Lapsus
1 O QUARTO ANDAR
A tarde de verão caía dourada sobre São Paulo.
O sol atravessava as copas das árvores da praça e desenhava manchas de luz sobre os bancos de madeira, o cascalho dos caminhos e os rostos apressados que iam e vinham sem se notar. Crianças corriam atrás de pombos, executivos falavam ao telefone, turistas tiravam fotos da fonte ao centro.
No meio de toda aquela vida, havia um homem imóvel.
Estendido em um dos bancos, parecia apenas mais um corpo esquecido pela cidade.
Barba por fazer. Rosto marcado por hematomas recentes. Os lábios ressecados pelo calor. A roupa, outrora cara, agora era apenas um amontoado de tecido sujo e amarrotado. O peito largo subia e descia tão lentamente que, à distância, ele parecia morto.
Mas ninguém parava. Para a cidade, ele era invisível. Só mais um vulto que o cotidiano aprendera a ignorar. Até que seus olhos se abriram.
O despertar veio como um choque elétrico.
Ele se ergueu de uma vez, puxando o ar com violência, como se tivesse acabado de emergir de águas profundas. A garganta queimava. A boca tinha o gosto metálico de sangue velho.
Uma jovem que passava se assustou, recuando um passo. Na mão, algumas moedas que pretendia lhe oferecer.
O homem a encarou. Não havia confusão em seu olhar — apenas uma intensidade perturbadora.
Ele segurou levemente o pulso dela e perguntou, em voz rouca:
— Você se lembra de mim... não se lembra?
A mulher congelou. Por um instante, seus olhos perderam o foco, como se uma lembrança distante estivesse sendo rearranjada diante dela. O corpo enrijeceu. A respiração falhou. Então tudo mudou.
A tensão em seu rosto desapareceu, substituída por um sorriso caloroso, quase íntimo. Ela ajeitou o vestido, amarrotado pelo susto, e respondeu:
— Claro que lembro, Marcos. Meu Deus... olha para você. Está horrível.
Ela tocou seu rosto com delicadeza, quase com carinho.
— Venha comigo. Você precisa de um banho, comida e descanso.
Marcos.
O nome ecoou na mente dele como o som vazio de uma sala abandonada. Não significava nada. Não era seu nome. Mas serviria.
— Obrigado — respondeu, com um sorriso cansado e a seguiu.
Enquanto caminhavam pelas ruas elegantes do bairro, olhares curiosos e julgadores os acompanhavam. Uma mulher bem vestida levando um homem naquele estado para casa chamava atenção.
Ele ignorou todos. Estava acostumado a existir entre estranhos que, por alguns minutos, acreditavam conhecê-lo há anos.
A casa era ampla, iluminada, com móveis de bom gosto e o cheiro reconfortante de café recém-passado.
Assim que cruzou a porta, um homem surgiu na sala. Alto, postura rígida, expressão fechada.
— Quem é você? — perguntou, seco.
O desconhecido sustentou seu olhar por um segundo. As peças se encaixaram rápido, até demais.
— Matheus, certo? Desculpe aparecer assim. Prometo não tomar muito do seu tempo.
A hostilidade no rosto do homem vacilou. Seu semblante endurecido cedeu lugar a um reconhecimento instantâneo.
— Marcos?
Ele piscou, confuso consigo mesmo.
— Céus... me desculpe. Não percebi que era você nesse estado.
Jaqueline, a moça que o trouxe para dentro de casa, surgiu logo atrás, trazendo uma muda de roupas.
— Aqui. Vá tomar um banho. Depois conversamos.
— Não quero incomodar.
Matheus soltou uma risada breve.
— Incomodar? Você é da família.
Da família. Mais uma mentira que seria aceita como uma verdade.
— Obrigado — disse Marcos, pegando as roupas.
O banheiro se encheu de vapor.
A água quente escorria por seu corpo, levando embora a sujeira, o suor e parte do sangue seco. Foi então que a dor veio.
Aguda.
Brutal.
Ele levou a mão ao abdômen. A tatuagem brilhava sob a pele molhada: uma cruz envolta por um círculo perfeito, pulsando com uma luz dourada fraca, como um coração prestes a falhar.
A dor subiu por seu peito. Ele fechou os olhos, respirando fundo.
— Só mais um pouco... — murmurou para o vazio. — Aguente só mais um pouco.
Não sabia se falava consigo mesmo ou com aquilo que vivia dentro dele.
Naquela noite, Marcos permaneceu deitado na cama improvisada que Jaqueline preparara na sala. A luz azulada da lua atravessava a janela.
Seus olhos estavam fixos no teto.
Memórias fragmentadas passavam por sua mente como flashes queimados: um corredor branco, gritos, mãos ensanguentadas, rostos sem nome, portas se fechando.
Nada fazia sentido. Era como tentar montar um quebra-cabeça usando peças de várias caixas diferentes. Mas uma certeza permanecia: aquilo não duraria para sempre. Mais cedo ou mais tarde, tudo iria desmoronar.
Na manhã seguinte, o aroma de café fresco o guiou até a cozinha. Matheus e Jaqueline estavam à mesa, esperando. Jaqueline sorriu primeiro.
— Você acordou.
Matheus cruzou os braços.
— Finalmente. Estávamos preocupados.
Marcos puxou uma cadeira, mas não se sentou.
— Preocupados com o quê?
Jaqueline franziu a testa.
— Com você, Marcos. Queremos saber como chegou àquele estado. Você sempre foi impecável. Sempre com os melhores empregos, as melhores histórias...
Ela parou ao notar a expressão dele. Fria. Distante. Quase triste. Marcos respirou fundo.
— Preciso dizer uma coisa. — Disse Marcos. O silêncio caiu na cozinha. — As memórias que vocês têm de mim... não são reais.
Jaqueline riu, nervosa.
— Que tipo de brincadeira é essa?
— Não é brincadeira. Eu coloquei essas lembranças na sua mente ontem, na praça.
Matheus se levantou abruptamente, incrédulo.
— O quê? Você é louco?
— Eu precisava de abrigo. Precisava desaparecer por uma noite. Usei vocês para isso.
— Marcos... Do que você está falando? — As palavras morriam na boca de Jaqueline.
— Esse nem é meu nome. — Disse Marcos, impessoal.
A tensão ficou insuportável. Jaqueline deu um passo à frente, a voz tremendo entre medo e raiva.
— Isso é alguma droga? Algum surto? Porque explicaria muita coisa.
Ele a encarou. E então o mundo dela mudou.
Os olhos de Jaqueline perderam o brilho. Seu corpo amoleceu antes de tombar no chão, desacordada.
— Jaqueline! — Mattheus gritou.
Ele avançou. Marcos apenas o fitou.
Matheus parou no meio do movimento, como se os pensamentos tivessem sido arrancados de sua mente. Um segundo depois, caiu ao lado da esposa.
Silêncio.
Marcos observou os dois por um instante.
— Me desculpe.
Havia culpa em seu rosto, mas não arrependimento. Então saiu.
A cidade o recebeu novamente com o ruído dos carros, o vento quente e a sensação constante de perseguição invisível. A tatuagem em seu abdômen latejava sob a camisa. Cada passo parecia aproximá-lo de algo inevitável.
— Não sei por quanto tempo ainda consigo continuar assim... — murmurou.
Entrou em um pequeno bar de esquina. Pediu um café. Bebeu em silêncio. Ao sair, o dono chamou:
— Ei! Você não pagou!
Marcos virou apenas o suficiente para encará-lo.
Um segundo.
Dois.
A irritação no rosto do homem evaporou.
— Desculpe — disse o dono, confuso. — Falha minha. Você já pagou.
Marcos continuou andando. No bolso, havia apenas um bilhete dobrado. Retirou-o mais uma vez.
Rua da Praça, número 20, quarto andar.
O papel parecia mais pesado do que deveria. Talvez porque fosse a única coisa concreta que possuía.
Olhou para o endereço e seguiu pela calçada movimentada, o café ainda quente entre os dedos.
— O que diabos vou encontrar lá?
A pergunta se perdeu no ar de São Paulo, e, pela primeira vez, ele temeu a resposta.
Marcos caminhou por horas. São Paulo mudava de rosto conforme ele avançava: das ruas elegantes e arborizadas do bairro residencial de classe alta para avenidas mais estreitas, cercadas por prédios antigos de vidro fumê e concreto escurecido pela fuligem do tempo.
O endereço no bilhete o guiava como uma bússola silenciosa.
Rua da Praça, número 20.
Quando finalmente ergueu os olhos, encontrou um edifício comercial de fachada sóbria, quase impessoal. Grande demais para passar despercebido, discreto demais para chamar atenção.
As portas de vidro refletiam a luz branca da manhã.
Na guarita da entrada, um porteiro tomava café enquanto assistia ao noticiário em uma pequena televisão apoiada sobre a mesa. A voz do âncora falava sobre política, mercados e desaparecimentos recentes — ruídos de fundo que Marcos mal registrou.
Ele se aproximou.
— Bom dia.
O porteiro ergueu os olhos da tela, avaliando-o rapidamente. A barba ainda malfeita, as roupas emprestadas, a expressão cansada.
— Posso ajudar?
Marcos retirou o bilhete do bolso, conferindo o número mais uma vez.
— Este é o número 20, certo?
— É, sim — respondeu o homem, tomando outro gole de café. — Está procurando alguém?
Marcos hesitou por um instante.
— Preciso ir ao quarto andar.
A reação foi imediata.
O semblante do porteiro endureceu, como se uma porta invisível tivesse se fechado atrás de seus olhos.
— Não há nada no quarto andar.
Marcos franziu a testa e ergueu o olhar para o prédio. Pelas janelas espelhadas, era impossível distinguir o interior.
— Como assim? — perguntou, medindo as palavras. — Isso é um prédio comercial. Todos os andares deveriam estar ocupados.
O homem pousou a xícara lentamente, sem desviar o olhar.
— Você não ouviu? Eu disse que não há nada no quarto andar. — A voz do porteiro agora tinha um tom cortante. — Posso ajudar em mais alguma coisa?
Marcos ficou em silêncio. Por um segundo, considerou invadir a mente daquele homem. Seria fácil. Um olhar, uma fissura na memória, uma lembrança fabricada.
Mas sentiu o abdômen latejar sob a camisa, como se a tatuagem já antecipasse o custo.
Dor.
Sempre a dor.
Ainda não.
Ele respirou fundo e deu um passo atrás.
— Desculpe incomodar.
O porteiro assentiu, satisfeito, e se virou de lado para voltar ao noticiário.
Foi então que Marcos viu. Na lateral do pescoço do homem, parcialmente escondida pela gola do uniforme, havia uma marca. Uma cruz dentro de um círculo. Exatamente igual à sua.
O mundo ao redor pareceu desacelerar. O som da televisão se tornou distante. O sangue pulsou mais forte em seus ouvidos.
— Ei! — chamou, a voz saindo mais alta do que pretendia.
O porteiro virou-se, irritado.
— O que foi agora?
Marcos avançou um passo, incapaz de esconder a urgência.
— Essa tatuagem no seu pescoço... onde conseguiu isso?
Por uma fração de segundo, algo como medo atravessou o rosto do homem. Mas desapareceu rápido.
— É só uma tatuagem.
A resposta veio seca demais. Rápida demais. Uma mentira? Marcos percebeu no mesmo instante que o clima havia mudado. Sem pensar, avançou e agarrou o homem pelo colarinho, prensando-o contra a parede da guarita.
A xícara caiu no chão e se espatifou.
— Me diga onde conseguiu essa marca! — rosnou, os olhos queimando de tensão.
O porteiro arregalou os olhos, mais furioso do que assustado.
— Você enlouqueceu?
Em um movimento brusco, o porteiro puxou a arma da cintura e encostou o cano frio na garganta de Marcos. O metal gelado tocou sua pele. O tempo pareceu congelar.
— Solta. Agora.
Marcos recuou imediatamente, erguendo as mãos.
O coração martelava no peito.
A marca.
A mesma marca.
Aquilo não podia ser coincidência.
— Desculpe — disse, controlando a respiração. — Eu me excedi.
O porteiro manteve a arma apontada, os olhos estreitos. Agora havia algo diferente ali. Não era apenas irritação. Era reconhecimento. Como se ele soubesse exatamente o que Marcos era.
— Saia daqui — disse o homem, em voz baixa e mortalmente séria. — Antes que eu precise atirar em você.
Marcos deu mais um passo para trás. Depois outro. Sem desviar os olhos. Até se afastar da entrada.
Quando alcançou a calçada oposta, lançou um último olhar para o prédio. As janelas escuras do quarto andar refletiam apenas o céu. Nada além disso. Mas ele sabia. Havia algo lá. Algo escondido. Algo ligado àquela marca. E, talvez, à sua própria origem.
A dor em seu abdômen voltou a pulsar, mais intensa, como se a tatuagem reagisse à proximidade.
Marcos apertou a camisa sobre a pele. A resposta estava naquele prédio. E pela primeira vez, ele teve certeza de que alguém do outro lado já sabia que ele havia voltado. Ele não desistiria.
Aquele prédio escondia respostas, e o bilhete em seu bolso era prova suficiente de que alguém — ou ele mesmo — queria que chegasse até ali.
Se o dia lhe negara passagem, a noite abriria outra porta.
Quando o céu de São Paulo mergulhou no azul escuro e as luzes dos escritórios começaram a se apagar, Marcos observava o edifício do outro lado da rua, protegido pela sombra de uma marquise.
A troca de turno na portaria foi movimentada.
O homem da manhã falava rápido demais com o substituto, gesticulando em direção à rua, aos arredores, à entrada. Não era difícil adivinhar o assunto: Ele.
O aviso estava dado: Marcos voltaria. E voltou.
Esperou o primeiro porteiro desaparecer pelo quarteirão antes de atravessar a rua.
Cada passo parecia calculado. Cada segundo aumentava a pulsação dolorosa sob sua pele. A tatuagem em seu abdômen latejava como um relógio vivo.
Ao entrar no saguão, ajustou a postura, ergueu o queixo e assumiu a confiança de alguém que pertencia àquele lugar.
— Boa noite — disse, sem diminuir o ritmo.
Tentou passar direto.
— Ei! — chamou o novo porteiro. — Posso ajudar?
Marcos parou e virou apenas o suficiente para parecer levemente incomodado.
— Vou ao quinto andar. Preciso buscar algumas coisas que deixei lá.
O homem estreitou os olhos.
— Nunca vi o senhor por aqui. Vou precisar fazer um cadastro e aguardar autorização.
Marcos sustentou o olhar. Aquele momento custaria caro. Mas não havia alternativa.
Ele se aproximou devagar, até ficar perto o bastante para capturar toda a atenção do porteiro.
— Como assim nunca me viu?
Sua voz saiu baixa, firme, quase hipnótica. Os olhos do porteiro vacilaram. Por um breve instante, a realidade dentro dele pareceu se reorganizar.
Então veio a mudança.
A rigidez sumiu.
A expressão se desfez em reconhecimento imediato.
— Senhor Marcos... claro. Me desculpe. O senhor comentou mais cedo que voltaria esta noite.
A dor veio no mesmo segundo. Marcos quase perdeu o equilíbrio.
Uma queimação brutal atravessou seu abdômen, como se a tatuagem estivesse sendo gravada novamente em sua carne com metal em brasa.
Ele comprimiu a barriga discretamente, os dedos afundando na camisa.
— Está tudo bem, senhor? — perguntou o porteiro, agora genuinamente preocupado.
Marcos forçou uma expressão neutra.
— Não se preocupe comigo. Só preciso subir.
Sem esperar resposta, caminhou até o elevador.
As portas se fecharam atrás dele com um som seco.
Sozinho, permitiu que a dor o atingisse por inteiro. A luz do painel refletia em seu rosto suado.
Apertou o botão do 4º andar e o elevador começou a subir.
2... 3...
A pulsação em sua barriga aumentou. Então o visor saltou direto para:
5.
As portas se abriram.
Marcos ergueu a cabeça, confuso.
— O quê...?
O corredor à frente era silencioso, revestido por carpetes escuros e luzes frias embutidas no teto. Um andar comum. Escritórios fechados. Portas de vidro fumê.
Nada de quarto andar. Como se ele simplesmente não existisse.
A dor em seu abdômen aumentou de novo. Talvez as escadas. Talvez houvesse um acesso oculto entre os andares.
Deu um passo para fora do elevador.
— Está tudo bem?
A voz feminina surgiu atrás dele como um sussurro inesperado.
Marcos se virou. Por um instante, o mundo pareceu falhar. Ela estava parada a poucos metros.
Cabelos loiros longos, caindo sobre os ombros com elegância natural. Olhos azuis tão intensos que pareciam atravessar qualquer máscara. Havia uma serenidade familiar em seu rosto, algo que atingiu Marcos antes mesmo de qualquer lembrança.
Seu peito apertou.
— Laura...? — o nome escapou antes que pudesse impedir.
A mulher franziu levemente a testa.
— Esse é o meu nome, sim.
Ela o analisou com curiosidade, mas sem reconhecimento.
— Nós nos conhecemos?
Marcos tentou responder, mas as palavras se perderam.
— Eu... não sei. — Ele levou a mão à testa. — Você parece... familiar demais.
Laura inclinou a cabeça, estudando-o.
— Desculpe. Eu realmente não me lembro do senhor.
Ela se aproximou um passo, talvez por preocupação. Então tocou o braço dele. O impacto foi imediato. As memórias explodiram. Não como imagens vagas. Como uma vida: Laura rindo ao seu lado em um sofá iluminado apenas pela televisão. Os dois dividindo pipoca enquanto um filme passava sem importância. Uma manhã de sábado chuvosa, os dois correndo pela cozinha. O calor das mãos dela entrelaçadas às suas. O gosto de um beijo. A sensação exata de pertencimento.
Era íntimo.
Real demais.
E, ao mesmo tempo, impossível.
Marcos se afastou bruscamente, respirando com dificuldade.
— O que é isso?
Laura piscou, assustada.
— O quê?
Ele recuou mais um passo, os olhos arregalados.
— Essas memórias.
Levou a mão à cabeça.
— Como eu posso não me lembrar de nada... e ainda assim isso parecer tão real?
Ela o encarou, agora claramente preocupada.
— Senhor, acho melhor eu chamar a segurança.
Mas Marcos já não a ouvia. Sua mente era um redemoinho. Seus poderes alteravam e criavam memórias. Mas aquilo era diferente. Aquilo parecia uma lembrança despertada, não criada.
Algo enterrado.
Algo que alguém havia roubado dele.
Ou que ele próprio escondera.
Sem responder, Marcos se virou e começou a andar rápido pelo corredor, procurando a porta das escadas. Precisava sair dali. Precisava pensar.
O prédio, Laura, a tatuagem, o andar inexistente.
Tudo parecia conectado por uma lógica que sua mente se recusava a alcançar e quanto mais tentava lembrar, mais sentia que a verdade estava presa logo atrás de uma porta dentro da própria cabeça. Uma porta que alguém havia trancado por dentro.
Na manhã seguinte, Marcos estava de volta à praça em frente ao prédio. Sentado no banco de madeira, observava o edifício do outro lado da rua como quem encara um predador adormecido.
À luz do dia, ele parecia inofensivo.
Vidros espelhados. Fachada limpa. Funcionários entrando e saindo com café nas mãos e pressa nos passos. Normal demais. E era justamente isso que o assustava.
Porque agora Marcos sabia que, por trás daquela aparência banal, havia um vazio impossível: um andar que não existia, memórias que não lhe pertenciam e uma mulher que parecia saída de uma vida roubada.
Foi então que ele a viu.
Laura.
Perfeita como ele lembrava do pensamento fugaz do dia anterior.
Ela surgiu pela porta principal do prédio, sozinha, com passos tranquilos, uma bolsa pendendo do ombro e o rosto iluminado pelo sol fraco da manhã.
Marcos se levantou imediatamente. Seu coração acelerou antes mesmo que sua razão pudesse contestar.
Esperou alguns segundos e começou a segui-la.
Manteve distância, observando cada movimento, tentando encontrar na forma como ela andava, no jeito como prendia o cabelo atrás da orelha, alguma resposta para a sensação absurda de intimidade que ela despertava.
Duas quadras depois, Laura parou de repente, porque apesar de tentar ser discrito, ela sentiu que estava sendo seguida por ele, então, virou-se.
Os olhos azuis o encontraram com precisão.
— Por que está me seguindo?
A pergunta veio seca, direta. Sem medo.
Marcos parou também.
O movimento da cidade continuava ao redor dos dois, indiferente.
— Quem é você? — perguntou, sem rodeios.
A expressão dela se fechou em incredulidade.
— Como é?
Ele deu um passo à frente.
— Eu preciso saber quem você é.
Laura soltou uma risada curta, sem humor.
— Isso é algum tipo de piada?
— Não.
A voz dele saiu mais baixa. Mais sincera.
— Ontem, quando você me tocou... eu vi coisas.
Ela o observou em silêncio.
— Coisas que nunca vivi — continuou Marcos. — Ou talvez tenha vivido e não consigo lembrar. Eu senti coisas. Emoções. Momentos. Como se... como se você fizesse parte de mim.
O rosto de Laura endureceu.
— Você é louco.
A resposta veio rápida, quase automática. Mas Marcos percebeu uma hesitação sutil em seu olhar.
Como se alguma parte dela também tivesse sentido algo estranho na noite anterior. Ele decidiu arriscar. Aproximou-se mais, sustentando o olhar dela.
— Talvez você não se lembre de mim. Mas eu posso fazer você lembrar.
Seus olhos se fixaram nos dela.
A intenção era simples: empurrar para sua mente o mesmo fragmento de lembrança que recebera no toque.
O sofá.
O filme.
O beijo.
Mas nada aconteceu.
Laura continuou o encarando, apenas confusa.
— O que exatamente você está fazendo?
Marcos piscou, desconcertado. A habilidade não funcionara. Não havia resistência parcial. Não havia dor de retorno.
Era como tentar escrever sobre pedra.
— Você... não se lembra de mim? — perguntou, mais para si mesmo do que para ela.
Laura respirou fundo, já sem paciência.
— Escuta, se continuar me seguindo, eu vou chamar a polícia.
Ela se virou para ir embora.
Mas Marcos não conseguia aceitar aquilo.
A falha do poder.
A familiaridade.
O toque.
Tudo gritava que havia algo errado.
— Você é imune? — perguntou.
Ela virou o rosto por cima do ombro.
— Imune a quê?
Marcos hesitou. Como explicar algo que ele próprio não compreendia?
— Você não entenderia.
Laura suspirou, irritada.
— Eu só preciso ir ao mercado. Comprar algumas coisas. Então, por favor, me deixe em paz.
Ela voltou a andar. No impulso, Marcos segurou seu braço. Foi um gesto rápido, desesperado.
E então viu.
A manga do casaco subiu alguns centímetros. No pulso dela, parcialmente escondido pela pulseira, havia a marca: a cruz dentro de um círculo.
Idêntica à tatuagem em seu abdômen. O ar pareceu desaparecer ao redor. Os olhos de Marcos se arregalaram.
— Você...?
A palavra morreu antes de terminar. Laura puxou o braço com força, o rosto tomado por indignação.
— Não ouse tocar em mim de novo. — Sua voz saiu afiada como lâmina. — Da próxima vez, eu chamo a polícia.
Sem esperar resposta, ela se afastou pela calçada, misturando-se ao fluxo de pessoas.
Marcos permaneceu imóvel. O ruído da cidade se dissolveu em um zumbido distante.
A marca.
No prédio.
No porteiro.
Nela.
Nele.
Tudo apontava para o mesmo lugar: o quarto andar inexistente.
Alguma coisa havia acontecido naquele prédio.
Algo que fragmentara seu passado em pedaços soltos, enterrados em outras pessoas, em símbolos e em lembranças que se recusavam a se recompor.
E o pior de tudo era a sensação crescente de que aquilo não tinha sido feito contra sua vontade.
Talvez...
Talvez tivesse sido ele mesmo quem destruíra as próprias memórias. E agora não sabia mais como juntá-las.
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