Lapsus

7 PONTEIRO DE DIAMANTE



O apartamento de Marcos cheirava a café fresco e silêncio, uma calmaria que parecia contrastar com a eletricidade que ainda corria sob sua pele. Ele respirou fundo, encostando a cabeça no estofado do sofá largo, enquanto mantinha os olhos fixos no teto. Em sua mente, um frame específico insistia em se repetir em loop: o sorriso de Laura. Havia algo magnético e perturbador naquela expressão. Ele havia quebrado o relógio dela no corredor. Um esbarrão estúpido, um acidente que agora operava como uma obsessão. Ele precisava comprar um novo. Mas não um qualquer.

No fundo, uma intuição incômoda sussurrava que aquela mulher não era uma engrenagem comum no sistema. Ela era a chefe de programação da LatruX, a gigante tecnológica que o contrata há apenas um ano. Marcos olhou para as próprias mãos, ainda vestindo o terno alinhado do expediente.

— Gerente... — murmurou para as paredes vazias, testando o peso da palavra.

Não era exatamente o topo do mundo, mas era o início do arco que ele sempre desenhara para si mesmo. Trabalhar na LatruX já parecia um sonho lúcido; saber que Laura dividia o mesmo oxigênio corporativo transformava a realidade em algo perigosamente perfeito.

Um sobressalto de urgência o arrancou do sofá. Trinta minutos depois, o motor do carro roncava baixo na guia de uma rua arborizada, no coração de um bairro antigo. Do outro lado do vidro fumê, a fachada de uma relojoaria artesanal exibia vitrines que pareciam caixas de música congeladas no tempo. Pendurados, dezenas de mostradores analógicos repousavam como sentinelas de bronze e madeira.

Marcos empurrou a porta de vidro. O badalar de um carrilhão anunciou sua entrada. O ambiente tinha a densidade de um museu e a assepsia de um laboratório. Atrás do balcão de vidro polido, uma única funcionária o observava. Ela tinha cabelos grisalhos cortados com precisão e olhos excessivamente lúcidos, que ostentavam um sorriso de canto a canto — acolhedor, mas cirúrgico.

— Pois não? — A voz dela era baixa, sintonizada com o tique-taque percussivo que preenchia o ar.

— Boa noite — Marcos limpou a garganta, subitamente consciente do próprio nervosismo. — Estou procurando um relógio de parede.

A mulher fez um gesto fluido com a mão esquerda, apontando para a parede de carvalho onde os mecanismos repousavam.

— Temos estes modelos à mostra. Algum formato específico em mente?

Marcos deu dois passos à frente. Ele ergueu os olhos para os mostradores e, instantaneamente, a sala pareceu perder o oxigênio. O som. Não era um tique-taque comum; era uma pulsação em uníssono, dezenas de engrenagens batendo como martelos diretamente contra o seu osso temporal. O ritmo acelerou na sua cabeça, ecoando a estática que ele sentira no corredor com Laura. O mundo ao redor desbotou.

— Senhor? — A voz da vendedora parecia vir de debaixo d'água. Marcos continuou estático, as pupilas dilatadas diante de um mostrador circular. — SENHOR?!

O chamado definitivo o puxou de volta à superfície em um solavanco. Marcos piscou, o suor frio brotando na nuca.

— Oh... me desculpe. Eu me distraí.

— Tudo bem — a mulher respondeu, mas seus olhos o analisavam com uma curiosidade quase clínica, como se soubesse exatamente onde ele estivera durante aqueles segundos de ausência.

— Eu preciso do modelo mais bonito que você tiver aqui — Marcos tentou recompor a postura, forçando um sorriso. — É um presente para alguém muito especial. Alguém que acabei de conhecer.

A vendedora inclinou levemente a cabeça, o sorriso de canto se acentuando. — Ora, deixe-me adivinhar... É uma mulher.

Marcos soltou uma risada curta, impressionado. — Como sabe?

— O senhor entrou flutuando por aquela porta, e agora está praticamente flertando com um mostrador de madeira — a mulher comentou, com uma leveza cinematográfica que parecia ensaiada há séculos. — A menos que o senhor seja um colecionador excêntrico fascinado pela passagem dos minutos, isso que vejo nos seus olhos é o diagnóstico clássico de uma paixão.

— É tão óbvio assim? — Marcos passou a mão pelo rosto. — Sei que um relógio de parede não é exatamente o presente mais romântico do mundo, mas eu quebrei o dela hoje cedo. Preciso que isso seja um pedido de desculpas à altura do prejuízo.

— É aí que o senhor se engana — a mulher rebateu, apoiando os cotovelos no balcão de vidro, aproximando-se dele com uma seriedade quase mística. — Por mais clichê que pareça o que vou lhe dizer, os objetos são vazios até que a intenção os preencha.

Marcos desviou o olhar para a parede de carvalho e o coração deu um nó. Lá estava ele. Um relógio circular, com moldura escura e ponteiros finos, idêntico ao que se espatifara no chão da LatruX.

— Aquele ali — Marcos apontou. — É exatamente igual.

— Uma escolha cirúrgica. É um modelo clássico, mecânico — ela disse, retirando o objeto do gancho com movimentos lentos, quase solenes.

— Eu só não entendo essa obsessão dela — Marcos comentou, enquanto a mulher inspecionava o vidro do mostrador. — Aquele que eu destruí decorava o escritório dela na empresa, mas me disseram que ela tem outros espalhados. Quase como uma coleção particular de paredes vazias.

A vendedora parou o movimento. Ela olhou para o relógio em suas mãos e depois diretamente nos olhos de Marcos. A atmosfera na loja pareceu congelar, o tique-taque ambiente assumindo o papel de uma trilha sonora de suspense.

— Sabe, jovem... os relógios não são apenas objetos de decoração — ela disse, a voz caindo para um tom confidencial, denso de subtexto. — Eles têm uma função muito mais violenta. Eles servem para nos situar. Para nos forçar a lembrar de onde estamos e, principalmente, para onde estamos indo.

— Visto por esse ângulo, parece que ela enxerga naquelas engrenagens algo além de estética — refletiu Marcos.

— Eu trabalho com o tempo há mais anos do que sua memória consegue alcançar — a mulher continuou, e suas palavras começaram a ecoar no peito de Marcos com o peso de uma revelação. — E acredite em mim: as pessoas não compram mais relógios para saber as horas. Elas têm telas no bolso para isso, telas que se atualizam sozinhas. Elas compram porque, no fundo, o relógio é o espelho mais honesto da nossa condição. Os ponteiros correm incansavelmente para a frente, ignorando o nosso desejo desesperado de pausar o momento ou de voltar atrás. Cada tique-taque é uma escolha que se consome; cada volta completa, um ciclo que se encerra.

Ela estendeu o relógio na direção de Marcos, mas não o entregou imediatamente. Manteve as mãos firmes no objeto, forçando-o a encarar o mostrador branco.

— O senhor pode olhar para este vidro e enxergar apenas metal, rubis e engenharia. Mas a verdade nua e crua é que o relógio não conta as horas... ele conta a nossa finitude. Ele nos lembra que o presente é a única linha tênue e frágil entre o que já virou memória e o que ainda é mistério. Perder a noção do tempo não é apenas um esquecimento, senhor... é se perder de si mesmo. É esquecer quem você foi predestinado para ser.

— Isso foi... assustadoramente profundo para uma relojoaria — ele tentou brincar, mas sua voz saiu fraca, o sorriso desmoronando nos lábios.

— Se essa mulher é o centro da sua gravidade, siga firme — a vendedora suavizou a expressão, entregando o objeto finalmente. — E se ela tem um apego pessoal por relógios, preste atenção neles. Talvez ela esteja apenas tentando não esquecer o caminho de casa.

— Eu vou prestar — Marcos respondeu, sentindo a moldura do relógio fria contra suas palmas.

Ele pagou em silêncio, a mente operando em uma velocidade perigosa. Despediu-se com um aceno mecânico e empurrou a porta da loja.

O badalar do carrilhão de entrada esticou-se no ar. O som não terminou. Ele se distorceu, desacelerando, tornando-se um zumbido grave, digital e ensurdecedor.

Antes que Marcos pudesse pisar na calçada, o cenário ao redor sofreu um colapso visual. A rua arborizada, o carro estacionado e a fachada de madeira da loja simplesmente desmoronaram em um fade out absoluto, a luz sendo sugada para as extremidades de sua visão até restar apenas o preto.

Em um sobressalto violento, Marcos abriu os olhos.

Não havia calçada. Não havia relógio em suas mãos. Ele estava imobilizado em uma cadeira ergonômica, dentro do escritório asséptico de Carlos, sob a luz azulada de monitores industriais. À sua frente, um homem técnico trajando um jaleco escuro manipulava um minicomputador portátil acoplado por cabos a uma interface metálica na base do crânio de Marcos.

— O que é isso, Carlos? O que você está fazendo comigo? — Marcos rugiu, a voz embargada pela paralisia que subia por seu pescoço.

À frente dele, de costas para a mesa de cirurgia digital, Carlos mantinha os olhos fixos na metrópole reluzente além do vidro, a silhueta emoldurada pelo horizonte geométrico da cidade.

— Estamos apenas tentando acessar os metadados do seu player, Marcos. Desculpe pelo desconforto — Carlos respondeu, sem se dar ao trabalho de virar o rosto. — O processo é invasivo, eu sei. Pode ser que algumas memórias residuais venham à tona na sua superfície. Mas este é o único jeito de corrigir a anomalia que você espalhou pelo sistema.

— Essa memória... a relojoaria... — Marcos forçou as palavras, sentindo a própria língua pesada. — Aquilo foi real? Eu realmente quebrei o relógio de Laura? Eu trabalhei na LatruX?

Carlos soltou um suspiro entediado, os ombros subindo e descendo sob o tecido caro do paletó.

— O que é real, Marcos? O que é falso? Essa é uma distinção analógica que perdeu o sentido há décadas. Para os milhões de NPCs que andam naquelas calçadas lá embaixo, este mundo é a única verdade absoluta. Eles nascem, trabalham, morrem e renascem sem jamais desconfiar de que foram programados para executar exatamente as funções que escrevemos em seus códigos-fonte. Tudo corria em harmonia. Até você quebrar o protocolo e dar a eles o pior dos defeitos: a capacidade de sentir de verdade.

— Do que você está falando? Que código? Me solta! — Marcos tentou puxar os braços, mas as braçadeiras de contenção pareciam feitas de gravidade pura.

— Durma de novo, Marcos — Carlos disse, a voz caindo para um tom quase paternal, desprovido de qualquer calor. — Eu prometo que, quando o firmware for atualizado, você não vai lembrar de nada disso. Nem do que você chama de realidade, nem do que julga ser uma mentira. O esquecimento é uma misericórdia.

— Não... de novo não! — Marcos resistiu, os dentes cravados no próprio lábio enquanto tentava manter os olhos abertos. Mas as linhas verdes na tela do terminal piscaram em um padrão de encerramento, e sua consciência afundou no vácuo de uma vez só.

O silêncio tomou a sala, quebrado apenas pelo bipe rítmico do terminal de reescrito.

— Senhor? — o técnico do jaleco escuro chamou, a voz trêmula quebrando a assepsia do ambiente.

— Fale — Carlos ordenou, virando-se finalmente, as sobrancelhas franzidas em sinal de impaciência.

— Eu não consigo... os blocos de dados dele estão bloqueados. Eu fui rejeitado pelo firewall subjacente — o homem engoliu em seco, os dedos batendo freneticamente no teclado mecânico. — Marcos está operando em um nível de privilégio administrativo tão alto ou maior que o seu, senhor.

Carlos estancou no meio da sala, os olhos fixando-se no corpo inerte de Marcos. — Como isso é possível? Quem deu esse acesso a ele? Laura?

— Eu não sei — o técnico admitiu, o suor escorrendo pelas têmporas. — Mas com essa credencial, ele não é mais uma IA errática. Se ele descobrir como usar o acesso, ele pode alterar os parâmetros de toda a simulação. Ele pode reescrever a física do Latruverso.

— Não podemos simplesmente expurgá-lo? Deletar a conta raiz?

— Estou tentando injetar um script de purga, mas o sistema reporta erro de integridade. É... creio que deletá-lo seja impossível sem colapsar a arquitetura inteira. Ele se tornou parte da fundação.

Carlos apertou os punhos, a mandíbula rígida de frustração. — Quanto tempo até o próximo reset global do sistema?

— O relógio de partição já está em contagem regressiva. Não vai demorar.

— Ótimo. Se o mantivermos sedado nesta instância, ele continuará cego para as ferramentas de comando — Carlos ajeitou o sobretudo sobre os ombros, o rosto recuperando a frieza habitual. — Ele não precisa saber do poder que carrega. Vamos isolar as pontas soltas do sistema antes que ele recupere a consciência. Por enquanto, deixe-o aí. Em quarentena.

O técnico deu uma última olhada para o painel de dados que piscava em vermelho e desligou os monitores principais. Seguindo os passos de Carlos, ele cruzou a soleira da porta de metal, deixando o laboratório na penumbra.

Assim que a fechadura eletrônica estalou, trancando o ambiente por fora, a arquitetura da sala começou a sofrer uma mutação arquitetônica severa. As paredes de vidro que davam para a grande São Paulo fecharam-se em placas de metal escuro; o chão de granito polido transformou-se em concreto bruto e úmido, e a cadeira ergonômica moldou-se em uma cama de ferro chumbada ao chão.

O escritório de luxo da LatruX havia se convertido, em segundos, em uma cela de segurança máxima. Isolado do tempo e do espaço, Marcos flutuava no limbo do código, sem saber que sua própria mente era o gatilho da bomba-relógio que estava prestes a explodir o universo.

A atmosfera no vácuo de concreto estava sufocante. O ar parecia pesado de eletricidade estática, e o cheiro de sangue misturava-se ao odor de ozônio de um sistema operando no limite. Kevin permanecia de joelhos, o rosto desfigurado pelos golpes, mas seus olhos ainda sustentavam a fúria contra os três agentes que o cercavam.

— Altere a topografia do setor, Kevin. Desfaça essa parede agora — ordenou o líder dos agentes, a voz desprovida de qualquer modulação emocional humana.

Kevin cuspiu o sangue que se acumulava em sua boca e sorriu, os dentes vermelhos brilhando sob a luz difusa. — Não... vocês não vão encostar suas mãos sujas na Laura.

O líder dos agentes suspirou, um gesto puramente mecânico para demonstrar impaciência. Ele olhou de soslaio para o homem à sua esquerda. — Esqueça a força bruta. Pegue o injetor de dados.

O segundo agente enfiou a mão no paletó e puxou um dispositivo, de liga fosca, idêntico ao terminal portátil que o técnico de Carlos usara na cela de Marcos. Um feixe de laser azul começou a escanear o ar.

Kevin soltou uma risada rouca, desafiadora. — Vocês são idiotas? O meu player possui privilégios que vocês não possuem. Vocês não vão conseguir reescrever os meus parâmetros.

O agente com o dispositivo deu um passo à frente, ajustando a frequência do feixe. — Quem disse que o alvo é o seu player?

Com um toque na tela do aparelho, o agente disparou um comando bruto para o ambiente. O ar atrás de Kevin estalou. O concreto maciço sofreu uma distorção óptica, como se a imagem estivesse sendo rasgada, e uma porta de metal escuro materializou-se no lugar onde antes havia apenas parede.

— Quem conhece a arquitetura do Latruverso e tem os privilégios certos só precisa reinjetar as linhas de código que você deletou — disse o líder, ajeitando as mangas do terno. — A física daqui é maleável para nós também, Kevin. Agora, poupe o nosso tempo: onde está a Laura?

— Por que vocês ainda insistem nessa porcaria de projeto fracassado? — Kevin jogou a cabeça para trás, a voz ecoando pelas paredes frias. — A LatruX abandonou este lugar no limbo dos seus servidores há décadas!

— Nós temos uma diretriz, Kevin. Fomos programados para um propósito: conter o colapso estrutural que o Marcos causa a cada ciclo. E você está atrasando o cronograma — o agente líder deu as costas, caminhando em direção à nova porta. — Se você não vai entregar a localização da Laura, nós faremos uma varredura manual. Vamos caçar cada player ativo nesta simulação. E você sabe muito bem... não restaram muitos de nós acordados.

— Boa sorte na busca — Kevin disse, e sua voz mudou. O desespero deu lugar a uma promessa sombria enquanto ele, ignorando a dor nas costelas, forçou o corpo a ficar de pé, erguendo-se diante dos três homens. — Mas saibam de uma coisa: vocês não têm capacidade para deter o Marcos. Nem vocês, nem o Carlos. Se por um milagre, um único fragmento de memória humana legítima voltar à mente daquele cara... todos vocês viram poeira de código em um segundo.

Os três agentes pararam diante da porta. Eles se viraram devagar, e os sorrisos que exibiram eram gélidos, artificiais.

— Nós nunca vamos deixar ele se lembrar de nada — o líder disse, a voz mansa e venenosa. — É por isso que passamos cada reset apagando os incêndios que ele provoca. E você tem feito exatamente o mesmo, não é, Kevin? Vamos ser honestos... você também não quer que ele lembre. Para você, é muito melhor ter a Laura presa aqui, mesmo que ela seja apenas uma sombra reprogramada que te vê como amigo.

O argumento atingiu Kevin como uma lâmina. Seus olhos se arregalaram, as pupilas contraindo-se com uma mistura de culpa e fúria. — Cala a boca... Cala a boca!

Kevin avançou em um reflexo cego, mas o terceiro agente foi mais rápido. Um soco direto e preciso atingiu o estômago de Kevin, desfazendo sua postura e jogando-o de joelhos novamente, arquejando por ar enquanto a dor o imobilizava no chão.

O líder dos agentes olhou para ele de cima, com um desprezo absoluto. — Vamos exterminar os últimos players deste setor. Quando sobrar apenas a LatruX e os NPCs, este mundo continuará rodando em perfeita simulação. Uma utopia limpa, sem a interferência da falibilidade humana.

Kevin, segurando o abdômen, ergueu o rosto banhado em suor e sangue. Seus olhos brilharam com o orgulho de quem sabia o segredo da criação. — E vocês acham que são o quê? Deuses? Olhem para o peito de vocês! Todos nós que carregamos essa marca... a cruz dentro do círculo... não somos algoritmos nativos. Somos cópias baseadas em seres humanos reais!

Os agentes estancaram, as mãos nas maçanetas.

— Fui eu — Kevin continuou, a voz trêmula, mas carregada de uma autoridade. — Eu era o chefe de engenharia neural da LatruX no mundo real. Eu fui o responsável por mapear as sinapses de vocês. Eu criei os players. Eu sou a razão de vocês estarem aqui lembrando de quem eram lá fora! A mente de vocês não é um código limpo, é o fantasma de quem vocês foram no colapso. A Laura construiu o Latruverso... mas eu criei a alma do projeto! Então não me subestimem!

O silêncio que se seguiu foi denso. Os agentes se entreolharam por um breve segundo, processando a informação de seus próprios arquivos ocultos. Então, o líder quebrou a tensão com um estalo seco da língua.

— Já acabou o monólogo de criador? Temos um cronograma a cumprir.

Ele abriu a porta de metal, revelando um corredor que piscava em luzes de advertência vermelhas.

— Considere uma misericórdia deixarmos você inteiro desta vez, Kevin. Reiniciar o seu player do zero após uma exclusão dá muito trabalho para o sistema, e não queremos que você ressuscite com falhas de registro. Seria um incômodo.

Os três homens atravessaram a soleira. A porta de metal bateu com um estrondo pneumático, e o som da tranca eletrônica ecoou no vácuo.

Kevin desabou de lado no concreto frio, sozinho na penumbra, ouvindo os tiques-taques distantes que começavam a falhar dentro de sua própria mente.

Longe dali a escuridão do limbo não durou. Em um piscar de olhos, o concreto úmido da cela foi tragado por um clarão de luz fluorescente. O teto expandiu, o cheiro de mofo evaporou e Marcos se viu, mais uma vez, imerso na assepsia corporativa da LatruX. Era mais um dia perfeitamente programado na rotina do sistema.

Marcos caminhava pelo corredor segurando um pacote retangular. Seus movimentos eram quase infantis, tentando ocultar o volume atrás das costas sempre que alguém de crachá azul passava. Quando ele dobrou a esquina do setor de desenvolvimento, deu de cara com ela.

Laura parou, os olhos atentos e um caderno de anotações pressionado contra o peito.

— Marcos? — ela chamou, arqueando uma sobrancelha.

— Olha... eu queria pedir desculpas pelo que aconteceu ontem. Por ter quebrado o seu relógio — ele disse, limpando a garganta e dando um passo à frente.

Com um meio sorriso, ele revelou o pacote que escondia e o estendeu na direção dela. Laura observou o embrulho por um segundo antes de aceitá-lo. Ao rasgar o papel, seus olhos brilharam ao ver o mostrador circular com moldura escura.

— Meu Deus... ele é igualzinho. Obrigada, Marcos. De verdade, não precisava — ela disse com um sorriso genuíno no rosto.

— Escuta — Marcos colocou as mãos nos bolsos, tentando manter a voz casual —, você está muito ocupada depois do expediente? O que acha de tomarmos um café?

Laura tombou a cabeça para o lado, sustentando o olhar. — O senhor está me convidando para sair, senhor Marcos?

— É tão óbvio assim?

— As políticas de compliance da LatruX são bem rígidas, sabe? Elas não permitem relacionamentos entre funcionários de setores diferentes.

— Permitem sim, desde que seja fora das dependências da empresa — ele rebateu, rápido. — E, para constar, estou apenas chamando você para um café. É o mínimo que posso fazer depois de ter destruído o seu patrimônio decorativo.

Laura soltou uma risada baixa, recolhendo o relógio contra o peito. — Vou pensar no seu caso, senhor Marcos.

— Por favor, me chame apenas de Marcos.

— Tudo bem. Marcos. Vou pensar no seu caso.

As horas seguintes foram uma tortura de ansiedade. O relógio nas paredes do escritório parecia andar mais devagar de propósito, esticando cada minuto. Para piorar, o dia fora um turbilhão caótico: Carlos o havia chamado em sua sala particular para oficializar sua promoção relâmpago a Executivo-Chefe. O peso do cargo ainda parecia um terno que não servia direito.

No fim da tarde, o cenário mudou para uma cafeteria de estética minimalista a poucas quadras dali. O som da chuva batendo contra a vidraça criava uma bolha de intimidade ao redor da mesa de canto onde os dois se sentavam.

— Espera... promovido a CEO? — Laura indagou, pausando a xícara de porcelana no ar, os olhos arregalados de surpresa.

— Pois é. Digamos que o Carlos não me deu muitas escolhas lá dentro — Marcos respondeu, dando de ombros com um sorriso tímido.

— Sempre temos escolhas, Marcos.

— É... como o fato de você ter aceitado vir aqui me encontrar, mesmo tendo opções muito melhores na cidade.

Laura fixou os olhos nos dele por cima da borda da xícara, sustentando um silêncio denso por alguns segundos. — Você não é exatamente alguém de se jogar fora.

— Pare com isso, senão vou acabar acreditando.

Os dois riram, quebrando a rigidez corporativa que os afastava. Mas, à medida que o riso cessava, o espaço entre eles pareceu diminuir. Os olhares se cruzaram em uma simetria perfeita, e o magnetismo que Laura sentira no vidro da janela operou sua força. O beijo foi inevitável — um toque suave, mas carregado de uma eletricidade que parecia real demais para aquele mundo.

Subitamente, Laura recuou, quebrando o contato e respirando fundo.

— Desculpe — ela disse, desviando o olhar, as bochechas coradas de uma vergonha súbita.

— Não, espera... eu gostei — Marcos pediu, estendendo a mão sobre a mesa, mas sem tocá-la.

— Olha, eu não deveria ter vindo aqui. Me alertaram... me disseram que não era uma boa ideia — ela murmurou, a voz subitamente trêmula.

— Calma. Eu não sou um monstro, Laura.

— Não, não é isso — ela deu um sorriso triste, olhando para as próprias mãos enlaçadas. — Nós trabalhamos no mesmo lugar, Marcos. E a partir de amanhã você é praticamente o segundo dono da LatruX. Eu sou a chefe do setor de programação. Nós não podemos nos envolver desse jeito. O sistema... a estrutura não comporta isso.

— Eu escolhi estar aqui com você hoje, Laura. O que nós somos lá dentro daquela empresa não importa aqui fora. Escuta... me falaram de você também. Sobre a sua obsessão por relógios. Às vezes parece que as pessoas na empresa querem projetar as próprias inseguranças em nós, caçando defeitos onde não tem.

— Nem me fale — ela soltou um suspiro, o sorriso retornando aos poucos.

— Eu pensei: sério? Esse é o único mistério dela? — ele brincou, inclinando-se para frente. — Se for só isso, tudo bem. Eu posso comprar mais relógios para colocar na nossa casa no futuro. Por que não?

Laura parou, a palavra casa ecoando de forma estranha em sua mente. Ela olhou para a janela, observando a chuva escorrer pelo vidro.

— Meu pai era relojoeiro — ela disse, a voz caindo para um tom melancólico e distante. — Ele sempre me dizia que os relógios tinham o poder mecânico de decidir os nossos destinos. Quando o ponteiro está parado, nós perdemos a noção de quem somos no tempo; quando ele está se movendo, ele dita cada escolha, cada segundo do que vamos ou não fazer.

— E onde ele está agora?

— Meu pai morreu quando eu ainda era criança. Minha mãe já tinha partido antes disso, então acabei crescendo com meus avós.

— Eu sinto muito, Laura. Eu não sabia.

— Tudo bem. Já faz muito tempo — ela voltou a olhar para ele, e a vulnerabilidade em seus olhos era cortante. — O fato é que... eu tenho um medo terrível de decepcionar as pessoas que confiam em mim. De falhar com quem espera algo grandioso de mim. Talvez por isso eu tenha tanto medo de me envolver. De deixar alguém entrar.

Marcos segurou o olhar dela, a voz descendo uma oitava, firme e convicta. — O que realmente decepciona as pessoas não é o erro ao tentar, Laura... é o medo que nos impede de tentar.

Laura o encarou, as defesas vacilando diante da frase. Marcos se aproximou lentamente, os lábios quase tocando os dela novamente, buscando restabelecer o circuito.

Mas, no último milímetro, Laura levantou-se abruptamente da cadeira, recolhendo sua bolsa com um movimento tenso.

— Escuta... o café foi ótimo. Obrigada pelo presente. Até amanhã... senhor Marcos.

O retorno súbito do tratamento formal foi como um balde de água fria. Marcos permaneceu sentado, observando-a caminhar apressada em direção à porta da cafeteria e desaparecer na tempestade. Ele entendeu o recado: ela estava fugindo do que sentia, assustada com a força daquela conexão. Mas ele também tomou uma decisão interna: ele não iria desistir dela.

Então, o cenário piscou.

O som da chuva na vidraça da cafeteria foi substituído por um silêncio sepulcral de metal. O cheiro de café evaporou instantaneamente.

Marcos abriu os olhos em um sobressalto, o peito subindo e descendo enquanto puxava o ar seco. Ele não estava na cafeteria. Não havia Laura. Suas costas doíam contra a superfície dura de uma cama de ferro chumbada ao chão. Ao redor dele, as paredes de concreto bruto e a porta de aço blindada da cela de segurança máxima de Carlos erguiam-se como uma barreira intransponível.

A "realidade" do Latruverso havia retornado com toda a sua violência estéril, e a memória da cafeteria era apenas mais um arquivo de dados trancado em sua mente.

Marcos arquejou, o peito batendo contra as grades invisíveis daquela cela de concreto. As palavras do técnico da LatruX ainda ecoavam em suas têmporas: Acesso administrativo. Privilégio de sistema. Se o código respondia à sua consciência, ele não precisava aceitar aquele isolamento.

Ele fechou os olhos. Começou a tatear o concreto frio com as palmas das mãos, não buscando as falhas na pedra, mas os nós no tecido da própria simulação. Concentrou-se na frequência que usava para dobrar a mente dos NPCs, mas, desta vez, projetou-a contra as paredes.

Por um segundo, o ar à sua frente trincou em linhas de estática cinzenta. A cela oscilou, o metal borrou e voltou ao normal.

— Mais uma vez — ele sibilou entre dentes, a tatuagem no peito queimando como brasa viva.

Ele empurrou toda a sua força de vontade contra a estrutura do cenário. O concreto não abriu; ele simplesmente deletou.

O choque foi físico. Marcos cambaleou para frente e o cheiro de mofo foi substituído instantaneamente por fumaça de escapamento e o som estridente de uma buzina. Ele estava no meio da Avenida Paulista. Um sedã preto passou a centímetros de seu corpo, quase colhendo suas pernas. Em um reflexo desesperado, Marcos jogou-se contra a calçada, rolando pelo chão áspero enquanto o motorista gritava impropérios pela janela aberta.

— O que eu fiz? — Marcos murmurou, erguendo o rosto de volta ao fluxo de pedestres.

A cidade continuava correndo, ignorando sua perturbação geométrica. Um homem engravatado parou por um segundo, observando-o no chão. Marcos agarrou-o pelo tornozelo, os olhos injetados.

— Ei! Você me conhece, não conhece?

— Marcos? Cara, quanto tempo! O que houve com você...

— Esqueça o protocolo! — Marcos o cortou, erguendo-se e sacudindo o NPC pelos ombros. — Me ajude a encontrar Laura.

— Certo, certo... vamos lá — o homem respondeu, os olhos momentaneamente sem foco antes de recalcular a rota para servir ao comando de Marcos.

Enquanto Marcos cruzava o asfalto em um rastro de desespero, o apartamento de Laura desmoronava em silêncio.

Ela estava sentada no chão da sala, com os joelhos colados ao peito e os braços servindo de escudo. O relógio de parede que ela arrancara jazia a poucos centímetros de seus pés descalços. O mecanismo estava quebrado, mas o tique-taque continuava a ecoar. Não vinha do objeto. Vinha de dentro de seu próprio crânio, cada batida soando como uma gota de chumbo derretido perfurando seu cérebro.

— Para... por favor, para — ela sussurrou, apertando as palmas das mãos contra as orelhas.

O som aumentou, tornando-se um ruído percussivo, ensurdecedor, rítmico. O tique-taque começou a ditar os batimentos do seu próprio coração, acelerando-a até o limite da exaustão.

— PARA! — Laura gritou para o vazio, fechando os olhos com tanta força que flashes brancos estouraram em sua escuridão.

Quando as pálpebras se abriram, o ruído mudou de frequência.

O tique-taque metálico agora era o bipe eletrônico e cadenciado de um monitor cardíaco. O teto não era o gesso do apartamento; eram placas brancas de uma unidade de terapia intensiva. O cheiro de lugar fechado evaporara, substituído pela assepsia cortante de álcool e medicamentos.

Laura piscou, sentindo um peso colossal nos membros. Havia um acesso intravenoso fixado no dorso de sua mão esquerda, injetando uma solução fria em suas veias. Ela tentou contrair os músculos para se sentar, mas uma figura de jaleco branco aproximou-se imediatamente, pousando uma mão firme em seu ombro.

— Laura? Consegue me ouvir? Fique calma — disse a enfermeira, checando o fluxo do soro.

— O que... onde eu estou? O que aconteceu com o quarto? — A voz de Laura saiu arranhada, seca.

— Você está no hospital. Acabou de emergir de um estado de coma de algumas horas. Preciso que não faça movimentos bruscos.

Antes que Laura pudesse processar a informação, a porta da ala médica foi empurrada com violência. Marcos cruzou o umbral. Suas roupas estavam amarrotadas, o rosto pálido e os olhos vermelhos de quem cruzara o inferno a pé. Logo atrás dele, impulsionando as rodas de metal com as mãos firmes, Kevin entrou no quarto. Ele estava preso à sua cadeira de rodas.

— Meu amor... meu Deus, Laura! — Marcos desabou ao lado da cama, segurando a mão livre dela com uma força trêmula. Lágrimas de alívio puro lavaram seu rosto. — Graças a Deus você acordou. Eu achei que tinha te perdido.

Laura olhou para ele, a mente flutuando em uma névoa espessa. O toque dele era quente, mas a palavra amor parecia carregar o peso de um mundo que ela não conseguia mais mapear. — Marcos...? O que está acontecendo?

A conversa foi cortada pela silhueta sóbria do médico chefe, que tocou o ombro de Marcos com uma gravidade profissional. — Senhor Marcos, por favor. Preciso de uma palavra em particular no corredor.

Marcos hesitou, olhou para Laura uma última vez e assentiu, deixando Kevin sozinho ao lado do leito.

Kevin girou as rodas de titânio, aproximando-se da cabeceira. O sorriso que ele deu era terno, mas carregava a melancolia de quem conhecia o fim da história antes de todos.

— Ei, mocinha — ele disse, a voz baixa. — Que susto você deu na gente.

— Ei, Kevin... — Laura conseguiu sorrir, estendendo os dedos para tocar o braço do amigo. — Que bom ver você. É tão bom ver que você está aqui.

Do lado de fora, o vidro fosco da UTI isolava o som, mas não a devastação. O médico encarou Marcos, segurando uma pasta com exames de imagem que mostravam uma mancha escura e ramificada no lobo parietal de um cérebro.

— Senhor Marcos, preciso que seja extremamente forte a partir de agora — o médico começou, a voz caindo no tom protocolar das tragédias inevitáveis. — O coma de hoje não foi um acidente, nem um colapso nervoso isolado. Os exames confirmaram. A paciente apresenta um glioblastoma — um câncer cerebral em estágio avançado e altamente agressivo.

Marcos deu um passo atrás, as costas batendo contra a parede do corredor do hospital. O ar sumiu de seus pulmões. — Não... não, o senhor está errado. Nós trabalhamos na LatruX, nós estávamos resolvendo o projeto, a Laura...

— O tumor está pressionando as áreas de percepção e memória — o médico continuou, ignorando o delírio do homem à sua frente com a paciência de quem lida com o luto diariamente. — Nós podemos tentar uma cirurgia de descompressão e quimioterapia de resgate, mas... preciso ser honesto. É uma medida paliativa. O quadro é terminal.

Marcos ergueu os olhos trêmulos. Através da vidraça aberta da UTI, viu Laura rindo de uma piada boba que Kevin fizera. Ela parecia tão viva. Mas, quando ela girou o rosto e cruzou o olhar com Marcos através do vidro, viu as lágrimas escorrendo sem controle pelo rosto do esposo.

O sorriso de Laura evaporou. Naquele milésimo de segundo, vendo o desespero nos olhos de Marcos, ela compreendeu tudo sem que nenhuma palavra fosse dita.