atingidos diretamente no rosto e arremessados contra as estruturas metálicas. Um deles perdeu o equilíbrio, caiu de costas e bateu a cabeça contra o piso. Outro tentou se agarrar a uma coluna, mas a correnteza arrancou seus pés do chão e o arrastou vários metros. Em poucos segundos, a arena começou a inundar.
A água cobriu os tornozelos, depois as canelas, enquanto gritos, ordens e disparos se misturavam ao barulho ensurdecedor das tubulações rompidas. Grace permanecia no centro daquela confusão, completamente seca. A água parecia reconhecer a presença dela, desviando-se antes de tocar sua pele ou suas roupas. Os cabelos permaneciam no lugar, enquanto ao redor dela tudo era levado pela correnteza. Seus olhos estavam fixos à frente, concentrados nos inimigos que tentavam atravessar a inundação. Ela moveu a lança novamente. A água respondeu imediatamente. Uma parede líquida ergueu-se diante dos seis como um escudo gigantesco, transparente e quase impossível de atravessar. Feitiços começaram a atingir a superfície.
Raios de luz cortavam a barreira e explodiam em clarões azulados, alguns ricocheteando contra as paredes. Outros feitiços atravessavam parcialmente a água e perdiam força antes de alcançar o grupo. Ainda assim, alguns impactos fizeram a barreira estremecer. Hailey manteve a varinha erguida ao lado de Grace, reforçando a proteção com escudos mágicos. Draco fazia o mesmo, lançando encantamentos sucessivos sempre que identificava uma brecha.
Um disparo atingiu o escudo de Hailey com força suficiente para fazê-la cambalear. Gareth imediatamente segurou seu ombro e a estabilizou. Ela recuperou o equilíbrio sem sequer olhar para ele. Alguns soldados tentaram avançar pela correnteza, mas foram atingidos pela pressão da água e arremessados para trás. Um deles conseguiu atravessar a primeira onda e ergueu a arma, mas Tobias surgiu na frente dele, golpeando-o no rosto com tanta força que o homem caiu de lado na água. Tobias nem esperou para verificar se ele se levantaria.
— Pela esquerda! — Tobias gritou.
Ele já estava se movimentando. Sara foi a primeira a acompanhá-lo, correndo em direção à escada que levava para a saída lateral da arena. A água dificultava cada passo. Os pés escorregavam no piso molhado, e o som de botas batendo contra o metal se misturava ao barulho das criaturas que avançavam atrás deles.
— Por aqui!
Tobias assumiu a retaguarda enquanto Sara conduzia o grupo. Draco correu logo atrás dela, varinha em punho. Um soldado surgiu entre duas estruturas e tentou atingir Sara pelas costas. Draco percebeu primeiro.
— Estupefaça!
O feitiço atingiu o atacante no peito e o lançou contra uma parede. Gareth corria ao lado de Hailey lançando labaredas enquanto ela lançava feitiços, enquanto Grace mantinha a barreira de água erguida. Eles não estavam separados. Não daquela vez. Os seis corriam juntos. Era a única coisa que importava.
Gareth olhava constantemente para trás, avaliando quantos inimigos estavam conseguindo atravessar a água. Hailey disparava feitiços por cima do ombro, derrubando aqueles que chegavam perto demais. Draco fazia o mesmo. Tobias recuava alguns passos de cada vez, atacando quem tentava cercá-los. Grace continuava sustentando a barreira, mas a respiração começava a ficar pesada. Manter aquela quantidade de água sob controle exigia força. Muito mais força do que ela queria admitir.
Até que um grito de dor interrompeu tudo.
Sara caiu de joelhos. Uma criatura havia surgido debaixo da estrutura metálica da escada e agarrado seu braço direito. As garras atravessaram o tecido e rasgaram sua pele em um golpe brutal. Quatro sulcos profundos se abriram imediatamente em seu braço, e o sangue começou a escorrer pela mão, misturando-se à água que cobria os degraus.
— SARA!
Gareth, Draco e Grace se viraram imediatamente. Sara tentou puxar o braço, mas a criatura segurou com ainda mais força. Ela sentiu as garras pressionarem a carne e soltou um grunhido entre os dentes.
Draco avançou, mas a criatura abriu a boca e tentou mordê-lo. Ele recuou por um triz. Sara puxou uma das pistolas com a mão esquerda. A criatura ainda segurava seu braço direito. Ela ergueu a arma e disparou. A primeira bala atravessou o corpo da criatura. O impacto fez o monstro cambalear, mas ele não a soltou. Gareth lançou uma intensa labareda contra ele. O fogo atingiu seu tronco e arrancou um urro monstruoso. Sara disparou novamente. A segunda bala atingiu o peito. A terceira abriu um buraco no ombro. A criatura finalmente afrouxou os dedos, mas ainda tentou avançar. Sara ergueu a arma uma última vez e disparou diretamente contra sua cabeça. O impacto fez o corpo recuar violentamente antes de despencar pelos degraus, desaparecendo na correnteza abaixo.
Sara respirava com dificuldade. O sangue escorria pelo braço e pingava no chão.
— Você está bem? — Draco perguntou, a abraçando rapidamemte.
Sara olhou para o próprio braço.
— Estou ótima.
Draco encarou o ferimento.
— Você está sangrando.
— Percebi.
Tobias agarrou o braço esquerdo dela.
— Vamos!
Sara tentou se levantar sozinha, mas suas pernas vacilaram. Grace imediatamente passou um braço pela cintura dela enquanto Hailey segurava seu outro lado. Sara apertou os dentes, irritada consigo mesma por precisar de ajuda.
Ela olhou para Gareth por um segundo por cima dos ombros.
— As balas funcionaram.
Gareth deu um sorriso rápido, ainda ofegante.
— Eu disse que funcionariam.
As balas de aço que ele havia forjado tinham atravessado a criatura como se fossem feitas especificamente para aquele tipo de monstro. Talvez fossem. Talvez, naquele mundo, algumas coisas simplesmente começassem a fazer sentido depois que você descobria quem realmente era. Mas não havia tempo para pensar nisso.
O grupo continuou subindo. Sara estava zonza devido à perda de sangue. O braço direito estava praticamente encharcado de vermelho, e cada movimento fazia a dor latejar até o ombro. Ela se apoiava em Grace e Hailey, mas não reclamava. Não permitiria que ninguém diminuísse sua velocidade por causa dela. Hailey disparava feitiços para trás sempre que alguma criatura se aproximava. Um feitiço atingiu um inimigo no rosto e o fez cair de costas.
Outro explodiu contra a parede ao lado de Tobias, espalhando fragmentos de concreto que cortaram sua bochecha. Ele passou a mão pelo rosto, viu o sangue nos dedos e continuou correndo. Draco lançava Estupefaça atrás de Estupefaça. Um dos feitiços atingiu um soldado no peito, mas outro surgiu imediatamente atrás dele. Draco precisou girar o corpo e lançar um segundo encantamento quase à queima-roupa. Tobias conhecia cada curva daquela estrutura e indicava o caminho sem hesitar. Gareth olhava para trás entre um passo e outro, pronto para incendiar qualquer criatura que os alcançasse. Grace mantinha a mão pressionada contra o ferimento da amiga enquanto corria, tentando diminuir o sangramento, mesmo sabendo que não poderia parar. Então chegaram ao último lance de escadas. A porta do telhado estava logo à frente.
Tobias empurrou a maçaneta.
Nada.
Ele tentou novamente, dessa vez com mais força.
— Está trancada.
Um estrondo veio de baixo. Os inimigos estavam chegando.
— Sai da frente! — Hailey gritou.
Ela puxou Tobias para fora do caminho, ergueu a varinha e apontou diretamente para a porta.
— BOMBARDA!
A porta explodiu. Madeira, metal e pedaços da estrutura voaram para fora. Os seis atravessaram a abertura mas pararam quase imediatamente.
O céu estava tomado por dezenas de figuras negras. Dementadores. Eles flutuavam acima do telhado como sombras vivas, suas capas escuras se movimentando apesar da ausência completa de vento. O frio chegou primeiro. Não era apenas uma temperatura baixa. Era uma sensação que penetrava pelos ossos. Hailey e Draco reconheceram imediatamente aquela presença. O ar desapareceu dos pulmões. Sara apertou a arma com a mão esquerda. Grace levantou a lança. Draco ergueu a varinha. Gareth se colocou automaticamente na frente de Hailey, o corpo inteiro assumindo uma postura defensiva. Tobias ficou ao lado de Grace, olhando para o céu e depois para as criaturas que surgiam pela abertura atrás deles.
Então a abertura atrás deles foi destruída por completo.
A explosão atingiu os seis pelas costas. Gareth foi lançado para a frente e caiu de bruços batendo o rosto no chão, deslizando alguns centímetros pelo concreto. Hailey bateu com o ombro machucado no chão. Draco caiu de lado e perdeu a varinha por um instante. Tobias rolou sobre o próprio corpo antes de parar. Grace foi jogada contra Sara, que caiu sobre o braço ferido e soltou um grito abafado de dor. A fumaça cobriu o telhado.
Carrow surgiu entre ela.
— AGARREM-NAS!
Os Dementadores avançaram.
Três deles foram diretamente contra Hailey, Grace e Sara. Hailey tentou se levantar, mas uma criatura agarrou seu pescoço. As mãos frias envolveram sua garganta e a ergueram parcialmente do chão. Ela tentou respirar, mas o ar parecia ter desaparecido.
Draco avançou para ajudá-las, mas outro Dementador o atingiu e o jogou contra o chão. Ele tentou recuperar a varinha, mas uma sombra passou sobre ele. Tobias conseguiu se levantar e golpeou a criatura mais próxima, mas foi agarrado por trás e puxado para longe. Gareth tentou alcançar Hailey, porém dois Dementadores o seguraram pelos braços e o arrastaram para trás. Ele lutou com toda a força, chutando, socando e tentando se libertar.
— HAILEY!
Grace também estava sendo sufocada. Uma mão espectral envolveu seu pescoço e a levantou parcialmente do chão. Ela tentou usar a lança, mas seus dedos perderam força. A visão começou a escurecer.
Sara sentiu o frio atravessar sua pele enquanto outra criatura a segurava pela garganta. O ferimento em seu braço latejava violentamente. Ela tentou disparar a pistola, mas seus dedos tremiam.
Carrow sorriu.
— Acabou. Hora de...
Antes que ela pudesse continuar, o frio parou.
Completamente.
O silêncio foi tão repentino que pareceu impossível. As capas dos Dementadores ficaram imóveis. A fumaça parou no ar. Até as gotas de água que ainda escorriam pelas estruturas pareciam suspensas por um instante.
Por um segundo, o mundo inteiro pareceu prender a respiração.
Hailey abriu os olhos.
O céu acima dela estava escurecendo.
Não como uma tempestade comum. As nuvens estavam se formando em círculos, girando umas sobre as outras, cada camada se comprimindo sobre a seguinte. Um trovão ecoou ao longe. Depois outro. Raios começaram a cortar o céu.
Um.
Dois.
Três.
Então dezenas.
A eletricidade percorreu o corpo de Hailey. Pequenas faíscas saltaram de seus braços e dedos. Os cabelos se levantaram levemente. A criatura que segurava seu pescoço recuou, como se tivesse sentido alguma coisa que não compreendia. Hailey não parecia mais sentir o aperto. Seus olhos castanhos começaram a mudar. O castanho desapareceu lentamente, substituído por um cinza metálico e intenso. Raios refletiam dentro de suas íris.
Ao lado dela, Sara também parou de lutar.
Seu corpo ficou imóvel.
Seus olhos, que já eram pretos, ficaram negros por inteiro, sem nenhum espaço branco à vista. Os cabelos começaram a flutuar ao redor do rosto como se estivessem submersos em água. Uma névoa escura começou a se espalhar por seus pés, primeiro fina, quase imperceptível, depois cada vez mais densa. O Dementador que segurava seu pescoço soltou-a.
Carrow perdeu o sorriso.
— O que...
O primeiro Dementador desapareceu.
Não caiu.
Não foi atingido.
Simplesmente deixou de existir.
Uma massa escura se desfez no ar como fumaça sendo arrancada pelo vento. O segundo tentou recuar. Não conseguiu. Também desapareceu. Depois outro.
Os demais começaram a recuar.
Até os meninos que estavam presos foram libertos. Gareth caiu de joelhos e imediatamente procurou Hailey. Tobias puxou Grace para longe da criatura que a segurava. Draco recuperou a varinha e correu até Sara.
Sara ergueu a mão esquerda.
A sombra respondeu.
Uma névoa negra saiu de seu corpo e se condensou no ar, formando longos ramos escuros que avançaram pelo telhado. Eles se enrolaram nas pernas e braços das criaturas. Os Dementadores tentaram escapar, mas as sombras se apertaram ao redor deles. As formas negras se transformaram em cordas, prendendo os inimigos ao chão. Algumas criaturas foram derrubadas violentamente contra o concreto. Outras ficaram suspensas, debatendo-se contra as amarras que pareciam vivas.
Hailey ergueu o rosto.
Um raio desceu do céu.
Atingiu sua mão direita.
Não houve queimadura.
Não houve grito.
Hailey simplesmente recebeu a descarga. A eletricidade percorreu seu braço, espalhou-se pelo corpo e fez dezenas de pequenos raios correrem pela pele. Ela fechou os dedos. Então apontou a mão direita para os inimigos.
A descarga explodiu.
O raio atravessou o telhado em uma linha brutal de energia. O impacto lançou criaturas para todos os lados. Algumas foram arremessadas contra as paredes. Outras simplesmente desapareceram dentro da luz branca. O clarão iluminou toda a estrutura da Audácia e fez Carrow proteger o rosto com os braços.
As duas estavam em transe, mas, ao mesmo tempo, pareciam saber exatamente o que estavam fazendo, mesmo que inconscientemente. Não havia hesitação nos movimentos. Não havia dúvida. Era como se seus corpos soubessem algo que suas próprias mentes ainda não compreendiam.
Grace olhou para as duas.
Naquele momento, algumas peças finalmente começaram a se encaixar.
Ela já havia desconfiado. Agora tinha certeza de que havia alguma coisa muito maior acontecendo. Algo que nenhum deles compreendia completamente. Algo que estava além de Hogwarts, além dos semideuses, além daquilo que acreditavam conhecer sobre si mesmos.
Grace apertou a lança.
A água ao redor de seus pés começou a subir.
Primeiro alguns centímetros.
Depois até os joelhos.
Então uma coluna inteira de água se ergueu atrás dela.
Grace girou a lança acima da cabeça. A massa líquida acompanhou o movimento, formando uma onda gigantesca que cresceu atrás dos seis. Ela olhou para Hailey. Depois para Sara. Não precisou dizer nada.
A água avançou.
O raio encontrou a onda.
As sombras se misturaram à correnteza.
Por um instante, três forças completamente diferentes se fundiram em uma única massa de energia.
Então elas lançaram tudo para a frente.
O impacto foi devastador.
A onda atingiu dezenas de inimigos de uma só vez. O raio atravessou a água e explodiu em múltiplos pontos, enquanto as sombras de Sara se enrolavam nas criaturas e as puxavam para dentro da correnteza garantindo que ninguém escapasse. Corpos foram arremessados pelo telhado. Estruturas metálicas foram arrancadas do lugar. O chão tremeu sob os pés deles.
— VAMOS! — Tobias gritou.
Os seis se juntaram.
Não havia mais tempo para entender o que havia acabado de acontecer. Eles precisavam sair.
Tobias agarrou Grace. Draco puxou Sara. Gareth segurou Hailey pelo braço. Os seis começaram a correr em direção à extremidade do telhado.
Então alguma coisa osmpuxou.
Foi tão rápido que ela sequer tiveram tempo de reagir.
Uma força brutal puxou seu corpo para trás. Aparatação. Mas não estavam no chão sólido. Estavam em queda livre.
O grito de todos se misturou enquanto despencavam do céu. Tobias segurava Grace com força. Grace agarrava a lança contra o peito. Draco tentava manter Sara junto dele. Gareth envolvia Hailey com um braço, tentando protegê-la durante a queda. Hailey olhou rapidamente para baixo.
O chão estava se aproximando.
Rápido demais.
— HAILEY! DRACO! FAÇAM ALGUMA COISA!— Gareth gritou.
Hailey reagiu a tempo e ergueu a varinha e gritou
— ARESTO MOMENTUM!
O feitiço atingiu o grupo no instante em que estavam a pouco mais de um metro do chão.
A queda parou.
Os seis ficaram suspensos no ar por uma fração de segundo, os corpos ainda presos uns aos outros, antes que a magia perdesse força e permitisse que despencassem de uma altura segura.
Eles atingiram o chão juntos, ofegantes, doloridos e completamente exaustos.
Por alguns segundos, ninguém disse nada.
Só respiraram.
Tinham escapado.
Por pouco.
E, acima deles, a batalha ainda estava longe de terminar
– E foi isso! – Grace finalizou o relato para Quíron e observou as caras confusas de Hailey e Sara –Vocês meio que entraram em transe — Grace explicou.
Hailey franziu a testa.
— Eu não lembro.
— Dos Dementadores?
Hailey balançou a cabeça.
— Disso sim mas não da parte do raio.
Sara observava as próprias mãos.
— Eu também não lembro de tudo.
Grace ficou em silêncio. Aquilo não era normal. Antes que pudesse responder, uma luz surgiu acima de Sara. Uma névoa negra começou a se formar sobre sua cabeça. O acampamento inteiro ficou em silêncio. A névoa tomou a forma de uma caveira. Por alguns segundos, ninguém respirou. Quíron ergueu o rosto. Seus olhos se arregalaram.
— Hades...
A palavra percorreu o acampamento como um choque. Sara ficou imóvel.
— O quê?
A caveira desapareceu lentamente. Quíron olhou para ela.
— Hades... Você é filha de Hades... O deus do submundo...
Sara não respondeu. Ao redor dela, os campistas começaram a aplaudir. Ela olhou para Draco. Ele segurou sua mão.
— Parece que agora sabemos de quem você é filha.
Sara soltou uma risada nervosa.
— Eu não tenho certeza se gostei dessa descoberta.
— Eu gostei.
Ela olhou para ele. Draco sorriu.
Antes que Sara pudesse dizer mais, outra luz surgiu. Dessa vez, uma luz azul acima de Hailey começou a brilhar. Um raio prateado atravessou as nuvens acima do Acampamento. Uma névoa azul surgiu ao redor dela e um símbolo de raio apareceu em sua cabeça. Quíron ficou completamente imóvel.
— Três filhas dos Três Grandes...
Hailey ergueu os olhos.
— Quíron?
Ele olhou diretamente para ela.
— Hailey. Você é filha de Zeus.
O raio desapareceu. O acampamento explodiu em aplausos. Hailey ficou parada. Seus olhos ainda eram castanhos, mas pequenas faíscas começaram a saltar de suas íris. Gareth percebeu.
— Hailey...
Ela olhou para as próprias mãos.
— Eu sou filha de Zeus?
A pergunta saiu quase como um sussurro. E, pela primeira vez desde que tudo havia começado, Hailey percebeu que talvez existissem muito mais perguntas do que respostas.
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Mais tarde, depois de muitos aplausos e comemorações, a arena estava praticamente vazia. Grace treinava com Tobias. Sara observava Draco testar alguns feitiços. Gareth estava encostado em uma das colunas, acompanhando Hailey na outra extremidade da arena. Ela estava com alguns semideuses filhos de Atena tirando dúvidas deles sobre Hogwarts. Ela, também, tinha as dela sobre os deuses, principalmente Zeus. Foi quando Katherine Monroe apareceu atrás do filho de Hefesto..
— Gareth.
Ele virou o rosto. O sorriso desapareceu imediatamente.
— Katherine.
Ela caminhou até ele como se os dois ainda compartilhassem algum tipo de intimidade.
— O que você quer? — Gareth perguntou.
— Conversar.
— Não temos nada para conversar.
— Você costumava pensar diferente.
— Eu costumava estar errado.
A expressão dela mudou vendo que ele não desviou os olhos de Hailey desde que ela apareceu.
— Então é verdade?
Gareth não respondeu. Katherine olhou para Hailey com desprezo.
— É ela?
Grace, vendo a cena, falou alto o suficiente para Katherine e Gareth.
— Vai embora, sua lunática.
Katherine arqueou uma sobrancelha.
— Você é a guarda-costas dela?
— Se precisar.
Gareth sacudiu a cabeça para Grace.
— Deixa – ele disse e Grace voltou a treinar com Tobias. Mas, dessa vez, todos os amigos estavam atentos. Draco, Tobias e Sara já estavam a par de quem Katherine era. E não gostavam dela.
Gareth olhou novamente para Katherine.
— Sim. É ela.
Katherine ficou alguns segundos em silêncio.
— Você realmente está apaixonado por ela?
Gareth respirou fundo irritado com o questionário e ainda observando Hailey conversar com os filhos de Atena
— Estou.
A palavra saiu sem hesitação. Katherine apertou a mandíbula.
— Depois de tudo? – ela disse e começou a andar em volta de Gareth o fazendo virar de costas para os amigos e Hailey
— Não existe "depois de tudo". Namoramos por uns quatro meses.
— Nosso namoro...
— Aconteceu por pura conveniência.
Ela pareceu ofendida.
— Não era isso que parecia quando você tava na minha cama! Você vai dizer, na minha cara, que nunca me amou?
— Estou dizendo exatamente isso.
Katherine olhou para Hailey novamente e voltou seu olhar para Gareth
— Você está me largando... Por ela?
Gareth sustentou o olhar.
— Não estou te largando porque não temos mais nada. Então não há o que largar.
Katherine soltou uma risada baixa.
— Ela nem sabe o que está fazendo. Parece uma desengonçada
O corpo de Gareth ficou rígido.
— Não fala dela assim.
— Essa songamonga... filha de Zeus... que ofensa!
Fumaça começou a surgir nas mãos dele. A filha de Afrodite permaneceu inabalável
— Katherine...
— O quê? — ela perguntou, sorrindo. — Eu menti?
Gareth deu um passo à frente tentando intimidá-la
— Mentiu. Você não sabe absolutamente nada sobre ela.
Katherine ficou observando-o. E então percebeu. Não iria convencê-lo. E não ia reconquistá-lo. Ela conseguiu ver nos olhos dele que ele dizia a verdade sobre os dois. Mas, a raiva de Katherine a mostrou que não precisava sequer fazê-lo sentir alguma coisa por ela. Precisava apenas encontrar uma maneira de fazer Hailey duvidar dele. Já que ela não podia tê-lo, Hailey também não teria.
O olhar de Katherine deslizou para a saída da arena. Por um instante, ela viu Hailey se despedir dos filhos de Atena e começar a se aproximar dos amigos.
E sorriu. Ele franziu a testa.
— O quê?
Ela se aproximou e, antes que ele pudesse reagir, ela segurou o rosto dele e o beijou.
Gareth ficou completamente imóvel por uma fração de segundo, mais por indignação do que por qualquer outra coisa. Então a empurrou com tanta força que ela caiu no chão.
— QUE MERDA VOCÊ ESTÁ FAZENDO?!
Katherine apenas sorriu e ela olhou para trás dele. Gareth olhou para a saída.
E congelou.
Hailey estava no meio da arena. Parada. O rosto bronzeado completamente sem cor. Na arquibancada, Sara e Draco também estavam estáticos. Grace colocou as mãos na boca em choque e Tobias fechou os olhos. Os olhos de Hailey encontraram os dele. Gareth deu um passo em sua direção.
— Hailey...
Ela recuou.
Gareth olhou para Katherine que sorria de pé. E, naquele instante, Gareth entendeu. Ela tinha planejado aquilo. Não havia sido impulso. Ela queria que Hailey visse.
— Ops... Acho que alguém viu...
Hailey virou-se e saiu correndo.
— HAILEY!
Gareth tentou segui-la, mas esbarrou em Grace no caminho. Ela já havia chegado até Katherine. Ela apontou a mão para a filha de Afrodite fazendo uma esfera de água se formar ao redor dela e envolvendo Katherine nela.
— Você é doente.
Katherine tentou respirar. Grace fechou a mão e apontou para o mar. A esfera foi lançada para longe. Katherine atravessou o ar e a semideusa caiu no meio do mar.
Tobias soltou um suspiro.
— Grace...
— Ah, dá licença! Ela mereceu.
Draco apontou para o céu.
— Gente...
Todos olharam. Raios finos cortavam o céu laranja do fim da tarde. Diretamente acima do chalé de Zeus.
Gareth ficou pálido e tentou correr, mas Draco e Tobias o impediram enquanto Sara correu ao lado de Grace para o chalé 1
— Você acha que ela está bem?
— Não.
— Ela não acreditou nisso, acreditou?
Grace apertou os lábios.
— Não é isso.
— Então o que é?
— Ela não precisa acreditar que ele correspondeu.
Sara olhou para ela. Grace respirou fundo.
— Basta ela ter sentido que aquela imagem confirmou algum medo que já existia dentro dela. Perda.
Quando chegaram ao chalé de Zeus, encontraram a porta fechada. Sara tentou a maçaneta. Um estalo queimou sua mão, correu por seu braço e arrepiou seus cabelos ruivos. Ela recuou.
— Ela eletrocutou a maçaneta.
Sara ergueu uma mão. Sombras se espalharam pela fechadura. A porta se abriu.
O chalé de Zeus era completamente diferente de tudo que Hailey conhecia. Mármore branco cobria as paredes. Colunas enormes sustentavam o teto. Detalhes em bronze dourado decoravam cada superfície. No alto, uma enorme cúpula reproduzia um céu de tempestade: nuvens escuras, relâmpagos congelados no tempo e pequenos pontos de luz que pareciam estrelas. Águias douradas estavam posicionadas em diferentes pontos do salão. E, no centro, havia uma enorme estátua de Zeus.
Hailey estava sentada no chão diante da janela dos fundos de costas para a porta. Os joelhos estavam junto ao peito. Ela chorava em silêncio.
Grace aproximou-se devagar.
— Hailey.
Ela não respondeu.
Sara permaneceu alguns passos atrás. Grace se ajoelhou.
— Gareth nunca faria isso com você – Hailey manteve os olhos fechados e permameceu em silêncio – Ele não queria aquilo. Ele a empurrou. Ele ficou desesperado quando te viu.
Grace ficou em silêncio. Hailey respirou fundo antes de olhar para as amigas. Os olhos dela estavam levemente acinzentados e pequenas descargas elétricas percorriam suas íris.
Grace entendeu. Não era sobre Katherine. Era sobre tudo o que aquela cena tinha despertado. Medos antigos. Perdas antigas. A sensação de finalmente se deixar envolver novamente com alguém e, de repente, ser colocada diante de uma imagem capaz de fazer todo aquele chão desaparecer.
Sara tocou suavemente o braço de Grace.
Grace se levantou.
— Vamos deixar você sozinha um pouco.
Hailey assentiu e voltou a esconder o rosto entre os joelhos.
As duas saíram. A porta se fechou. Do lado de fora, Grace olhou para Sara.
— O que vamos fazer?
Sara respirou fundo.
— Os dois precisam se acertar.
— E se ela não quiser falar com ele?
Sara olhou na direção da arena. Um sorriso determinado apareceu em seu rosto.
— Então vamos precisar ajudá-los.
Grace franziu a testa.
— Como?
Sara começou a caminhar.
— Eu tive uma ideia.
— Isso geralmente é perigoso.
— Dessa vez, vai ser necessário.
Grace a acompanhou.
— Quem vamos procurar?
Sara olhou para trás antes de sair correndo
— Os meninos.
E, pela primeira vez desde que haviam chegado ao Acampamento Meio-Sangue, elas tiveram a certeza de que aquela história estava prestes a mudar novamente.
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