Lapsus
8 PARA SEMPRE...
O banco de madeira da praça parecia reter o frio daquela noite de inverno. Laura estava sentada com as costas curvadas, o corpo miúdo quase camuflado sob um sobretudo pesado que já não servia mais como antes. Na cabeça, um lenço de seda escura cobria a pele nua — um símbolo silencioso da ausência dos cabelos longos que, meses atrás, Marcos costumava afastar do rosto dela com os dedos.
À frente deles, do outro lado da rua, erguia-se a silhueta escura de um edifício comercial condenado, com os vidros cobertos de poeira e tapumes na entrada. Era o espelho físico do prédio comercial que Laura usou de inspiração para criar um dos mais icónicos edifícios do latruverso.
Os olhos de Laura estavam cravados no horizonte cinzento da cidade. Não havia desespero neles; havia algo pior: a anestesia total da esperança. Seu peito abrigava o cansaço crônico de quem enfrentava ciclos de quimioterapia que pareciam drenar a vida para tentar salvá-la. Meses haviam se passado desde o diagnóstico, e cada dia parecia uma batalha perdida contra o próprio corpo.
Ao fundo, o ruído dos carros e o clamor de São Paulo soavam abafados, como se o mundo estivesse sendo embrulhado em algodão. Laura sabia o que aquilo significava. O tumor avançava, isolando-a, desligando seus sentidos um a um, deixando-a em um estado de fragilidade absoluta.
Marcos aproximou-se a passos lentos, segurando dois copos de papel que exalavam o vapor denso de café quente. Era uma tentativa sutil de trazer um pouco de calor para uma noite que insistia em congelar.
Ele se sentou ao lado dela, estendendo o copo.
— Consegue beber um pouco? — ele perguntou, a voz mansa, buscando os olhos dela.
Laura não pegou o café de imediato. Continuou olhando para o prédio abandonado, a respiração fraca desenhando pequenas nuvens de névoa no ar.
— Engraçado... — ela começou, e sua voz era um fio quase imperceptível. — Desde que os primeiros lapsos começaram, antes mesmo do apagão no hospital, eu fiquei obcecada por relógios. Eu olhava para eles nas lojas, no trabalho... Enchi as paredes do meu apartamento com dezenas de mostradores. Eu dizia para mim mesma que era apenas decoração, mas era mentira.
Ela finalmente virou o rosto para ele. A pele estava pálida, quase translúcida sob a luz alaranjada do poste.
— Eu achava que, se eu estivesse cercada por engrenagens em movimento, eu conseguiria prender o tempo dentro da minha própria realidade. Eu queria trancá-lo em um quarto, controlar os segundos para que eles não escorressem. Uma arrogância infantil, não é? Tentar dobrar o inevitável. Eu sempre soube que esse dia chegaria, Marcos. Quando meu pai morreu, eu entendi muito cedo que a morte não é algo que acontece no fim da estrada. Ela caminha com a gente, na nossa sombra, todos os dias. Eu só... não achei que a minha estrada seria tão curta.
Marcos permaneceu imóvel, o copo de café esfriando em suas mãos. Cada palavra de Laura entrava em seu peito como uma lâmina cega. Ele limpou a garganta, engolindo o nó que ameaçava trair sua postura, e diminuiu a distância entre os dois no banco.
— Laura... — ele segurou a mão dela, que estava gélida. — Nós combinamos que não passaríamos por isso separados. Eu escolhi você. No primeiro dia em que te vi naquele corredor, eu escolhi você para ser a mulher da minha vida.
— Marcos, por favor, olhe para mim — ela pediu, os olhos marejados, apontando com um gesto fraco para o lenço na cabeça. — Não seja injusto com você mesmo. Você não tem que carregar o peso de um fim que não é seu.
— Se eu soubesse de tudo o que estava escondido na sua cabeça naquela época... se eu soubesse de cada célula doente, de cada apagão, da dor, de absolutamente tudo... a minha escolha ainda seria você — Marcos respondeu, e sua voz tremeu, mas os olhos sustentaram uma convicção feroz. — Nós vamos enfrentar isso. É só mais um obstáculo.
— Isso não é um obstáculo, Marcos — ela sussurrou, e uma lágrima solitária escorreu, limpando a poeira de sua bochecha. — Eu estou morrendo.
Marcos fitou o olhar nela. O coração dele estava estraçalhado, reduzido a escombros. Ele queria gritar contra a injustiça da biologia, queria implorar para que o Latruverso fosse o mundo real em que eles vivem, para que houvesse um botão de reset, uma linha de código que ele pudesse reescrever para salvá-la. Mas não havia. Aquele era o mundo real. Ali, na calçada fria, o amor deles não tinha propriedades administrativas.
Como revelar a ela o desespero que o sufocava sem empurrá-la ainda mais para o abismo? Ele não podia. Então, tomou a única decisão que lhe restava: ser o farol dela na escuridão, mesmo que isso significasse queimar por dentro.
— Eu estou aqui, Laura. E vou continuar exatamente aqui. Eu não te dou permissão para desistir de nós, ouviu? Vamos lutar até o último tique-taque.
Ele envolveu as mãos dela ao redor do copo de café, garantindo que ela sentisse o calor. Então, ele sorriu. Não foi o sorriso confiante do executivo de seus delírios, nem o riso frouxo dos dias fáceis. Era um sorriso quebrado, trincado pela dor, mas transbordando uma honestidade devastadora. Era sua tentativa de expulsar o fantasma do hospital e forçar a realidade a se concentrar naquele único segundo. Ele resolveu, por fim, congelar o tempo da única forma que os humanos conseguem: vivendo o agora.
— Sabe de uma coisa? — ele disse, limpando os olhos rapidamente com as costas da mão. — O que você acha de irmos patinar no gelo? Tem aquela pista nova no centro.
Laura piscou, desorientada pela mudança repentina. Um sopro de riso confuso escapou de seus lábios. — Marcos... olhe para mim. Eu mal consigo parar em pé sem sentir tontura. Eu não vou conseguir deslizar no gelo.
— Eu seguro você — ele respondeu, levantando-se e estendendo a palma da mão na direção dela, mantendo o mesmo olhar caloroso e obstinado pelo qual ela se apaixonara anos atrás, antes do mundo começar a desmantelelar. — Eu te ensino, passo a passo. Você vem comigo?
O convite era absurdo, uma insistência poética contra a gravidade e contra a doença. E foi exatamente por isso que se tornou irresistível. Laura olhou para a mão estendida de Marcos, sentindo o calor que emanava dele, e, pela primeira vez em meses, a sombra do horizonte perdeu força.
Ela depositou sua mão na dele e, reunindo o resto de energia que seu corpo ainda guardava, levantou-se para acompanhá-lo no inverno da cidade.
No Latruverso, o ar tinha a textura de uma transmissão de TV fora do ar. Marcos corria pelas calçadas, os dentes cravados no lábio inferior, mantendo a mão espalmada contra as costas do homem engravatado que o guiava. Ele operava sob uma lógica desesperada: se o Latruverso fora construído com base nas conexões neurais de Laura, aquele NPC — agora reconfigurado pela força de vontade de Marcos — serviria como um cão de caça seguindo o rastro de estática que ela deixara no código.
Eles pararam. À frente, imponente e gélido, erguia-se o arranha-céu cinzento da LatruX. O prédio do quarto andar.
Marcos semicerrou os olhos, estudando a fachada de vidro que refletia um céu eletrônico em frangalhos. A segurança na entrada fora triplicada; pelo vidro do saguão, ele viu a silhueta imponente de Carlos cruzar a recepção, flanqueado por agentes de terno escuro. Entrar ali de forma convencional seria um suicídio de dados.
Marcos recuou para a sombra de uma pilastra, puxando o NPC pelo colarinho.
— Você consegue sentir a assinatura dela? — Marcos sibilou, a voz trêmula pela pressão que exercia sobre a mente do homem. — Diga-me onde ela está.
O NPC piscou, as pupilas dilatadas — Assinatura localizada... Quarto andar. Trancada no apartamento 401.
Marcos soltou um riso amargo, sem qualquer traço de humor. — Apartamento 401 dentro daquele prédio comercial? Por que essa droga desse prédio me persegue?
Ele empurrou o NPC para o lado e ajustou o paletó, preparando-se para avançar. Mas, ao dar o primeiro passo, suas botas travaram no concreto. Ele estava exatamente ao lado de um banco de praça de madeira escura.
O mundo ao redor perdeu o som. Em um flash de lucidez violenta, a realidade rasgou-se diante dele. Marcos viu a si mesmo sentado naquele exato banco, mas suas roupas eram comuns, gastas. Seus braços envolviam uma Laura fragilizada, que usava um lenço escuro na cabeça. Ele viu os dois se levantando, as mãos entrelaçadas, sorrindo com uma tristeza que ele nunca experimentara naquela simulação.
Marcos levou a mão à cabeça, uma pontada aguda perfurando seu lobo parietal. O fragmento de memória desfez-se no ar como fumaça digital. Carlos avisara no laboratório: o processo de reescrita traria resíduos à superfície.
— Aquilo... aquilo não era um código — Marcos arquejou, o peito subindo e descendo. — Aquilo foi real. Eu preciso saber o que está em jogo aqui.
Esquecendo a cautela, ele marchou em direção à entrada do complexo. Carlos estava prestes a atravessar as portas giratórias quando o reflexo de Marcos no vidro o fez congelar. O CEO girou nos calcanhares, a máscara de frieza trincando em um susto genuíno.
— Marcos? — Carlos recuou um passo, os olhos varrendo o perímetro. — Como você escapou da quarentena? A cela deveria...
— Você realmente achou que paredes de concreto programadas poderiam me segurar? — Marcos avançou, os punhos cerrados.
Carlos não hesitou. Apontou o dedo na direção de Marcos e rosnou para os seguranças: — Eliminem a ameaça! Deletem o player dele agora!
Três agentes sacaram pistolas automáticas em uma sincronia perfeita. O som dos disparos ecoou pelo saguão como trovões estáticos. As balas cortaram o ar, rasgando o espaço exatamente onde Marcos estava — mas elas o atravessaram como se ele fosse feito de luz e fumaça. O cenário atrás dele salpicou em faíscas digitais, mas seu corpo permaneceu intacto.
Antes que os agentes pudessem recalibrar a mira, o ar atrás de Carlos condensou-se. Marcos materializou-se ali, segurando o CEO pelo pescoço com um braço de ferro, enquanto a outra mão pressionava a têmpora de Carlos. Os seguranças giraram as armas, confusos, mirando em um alvo que agora usava o criador do mundo como escudo.
— Eu sinto que posso reescrever a gravidade deste lugar com um sopro, Carlos — Marcos sussurrou no ouvido do homem, a voz fria, despida de qualquer medo. — Nós vamos entrar. E você vai me explicar, linha por linha, o que é essa mentira. Sem enigmas. Sem metáforas.
— Marcos, chega! Pare com isso!
O grito ecoou da calçada. Marcos ergueu os olhos e viu Kevin. Ele avançava a passos largos, os pés batendo firmes contra o chão — uma imagem que agrediu a percepção de Marcos, que jurava lembrar daquele homem preso a uma estrutura de metal.
— Quem é você? — Marcos espremeu os olhos, a enxaqueca voltando a martelar. — Por que você parece um fantasma que esqueci de enterrar?
Kevin parou a dois metros de distância, olhando para Marcos com uma mistura de fadiga crônica e piedade. Ele respirou fundo e olhou para Carlos, que arfava sob o aperto de Marcos.
— Vocês fizeram de novo... — Kevin murmurou, a voz carregada de uma desilusão antiga. — Vocês usaram o reset nele. Reprogramaram a memória dele de volta ao estágio zero.
Carlos, tentando buscar ar, forçou as palavras: — Eu achei... achei que os agentes tinham limpado o seu setor, Kevin. Como você ainda está de pé?
— Vocês não podem me apagar, Carlos. Eu ajudei a construir o alicerce biológico dessa merda toda — Kevin rebateu, antes de voltar os olhos injetados para Marcos. — Marcos, me escute. O Carlos está certo em uma coisa: este mundo é tudo o que nos resta. Se você usar esse acesso administrativo para forçar a quebra do cenário, a arquitetura inteira entra em colapso. Tudo acaba.
— Eu não dou a mínima para o que acaba ou começa! — Marcos apertou o pescoço de Carlos, arrastando-o em direção ao elevador. — Só me diga como eu chego ao quarto andar. Sem truques de edição.
— Você não está entendendo, Marcos! — Kevin deu um passo à frente, os braços abertos. — O quarto andar não faz parte do mapa do Carlos. É uma partição isolada, uma sub-rotina que a Laura codificou em segredo. É o refúgio dela contra o monitoramento da LatruX. Ele não tem a chave, somente eu, ela e você.
Marcos estancou perto das portas do elevador, as sobrancelhas franzidas, a mente operando em um curto-circuito de informações. — Se o Carlos não tem acesso... quem foi o desgraçado que trancou ela lá dentro?
Kevin sustentou o olhar de Marcos. O silêncio que se seguiu na recepção foi tão denso que o tique-taque dos relógios fantasmas pareceu voltar a ressoar nas paredes.
— Fui eu — Kevin respondeu, a voz firme, embora seus olhos transbordassem uma culpa milenar. — Eu a tranquei lá.
O mundo ao redor de Marcos não apenas desbotou; ele se partiu. O saguão espelhado da LatruX, os agentes armados e o pescoço de Carlos sob seus dedos sumiram em uma vertigem de ruído estático.
Subitamente, o ar ficou quente e ganhou o aroma familiar de alho tostado e azeite. Marcos piscou, e a luz fria da simulação foi substituída pela iluminação amarelada e acolhedora da cozinha do apartamento deles. Ele estava de pé, vestindo um moletom velho, segurando uma colher de pau diante do fogão.
Ao seu lado, com o lenço escuro amarrado na cabeça e os olhos imensos ressaltados pela perda de peso, Laura o observava. Ela tinha as mãos apoiadas na bancada de granito, sustentando o corpo frágil com um esforço que tentava esconder.
— Não precisa pressa... — ela disse, a voz macia, quase um sussurro que guiava as mãos dele. — Mexe bem devagar, do fundo para a borda, senão o molho gruda.
Marcos engoliu em seco, olhando para a panela como se a mecânica do jantar fosse a coisa mais complexa do universo. — Espero que fique bom. Acho que errei a mão no sal.
— Esperamos que fique bom, não é? — Um lampejo do antigo humor dela brilhou em seu rosto empalidecido. — Eu também vou comer disso aí. Se você me envenenar, acelera o processo do hospital.
Marcos travou. O riso que tentou esboçar morreu na garganta, transformando-se em um esgar quebrado. Ele tentou desviar os olhos, mas não conseguiu disfarçar o pânico que transbordava de suas pupilas. O medo de perdê-la era uma presença física naquela cozinha, um terceiro elemento jantando com eles todos os dias.
Laura percebeu. Ela leu o olhar distante do marido, o vinco de dor na testa dele que nenhuma mentira conseguia suavizar.
— Marcos... — ela chamou, e o tom mudou, ganhando uma gravidade gélida. — Será que você vai conseguir sobreviver sem mim?
Ele ergueu as sobrancelhas, os nós dos dedos embranquecendo ao redor do cabo da colher. — Por favor, Laura. Não começa. A gente combinou que não falaria disso na hora do jantar.
— A quimioterapia não está funcionando, Marcos — ela insistiu, reta, desarmando as defesas dele com a verdade nua e crua. — Esse último ciclo só está prolongando o sofrimento. O meu e o seu. A gente precisa conversar sobre o que vem depois.
— Laura...
As palavras secaram na boca de Marcos. Ele soltou a colher de pau, que bateu na borda da panela com um som oco, e deu o passo que os separava. Ele a envolveu em um abraço desesperado, apertando-a contra o peito como se pudesse, pela força dos próprios braços, manter a alma dela presa à terra. Seus olhos se encheram de lágrimas instantaneamente.
— Para com isso. Por favor. Só... para — ele implorou contra o ombro dela, o corpo inteiro tremendo.
Laura descansou o rosto no peito dele, deixando-se guiar pela fragilidade física. As lágrimas dela molharam o tecido do moletom de Marcos.
— Marcos, eu sinto muito... — ela soltou um soluço sufocado. — Eu juro que sinto muito. Mas eu preciso te situar na realidade. Você está se perdendo de si mesmo para tentar me segurar.
— Não. Cala a boca. Fica em silêncio, por favor.
— Você sabe que vai ter que seguir em frente...
— Eu disse para não falar mais nada! — O tom de Marcos subiu, um misto de raiva e dor profunda.
Ele a soltou devagar, as mãos ainda trêmulas, e voltou-se para o fogão sem olhar nos olhos dela. Agarrou a colher novamente e começou a mexer o molho com uma força desnecessária, os olhos ardendo, transbordando.
Uma lágrima pesada escapou de suas pálpebras. Ela caiu direto na superfície incandescente do acendedor do fogão. Houve um estalo seco, um chiado rápido, e a gotícula de água transformou-se instantaneamente em uma fumaça fina, elevando-se como vapor até sumir no ar sob a coifa.
Marcos fixou os olhos naquele ponto vazio. O ciclo inteiro de uma existência concentrado em uma fração de segundo: a água que nasce, cumpre seu propósito, evapora e deixa de existir na forma física. Uma metáfora implacável da fragilidade de Laura bem diante de seus olhos.
Mais tarde, o silêncio do apartamento era quebrado apenas pelo som da respiração pausada de Laura. Ela dormia ao lado dele, a pele fria, entregue ao cansaço dos analgésicos.
Sentindo o colchão aliviar o peso, Laura acordou. Ela abriu os olhos na penumbra do quarto, mas não se mexeu. Não ousou acompanhá-lo. Ela sabia exatamente para onde ele estava indo.
Marcos caminhou descalço até a sacada do apartamento. O vento da madrugada paulistana cortava o ambiente, mas ele não parecia sentir o frio. Sentou-se no chão de porcelanato, com as costas apoiadas na parede e os joelhos recolhidos, os olhos fixos na lua pálida que tentava rasgar a poluição.
O choro veio em ondas violentas, daquelas que silenciam a garganta e quebram as costelas. O peito dele subia e descida em espasmos de pura agonia. O luto antecipado era um monstro que o devorava vivo.
Em um surto de fúria cega contra a própria impotência, Marcos esticou o braço, agarrou um vaso de cerâmica pesada onde Laura cultivava uma pequena folhagem e o lançou com toda a força contra a parede de concreto da sacada.
O vaso se espatifou em dezenas de pedaços, espalhando terra preta e raízes arrancadas pelo chão. Uma violência inútil, mas a única forma eficaz que ele encontrou de exteriorizar o ódio e o medo que o asfixiavam.
— Por quê? — ele sussurrou para o céu escuro, os punhos cerrados contra o chão sujo de terra. — Por que ela? Por que agora?
No quarto, deitada na escuridão, Laura ouviu o som da cerâmica quebrando na sacada e o eco do sussurro quebrado do marido. Ela fechou os olhos, as lágrimas escorrendo abafadas contra o travesseiro, mas permaneceu imóvel. Ela não ousou interromper o momento dele. Era o direito dele de sangrar antes que o tempo parasse de vez.
O flash estalou. O cheiro de terra e alho sumiu.
Marcos piscou. O saguão espelhado do prédio comercial materializou-se novamente ao seu redor, mas a ilusão já não tinha a mesma força. Seus dedos, que ainda esmagavam o colarinho do terno de Carlos, tremiam violentamente. O suor frio escorria por seu pescoço, misturando-se às lágrimas reais que haviam transbordado do flash. A verdade biológica — o cheiro de molho, o calor do fogão, o desespero na sacada — funcionara como uma broca, perfurando a blindagem digital do Latruverso.
— Por quê? — Marcos engoliu em seco, a voz rouca, vacilando entre o delírio da simulação e o peso da carne. — O que aconteceu com a Laura? Por que eu vi aquilo?
Kevin deu dois passos à frente, as botas ecoando no mármore. O olhar que ele direcionava a Marcos não continha hostilidade, apenas uma exaustão que parecia durar séculos.
— Solte o Carlos, Marcos. Venha comigo — Kevin pediu, estendendo a mão em um gesto pacífico.
Marcos girou o corpo, trazendo Carlos consigo. O braço continuava travado ao redor do pescoço do CEO.
— Eu não vou soltar ninguém — Marcos sibilou, os olhos injetados. — Nós três vamos subir. Agora. E se qualquer um de vocês tentar reescrever o cenário ou acionar os agentes, eu apago este setor inteiro com todos nós dentro.
Os agentes de terno preto moveram as mãos em direção às armas, mas Carlos ergueu a palma, respirando com dificuldade.
— Recuem — Carlos ordenou aos seus homens, a voz abafada. — Deixem-no. Está tudo bem.
Kevin assentiu em silêncio. Girou nos calcanhares e caminhou em direção ao elevador. Marcos o acompanhou, arrastando Carlos como escudo humano. O trio adentrou a cabine espelhada. As portas cromadas se fecharam, isolando-os do restante do saguão. Enquanto o indicador digital começava a subir pelos andares, Kevin soltou um longo suspiro. Ele olhou para o próprio reflexo no espelho e compreendeu que o teatro havia alcançado o seu prazo de validade.
— Eu deveria ter sido honesto com você desde o primeiro segundo em que te encontrei vagando por este servidor — Kevin disse, olhando para o painel de botões.
Carlos virou o rosto na direção de Kevin, os olhos arregalados em um pânico genuíno.
— Kevin, não faça isso — Carlos implorou, a voz tensa. — Se você entregar a verdade, a mente dele entra em colapso. Mantê-lo na ignorância é a única coisa que sustenta a estabilidade deste mundo. É o único jeito de preservá-lo.
— Cala a boca! — Marcos apertou o braço contra a garganta de Carlos, forçando-o a calar-se. — Fale, Kevin.
O elevador emitiu um bipe suave. As portas se abriram. O indicador não mostrava o topo do edifício; mostrava apenas um número banhado em estática: 4° andar. O corredor à frente era o do Quarto Andar.
— No dia em que a Laura... — Kevin começou.
A voz de Kevin não apenas ecoou; ela começou a distorcer a física do ambiente. À medida que as palavras saíam de sua boca, o mármore e o vidro do corredor sofreram uma mutação cromática. As paredes brancas ganharam uma textura de azulejos descascados. O cheiro de ozônio transformou-se no odor cortante de antisséptico e éter. O teto rebaixou.
Marcos piscou, e ele não estava mais segurando Carlos. Ele estava de pé, estático, no meio de um corredor de hospital.
Ao seu lado, um médico de cabelos grisalhos segurava uma prancheta contra o peito, os olhos fixos no chão. O ouvido de Marcos começou a emitir um zumbido agudo, ensurdecedor, isolando-o de qualquer outro som.
— O quê? — Marcos se viu perguntando no flash, as mãos trêmulas, um sorriso bizarro e quebrado surgindo em seus lábios como uma reação de negação mecânica. — O que o senhor disse? Repete.
— Eu sinto muito, Marcos — a voz do médico perfurou o zumbido, cravando-se como uma lâmina em seu peito. — Nós fizemos tudo o que a medicina atual permitia. Mas o glioblastoma avançou rápido demais nas últimas horas. Ela não resistiu.
Marcos não respondeu. Ele deu as costas ao médico e caminhou em direção à porta semiaberta do leito de UTI. O ar parecia gelatina; cada passo exigia um esforço monumental. Suas pupilas dilataram quando ele cruzou o umbral e viu a maca.
O corpo de Laura jazia estático sob os lençóis brancos. A pele, antes pálida, agora tinha a opacidade da cera. Os monitores cardíacos ao redor estavam desligados, exibindo telas pretas e mudas.
Marcos avançou, desabando de joelhos ao lado do leito. Ele agarrou a mão gélida de Laura, apertando-a contra o próprio rosto.
— Que porcaria é essa? — ele começou a gritar com o cadáver, as lágrimas embaçando sua visão, o pulso batendo tão forte no pescoço que parecia prestes a rasgar a pele. — Você não fez isso comigo, Laura! Abre o olho! Amor... por favor, acorda! Sou eu! Acorda!
Uma enfermeira aproximou-se com cautela, tocando de leve em seu ombro. — Senhor... por favor, o senhor precisa se acalmar. Nós precisamos liberar o quarto...
— Não! Cala a boca! — Marcos rugiu, levantando-se em um sobressalto de fúria pura, os olhos injetados direcionados à funcionária. — A culpa é daquela maldita empresa! A LatruX e aquele projeto de imersão de merda! Ela passou os últimos meses programando aquela utopia virtual para tentar esquecer a dor, e vocês deixaram ela morrer aqui!
— Senhor, por favor... — o médico interveio da porta, fechando os olhos em um sinal silencioso de respeito e impotência.
— Não! Isso não é real! Eu não aceito este final! — Marcos gritou para as paredes estéreis.
Ele saiu do quarto totalmente transtornado, empurrando as portas de vaivém. Ele caminhava cambaleando pelos corredores do hospital, a mente em curto-circuito, atraindo os olhares assustados de pacientes e funcionários. Quando ele cruzou as portas de vidro e saiu para a calçada sob a chuva de São Paulo, o mundo desmoronou. As imagens dela sorrindo na cozinha, os juramentos de amor sob a lua, tudo colidiu em seu cérebro como um trem de carga. Ele não conseguiria continuar existindo. Não sem ela.
A visão do hospital desintegrou-se. Marcos piscou, os olhos cheios de lágrimas reais, e percebeu que ainda estava no Quarto Andar do Latruverso. Carlos assistia a tudo com os olhos baixos, e Kevin continuava a falar, a voz firme e compassiva:
— Você se recusou a aceitar que ela havia morrido, Marcos. Então, no mesmo dia em que o corpo dela foi levado, você fez o impensável.
O corredor mudou novamente. Marcos viu a si mesmo, através de uma perspectiva de terceira pessoa, invadindo os laboratórios subterrâneos da LatruX na calada da noite. O Marcos do flash tinha os olhos alucinados e as roupas ensopadas da chuva da rua. Ele arrombou a porta que ostentava a placa SETOR NEURAL: IMERSÃO CRÍTICA.
Marcos assistia ao seu próprio passado operar na tela da realidade. No flash, seu eu real aproximou-se do terminal central de dados, onde o projeto Latruverso rodava em servidores isolados. Na bancada, havia uma maleta com injetores pneumáticos contendo os neurochips de nível administrador — os dispositivos de alta frequência projetados para fundir a consciência humana ao código do sistema.
— Você sabia que a Laura tinha deixado um player ativo aqui dentro — Kevin narrava, apontando para a cena onde o Marcos real posicionava o injetor contra a própria nuca. — O problema é que o player dela foi carregado no servidor semanas antes de ela te conhecer no mundo real. Para a Laura que vive neste código, você é um completo estranho. Vocês nunca tiveram uma história aqui dentro.
Marcos assistia, paralisado, enquanto o Marcos do flash pressionava o gatilho do injetor. Um estalo pneumático ecoou.
— Você injetou uma credencial de acesso raiz diretamente no seu córtex — Kevin continuou, aproximando-se de Marcos no presente. — Mas o cérebro humano não foi feito para suportar a carga de um protocolo administrativo bruto sem uma interface de atenuação. No momento em que os dados inundaram a sua mente, o seu sistema neurológico entrou em colapso. Houve um superaquecimento sináptico. Você apagou instantaneamente.
No flash, a porta do laboratório era arrombada. O Kevin real entrava correndo com a equipe médica da LatruX, encontrando o corpo de Marcos estendido no chão, convulsionando enquanto o chip piscava em azul na sua nuca.
— Quando nós chegamos, o estrago estava feito — Kevin disse, a voz baixa. — Você emergiu no Latruverso, mas sua memória humana legítima foi fragmentada no impacto. O seu player nasceu defeituoso. Você entrou aqui com o poder de um deus, com privilégios para alterar a física da simulação, mas com a mente de um amnésico que não sabia como usar as ferramentas. Por anos, o seu subconsciente tem tentado recriar os cenários do seu luto. Você alterava os NPCs na praça, forçava as pessoas a lembrarem do seu nome, tentava achar uma empresa que não existia mais... tudo em uma tentativa desesperada de se localizar.
Marcos ouvia as palavras, mas seus dedos haviam perdido a força. Lentamente, sem perceber, ele afrouxou o aperto no pescoço de Carlos. O CEO deu um passo atrás, massageando a garganta, respirando fundo.
No flash, os médicos erguiam o corpo de Marcos em uma maca, aplicando reanimadores portáteis.
— Você nunca mais acordou no mundo real, Marcos — Kevin desferiu o golpe final, olhando-o nos olhos. — O seu corpo físico está conectado a aparelhos em suporte de vida no nosso laboratório subterrâneo há trinta anos, em coma vegetativo estável. Mas a sua entrada forçada tornou o Latruverso instável. Quanto mais você alterava a memória dos NPCs para fazê-los reagir ao seu luto, mais o código-fonte se corrompia. Você virou o vírus do sistema. E a LatruX foi à falência tentando conter você.
Carlos soltou um longo suspiro, ajeitando o paletó, enquanto olhava para Marcos com uma mistura de pena e cansaço.
Marcos permaneceu estático no centro do corredor do Quarto Andar. Suas mãos caíram ao lado do corpo, as palmas abertas e inertes. A maquete perfeita de São Paulo, o império asséptico da LatruX, os caçadores de sobretudo... tudo não passava de um teatro de fantasmas erguido sobre o túmulo de Laura. Um universo de dados sustentado unicamente pelo batimento artificial de seu próprio coração vegetativo. Ele estava trancado na própria mente, reiniciando o inferno a cada ano para não ter que aceitar a sepultura.
Lentamente, erguendo o rosto banhado em suor, Marcos cravou os olhos em Carlos. O CEO sustentou o olhar e, com um leve e cansado gesto de cabeça, confirmou cada palavra da narrativa de Kevin.
— Agora que você sabe... o que vai fazer? — Carlos perguntou. Havia um tremor inédito em sua voz, o pânico de um criador que percebe que a criatura aprendeu a desligar a luz.
Marcos não respondeu. Voltou-se para Kevin, a fúria fria remodelando suas feições.
— Abra a porta — ordenou.
Carlos tencionou os músculos, mas não ousou intervir; ele conhecia a extensão dos privilégios administrativos de Marcos. Kevin deu um passo à frente e tocou a maçaneta da porta 401. A fechadura estalou.
Lá dentro, o apartamento era uma colmeia de tique-taques. Laura estava sentada no chão, as pernas encolhidas contra o peito e as mãos trêmulas envolvendo o relógio de parede. Ao ouvir os passos, ela ergueu os olhos opacos, assustada com a invasão.
— Kevin? Marcos? — ela chamou, a voz oscilando.
Kevin travou na soleira, as pupilas contraindo-se. — Então, você sabe o nome dele, Laura...
— Este relógio... — Laura estendeu o objeto quebrado, as engrenagens apontando para Marcos como uma acusação. — Toda vez que eu o toco, fragmentos inundam a minha cabeça. Lampejos de uma vida que eu não sei se vivi. Mas em todas as memórias... eu estou olhando para ele.
Carlos soltou uma lufada de ar, compreendendo o glitch estrutural. — Faz sentido. Este setor está colidindo com a vontade do Marcos há tanto tempo que a radiação das memórias residuais dele acabou vazando para o código dela, reprogramando o player.
Marcos aproximou-se a passos lentos, ajoelhando-se diante de Laura. Ele buscou os olhos dela, tentando encontrar a mulher da cozinha, a mulher do lenço escuro sob a lua. Seu peito ardia. Ele podia sentir o calor da pele dela, uma sensação tão nítida que parecia carne de verdade.
— Laura... — ele sussurrou.
— Você é real? — ela perguntou, os dedos arranhando o plástico do relógio. — Por que meu peito dói quando você me olha? Isso não faz sentido... eu lembraria de você se tivéssemos uma história.
Desesperado para fazê-la lembrar, Marcos fechou os olhos e concentrou sua vontade, tentando forçar o código de Laura a aceitar suas memórias, da mesma forma que fazia com os NPCs da praça.
— Não faça isso, Marcos! — Kevin gritou, dando um passo à frente. — Você não pode modificar a estrutura dela! Assim como nós, ela é um player humano transferido, não um algoritmo nativo. Mesmo com acesso root, você só controla o ambiente!
Marcos ignorou o aviso, empurrando sua assinatura digital com mais força. Subitamente, uma dor lancinante cortou seu abdômen. A cicatriz da LatruX em seu peito e pulso acendeu-se em um azul incandescente, queimando como brasa sob a pele. Marcos desabou para trás, soltando um grito de pura agonia.
— Há um limite de largura de banda para esse chip administrativo, Marcos! — Kevin alertou, a voz misturada ao som de estática. — Você está forçando essa sobrecarga há mais de trinta anos! É normal que doa.
Laura arrastou-se para trás, horrorizada com o brilho fantasmagórico que emanava do corpo de Marcos. Nesse instante, as portas do corredor bateram e os agentes restantes de Carlos invadiram o apartamento, erguendo suas armas de pulso.
Carlos deu um passo à frente, a autoridade restaurada. — Agora chega de teatro, Marcos. Diferente de você, nós temos as ferramentas de desenvolvimento. Podemos reescrever o código dela e o seu. Deixe-nos encerrar essa saga sem sentido. Aceite a matemática: essa criatura aí não é a sua Laura. É apenas um player de teste.
— Não ouse... encostar nela — Marcos rosnou, erguendo-se do chão.
Seus olhos marejados brilharam. Com um único estalo de sua vontade, as pistolas nas mãos dos agentes simplesmente se desintegraram em poeira de pixels, sumindo no ar.
— Marcos, por favor... — Carlos recuou, os braços erguidos.
— Já chega! — Marcos berrou, o choro bloqueando sua garganta. — Eu não vou permitir que vocês me arranquem dela outra vez. Eu já a perdi no mundo real, na porcaria daquele hospital, e eu não vou deixá-la morrer aqui!
Em um espasmo de poder, Marcos estendeu a mão na direção de Laura. O espaço ao redor dela distorceu-se e, em um piscar de olhos, ela desapareceu do tapete, ressurgindo segundos depois atrás de uma barreira de vetores de luz, trancada em uma jaula de dados no canto da sala.
— O que é isso?! Me tira daqui! — ela gritou, batendo contra as grades de energia que estalavam ao toque.
Marcos voltou-se para Carlos e Kevin, a silhueta oscilando entre o homem de terno e o maltrapilho da sarjeta.
— Acabou o jogo de vocês — Marcos sentenciou.
A marca em seu peito pulsou com a força de um reator em curto. O apartamento 401, as paredes de gesso e toda a estrutura do prédio começaram a se dissipar em uma névoa de ruído branco. Quando a poeira digital assentou, eles não estavam mais no edifício; o cenário havia sido forçado a carregar no centro da praça principal, sob o céu de binários cinzentos.
Dezenas de NPCs caminhavam pelas calçadas como autômatos. Sob o comando mental de Marcos, os pedestres pararam simultaneamente. Seus rostos perderam a expressão e, movendo-se como uma horda coordenada, avançaram sobre Kevin, Carlos e os agentes, imobilizando-os contra o chão com o peso de seus corpos programados.
— Eu sou o dono deste servidor agora — Marcos sibilou. — E a Laura pertence a mim.
Em um piscar de olhos, Marcos desapareceu da praça, materializando-se instantaneamente no setor isolado onde mantinha a jaula de Laura. Sua tatuagem continuava a queimar, consumindo os recursos da simulação.
Na praça, os NPCs começaram a afrouxar o aperto, liberando Carlos e Kevin aos poucos, como se a atenção do administrador tivesse mudado de foco. Carlos levantou-se, limpando o terno sujo de poeira estática, e olhou para Kevin com um rancor profundo.
— Eu avisei que acordá-lo era um erro de diagnóstico — Carlos cuspiu. — Veja o monstro que a sua teimosia criou. Ele vai queimar a CPU do servidor com todos nós dentro.
— Nós temos que pará-lo — Kevin respondeu, ajeitando a postura com dificuldade. — Pela Laura.
No vácuo digital, Laura soluçava contra as grades de luz, o medo transformando suas feições. Marcos aproximou-se, estendendo a mão com uma ternura assustadora.
— Desculpe por ter demorado tanto para lembrar de nós, meu amor... — ele disse, a voz mansa, alucinada. — Mas agora o ciclo fechou. Estamos juntos de verdade. Nada vai nos separar.
Ela se encolheu, recusando o toque. — Fica longe de mim... você enlouqueceu.
Ignorando o pânico dela, Marcos quebrou a jaula com um gesto e segurou seu pulso, forçando um comando de teletransporte. O cenário piscou e ambos ressurgiram no centro da praça, exatamente diante de Kevin e Carlos.
— Este mundo é meu, Carlos — Marcos declarou, o olhar fixo no Arquiteto.
— Marcos, pare com essa insanidade — Carlos tentou avançar, os braços abertos. — A sobrecarga que você está gerando vai causar uma morte térmica no servidor. Você vai apagar as nossas consciências para sempre!
Marcos sorriu, um esgar frio e sombrio. — O único empecilho para a nossa eternidade sempre foi você.
Dando um passo rápido, Marcos aproximou-se de Carlos. Ele espalmou a mão direita contra a testa do CEO, os olhos brilhando com um comando de exclusão bruto.
— Então... desligue de uma vez — Marcos sussurrou.
Um som de estática cortante ecoou. Os olhos de Carlos reviraram, perdendo o foco, e seu corpo desabou no asfalto da praça, transformando-se em uma poça de pixels escuros antes de sumir por completo. Ele fora deletado da instância.
Os agentes recuaram, o pânico quebrando a programação de suas faces. Laura soltou um grito horrorizado, cobrindo a boca. Marcos virou-se para um dos caçadores restantes, erguendo a mão novamente.
— O único que tem o direito de permanecer aqui é o Kevin — Marcos decretou, a voz ecoando pelas caixas de som invisíveis da cidade. — Por ter me dado a verdade. Vocês são apenas lixo de sistema.
— Marcos, para! Já chega! — Kevin berrou, tentando avançar contra a barreira invisível que o impedia de chegar perto.
O agente sobrevivente, vendo a mão de Marcos se erguer, entrou em desespero. Olhou para Kevin e depois para o administrador, descarregando o último arquivo de verdade que possuía:
— Ele não está te protegendo, Marcos! O Kevin não entrou nessa simulação por sua causa! Ele está aqui pela Laura! Ele sempre foi apaixonado por ela no mundo real, sempre teve inveja do relacionamento de vocês!
Marcos travou a mão no ar, as pupilas contraindo-se. — O quê?
— Eu não sei do que esse programa está falando! — Kevin gritou, o rosto corando em uma mistura de desespero e vergonha. — Marcos, não ouça o que ele diz! Ele está tentando criar uma falha de desconfiança!
— Você a ama, Kevin! Não minta para ele agora, seu covarde! — o agente berrou uma última vez, antes que a mão de Marcos se fechasse.
Um estalo seco. O agente desintegrou-se em fumaça cinzenta.
Marcos girou o pescoço lentamente na direção de Kevin. O ódio em suas feições era quase palpável, a tatuagem em seu peito pulsando em um tom vermelho de advertência crítica de sistema.
— Seu desgraçado... — Marcos sibilou, avançando passo a passo contra o engenheiro neural. — Você me manteve esquecido para poder ficar com as sobras dela?
— Marcos, por favor, olhe para mim! Você não pode acreditar em uma rotina de distração! — Kevin recuou, erguendo as mãos, o medo estampado em cada linha de seu rosto.
Marcos continuou avançando, a gravidade ao redor de Kevin aumentando, prendendo seus pés ao chão da praça. Antes que ele pudesse desferir o comando de exclusão contra o amigo, a voz de Laura rasgou o silêncio da praça:
— PARE! — ela gritou, as lágrimas correndo sem freio pelo rosto.
Marcos estancou a centímetros de Kevin. Ele virou o rosto para ela, a expressão suavizando em uma confusão dolorosa. — O que foi, Laura? Eles são os empecilhos. Eles passaram trinta anos tentando nos manter separados no escuro...
— Empecilhos?! — Laura cuspiu a palavra, dando um passo atrás, o corpo tremendo de repulsa. — Não existe "nós", Marcos! Olha para você! Você destruiu o Carlos, apagou aqueles homens... você transformou este lugar em um pesadelo! Eu não lembro de você! Essas memórias de relógios, de cafeteria... são invasões! Você está estuprando a minha mente com o seu luto! Eu não sou a sua Laura.
— Não... Laura, não diz isso — Marcos deu um passo na direção dela, a voz caindo para um sussurro quebrado, a armadura de deus desmoronando. — É real. Eu juro que...
— Você é um monstro! — ela soltou um soluço violento, os olhos cheios de um horror genuíno. — Olha o que você se tornou para tentar fugir da morte. Eu prefiro desaparecer no escuro a passar a eternidade presa na sua cabeça!
As palavras de Laura entraram no peito de Marcos com a força de um expurgo de sistema. Ele cambaleou para trás, atingido no núcleo de sua existência. O reflexo nos olhos dela não mostrava o herói que salvara a amada; mostrava o vilão, o vírus egoísta que preferia escravizar uma projeção a aceitar a dor da perda.
— Eu... — Marcos tentou formular uma defesa, mas sua voz sumiu.
Ele olhou para Laura. Viu o pânico puro em suas feições. Olhou para Kevin, que o encarava com uma piedade devastadora. E então, o último flash cruzou sua mente — não uma memória da LatruX, mas a voz de Laura no laboratório real, antes de tudo apagar: "O presente é a única linha tênue entre o que já virou memória e o que ainda é mistério, Marcos. Se você esquecer quem eu sou, o mundo acaba. Mas se você me prender... o mundo nunca começa."
Ele compreendeu. O Latruverso não era a salvação. Era a recusa de deixar o ponteiro do relógio girar.
Marcos soltou um longo suspiro, os olhos transbordando enquanto sua tatuagem no abdômen começava a piscar em um padrão dourado de sobrecarga terminal. A praça inteira ao redor deles — os prédios de São Paulo, o céu de binários, o asfalto sob seus pés — começou a cintilar, desfazendo-se em faixas horizontais de luz branca.
— Vocês têm razão... — Marcos disse, e sua voz já não tinha estática; tinha a paz de quem finalmente aceita o fim da linha. — Nada aqui é real. E eu preciso deixar o relógio andar.
O mundo ao redor de Marcos não apenas desmoronou; ele foi recolhido. As linhas de código que sustentavam o céu cinzento da praça começaram a se desmanchar em uma chuva de pixels dourados, caindo sobre o asfalto que já se tornava fumaça. No centro daquele vazio iminente, Marcos fechou os olhos. Ele não buscou o controle. Ele permitiu que a última partição oculta de sua memória se abrisse.
O último flash veio com a força de um sol de verão.
Não havia hospitais, laboratórios ou interfaces assépticas. Havia apenas o calor de lençóis brancos e a luz dourada do amanhecer invadindo a janela do quarto. Era a lua de mel deles. Laura estava deitada ao seu lado, os longos cabelos espalhados pelo travesseiro, a pele viçosa e os olhos transbordando uma lucidez que ele esquecera que existia. Marcos a observava como se quisesse decorar cada milímetro daquele rosto. Ele inclinou-se de leve e beijou sua bochecha.
— Você é a mulher mais perfeita que eu já conheci — ele sussurrou, a voz embargada de um amor puro.
Laura sorriu, envolvendo o pescoço dele com os braços, puxando-o para mais perto. — Obrigada por me salvar de mim mesma.
Marcos franziu as sobrancelhas, sorrindo contra o ombro dela. — Salvar você de si mesma? Do que você está falando?
Laura afastou-se um pouco, o olhar tornando-se sério, profundo, carregado de uma sabedoria que só agora, trinta anos depois, fazia sentido para o Marcos do presente.
— Antes de te conhecer, eu vivia em um ciclo de mentiras, Marcos. Eu estava tão apavorada com a finitude das coisas que criei o Latruverso com o Carlos. Nós projetamos um santuário. Um mundo onde a morte é um erro de sintaxe e onde todos os sonhos são executados sem falhas. Mas aquela utopia é estéril. O sofrimento, o luto, a perda... eles são a argamassa necessária para nos tornarmos humanos. Linhas de código não podem simular a textura da alma. A escuridão precisa existir para que a luz tenha relevância.
— Laura...
— Não, me escute — ela insistiu, tocando o abdômen dele, exatamente onde a tatuagem virtual um dia queimaria. — Eu só me permiti olhar para você, só me permiti viver este amor, porque eu passei pelo meu luto. Eu tive que aceitar que o relógio do meu pai tinha parado e que ele nunca mais voltaria. Só quando parei de tentar controlar o tempo, eu consegui seguir em frente. E foi isso que me trouxe até aqui, vivendo a realidade mais bonita da minha vida.
No presente, dentro da praça que desaparecia, Marcos finalmente compreendeu. O Latruverso não era um monumento ao amor deles; era o túmulo de sua recusa em sofrer. O luto não era o fim do caminho; era o preço de se ter vivido algo real.
O servidor emitiu um último bipe agônico. Kevin e Laura permaneceram estáticos na névoa branca, aceitando o encerramento do processo. As imagens se desintegraram em estática. E então, o vácuo absoluto.
Marcos acordou com um solavanco que pareceu rasgar seu peito.
O susto elevou sua pulsação a níveis críticos, os monitores médicos ao redor disparando em um coro de bipes estridentes. Ele tentou saltar da maca, tentou gritar, mas seu corpo não respondeu. Seus comandos cerebrais colidiam contra uma barreira de músculos atrofiados e nervos dormentes.
A porta da sala foi empurrada e uma enfermeira entrou correndo, os olhos arregalados ao checar o painel de sinais vitais.
— Meu Deus... doutor! Corra aqui! O paciente da ala zero acordou! Isso é um milagre!
Marcos piscava lentamente, a visão embaçada focando nas placas de gesso do teto e nas lâmpadas tubulares. Ele tentou mover os dedos da mão direita, mas eles pareciam feitos de chumbo. Trinta anos em estado vegetativo haviam transformado seu corpo físico em uma prisão de carne muito mais rígida do que a cela de Carlos.
Horas arrastaram-se no relógio da parede — um relógio real, cujos ponteiros corriam sem pausas digitais. Marcos permanecia imóvel, os olhos abertos, assimilando o peso do oxigênio e a textura do lençol hospitalar, até que a porta se abriu novamente. O médico chefe entrou, seguido por duas silhuetas que fizeram o peito de Marcos tencionar.
— Não tente forçar a musculatura, senhor Marcos — o médico explicou, ajustando o suporte do soro. — O senhor passou as últimas três décadas conectado a um sistema de suporte de vida. Quando o senhor invadiu o laboratório neural e disparou aquele neurochip administrativo, o hardware fundiu-se ao seu córtex de forma irreversível. Tentar removê-lo teria causado a sua morte cerebral imediata. Não podemos garantir que o senhor recuperará a fala ou as funções motoras amplas, mas o fato de sua consciência ter retornado... é um fenômeno inexplicável.
O médico recolheu sua prancheta e retirou-se, deixando os visitantes a sós com o paciente.
Kevin aproximou-se da cama, impulsionando as rodas de sua cadeira. Ele estava velho. Os cabelos antes escuros agora eram mechas acinzentadas, e o rosto exibia as linhas profundas do tempo real. Ao seu lado, segurando uma bengala de mogno, Carlos mantinha a mesma elegância altiva, embora os ombros estivessem ligeiramente curvados pelos anos.
— Olá, Marcos — Kevin disse, a voz rouca, mas carregada de uma familiaridade genuína. — Você finalmente voltou para casa, meu amigo.
Carlos deu um passo à frente, batendo a ponta da bengala de leve no chão.
— O meu player e o do Kevin que operavam na instância do Latruverso eram apenas sub-rotinas obsoletas — Carlos revelou, olhando para os monitores. — Eles seguiam diretrizes antigas, programadas antes do abandono do projeto. A prioridade deles era conter a instabilidade do servidor, não salvar a sua mente. No fim das contas... o que causou o colapso do sistema e o seu despertar foi a Laura, não foi?
Marcos não conseguia articular os músculos da face para falar, mas seus olhos comunicaram tudo. O canto de sua boca curvou-se milimetricamente em um leve e sofrido sorriso.
A porta da UTI abriu-se mais uma vez. Uma mulher de aproximadamente trinta e cinco anos, vestindo um jaleco de engenharia com o emblema desbotado da LatruX, adentrou o recinto portando um tablet de última geração. Marcos fixou as pupilas nela e, por trás dos traços maduros, reconheceu a expressão: era Maysa. A menina que pedia moedas na praça, a menina que ele tentara reprogramar tantas vezes. Ela envelhecera no mundo real. O tempo não havia parado.
— Olá, Marcos — Maysa disse, um sorriso terno iluminando seu rosto. — É bom ver que você finalmente desembarcou.
— A Maysa assumiu os espólios da empresa — Kevin explicou, orgulhoso. — Ela está desenvolvendo o que chamamos de Latruverso 2.0. Mas desta vez, sem transferências de consciência. Sem players reais sacrificados no hardware. Apenas avatares de reabilitação psicológica. Um ambiente controlado para tratar o trauma, não para se esconder dele.
Marcos fechou os olhos devagar, um aceno silencioso de aprovação. A utopia finalmente encontrara seu propósito correto.
Seis meses de fisioterapia intensiva se passaram até que Marcos pudesse suportar o peso do mundo fora do hospital.
A tarde de outono caía dourada sobre o cemitério de colinas na zona sul de São Paulo. O vento soprava suave, agitando as folhas das árvores e o lenço que Marcos agora usava para cobrir as marcas da cirurgia em sua nuca. Sentado em sua própria cadeira de rodas de titânio, ele parou diante da lápide de mármore claro.
As inscrições gravadas na pedra traziam o nome que ele perseguira por trinta anos no escuro: LAURA REIS SOUZA.
Os olhos de Marcos se encheram de lágrimas que escorreram livres, limpando a poeira de seu rosto cansado. Suas mãos, ainda trêmulas e sem a força de outrora, pousaram sobre o mármore frio. Ele respirou fundo e, forçando as cordas vocais em um esforço supremo, deixou que sua voz real — rouca e falha — quebrasse o silêncio do plano físico:
— Eu... finalmente entendi... o significado do relógio, Laura — ele sussurrou, cada sílaba exigindo uma tonelada de vontade. — Me desculpe por não ter comparecido ao seu funeral. Eu me sinto tão culpado por ter abandonado o seu corpo naquela maca para caçar uma promessa falsa de eternidade... Você não deveria ter me deixado a chave mestra no código. Mas obrigado. Obrigado por me lembrar de que o presente é tudo o que nós temos. Você foi a melhor parte do meu tempo.
O som metálico de rodas no cascalho anunciou uma aproximação. Kevin parou sua cadeira logo ao lado de Marcos, observando a lápide com o mesmo respeito silencioso.
— Olha só para nós — Kevin quebrou a solenidade com um meio sorriso melancólico. — Parece que eu não sou mais o único aleijado da equipe, afinal.
Marcos soltou uma risada fraca, um som rústico que há muito não habitava sua garganta. Ele manteve os olhos fixos no nome de Laura por alguns segundos antes de formular a pergunta que guardara desde o confronto na praça virtual:
— Você... também a amava, não é?
— Ame na ausência, pois é nela que descobrimos o verdadeiro significado de amar. — Disse Kevin, com um sorriso.
— O quê?
Kevin desviou o olhar para o horizonte da cidade, onde os prédios reais de São Paulo erguiam-se sob um céu de verdade, sem binários, sem manipulações. Ele respirou fundo, deixando que o vento levasse as cinzas daquele antigo segredo.
— Que diferença isso faz agora, Marcos? — Kevin respondeu, a voz mansa. — O tempo dela acabou. O nosso ainda está correndo. Escuta... o que você acha de tomarmos uma cerveja? Como nos velhos tempos?
Marcos olhou para as próprias mãos calejadas sobre as rodas da cadeira. O tique-taque em sua cabeça silenciara por completo. O silêncio do mundo real era reconfortante.
— Tudo bem... — Marcos respondeu, sentindo o peito leve pela primeira vez em três décadas. — Mas eu pago... desta vez.
— Finalmente, não é? — Kevin soltou uma risada genuína, girando sua cadeira em direção à saída do cemitério. — Trinta anos de atraso na conta.
Os dois amigos começaram a descer a colina de cascalho, as cadeiras de rodas avançando lado a lado, o som do metal contra a pedra ditando o ritmo de seus novos passos. Marcos finalmente compreendera o propósito do luto: ele não existia para nos prender ao passado, mas para nos lembrar do valor exato de cada segundo que nos resta. Amar não dependia da presença física, nem da imortalidade de um servidor de dados. Tratava-se de aceitar a finitude, aceitar a saudade e, mesmo assim, ter a coragem de girar os ponteiros em direção ao amanhã.
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