Lapsus
5 O HIATO DA VIDA
O céu de São Paulo havia se transformado em uma abóbada de chumbo, pesada e carregada de uma eletricidade que fazia os pelos do braço se arrepiarem. Do lado de fora, o vento fustigava as vidraças com uma violência crescente, uivando entre as fendas do prédio. Na calçada, o caos era coreografado: pedestres dobravam o passo e os primeiros guarda-chuvas eram abertos como escudos contra o temporal iminente.
Dentro do apartamento, o silêncio era absoluto, interrompido apenas pelo zumbido baixo da geladeira. Laura estava imóvel diante da janela panorâmica. Ela vestia apenas um roupão de seda, as pernas descalças sentindo o frio que emanava do vidro, mas não parecia notar. Em sua mão direita, uma xícara de porcelana soltava uma fita preguiçosa de vapor, indicando que o café ainda estava na temperatura ideal.
No entanto, ela não bebia. Seus olhos não piscavam.
Laura estava em um estado de suspensão, os sentidos desconectados do ambiente doméstico e cravados em um único ponto lá embaixo. No meio do fluxo frenético de pessoas, havia uma anomalia. Um homem de terno formal, parado, com o rosto voltado para o céu escuro e as palmas das mãos abertas.
Então, as comportas do céu se abriram.
A chuva desabou em cortinas pesadas. Laura franziu a testa, a respiração ficando mais lenta, quase parando. Ela observou a água encharcar o terno do desconhecido. No meio da tempestade, o rapaz abriu um sorriso largo, uma expressão de êxtase puro que parecia emitir uma vibração que Laura podia sentir no topo do prédio.
Laura sentiu um repuxo no peito, um reconhecimento instintivo. Ela sorriu de volta para o vidro, as pupilas dilatadas, mergulhada em uma frequência que só os dois pareciam compartilhar. O mundo ao redor dela começou a perder a nitidez, as cores do apartamento se desvanecendo em um borrão, deixando apenas ela e o homem na chuva.
— LAURA! RESPONDA!
O grito de Kevin explodiu atrás dela, estraçalhando a conexão como uma marretada em um espelho. Laura deu um solavanco violento, a porcelana da xícara tilintando contra os dentes enquanto ela quase a deixava cair. O calor do café, que antes ela ignorava, agora parecia queimar seus dedos com uma intensidade súbita.
Ela girou o corpo, o coração martelando contra as costelas. Kevin estava sentado no sofá da sala, a poucos metros dela. Seus olhos — acesos com uma urgência maníaca — nunca abandonavam o rosto dela.
— O quê? — Laura arquejou, tentando trazer a consciência de volta para as paredes do apartamento.
— Eu fiz uma pergunta, Laura! — Kevin responde ríspido, a voz ainda vibrando pela força do grito. — Eu estou aqui há cinco minutos tentando falar com você e você sumiu. Você foi para onde?
— Me desculpe. — Ela respondeu, tímida.
Do outro lado da metrópole, o cenário era o avesso da contemplação de Laura. Marcos caminhava sob um guarda-chuva de seda preta, o som da chuva batendo no tecido criando um ritmo hipnótico que abafava o ruído dos carros. Ele tentava, sem sucesso, organizar o que sentia por uma funcionária da empresa onde trabalha — uma mulher que parecia brilhar com uma luz diferente de todos naquele prédio de concreto. Era a mulher mais fascinante que ele já vira, ou, pelo menos, era nisso que ele precisava acreditar para manter a sanidade.
Seu celular vibrou no bolso interno do paletó. O nome no visor era um comando silencioso: Carlos.
— Marcos falando — disse ele, mantendo a voz estável.
— Onde você se meteu? — A voz de Carlos não era alta, mas a irritação vibrava em cada sílaba.
— Saí para caminhar, senhor. Precisava de ar — respondeu Marcos, com uma honestidade que beirava a insolência.
— Eu não pago você para buscar inspiração no asfalto, Marcos. Estou no seu escritório e não gosto de esperar. Temos uma conversa pendente que não pode ser adiada por causa de um temporal. Quanto tempo?
— Dez minutos. Estou dobrando a esquina. — Marcos desligou sem esperar a réplica.
Ele parou diante da sede da LatruX. O complexo era uma ilha de vidro e aço cercada por jardins milimetricamente podados. Na entrada, as poças no granito escuro refletiam um céu distorcido e o rosto de um homem que Marcos mal reconhecia como seu: tenso, pálido, com os olhos de quem procura uma saída em uma sala sem portas.
Ao entrar, o ar condicionado o atingiu com um gelo estéril. Ele cruzou o saguão em silêncio, subiu pelo elevador privativo e, ao abrir a porta de sua sala, estancou.
Carlos não estava sozinho. Ele ocupava o centro do sofá de couro, flanqueado por dois homens de semblante pétreo e uma mulher que anotava algo em um tablet com uma eficiência gélida. Todos pareciam peças de um tabuleiro esperando pelo primeiro movimento.
— Finalmente — Carlos disse, sem se levantar. — O mundo lá fora parece mais interessante que o seu trabalho, pelo menos hoje.
— O senhor disse que era urgente.
— E é. Sente-se, Marcos. — Carlos apontou para a poltrona à frente, uma posição que parecia um interrogatório. — Vamos falar de visão. Quero saber, com total honestidade: você acredita no Projeto tanto quanto eu? Você vê o que estamos construindo aqui como o futuro inevitável?
Marcos sentiu o peso dos olhares sobre si. — Eu não estaria aqui, dedicando dezesseis horas por dia a essa empresa, se não acreditasse.
— Ótimo. Porque a partir de amanhã, você deixa de ser um gerente para se tornar o Executivo-Chefe. Meu braço direito. O rosto da LatruX.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Marcos piscou, sentindo um gosto amargo na boca.
— Senhor... eu tenho pouco mais de um ano de casa. Há um protocolo, uma hierarquia...
— Esqueça a burocracia, Marcos. Negócios são feitos de faro, não de tempo de serviço — Carlos inclinou-se para frente, os olhos fixos nos dele. — Desde que você assumiu a gestão, as métricas mudaram. Você tem o toque necessário. Queremos levar o Projeto a um nível global, e precisamos de alguém que mova as peças sem hesitar.
— Agradeço a confiança, de verdade — Marcos mediu as palavras. — Mas o Kevin está aqui há anos. Ele conhece as engrenagens da LatruX melhor do que eu jamais conhecerei.
— O Kevin pensa pequeno — Carlos cortou, a voz subitamente afiada como um bisturi. — Ele é um homem de manutenção, Marcos. Você é um homem de expansão. E além do mais, ele é...
Marcos interrompeu. — Eu... eu não sei se posso aceitar essa responsabilidade agora.
Carlos soltou uma risada breve, desprovida de qualquer humor. O semblante gélido retornou.
— Não confunda um anúncio com uma proposta, Marcos. Isso não é uma discussão. É a evolução natural das coisas. A alternativa seria adiantarmos o seu... desligamento definitivo.
— Isso é uma ameaça? — Marcos sentiu o sangue subir, a indignação rompendo a máscara de executivo.
— Isso soou como uma ameaça? — Carlos abriu um sorriso que parecia uma cicatriz. — Foi apenas um aviso sobre a realidade do mercado. Eu detesto desperdiçar talentos, Marcos. Mas detesto ainda mais a deslealdade ao Projeto. Esteja pronto amanhã cedo. Você agora comanda a nave. Esperamos que você seja o líder que vimos em você. Do contrário... bem, o mundo é um lugar muito instável para pessoas que não sabem para onde vão.
Carlos levantou-se e o grupo o seguiu como sombras obedientes. Marcos permaneceu na sala, o som da chuva voltando a martelar o vidro. Ele acabara de ganhar o mundo, mas a sensação era a de quem acabara de receber uma sentença de morte assinada em papel timbrado.
Marcos sentou-se na poltrona de couro e fechou os olhos. O mundo ao redor começou a sofrer um fade out agressivo; a luz sugada para um ponto escuro até que o silêncio se tornasse absoluto.
Em um solavanco, ele despertou. O asfalto de São Paulo estava contra seu rosto, seco e áspero. Não havia chuva, não havia vidraças, não havia o perfume de Laura. Ele estava de volta à sarjeta, mas com uma nova cicatriz mental: ele acabara de "presenciar" uma conversa entre Kevin e Laura no apartamento dela.
— Como? — ele arquejou, sentindo o peito queimar. — Como posso lembrar de algo onde eu não estava?
Ele se levantou, a adrenalina limpando a névoa da exaustão. Ele tinha um alvo. Um nome que agora parecia ser o centro de sua gravidade: LatruX. Se a empresa existia em seus sonhos, ela tinha que ter deixado um rastro físico. Usando os passos gravados em sua memória, ele refez o trajeto. Dez minutos exatos de caminhada. Cada esquina era uma confirmação... até que ele chegou ao destino.
Onde deveria estar o imponente arranha-céu de vidro, havia apenas um terreno baldio. Um retângulo de terra batida, cercado por tapumes podres e mato alto. A LatruX não passava de um fantasma geográfico.
— Não... não pode ser. — Ele avançou até um pedestre. Usou seu poder sem hesitar, empurrando sua vontade contra a mente do homem. — Você se lembra de mim?
— Marcos? — O homem sorriu instantaneamente. — Quanto tempo! O que houve com você, cara?
— Me diga o que sabe sobre a LatruX! — Marcos o sacudiu. — Onde está o prédio que ficava aqui?
O homem franziu a testa, a confusão nublando o reconhecimento artificial. — La... o quê? Nunca ouvi esse nome. Aqui sempre foi um buraco vazio, amigo.
Marcos entrou em colapso. Tentou com outro, e mais outro. Cada uso do poder era uma punhalada no abdômen. A marca em seu peito não apenas brilhava; ela o mastigava. Uma chama invisível que parecia querer consumir sua carne. O castigo pela sua insistência era uma queimação que o impedia de continuar.
Ele fechou os olhos, sucumbindo à dor. Quando os abriu, a garotinha que vira no ponto de ônibus estava lá, do outro lado da rua. O pirulito ainda na boca, observando-o com uma calma sobrenatural.
Marcos se arrastou até ela. — Você?
A menina deu um sorriso miúdo e começou a caminhar. Marcos, sem forças, tentou acompanhá-la. — Espera... menina, espera!
Ela parou e o olhou de cima a baixo. Com a mãozinha estendida, ofereceu o doce. — O senhor quer um pouco? Tá docinho.
Marcos estancou, recusando com um gesto fraco. Ele olhou nos olhos dela, desta vez sem usar poderes, buscando apenas uma verdade humana. — Você... você me conhece?
A menina pendeu a cabeça para o lado. — Não conheço não. O senhor é moço da rua? Aceita o pirulito? Minha mãe deixa eu dar se for pra ajudar.
Marcos soltou um riso amargo e, num ato de desespero, levantou a blusa, revelando a tatuagem que pulsava em brasas no seu abdômen. — Você já viu esse desenho antes?
Transeuntes pararam, olhando com desconfiança para o homem maltrapilho exibindo o peito para uma criança. — Tá tudo bem! — Marcos gritou para os curiosos. — Ela é... é uma amiga.
A menina deu uma risadinha, achando a situação divertida. — O senhor é engraçado. Parece o palhaço que fica na frente da loja.
Marcos permitiu-se um meio sorriso, mas então a menina apontou o dedo pequeno para a marca em seu peito. — Esse aí é o desenho da LatruX.
O mundo de Marcos parou. — O que você disse?
— O desenho. É uma cruz, mas o meu pai dizia que era um X em pé. — Ela sorriu, orgulhosa de saber a resposta. — Meu papai trabalhava na LatruX. Ele tinha um crachá azul.
Marcos perdeu o controle. Agarrou o braço da menina, os olhos injetados. — Me fala! Como você sabe disso se ninguém mais lembra? Quem é você? Quem é seu pai?
O susto fez o pirulito da garota cair no chão, sujando-se de areia. — Solta! Tá apertando! — Ela começou a chorar.
— Larga ela agora! — Um homem avançou, vendo a agressividade de Marcos.
No instante em que a pressão subiu, Marcos foi tragado por um novo transe.
Ele estava trajado em um terno impecável, caminhando por um corredor de mármore branco. A mesma garotinha estava sentada em um banco de recepção, balançando as pernas curtas. Ela olhou para ele e começou a rir.
— O que foi, pequena? — Marcos perguntou no sonho, sentindo uma leveza que não conhecia.
— Sua gravata tá toda torta, tio Marcos! — Ela riu, apontando. — Parece uma cobra enrolada.
Marcos ajeitou o nó, sorrindo. Abaixou-se e tirou uma bala de caramelo do bolso. — Toma aqui. Não conta pro seu pai.
— Vamos, Iara! — Uma voz masculina ecoou pelo corredor. Marcos tentou virar o rosto para ver o pai da menina, mas a imagem começou a se fragmentar.
Marcos acordou do transe com o impacto do próprio corpo contra o chão. Dois homens o cercavam como muralhas, os rostos fechados em fúria. A menina estava alguns metros atrás, recuperando o pirulito sujo e olhando para ele com olhos magoados.
— Você é um covarde, batendo em criança? — rosnou um dos homens.
— Não... eu só... vocês não entendem... — Marcos tentou explicar, mas a voz falhou.
— Suma daqui agora — disse o outro, com a mão no celular. — Se eu te vir perto dela de novo, a polícia vai ser o menor dos seus problemas.
Marcos levantou-se devagar, sentindo o peso da vergonha e a queimação da tatuagem. Ele caminhou para longe, mas ainda podia ouvir a voz fininha da menina sumindo atrás dele: — Mãe, o moço que conhecia a LatruX tá chorando...
Marcos caminhou por quilômetros. A vergonha pelo que fizera com a menina era uma mancha ácida, mas o nome LatruX martelava em seu crânio, ressoando com uma verdade que o mundo tentava apagar. Ele precisava de um teto, de um santuário. A rua havia se tornado um tabuleiro de xadrez onde ele era a única peça que não conhecia as regras.
Ele parou diante de um homem que exalava autoridade, saindo de um sedã alemão estacionado perto de uma loja de grife. Marcos não pediu; ele invadiu.
— Ei — chamou, os olhos fixos nos dele.
— Eu conheço você? — o homem perguntou, a mão já buscando a chave do carro, confuso.
— Sim — Marcos sussurrou, empurrando a vontade contra o córtex do estranho. — Você me conhece muito bem.
A dor no peito de Marcos foi lancinante, um corte de faca invisível sob a cicatriz, mas funcionou. O rosto do homem suavizou em um reconhecimento forçado. — Marcos? Meu Deus, o que houve com você? Entra no carro, agora. Espera aí dentro, vou só resolver uma coisa na loja e já volto.
Marcos desabou no banco de couro perfumado, observando o homem entrar na loja. Pela vitrine, viu o "amigo" aproximar-se de dois homens de terno preto. O diálogo era silencioso, mas a linguagem corporal era letal. Eles não conversavam; eles recebiam coordenadas.
Ele tentou abrir a porta, mas a trava central estalou. O vidro fumê subiu. A porta do carona abriu e um homem sentou-se ao seu lado, puxando a manga do sobretudo para revelar o estigma: a cruz e o círculo pulsando sob a pele.
— Vamos dar uma volta — disse o passageiro. No banco do motorista, o porteiro do prédio da praça sorriu pelo retrovisor.
— Olá, Marcos. Sentiu saudade?
— Vocês... — Marcos recuou contra o estofado. — Digam o que é a LatruX! Por que esses rostos não param de aparecer na minha cabeça? Por que a menina sabia o nome?
— Há coisas que não te pertencem mais — o passageiro disse, enquanto o carro acelerava suavemente. — O conhecimento é um peso que você não precisa. O melhor é o silêncio. E temos que consertar a bagunça que você fez.
Antes que Marcos pudesse gritar, o homem ao seu lado pressionou um ponto em seu pescoço. A escuridão veio como uma onda de óleo.
Desta vez, o sonho era de uma nitidez cruel. Kevin estava no apartamento de Laura. Ele estava sentado no sofá, exatamente onde a visão anterior de Marcos havia sido cortada. A tensão entre os dois era quase elétrica.
— Sim — Laura disse, cruzando os braços. — Ele me chamou para sair.
— Laura, somos amigos há anos — Kevin rebateu, a voz carregada de uma proteção que beirava a posse. — Você sabe como as coisas funcionam. Relacionamentos dentro da estrutura da empresa são... instáveis.
— Eu não disse que aceitei — ela sorriu, mas o sorriso era defensivo.
— Mas também não disse "não". Aquele cara é um erro, Laura. Ele é complicado demais. Eu me preocupo com você.
— Tudo bem, Kevin. Eu vou rejeitar o convite dele. Agora pode ir, se era só isso.
Kevin suspirou, um alívio genuíno cruzando seu rosto. Laura caminhou até o canto da sala e trouxe algo que Marcos nunca vira nos sonhos anteriores: uma cadeira de rodas de titânio.
Ela a posicionou ao lado do sofá. Com uma técnica que demonstrava anos de rotina, Laura ajudou Kevin a se içar para o assento. O movimento de Kevin era pesado, as pernas inúteis pendendo como pesos mortos.
— Vamos, suba — disse ela, ajustando os pés dele nos pedais.
— Obrigado — Kevin respondeu, as mãos calejadas assumindo o controle das rodas.
— Eu não preciso de um anjo da guarda, Kevin — Laura riu, abrindo a porta para ele.
— Eu sei. Mas alguém precisa vigiar o horizonte — Kevin girou as rodas para o corredor, saindo da luz do apartamento para a sombra do hall.
De repente, a imagem começou a sofrer uma erosão. Os rostos de Laura e Kevin começaram a se desmanchar. As cores foram drenadas. Marcos sentiu uma sucção violenta, como se alguém estivesse passando um imã gigante sobre sua mente. As memórias — a LatruX, a menina Iara, o soco de Kevin, a dor no peito — estavam sendo apagadas.
O despertar veio como um choque elétrico.
Marcos se ergueu de uma vez no banco da praça, puxando o ar com violência, como se tivesse acabado de emergir de águas profundas. A garganta queimava. A tarde de verão caía dourada sobre São Paulo.
Uma jovem que passava se assustou, recuando um passo. Na mão, algumas moedas que pretendia lhe oferecer. Marcos a encarou. Havia uma sensação de déjà vu tão poderosa que seu estômago revirou, mas ele não sabia dizer por quê. Era como ouvir o eco de uma música que ele nunca aprendeu.
Ele segurou levemente o pulso dela e perguntou, em voz rouca:
— Você se lembra de mim... não se lembra?
A mulher congelou. Por um instante, seus olhos perderam o foco, como se uma lembrança distante estivesse sendo rearranjada diante dela. O corpo enrijeceu. A respiração falhou. Então tudo mudou. A tensão desapareceu, substituída por um sorriso caloroso.
— Claro que lembro, Marcos. Meu Deus... olha para você. Está horrível.
Marcos estancou. O nome "Marcos" soou como uma luva encaixando perfeitamente em uma mão que ele achava que não era sua. Ele sentiu um arrepio gélido na espinha. Ele tinha a certeza absoluta, em cada célula do seu corpo, de que já havia ouvido aquelas palavras antes.
Mas a memória não veio. O sistema estava limpo. O ciclo havia recomeçado.
— Obrigado — ele respondeu, com um sorriso cansado, e a seguiu rumo ao desconhecido que já era seu velho mestre.
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