Lar

5 Cinco


CINCO

Domingo, 23 de julho de 2017 – 08h00min

Acordo assustado com o som de um estridente despertador. Levo minha mão para o lugar de onde vinha o barulho, apalpando tudo que estava ao meu lado e acabo por bater no aparelho, interrompendo o som. Suspiro, aliviado, e levanto minha cabeça, tentando encontrar alguma dica que me dissesse onde eu estava.

Eu estava sem roupa alguma, coberto por um edredom cinza com detalhes pretos. Viro-me de barriga para cima e encaro o teto branco. Ao meu lado direito, havia um porta-retratos com uma foto tendo SeokJin, Manse, Daehan e Minguk. De repente, as lembranças da noite anterior retornam a minha mente e eu não consigo evitar que um sorriso se forme em meus lábios.

Procuro por SeokJin, mas ele não estava em lugar algum do quarto. Encontro minhas roupas dobradas ao meu lado, junto com minha carteira, chaves do carro e meu celular. Visto-me rapidamente, guardo minhas coisas nos bolsos da calça e saio do quarto.

Imediatamente, o delicioso cheiro de comida sendo preparada chega ao meu nariz. Meu estomago se revira. Eu estava morrendo de fome. Curioso, caminho pela casa até chegar a cozinha onde estão SeokJin e Minguk.

— Tio NamJoon! – Exclama Minguk, animado. Ele desce de sua cadeira e corre em minha direção. Fico de joelho para ficar em sua altura e sinto seus delicados bracinhos rodearem meu pescoço em um caloroso abraço. – Bom dia! Você dormiu com o papai? Por isso ele não deixou que eu entrasse no quarto dele?

SeokJin se engasga com o comentário do filho, enquanto eu não sabia bem o que responder. Minguk me encarava com inocência e curiosidade. Como eu deveria explicar para uma criança de seis anos que eu tinha transado com o pai dele em diversas posições a noite inteira?

— Sim. Seu pai e eu ficamos brincando e como eu estava cansado, ele pediu para que você não entrasse para não me acordar. – Respondo, com o sorriso mais sem graça do mundo. De certa forma, eu não estava mentindo. Eu apenas não havia especificado que tipo de brincadeiras nós tivemos. SeokJin ri discretamente, parecendo pensar o mesmo que eu.

— Mas... – Minguk parece suspeita de minha justificativa, mas antes que tivesse a chance de questionar qualquer coisa, ele é interrompido pela entrada escandalosa de seus irmãos na cozinha.

— Tio NamJoon! – Gritam Manse e Daehan ao me ver. – Bom dia!

— Ei, oi! – Cumprimento, sendo abraçado pelos outros dois garotinhos, enquanto sorria por vê-los tão animados ao me ver.

Se fossem outras crianças me abraçando, eu provavelmente os empurraria para longe, mas Manse, Minguk e Daehan são exceções. As únicas crianças que são boazinhas, inteligentes e amáveis do mundo inteiro. Seus olhos brilhando como os de cachorrinhos ao verem seus donos são tão encantadores que é impossível eu não gostar deles.

Coloco Minguk no chão e cumprimento aos três com afagos no topo de suas cabeças. Jin continuava a fazer o café da manhã, sorrindo com carinho para a cena que acontecia ao seu lado. Afasto-me das crianças e me aproximo dele, dando um beijo em sua testa.

Minha atitude o surpreende ao ponto de deixá-lo paralisado. Ele para de mexer a massa que havia na bacia que segurava e me encara com os olhos arregalados. Viro-me brevemente para trás, encontrando os olhos curiosos dos trigêmeos. Aponto para longe, como se tivesse visto a coisa mais surpreendente do mundo, e assim que eles se viram, aproveito a chance para beijar os lábios de SeokJin. Ele corresponde ao rápido beijo e ri, divertindo-se com minha palhaçada.

— Bom dia. – Cumprimento, arrumando sua franja que estava bagunçada.

— Bom dia. – Responde, dando um beijo em minha bochecha. – Sente-se. Eu já estou terminando o café. Espero que goste de panquecas.

— Parece ótimo. – Concordo, afastando-me de SeokJin para que ele terminasse de preparar o lanche para nós.

Enquanto o dono da casa terminava de preparar a refeição, as crianças e eu brincávamos com alguns carrinhos que eles haviam trago para a mesa. Como uma família, nós riamos e aproveitávamos aquele momento só nosso. Eu não sabia o que eu estava fazendo e nem o porquê de estar fazendo isso, mas eu me sentia tão acolhido e familiarizado com aquele ambiente, que a última coisa que eu queria fazer era ir embora.

Após o café da manhã, Jin e eu brincamos mais um pouco com as crianças e passeamos pelo parquinho que havia em frente ao prédio deles. Eu sentia a constante necessidade de tocar em SeokJin e sentir que ele estava ao meu lado. Era estranho, assustador e confortável ter nossas mãos entrelaçadas.

No almoço, tive a felicidade de experimentar a comida de SeokJin. Eu nunca havia comido nada tão saboroso quanto os pratos que havia feito. Minha mãe com certeza me mataria se soubesse que eu achava a comida dele ainda melhor que a dela.

Quando enfim anoiteceu, eu fui obrigado a me despedir. Eu precisava voltar para casa e minha família deveria estar a ponto de querer me matar pela demora em voltar para casa, principalmente, Taehyung que provavelmente estaria se remoendo de curiosidade. Eu havia feito questão de mandar uma mensagem avisando que eu só chegaria à noite e desligar o celular.

A despedida foi bastante complicada. Os garotos não queriam que eu fosse embora e choraram bastante. Eu também não queria ir embora e vê-los sofrer daquele jeito me partiu o coração. Outra questão complicada foi me despedir de SeokJin.

— Obrigado por tudo. – Agradece SeokJin, sorrindo fracamente. – Bom, foi o encontro mais longo que eu já tive. – Brinca, rindo baixo. – Até quem sabe algum dia.

E ele me beija mais uma vez. Uma despedida digna de Kim NamJoon, o rapaz que pega e não se apega a ninguém. Uma noite de sexo intenso e um adeus sem dramas. Tudo o que eu sempre faço quando vou a festas. Mas, por que eu não me sentia bem com isso?

SeokJin se afasta e, com um sorriso gentil, ele vai embora, como se aquele fosse o nosso adeus. Vou para casa, sentindo um grande aperto em meu peito e repassando em minha mente as cenas de nossa despedida. E assim, desanimado, estaciono o carro em frente a minha casa e entro, encontrando meus pais e meus amigos na sala.

— Onde você estava, garoto? – Questiona minha mãe, furiosa. – Você tem noção de quantas vezes eu te liguei?

— Desculpa, mãe. Eu estava na casa de um amigo e o celular descarregou. – Respondo, dando um beijo em sua testa. Encaro-a por alguns instantes e logo volto a abraça-la com força. – Eu te amo, mãe. Muito. Muito mesmo. Nunca se esqueça disso.

— O que deu em você? – Pergunta a mulher, encarando-me assustada. – Você por acaso aprontou alguma coisa?

— Não. – Nego, rindo. – Eu apenas senti vontade de dizer que eu te amo. Sinto muito por não dizer com frequência.

— Sei. – Ela me encara desconfiada, mas ao ver que eu estava sendo sincero, ela relaxa o corpo e me abraça, mais relaxada. – Eu também te amo, meu garoto levado.

Separo-me de minha mãe e me viro para meu pai. Todos estavam surpresos e confusos com a minha atitude. Eu estava longe de ser uma pessoa amorosa. Assim como minha mãe, eu evitava abraços e contatos pessoas, então eu não os culpava por não acreditarem em mim. Mas, depois de ouvir as histórias de SeokJin, eu sentia que devia me tornar alguém mais carinhoso com eles.

— Eu te amo, pai. – Declaro, abraçando o mais velho. Ele corresponde ao gesto de imediato. Diferente dos ogros da família – vulgo, Kim NamJoon e Kim Nana -, meu pai e Taehyung são bastante adeptos a abraços e demonstrações de carinho.

— Eu também te amo, filhão. – Afirma meu pai, dando tapinhas em minhas costas. – Eu não sei quem é esse seu amigo, mas depois tenho que o conhecer e agradecer pelo que quer que ele tenha feito com você, para te deixar assim tão emotivo. Eu não ouço essas três palavras vindas de você desde que eu te dei seu carro.

— Desculpa por isso. – Lamento, sorrindo envergonhado.

— Tudo bem, filhão. – Responde meu pai, rindo. – Bom, agora que você chegou, sua mãe e eu vamos ir visitar alguns amigos. Comportem-se vocês dois!

— Tchau pai. Tchau mãe. – Despede-se Taehyung, acenando para nossos pais.

— Tchau querido. Quando eu voltar, eu quero minha casa limpa e inteira. – Avisa minha mãe com um tom ameaçador em sua voz. Taehyung e eu levantamos nossos braços e batemos continência, costume que tínhamos desde que éramos crianças.

Meus pais saem de casa e finalmente posso observar meus amigos com atenção. Todos me encaravam ansiosos e curiosos, com exceção de meu irmão mais novo, que havia cruzado os braços, com um olhar furioso em minha direção. Ele realmente estava chateado.

— Tae...

— Não começa! Não amo você, seu traidor! – Declara, fazendo um grande bico em seus lábios, assim como uma criança. – Eu pedi para você chegar cedo e o que você faz? Chega as nove horas da noite do dia seguinte como se nada tivesse acontecido!

— Desculpa, Tae. Mas é que eu fiquei brincando com as crianças e...

— Você o quê? – Questiona Taehyung, rindo com ironia. – Você só pode está de brincadeira comigo.

— Qual o motivo da surpresa? – Pergunto, um pouco irritado.

— Bem, NamJoon, você não pode nos culpar. Você sempre deixou claro que odeia crianças e da noite para o dia, você volta com essa informação que estava brincando com elas. – Explica Jimin, dando razão ao meu irmão.

— Manse, Daehan e Minguk são crianças adoráveis. Eu fiquei tão concentrado, brincando com eles, que nem mesmo percebi que o tempo havia passado. – Conto aos meus amigos, sem disfarçar meu orgulho por aquelas crianças.

— Você só pode ter enlouquecido. – Afirma Taehyung em descrença. – Agora só falta me dizer que você e SeokJin não transaram.

— Nós transamos. – Respondo, sorrindo bobamente ao lembrar da noite que tivemos.

— Oh, Graças a Deus! – Comemora Taehyung, soltando um longo suspiro. Suas ações exageradas fazem com que Jimin, Hoseok e JungKook gargalhassem. – Já estava ficando preocupado.

— Mas eu confesso que não teria me importado se não tivéssemos transado. Na verdade, a gente só transou, porque foi o Jin que me provocou. Eu estava preocupado que as crianças acordassem no meio da noite e nos pegasse transando. Seria muito traumatizante para eles. – Todos me encaram sem acreditar em minhas palavras.

— Brincar com crianças, ficar até o anoitecer com um ficante, não se importar se transam ou não...Eu já nem te reconheço mais. – Dramatiza Taehyung. Reviro meus olhos e me sento uma cadeira qualquer na sala. – Meu irmão não é assim. Quem é você e o que fez com ele?

— Já acabou o drama? – Pergunto, revirando os olhos mais uma vez. Taehyung dá de ombros e me encara meio chateado. – Ótimo. Agora posso contar o que aconteceu?

— Conte! Eu estou morrendo de curiosidade. Quero saber o que aconteceu de tão incrível para você voltar tão diferente. – Responde Jimin, encostando a cabeça no peito de JungKook.

— Parece que isso vai ser bem interessante. – Comenta Hoseok, observando-me com atenção. O mais novo de nós balança a cabeça concordando e Taehyung dá de ombros, indiferente.

— Não me levem a mal. Eu ainda odeio crianças. Ainda sou o cara que não quer ter nenhum tipo de compromisso. Enfim, eu ainda sou eu. – Começo, olhando diretamente para o meu irmão. – Na verdade, aquela família é muito especial. Manse, Daehan e Minguk não são filhos do Jin. São os irmãos mais novos dele.

— Como assim? – Questiona JungKook, surpreso. Jimin e Hoseok abrem as bocas, sem acreditar em minhas palavras. Já Taehyung, ajeitou sua postura e passa a me encarar com interesse.

— Eu também fiquei assim quando soube. – Afirmo, relembrando do momento em que SeokJin me contou sobre sua família. – Sete dias depois dos trigêmeos terem nascido, eles e a mãe saíram do hospital. Os bebês foram no carro do Jin, enquanto a mãe foi com o pai do Jin. Em um infeliz acidente, eles acabaram morrendo e, sendo o parente mais próximo maior de idade, Jin ganhou a guardar das crianças e criou eles sozinho.

— Nossa. Criar três crianças sozinho deve ter sido muito difícil. – Comenta Taehyung, pensativo.

— Sim. – Concordo, suspirando. – Eu me imaginei no lugar dele e percebi que nunca seria tão forte quanto ele para aguentar uma situação como essa. Mas ele fez um trabalho tão bom cuidando deles. Aquelas crianças são amáveis, que é impossível não gostar delas. Eles não se importam que eles não tenham mãe. Mesmo sendo tão jovens, eles preferem valorizar as pessoas que estão em suas vidas.

— E foi ao perceber o quão incrível é aquela família que você se sentiu mal por apenas querer transar com o SeokJin. – Supõe Hoseok, encarando-me com compreensão.

— Isso. – Digo, encostando minha nuca no encosto da cadeira. Passo a encarar o teto da minha sala e novamente cenas de SeokJin e dos meninos voltam a minha mente.

— E o que você vai fazer agora, NamJoon? – Pergunta JungKook, observando-me com atenção.

— Eu não sei. – Confesso, suspirado. – Jin se despediu de mim como se nunca mais fossemos nos encontrar. Sem dramas, choros ou qualquer promessa de um futuro juntos, ele me disse “adeus” e não um “até logo”.

— Mas não era isso que você queria no início? Transar com ele e ir embora no dia seguinte para nunca mais volta. – Questiona Jimin, pensativo.

— Era. – Concordo com o Park. – Mas agora eu já não sei mais o que eu quero. Eu sei que aquela família merece alguém melhor do que eu, mas não consigo parar de pensar nos meus momentos com eles. É tão estranho e assustador. Eu nunca me senti assim. Eu nunca quis tanto em minha vida pertencer a um lugar. Eu tive a melhor transa da minha vida com o Jin. Foi diferente, especial. Eu estou tão confuso. Eu nem mesmo sei o que eu estou sentindo.

— Sinto te informar, Nam, mas você se apaixonou por SeokJin e seus filhos. – Revela Taehyung, sorrindo fracamente, provavelmente, comovido com a minha tristeza.

Olho para ele e meus outros amigos, assustado. Não podia ser verdade, certo? Ninguém se apaixona tão rápido assim, certo? Mas, por que eu sinto como se meu coração doer somente em pensar que eu nunca mais vou vê-los? Sem me despedir, eu me levanto e vou para meu quarto. Tudo o que eu precisava no momento era de um bom banho e um tempo sozinho para pensar.