Lapsus
2 ESPELHOS DE POEIRA
A noite paulistana não pedia licença; ela simplesmente castigava. Mesmo no auge do verão, a chuva havia deixado um rastro de umidade cortante que subia pelo asfalto e atravessava as roupas de quem não tinha para onde ir. Marcos estava encolhido entre corpos anônimos e papelões úmidos, tentando encontrar silêncio em uma mente que insistia em gritar.
Sua memória era um disco riscado. Fragmentos de imagens que ele não reconhecia como suas surgiam e desapareciam, como fantasmas em um corredor escuro. Ele sentia que havia algo de artificial naquelas lembranças, como se fossem próteses mal ajustadas em sua consciência. A única constante era Laura. Ela era a "imune". O pensamento latejava em sua têmpora: Se ela é imune, o que acontece com os outros?
Ele tateou o bolso e sentiu o papel amassado com o endereço. Era sua única âncora na realidade. Impulsionado por um medo visceral — um sentimento que parecia novo, mas estranhamente familiar — Marcos se levantou. Cruzou as ruas vazias até o ponto de ônibus onde a vira pela primeira vez. Ali, exausto, deixou que o cansaço vencesse a paranoia e adormeceu no banco rígido.
O sol nasceu sem brilho, abafado pela névoa e pelo barulho do trânsito que retomava seu ritmo frenético. Marcos despertou em um solavanco, o peito subindo e descendo como se tivesse acabado de emergir de um afogamento.
Ao focar a visão, encontrou um par de olhos curiosos. Uma garotinha, de uns seis anos, estava parada à sua frente. Ela saboreava um pirulito com uma calma que contrastava com o caos interno de Marcos.
— Perdeu alguma coisa? — Marcos rosnou. A voz saiu mais áspera do que pretendia, um mecanismo de defesa contra a vulnerabilidade da noite anterior.
A menina recuou um passo, assustada, e a mãe a puxou pelo braço, apressando o passo em direção ao ônibus que encostava no meio da fumaça de diesel. Foi nesse instante, quando a criança se virou, que Marcos sentiu o sangue congelar.
Lá estava. Na nuca da menina, sob o cabelo fino, a marca: uma cruz inscrita em um círculo.
— Ei! Espera! — Ele saltou do banco, mas as portas de metal se fecharam com um baque pneumático. O ônibus partiu, deixando apenas o cheiro de queimado e o eco de seu grito vazio.
— O que é isso... — sussurrou para si mesmo, sentindo o mundo girar. — O que está acontecendo?
— Você faz perguntas demais para alguém que não tem as respostas.
Marcos girou o corpo. Do outro lado da calçada, Laura o observava. Ela parecia não pertencer àquele cenário cinzento; havia uma nitidez nela que o restante do mundo parecia ter perdido. Ela atravessou a rua com passos calculados, os olhos fixos nos dele, como se estivesse lendo um código de barras em sua alma.
Ela parou a poucos centímetros. Não havia saudação, apenas uma análise fria.
— Eu te observei depois do nosso encontro ontem. O seu interesse pelo símbolo em meu pulso. Quem é você? — perguntou ela.
Marcos franziu o cenho, o coração martelando contra as costelas. — Por que está me perguntando isso? Eu que deveria estar curioso aqui...
— Não — Laura deu um passo à frente, invadindo seu espaço pessoal. — Você não é um deles. Então, eu repito: quem é você?
Marcos sentiu a garganta secar. A proximidade dela disparou uma nova sequência de lampejos que fez a cabeça de Marcos doer. Ele colocou a mão na cabeça com a tentativa frustrada de normalizar seus pensamentos.
— Eu não sei — ele admitiu, a voz falhando. — Não consigo me lembrar de nada antes de ontem. Mas quando toquei em você... as coisas vieram. Imagens que não parecem minhas, mas que eu sinto que vivi. É como se eu fosse um quebra-cabeça montado com as peças de outra pessoa.
Laura sustentou o olhar por um longo tempo, procurando qualquer traço de falsidade. Por fim, sua expressão suavizou um milímetro, tornando-se algo próximo da urgência.
— Não tente nenhuma gracinha. — Ela segurou o braço dele, um toque firme que o ancorou sua mente no presente. — Venha comigo. Agora.
Marcos a seguiu, embora cada instinto lhe dissesse para correr na direção oposta. Laura parou abruptamente diante de uma mulher que esperava o ônibus, uma desconhecida segurando uma bolsa de couro desgastada. A mulher estranhou a aproximação, o rosto contraído em uma máscara de desconfiança urbana.
— Faça agora! — ordenou Laura, a voz chicoteando o ar.
Marcos estancou. — O quê? Do que você está falando?
A desconhecida olhou de um para o outro, apertando a bolsa contra o peito. — Posso ajudar em alguma coisa? Vocês estão bem?
— O que você tentou fazer comigo ontem, Marcos — Laura ignorou a mulher, fixando os olhos nele com uma urgência quase cruel. — Eu sei que você pode reescrever o que ela sente. Faça com que ela acredite que somos velhos amigos. Agora! Não tenho tempo para sutilezas.
— Eu não sou um criminoso... — Marcos começou, mas a confusão em sua mente foi substituída por uma pressão familiar atrás dos olhos.
— Vocês são loucos? — a mulher exclamou, já dando um passo para trás. — Eu vou chamar a polí...
Marcos não pensou. Foi um espasmo mental. Ele focou o olhar na mulher e sentiu uma conexão invisível, como se estivesse mergulhando as mãos em água fria. Ele visualizou o rosto dele e o de Laura sendo costurados no passado daquela estranha.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Os olhos da mulher vacilaram, as pupilas dilatando e contraindo em segundos. O medo desapareceu, substituído por um brilho morno de reconhecimento.
— Marcos? Laura? — A mulher sorriu, uma expressão de pura alegria que parecia terrivelmente deslocada. — Nossa, quanto tempo! O que vocês estão fazendo aqui nessa região?
Laura relaxou os ombros, mas seu sorriso era predatório. Ela se virou para Marcos, ignorando a mulher que agora falava sobre "lembranças que nunca existiram". Marcos sentiu a dor no abdômen novamente.
— Então é verdade... — sussurrou Laura, agarrando os braços de Marcos com uma força inesperada. — Como você veio parar aqui?
— Eu já disse que não sei! — Marcos se desvencilhou, sentindo uma náusea profunda pelo que acabara de fazer. — Eu nem entendo o que é isso. É um reflexo. Se estou vivo e escondido até hoje, foi por causa desses... acidentes.
Laura o estudou por um momento. O entusiasmo em seus olhos deu lugar a uma cautela estratégica. Ela pegou um pequeno bloco, rabiscou um endereço com pressa e enfiou o papel na mão dele.
— Vá até lá hoje à noite. Depois das dez — disse ela, o tom baixando para um sussurro que a mulher ao lado não deveria ouvir, embora ela continuasse ali, sorrindo docemente para o vazio. — Preciso te mostrar uma coisa.
— O que tem nesse lugar? — Marcos apertou o papel, sentindo a textura áspera contra a palma suada.
— Talvez a resposta que você procura. Não sou autorizada a falar aqui, as paredes têm ouvidos que você ainda não aprendeu a ignorar. Apenas... não falte.
Ela deu um tapinha amigável no ombro da mulher "manipulada" e começou a caminhar, desaparecendo na multidão que descia do ônibus.
— Laura, espera! — Marcos deu um passo, mas o fluxo de pessoas o impediu.
Ele ficou parado no meio da calçada, segurando um endereço e a culpa de ter roubado a realidade de uma estranha. Ao seu lado, a mulher continuava sorrindo.
— Foi tão bom ver vocês — disse ela, antes de seguir seu caminho, sem ter a menor ideia de que o homem à sua frente era, para ela, um completo desconhecido até cinco minutos atrás.
As horas arrastavam-se como se o tempo tivesse decidido punir Marcos. A ansiedade era uma presença física, um nó que apertava seu estômago a cada minuto que passava. Quando a noite finalmente caiu, ele se pôs a caminho do endereço de Laura, mas a atmosfera da cidade havia mudado.
Não era apenas a paranoia. Os olhares se voltavam para ele com uma sincronia perturbadora. O jornaleiro, a mulher no ponto, o motorista do carro parado no sinal — todos pareciam reconhecer algo nele que ele mesmo desconhecia. Ele não era mais um anônimo; era um sinal de alerta caminhando entre a multidão.
Um homem de estatura imponente, vestindo um sobretudo que parecia engolir a luz ao redor, atravessou seu caminho na calçada estreita. Marcos tentou desviar, mas o estranho moveu-se com uma agilidade calculada, bloqueando sua passagem.
— Você deveria dar meia-volta — disse o homem. A voz era grave, desprovida de qualquer emoção.
— Quem é você? — Marcos recuou um passo, a mão instintivamente buscando o papel no bolso. — Sai da minha frente.
— Quem eu sou é irrelevante para o erro que você está prestes a cometer.
Marcos sentiu a pressão subir. Ele fixou o olhar no estranho, tentando encontrar aquela "frequência" que usara na mulher mais cedo. Ele mergulhou sua vontade na mente do homem, buscando o fio da obediência, mas bateu contra uma parede de concreto. Não houve conexão. Não houve brilho de reconhecimento.
O homem apenas puxou o colarinho, revelando a marca no pescoço — a cruz e o círculo — mas com uma diferença: ela parecia pulsar sob a pele, viva.
— Não perca seu fôlego — o estranho alertou, com um traço de pena na voz. — Você não vai conseguir usar suas habilidades comigo. E, acredite ou não, eu sou o mais próximo de um amigo que você tem agora.
— O que vocês querem de mim? — Marcos explodiu, a voz ecoando no beco. — Por que todos têm essa maldita marca? O que eu fiz?
— Você quer um passado que não existe, Marcos. — O homem deu um passo à frente, forçando-o contra a parede. — Essas memórias que você persegue... elas não te pertencem. São fragmentos de vidas descartadas, sobras de algo que você nunca viveu.
— Como você sabe esse nome? Eu o inventei antes de ontem. Como sabe das memórias?
— Apenas me ouça: esqueça Laura. Esqueça o endereço. Siga daqui para frente como se fosse uma tela em branco. É sua única chance.
— Eu não recebo ordens de fantasmas — Marcos rosnou, tentando empurrar o homem para passar.
O estranho o segurou pelos ombros com uma força desumana. — Me escuta! Se você continuar, vai atrair a atenção de quem possui habilidades que fazem as suas parecerem truques de mágica. Você é um erro, Marcos. A forma como você veio parar aqui... você nem deveria existir.
— Você está louco! — Marcos desferiu um empurrão, a raiva sobrepujando o medo. — Sai da minha frente agora!
O homem suspirou, uma expressão de pesar cruzando seu rosto severo. Antes que Marcos pudesse reagir, o estranho fechou o punho e desferiu um golpe curto e preciso na têmpora de Marcos. O mundo girou e as luzes da cidade se transformaram em riscos brancos antes de se apagarem por completo.
— Desculpe, rapaz — a voz do homem pareceu vir de muito longe enquanto Marcos desabava. — Mas é melhor você dormir agora do que sofrer acordado depois.
O sonho não era uma lembrança; era uma invasão de sentidos. O cheiro de café recém-passado era tão real que Marcos podia sentir o calor da fumaça no rosto. Ele e Laura estavam entrelaçados no sofá, a luz da TV banhando a sala em tons azulados. Era o retrato perfeito de uma vida comum.
— Eu sempre vou te amar — Marcos sussurrou, sentindo o peso reconfortante da cabeça dela em seu ombro.
— Eu também — Laura respondeu, e o som da voz dela era uma melodia que ele reconhecia em cada fibra do seu ser. — Eu te amo, Marcos.
Ele a beijou, mas o gosto não era de amor; era de urgência.
— Você deveria abandonar o projeto, Laura — as palavras saíram da boca de Marcos sem que ele as controlasse.
Laura se afastou bruscamente. O sofá pareceu ficar maior, a sala mais fria. — O quê?
— Você precisa focar no que importa. Na sua família. Eu não sei o que faria se você... — Ele parou, a garganta fechada.
— Por favor, não diga nada. Nada vai acontecer comigo. Vamos só voltar para a série.
Ele tentou abraçá-la novamente, mas os braços dele atravessaram o corpo de Laura como se ela fosse feita de fumaça. As paredes da sala começaram a sangrar escuridão, encolhendo-se sobre ele. O cheiro de café tornou-se o odor metálico de sangue e ozônio.
— MARCOS! ACORDA!
Os olhos dele se abriram sob uma luz fluorescente que zumbia como um enxame de abelhas. Ele tentou levar a mão ao rosto, mas seus pulsos foram travados por cordas ásperas. Ele estava preso a uma cadeira de metal, no centro de uma sala nua. À sua frente, o homem que o havia nocauteado o observava com uma expressão de cansaço absoluto.
— O que houve? — Marcos cuspiu as palavras, o gosto de ferro do soco ainda na língua.
— Eu tive que te tirar da rua — disse o homem.
— Desgraçado! Me solta agora! — Marcos se debateu, o metal da cadeira rangendo contra o chão de cimento.
— Calma, Marcos. Eles já estão te mapeando. Me escuta bem: você precisa acordar. Nada disso é real...
— Por que você insiste nisso? — Marcos parou de lutar, a respiração pesada. — Como pode falar essas coisas como se me conhecesse? Como se tivesse o direito de decidir o que é verdade na minha vida?
O homem suspirou, os ombros caindo. Ele parecia ter envelhecido dez anos em dez minutos.
— Eu desisto. Não dá para lutar contra isso.
Com um movimento rápido, o homem desatou os nós. As cordas caíram inertes no chão.
— Você quer ir? Então vá — o estranho apontou para a única porta da sala. — Mas saiba que depois que passar por aquela porta, o caminho de volta deixa de existir.
Marcos levantou-se num salto, esfregando os pulsos marcados. Ele caminhou em direção à saída, mas parou ao ouvir a voz do homem uma última vez.
— Meu nome é Kevin — disse ele, sem olhar para trás. — Costumávamos tomar uma cerveja no final de semana e reclamar do governo. Mas eu sei que minhas memórias não são suficientes para consertar o que fizeram com as suas.
Marcos não respondeu. Ele girou a maçaneta e saiu, o coração disparado. Encontrou-se em um corredor estreito de um prédio antigo, com carpete mofado e o som de um elevador distante. Ao fechar a porta atrás de si, ele olhou para o número dourado pregado na madeira descascada: 401.
O quarto andar. O silêncio do corredor era sepulcral. Um impulso súbito, uma mistura de medo e necessidade de confirmação, o fez girar a maçaneta novamente.
A porta estava trancada.
— Kevin! Abre essa droga! — Ele forçou o ombro contra a madeira. Na terceira tentativa, a fechadura cedeu com um estalo seco e a porta se escancarou.
Marcos deu um passo para dentro e parou. O ar ali dentro era pesado, carregado de uma poeira que parecia assentada há décadas. Não havia cadeira de metal. Não havia Kevin. Não havia luz fluorescente.
A sala estava completamente vazia. Teias de aranha cobriam os cantos das paredes descascadas e o chão de madeira estava podre em alguns pontos. O lugar parecia abandonado há pelo menos vinte anos.
Marcos olhou para os próprios pulsos. As marcas vermelhas das cordas ainda estavam lá, frescas e pulsantes, em um quarto onde ninguém entrava há uma geração.
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