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SEIS

Quinta-feira, 31 de agosto de 2017 – 12h03min

Mais de um mês havia se passado desde meu encontro com SeokJin e as crianças. Mais de um mês que eu não parava de pensar em seus sorrisos e as brincadeiras daquele dia. Mais de um mês que eu desejava voltar no tempo e aproveitar aquela noite ainda mais. Mais de um mês que a saudade torturava meu coração e a minha mente.

Não voltamos a nos falar. Eu não o via na academia, mesmo indo todos os dias, mas sabia que ele também continuava a malhar com frequência. Todos os domingos eu vou ao parque, na esperança de os encontrar brincando de bola, como na vez que nos conhecemos. À noite, antes de ir dormir, eu fazia questão de olhar as fotos que havíamos tirado juntos e o número de telefone de Jin, digitando e apagando-o diversas vezes, ponderando se deveria ligar ou não. No fim, eu sempre desistia.

Ir para festas recheadas de bebidas já não parecia mais ser tão interessante assim. Não depois de ter experimentado ir ao teatro para assistir a uma peça infantil. Nem mesmo os filhos pestinhas do meu chefe não pareciam mais tão irritantes assim. Eu nem me importava mais com o fato deles invadirem minha sala para mexer nas minhas coisas.

— Jaekyung e Jaehyun saiam imediatamente da sala do NamJoon. – Meu chefe repreende seus filhos, assim que entra em minha sala.

As duas crianças brincavam de pique-pega e corriam pela sala aos gritos. Eu nem tinha me dado ao trabalho de gritar com aqueles dois, como eu faria se fosse algum tempo atrás. Ignorando a presença do casal de irmãos, eu continuava a editar o livro de um dos autores da empresa.

— Mas papai, o tio Nam nem se importa. – Argumenta Jaekyung, apontando para mim.

— Ele se importa sim, filha. – Garante meu chefe, enquanto pega Jaehyun, o caçula, no colo. – Venha. Vamos almoçar.

— Está bem. – Concorda a garota, á contragosto.

— Desculpa por isso, NamJoon. – Lamenta meu chefe, sorrindo envergonhado.

— Está tudo bem, Sr. Choi. Eles são apenas crianças. É normal que eles queiram brincar. – Respondo, sorrindo cansado para meu chefe, que não parece acreditar em minha resposta.

— Certo. – Fala, ainda meio atordoado com o meu comportamento. – Por que não vai almoçar? Você já adiantou bastante a edição do livro do professor. Acho que merece um descanso.

— Eu não estou com fome agora. Vou continuar editando aqui por mais um tempo e depois eu como alguma coisa. – Digo, voltando a me concentrar na edição do livro. Meu chefe me encara com repreensão, mas logo suspira, dando-se por vencido. – Obrigado.

Meu chefe deixa a sala e finalmente estou sozinho. Me atolar de trabalho também havia sido um hábito que adquiri nesse último mês. Eu apenas não queria ficar com a mente vazia e pensar em SeokJin. Eu me recusava a aceitar que realmente havia me apaixonado em uma noite. Então era muito mais fácil ocupar a minha cabeça com trabalho ao invés de ficar me martirizando com as belas, mas dolorosas lembranças de SeokJin.

De repente, a porta de minha sala é escancarada sem piedade. Nem me dou ao trabalho de olhar para a entrada, pois sabia que se tratava de Taehyung, Hoseok, JungKook e Jimin invadindo minha sala. Eles eram as únicas pessoas que tinham coragem de fazer isso, por isso, continuo a trabalhar como se nada tivesse acontecido.

— Kim NamJoon, saia desse computador agora e vamos almoçar. – Exige Taehyung, cruzando os braços.

Eu trabalho com Hoseok, Jimin e JungKook em uma editora de livros em Seul. Foi assim que eu conheci os meus três melhores amigos e Taehyung acabou se apaixonando pelo Jung. Conhecendo-os bem como conheço, no mínimo eles haviam ouvido nosso chefe comentar sobre eu ter me recusado a almoçar e abriram a boca para meu irmão mais novo, que, por trabalhar perto, veio correndo para me arrastar para algum restaurante.

— Eu estou ocupado, Taehyung. – Informo, entediado.

— Eu não ligo! Ou você sai desse computador e vem almoçar ou eu vou aí e desligo ele à força. Você que escolhe. – Ameaça, fazendo Jimin, JungKook e Hoseok rirem.

— Você é irritante. – Afirmo, frustrado, enquanto salvo o arquivo que eu havia editado.

— Ainda bem que você sabe. – Responde Taehyung, abrindo um grande sorriso, satisfeito por sua ameaça ter dado certo.

— Traidores. – Acuso meus amigos, enquanto minhas coisas e saio da sala, com eles logo atrás.

— Foi a única forma que achamos de fazer você ir comer. – JungKook tenta se defender, sorrindo sem graça.

— Nós estamos preocupados com você, Nam. – Explica Jimin, apertando o botão do elevador para irmos para o térreo.

— Eu já disse que estou bem. Não precisam se preocupar. – Insisto, suspirando.

— Não. Você não está bem. – Garante Hoseok, dando um soco de leve em meu ombro, assim que entramos no elevador. – Nós te conhecemos bem o suficiente para saber que você está longe de estar bem.

— Por que não liga de uma vez por todas para o SeokJin e o chama para sair? – Questiona Taehyung, franzindo a testa, nitidamente confuso.

— Nós não íamos almoçar? – Pergunto, fugindo do assunto. Por sorte, o elevador chega ao térreo e eu sou o primeiro a sair.

— Se você não quer falar sobre isso, tudo bem. Mas será que dá para pelo menos cuidar da sua saúde? – Taehyung segura minha mão, impedindo que eu continuasse a andar. Ele me encara com seriedade e preocupação. – Por favor.

— Tudo bem, irmãozinho. Desculpa te deixar preocupado. – Respondo, dando-me por vencido. Ele suspira aliviado e me abraça.

— Vamos almoçar! – Celebra Hoseok, batendo palmas, animado. – Sunyoung nos indicou um restaurante de comida tradicional. Por que não vamos até lá?

— É uma boa ideia. – Concorda Jimin, sorrindo. – Alguém lembra o nome do lugar? Eu lembro que é no centro da cidade.

— Hangug-ui Kkum – Responde JungKook, sorrindo levemente.

— Isso! Vamos lá! – Exclama Jimin, animado.

Eu realmente não me importava com o local onde iriamos, mas meus amigos possuem um grande vício de procurar lugares novos para comer. E por saber disso, o pessoal da empresa estava sempre recomendando restaurantes diferentes para Jimin e Hoseok. Então, sem muitas alternativas, acabo sendo arrastado para o centro da cidade por meu irmão e amigos.

Ao chegar em frente ao restaurante, noto que o lugar estava relativamente cheio. Não foi fácil encontrar uma mesa para nós, mas assim que nos sentamos, minha boca começa a salivar com o aroma que vinha das mesas vizinhas. A comida parecia ser realmente boa.

O atendimento dos funcionários era excelente. Não demoramos a ser atendidos e os nossos pedidos ficaram prontos muito rápido, ainda que o lugar estivesse bem agitado. A comida era tão deliciosa que nós não nos contentamos em comer apenas uma vez. Tivemos que pedir mais carne de porco e acompanhamentos.

E enquanto eu saboreava a comida, vejo sair da cozinha Kim SeokJin. Ele usava um típico uniforme de cozinheiro e cumprimentava os clientes que acenavam para ele. Um homem loiro e baixo que estava no caixa o chama e não demora para que SeokJin se aproximasse dele.

Observo os dois conversarem com atenção. Meus amigos, curiosos para saber o que era tão importante para me fazer parar de comer para ficar encarando com tanta intensidade, viram-se para o mesmo lugar que eu olhava e se surpreendem tanto quanto eu.

— Não acredito! – Exclama Taehyung, animado. – SeokJin trabalha aqui.

— Isso explica muita coisa. – Digo, pegando um guardanapo para limpar a boca. – A comida dele é muito boa.

— Com licença, senhor. – Taehyung chama um garçom e eu logo me preparo para interferir. Eu sentia que meu irmão iria aprontar alguma coisa.

— Desejam mais alguma coisa? – Pergunta o garçom com um sorriso gentil, aproximando-se de nós.

— Por acaso, aquele rapaz de roupa branca é o cozinheiro chefe desse restaurante? – Questiona meu irmão, dando um falso sorriso inocente.

— Sim, senhor. Kim SeokJin é o principal responsável pelo preparo da comida do restaurante. – Concorda o garçom, encarando SeokJin.

— Mesmo? Será que poderia chama-lo até aqui? A comida está tão gostosa que queríamos o parabenizar. – Pede Taehyung, sorrindo animado.

— Taehyung. – Repreendo meu irmão e ele apenas chuta minha perna e me ignora. – Ai!

— Claro. Só um instante, senhores. – O garçom faz uma breve reverência e vai de encontro a SeokJin. Quando o cozinheiro se vira para nós, é nítido o seu susto.

O homem loiro parece perguntar se havia algo de errado e SeokJin apenas nega e fala mais alguma coisa que faz com que o rapaz do caixa nos encare surpreso. Os dois trocam mais algumas palavras e, depois de uma rápida discussão, eles se aproximam de nós com sorrisos nervosos.

— Kim NamJoon e seus amigos. Que surpresa encontrar vocês por aqui. – Cumprimenta SeokJin, assim que chega a nossa mesa. Ele parece nervoso e evita fazer contato visual comigo. – Esse aqui é o dono do restaurante, meu chefe e meu melhor amigo, Min Yoongi.

— Olá a todos. Obrigado por terem vindo. – Yoongi nos cumprimenta com um sorriso discreto. Ele me encara intensamente e parece me analisar. Acabo ficando ainda mais nervoso.

— Nós é que agradecemos por ter aberto um restaurante tão incrível! – Afirma Taehyung, fazendo com que SeokJin e Yoongi o encarassem. Suspiro aliviado. – Eu sou Kim Taehyung, irmão mais novo do NamJoon. Esses são Hoseok, meu namorado, Park Jimin e Jeon JungKook, nossos amigos. A comida estava maravilhosa, SeokJin. Parabéns!

— É verdade! Eu nunca comi um soondae guk tão delicioso quanto esse. – Concorda Jimin, com um grande sorriso.

— Estava tão suculento, que tivemos que repetir o pedido. – Comenta Hoseok, animado.

— Obrigado. – Agradece SeokJin, envergonhado.

— Nós com certeza voltaremos mais vezes. – Afirma JungKook, limpando a boca em seguida.

— E você, NamJoon? O que achou da comida do Jin? – Pergunta Yoongi para mim e novamente sinto que estou sob pressão.

— Yoongi! – Jin o repreende, envergonhado.

— A melhor comida que já comi em minha vida. – Respondo com sinceridade. SeokJin me encara surpreso e sorri envergonhado. Nossos olhos se encontram finalmente. Meu coração bate acelerado. Sinto vontade de abraça-lo e beijá-lo, na tentativa de fazer desaparecer um pouco da saudade que eu sentia. – Você com certeza é o melhor.

— Obrigado. – Sussurra SeokJin, sorrindo docemente.

E, aos meus olhos, ele não poderia ser mais encantador do que naquele momento. Seus olhos brilhavam tão intensamente quanto estrelas. Eu realmente queria me aproximar mais dele, sentir seu cheiro. Parecia que agora que havíamos nos encontrado, a saudade estava ainda mais intensa. Eu queria ver os meninos. Queria ouvir suas vozes animadas, sugerindo brincadeiras que com certeza me dariam dores nas costas no dia seguinte.

Nossos olhos continuavam conectados de maneira intensa, enquanto o tempo ao nosso redor parecia ter parado e eu não tinha o mínimo desejo de cortar aquele momento. Eu havia suportado trinta e oito dias sem aqueles olhos misteriosos me causando embrulhos no estômago e a ansiedade de saber o que se passava em sua mente.

Mas nosso momento é cortado por Taehyung que pigarreia alto, chamando nossa atenção. Suspiro, dando um sorriso falso e olho para meu irmão, tentando entender o motivo dele nos atrapalhar. Taehyung revira os olhos e sorri simpático para SeokJin, que nos encarava confuso.

— SeokJin, desculpe a pergunta, mas você trabalha todos os dias? – Pergunta Taehyung, gentil até demais.

— Não. Somente de segunda a sábado. Nós fechamos o restaurante aos domingos. – Responde SeokJin, pensativo. – Por quê?

— Isso é ótimo! Amanhã é aniversário do JungKook e nós vamos comemorar no parque com um piquenique no domingo. – Fala meu irmão, deixando todos confusos.

— Nós vamos? – Pergunta Hoseok, expondo nossa clara falta de conhecimento do evento. – Eu pensei que a gente fosse naquela boate famosa e...

— Sim. Nós vamos ao parque. – Taehyung afirma com os olhos levemente arregalados, enquanto dá um beliscão em Hoseok.

— Ah, é mesmo. Nós vamos ao parque. – Responde meu cunhado, com a voz fraca pela dor do beliscão e rindo nervoso.

Yoongi nos encara desconfiado e logo começa a ri discretamente. SeokJin continuava confuso e tanto meus amigos quanto eu, apenas sorriamos amarelo, deixando que Taehyung cuidasse da situação. Ele provavelmente estava armando alguma coisa e o melhor a fazer era seguir o fluxo da conversa.

— Enfim, o fato é que queremos saber se você não quer ir com os trigêmeos até lá. – Meu irmão o encara quase como se implorasse para que SeokJin fosse.

— Ah, eu não sei. Não quero atrapalhar a festa de vocês. – Responde SeokJin, parecendo inseguro quanto a oferta, enquanto me encara receoso. Eu estava ocupado demais, admirando sua beleza.

Taehyung me dá um segundo chute e sorri mandão. Preciso fazer um grande esforço para não gritar de dor. Eu o encaro confuso, tentando entender o que se passava na mente doente de meu irmão mais novo. Ele acena com a cabeça na direção de SeokJin e finalmente compreendo o que ele quer que eu faça. Limpo minha garganta e sorrio sem graça.

— Vocês jamais atrapalhariam. – Afirmo com sinceridade. – Além disso, eu sinto falta dos meninos. Seria bom matar um pouco da saudade que sinto de vocês. Vão a festa. Por favor.

Todos me encaram surpreso. Eu também não acreditava que aquelas palavras haviam saído com tanta naturalidade. Era como se eu sentisse que eu precisava ser sincero e direto com Jin. Eu já estava cansado de reprimir meus sentimentos. Talvez, essa festa fosse a chance que eu desejava, secretamente, para revelar meus sentimentos.

— Nós iremos. – Informa Yoongi por SeokJin.

— Nós? – Pergunta SeokJin, enquanto encara o amigo com ironia.

— Sim. Nós. Eu vou também. Quem você acha que vai ficar com os trigêmeos enquanto você sai para namorar pelo parque com o NamJoon? Eles não ficam com desconhecidos. Você sabe disso. Então, o melhor amigo e padrinho do mundo vai para te ajudar. – Responde Yoongi e no mesmo instante o rosto de SeokJin se torna um pimentão. Eu também não consigo evitar o rubro em minhas bochechas com a afirmação do melhor amigo de Jin. – De nada.

— Yoongi! Cala a boca! – SeokJin repreende o amigo, visivelmente nervoso.

— O quê? Está na cara que vocês se gostam e estão doidos para se pegar. Eu só estou facilitando as coisas. Veja, até mesmo os amigos dele estão dando jeito disso acontecer. – Afirma Yoongi, apontando para meus amigos, que riem e balançam a cabeça, concordando.

— Isso é verdade. – Concorda Hoseok, dando de ombros.

— Ótimo! Então nós nos encontramos domingo, no parque, às oito horas da manhã. – Fala Taehyung, batendo palmas animado.

— Domingo, às oito. – Responde SeokJin, encarando-me intensamente.

— Domingo, às oito. – Repito, correspondendo ao olhar.

Eu estava ansioso para que domingo chegasse de uma vez. Poder ver os meninos e ainda ter uma chance de ficar com SeokJin era tudo o que eu mais desejava. Com sorrisos cúmplices, nossos amigos comemoram discretamente. Assim como eu, todos estavam cansados dessa situação, que precisava de um desfecho definitivo e eu faria isso.