Lapsus
6 O ARQUITETO
Laura emergiu do vazio em um solavanco, o ar escapando de seus pulmões como se ela tivesse acabado de ser reanimada. Seus olhos focaram em um teto branco, estéril, iluminado por uma luz fria que parecia vibrar. Ela estava em um sofá, dentro de um quarto que exalava o cheiro metálico de lugar fechado.
O pânico veio em uma onda gélida. Ela saltou do estofado, as pernas trêmulas, e correu até a porta. Agarrou a maçaneta. Trancada.
— Tem alguém aí? — ela gritou, esmurrando a madeira. — Me deixem sair! Abram essa porta agora!
O som de uma chave girando do outro lado a fez recuar. A porta abriu devagar, revelando uma silhueta alta e imponente. Laura travou. A respiração dela parou por um segundo eterno enquanto ela subia o olhar, do chão até o rosto do homem.
— Kevin? — O nome saiu como um sopro de descrença. — Não... não pode ser. Você está...
Ela olhou para as pernas dele. Firmes. Sustentando o peso do corpo com uma naturalidade impossível.
— De pé? — Kevin completou a frase por ela. Sua voz estava diferente; mais profunda, carregada de um cansaço que parecia vir de séculos. — Sim, Laura. Eu estou de pé.
— Mas como? — Laura sentiu o mundo girar. — Você fez a cirurgia? O tratamento na Europa? Kevin, os médicos disseram que era irreversível. A medula... você não tinha sensibilidade!
— Laura, escute o que eu vou dizer e esqueça a medicina — Kevin adentrou o quarto, fechando a porta atrás de si com um clique definitivo. — Nada disso importa agora. Eu preciso que você fique aqui. E aconteça o que acontecer, você não pode atravessar essa porta.
— O que é isso? — Laura tentou rir, uma reação nervosa ao absurdo da situação. — É algum tipo de brincadeira de mau gosto? Você se recupera de uma paralisia e decide que a primeira coisa a fazer é me sequestrar?
Kevin não sorriu. Ele avançou, diminuindo a distância entre eles, e o brilho em seus olhos fez o riso de Laura morrer na garganta.
— Tem gente vindo, Laura. Eles estão mapeando a sua localização. Eles querem entrar na sua cabeça, querem apagar o que aconteceu nos últimos dias e reescrever cada pensamento. Eu não vou deixar isso acontecer.
— Você está me assustando, Kevin! — Laura gritou, recuando até bater as costas na parede. — Do que você está falando? Que gente? Que reescrita? Isso não faz o menor sentido.
Kevin estancou. Lágrimas começaram a brotar em seus olhos, mas não eram lágrimas de tristeza comum; eram de alguém que estava sobrecarregado por uma verdade insuportável.
— Eu ainda não consigo me adaptar a isso... — ele sussurrou, a voz falhando. — É tudo tão frágil. Essa realidade é um vidro trincado, Laura.
Ele deu um passo final e a envolveu em um abraço. Não foi um gesto de conforto; foi um abraço de náufrago. Ele a apertou com uma força desesperada, como se Laura fosse feita de fumaça e ele estivesse tentando impedi-la de se dissipar no ar.
— Eu não vou deixar nada acontecer com você — ele murmurou contra o cabelo dela, tremendo. — Nunca mais.
— Kevin, você está me machucando... eu não estou entendendo nada! — ela soluçou, tentando se desvencilhar daquele aperto sufocante.
Ele a soltou e se afastou, olhando-a de cima a baixo como se estivesse se despedindo.
— Como você pode estar bem? — ela insistiu, as lágrimas correndo pelo rosto. — Você nunca mais ia andar. A cadeira de rodas... a fisioterapia... nada funcionava!
— Aqui nada é impossível, Laura — Kevin disse, já com a mão na maçaneta. Ele se virou uma última vez, o rosto obscurecido pelas sombras do corredor. Havia uma tristeza profunda em seu olhar. — Nem mesmo a morte é o fim neste lugar.
— Kevin! Kevin, não! — Laura correu em sua direção, tentando segurar seu braço, mas ele foi mais rápido.
Ele a empurrou de volta para o centro do quarto com uma firmeza impessoal. Antes que ela pudesse reagir, a porta se fechou e o som da tranca ecoou no silêncio como um tiro.
— KEVIN! ME TIRE DAQUI! — ela berrou, golpeando a porta, mas a única resposta que obteve foi o som dos passos dele se afastando, firmes e pesados, pelo corredor.
No quarto, Laura era um animal enjaulado. Ela correu até a janela, os dedos arranhando o vidro, mas não havia trincos, nem frestas, nem saída. O vidro parecia ter sido fundido à parede, transformando a vista de São Paulo em apenas um quadro imóvel de um mundo que ela não podia mais tocar.
— Droga! Me tira daqui! — O grito dela morreu no isolamento acústico das paredes.
Do lado de fora, no hall, Kevin estava diante das portas cromadas do elevador. Ele fechou os olhos, as veias de sua têmpora saltando sob a pressão. O ar ao redor começou a vibrar e, com um som de estática corrosiva, o metal do elevador se dissolveu diante dele, revelando em seu lugar uma escadaria de emergência que não deveria existir. Ele desceu os degraus aos tropeços, o peso de cada passo lembrando-o de que sua liberdade era um empréstimo caro.
Ao sair na calçada, a realidade o atingiu. Kevin desmoronou. Sentou-se no chão sujo, encostando as costas na parede áspera. O choro, que ele segurara diante de Laura, explodiu em soluços que sacudiam seus ombros. Ele olhava para as próprias pernas, odiando a força que agora possuíam.
— Onde ela está?
A voz veio de cima, fria e desprovida de qualquer empatia. Kevin limpou o rosto com as costas da mão e levantou-se em um movimento fluido. Dois homens de terno escuro estavam parados a poucos metros.
— Vocês não vão achá-la — Kevin sibilou, a postura mudando para algo predatório. — Voltem para o buraco de onde saíram.
Os agentes não responderam com palavras. Um deles subiu a manga do paletó, revelando a marca da cruz no antebraço; o outro ergueu a barra da calça, mostrando o mesmo estigma gravado na panturrilha.
— Boa tentativa, Kevin — disse o primeiro. — Mas não irá funcionar conosco.
Kevin não esperou o fim da frase. Ele avançou como um raio. O primeiro soco atingiu o agente no rosto com um estalo seco. Antes que o segundo pudesse sacar uma arma, Kevin o agarrou pelo colarinho e o lançou contra uma caçamba de ferro.
A briga foi brutal. Kevin desferiu uma sequência de golpes no estômago do primeiro homem, mas o agente parecia não sentir dor. O homem de terno revidou com um chute nas costelas de Kevin, jogando-o contra o asfalto. Kevin rolou, sacou uma pistola do bolso interno e, em um movimento rápido, imobilizou o segundo agente, pressionando o cano da arma contra a sua têmpora.
— Afaste-se! — Kevin gritou para o outro, que permanecia imóvel. — Acabou a palhaçada de tentar "consertar" eles. Eu não vou entregar a Laura.
— Você nem deveria estar aqui, Kevin — disse o agente livre, mantendo a voz calma. — Mas já que está, acho que precisamos te lembrar de algumas coisas.
Um terceiro homem surgiu das sombras, empurrando uma cadeira de rodas de metal cromado. O som das rodas no cimento soou como uma provocação.
— Olhe para você — continuou o agente. — Não gosta do novo visual? De ser imponente? De não precisar de ninguém para levá-lo ao banheiro? Pare de nos atrasar. Deixe-nos fazer o nosso trabalho com ela. Ou talvez queira voltar a ser quem você era antes.
Kevin sentiu o peso da cadeira de rodas como se fosse uma sentença de morte física. O metal cromado brilhava sob as luzes fluorescentes do hall, uma âncora pronta para arrastá-lo de volta à imobilidade. Suas mãos, que segundos antes eram armas letais, tremiam violentamente.
— Seus desgraçados... — Kevin sibilou. Ele afrouxou o aperto no pescoço do refém. A pistola escorregou de seus dedos, batendo no chão com um som metálico que ecoou pelo corredor vazio.
— Bom garoto — disse o líder dos agentes, ajeitando a lapela do terno com uma calma irritante. — A dignidade é um luxo que você não pode pagar, Kevin. Agora, leve-nos até ela.
Kevin deu as costas, o queixo colado ao peito. Ele caminhou para o interior do prédio, seguido pelos três agentes que mantinham a arrogância de deuses em um mundo que julgavam possuir. Mas, ao chegar diante do umbral da escadaria oculta, Kevin estacou. Ele sentiu o "sinal" pulsando no ar — uma frequência baixa que fazia seus dentes vibrarem.
Ele girou nos calcanhares. Um sorriso melancólico e sangrento surgiu em seus lábios.
— Vocês não passarão daqui — sussurrou ele.
— O quê? — O agente avançou, mas parou bruscamente quando o chão sob seus pés oscilou.
O ar atrás de Kevin começou a sofrer uma erosão digital. A escadaria simplesmente se desintegrou em uma névoa de ruído branco. Em um piscar de olhos, a porta de saída desapareceu, substituída por blocos maciços de concreto que pareciam ter brotado do nada. Eles estavam lacrados em uma caixa de cimento sem janelas, um vácuo geográfico arrancado do mapa de São Paulo.
— Como você fez isso? — O agente sacou a arma, o pânico rachando sua voz. — Você não tem autorização para editar o cenário! Isso é impossível!
— Vocês não sabem nada sobre mim — a voz de Kevin ressoou no ambiente.
O agente que fora refém cuspiu sangue e deu um sorriso de canto, limpando a boca com as costas da mão.
— Você é bom com truques, Kevin. Mas esqueceu de um detalhe: — Ele avançou, os olhos injetados. — Não somos nós que estamos presos com você. É você que está trancado aqui conosco. E nós somos três.
O primeiro golpe veio como um raio. O agente atingiu Kevin no estômago, dobrando-o ao meio. O segundo desferiu uma joelhada em seu rosto, fazendo o som de osso quebrando ecoar na câmara de concreto. Kevin tentou revidar, mas foi agarrado por trás, os braços travados enquanto o terceiro homem desferia socos sistemáticos e brutais em suas costelas. O som era seco, rítmico, uma sinfonia de violência em um lugar que o mundo esqueceu.
Do outro lado da cidade, Marcos caminhava pela calçada sob o brilho doente dos postes. Ele acabara de sair da praça, e o encontro com o porteiro ainda latejava em sua têmpora. O déjà vu era uma barreira física; ele sentia que cada rachadura no asfalto já fora vista, cada palavra já fora dita.
— Por que eu sinto que estou andando em círculos? — indagou a si mesmo, apertando os olhos contra a enxaqueca.
Um sedã preto, silencioso como um tubarão, deslizou até a guia e parou diante dele. A porta do carona abriu-se com um estalo pneumático. Um homem de terno cinza, com um sorriso que parecia uma máscara de plástico, segurava o volante.
— Entre no carro, Marcos — disse o motorista. A voz era cordial, desprovida de humanidade.
— Quem é você? — Marcos recuou, a mão instintivamente buscando algo no bolso que ele não possuía.
— Não questione o inevitável. Apenas entre. — O homem sacou uma pistola com silenciador, apontando-a para o peito de Marcos. — Agora.
Marcos olhou para os lados. A rua parecia ter se esvaziado por conveniência. Sem saída, ele adentrou o veículo, sentindo o cheiro de couro novo e ozônio. Assim que a porta se fechou, uma voz familiar e carregada de uma autoridade gélida veio do banco de trás, fazendo seu sangue congelar:
— Finalmente te encontrei.
Kevin era uma ruína de carne e sangue no centro do vácuo de concreto. Seu rosto era um mapa de contusões, o olho esquerdo inchado até fechar. O ar na sala cheirava a ferro e poeira estática. Os três agentes não estavam suados; para eles, o espancamento fora apenas um exercício de calibração.
— Por que o silêncio, Kevin? — O agente líder inclinou-se, as mãos cruzadas atrás das costas. — Onde ela está? Que diferença faz para você, no fim das contas?
Kevin cuspiu um coágulo de sangue no chão cinzento, mas não ergueu a cabeça. O silêncio era sua única arma.
— Você a ama, não é? — O agente soltou um riso seco, desprovido de humor. — Que patético. Você se sacrificando por um conceito. Kevin, acorde... ela não é...
— Real? — Kevin interrompeu, a voz rouca e vibrando com uma lucidez amarga. — Eu sei. Nenhum de nós é. Somos apenas frequências ocupando um espaço que não existe.
O agente estreitou os olhos, a diversão morrendo em seu rosto. — Então por que resistir? Se nada disso importa, por que apanhar por um fantasma?
— Porque até os fantasmas merecem não ser apagados — sussurrou Kevin, as palavras morrendo em sua boca rasgada.
— Ela nunca o viu como nada além de uma peça de suporte, Kevin. E você tentou. Céus, como você tentou. — O agente circulou Kevin como um predador. — Deve ter sido um inferno ver que ela escolheu o Marcos. O garoto de ouro. Alguém "funcional". Alguém completo, enquanto você era apenas... o amigo aleijado.
Kevin apertou os olhos. A dor física era insignificante perto daquela ferida aberta na alma. Ele viu, em um flash, a imagem de Laura sorrindo para Marcos em um corredor que não existia mais.
— Já chega... — Kevin gemeu. — Parem com a tortura. O que vocês ganham com isso?
— Eu não me importo com o seu melodrama romântico, Kevin. Meu trabalho é manter a infraestrutura operando e você é um ruído no sinal. — O agente segurou Kevin pelo queixo, forçando-o a olhar para cima. — Diga-me onde ela está. Faremos o necessário e tudo voltará à harmonia.
— Vocês sabem que não — Kevin sorriu, os dentes manchados de vermelho. — O Marcos vai encontrá-la. Eles sempre se colidem. É no mundo de vocês. O amor deles é o lapsus que vocês não conseguem deletar.
— Ah, mas você não quer que eles se encontrem, quer? — O agente aproximou o rosto, a voz agora um sussurro cruel. — Você quer que ela seja sua. Mas acredite, não queremos matar vocês, ainda mais sabendo que você pode voltar aqui quando quiser, quanto a ela... Bom, se cooperar ela sempre estará aqui.
— Desgraçado. — Disse Kevin.
— Chega. Essa conversa perdeu a utilidade. Se você não vai entregar a localização por vontade própria, mudaremos o vetor de ataque.
Enquanto o sangue de Kevin esfriava no concreto, Marcos sentia o estofado do carro queimar sob seu corpo. Ele girou o pescoço devagar para o banco de trás.
Lá estava ele. Carlos. O homem que, em seus sonhos, era o mestre de um império de vidro, agora estava ali, na penumbra do carro, emanando uma autoridade que parecia dobrar o espaço ao redor. Mas Marcos não se lembrava dele. Suas últimas memórias foram apagadas.
— Quem é você? — Marcos perguntou, a voz falhando. A confusão em sua mente era um labirinto sem saída.
Carlos soltou um longo suspiro, observando as luzes da cidade passarem pelo vidro como feixes de dados.
— Então é verdade. Você entrou nesta instância sem as permissões necessárias e agora está vagando no escuro. É triste ver alguém tão brilhante se perdendo assim, Marcos. Uma pena. — Carlos voltou o olhar para ele, e Marcos sentiu como se estivesse sendo escaneado. — Mas agora, preciso limpar a bagunça que você espalhou pelo meu mundo.
Dentro do vácuo de concreto, os agentes pararam simultaneamente. Seus corpos retesaram, as cabeças inclinando-se de lado como se ouvissem um comando de rádio vindo de outra dimensão.
— É o Carlos — murmurou um deles, o pânico surgindo pela primeira vez em sua voz.
— O que o Arquiteto está fazendo aqui? — perguntou o outro, olhando para as paredes de cimento.
— Ele está com o Alvo Original. Com o Marcos. Precisamos sair daqui agora! — O líder do grupo tentou avançar, mas parou diante da parede sólida que Kevin erguera.
— Como saímos? — O segundo agente socou o concreto. — Estamos presos nesta caixa com esse desgraçado!
Kevin, jogado no chão, deixou escapar uma risada fraca e vitoriosa. Ele sabia que, enquanto estivessem trancados ali, Laura estaria segura. Pelo menos por enquanto.
No silêncio claustrofóbico do apartamento, o relógio na parede começou a se comportar de forma impossível. O ponteiro dos segundos não girava; ele vibrava, emitindo um som metálico que parecia perfurar a têmpora de Laura. Ela se aproximou, hipnotizada pela falha. Suas mãos, trêmulas, retiraram o objeto do prego.
Ao segurar o relógio contra o peito, Laura sentiu uma náusea súbita. O tique-taque tornou-se um trovão em seus ouvidos. Ela fechou os olhos por um segundo e, ao abri-los, o ar mudou.
O cheiro de mofo e poeira desapareceu, substituído pelo aroma estéril de ozônio e produtos de limpeza caros. Ela não estava mais no sofá. Estava de pé, no centro de um corredor: LATRUX imponente de mármore e vidro fumê. A placa na parede oposta brilhava com um design minimalista — NÍVEL 4.
— Laura? Está tudo bem? — Um homem de crachá azul, segurando um tablet, parou diante dela com uma expressão de estranhamento.
— Trancada? — O funcionário soltou uma risada breve. — Você está segurando esse relógio de parede há quase dois minutos no meio do corredor. Se o RH te vê assim, vão achar que você teve um surto de estresse.
— Eu não sei como vim parar aqui — ela sussurrou, sentindo as paredes latejarem.
Nesse instante, um vulto apressado surgiu de uma das salas laterais. Um homem em um terno impecável, mergulhado em papéis, colidiu contra ela. O impacto foi forte o suficiente para fazê-la vacilar. O relógio escapou de suas mãos, atingindo o chão de mármore com um estalo seco e estilhaçando-se em mil pedaços de vidro e engrenagens.
— Droga! — O homem exclamou, parando abruptamente. — Mil desculpas, eu estava distraído com os relatórios e...
Ele ergueu o rosto. Era Marcos. Mas não o Marcos maltrapilho da praça, nem o homem confuso do prédio. Era o Marcos do topo da pirâmide: seguro, poderoso, mas com os olhos transbordando uma gentileza que Laura sentiu como um choque elétrico no peito.
— Marcos? — O nome saiu como uma prece.
O coração de Laura disparou em uma frequência que ela não reconhecia. Não era apenas surpresa; era uma atração magnética, uma saudade de mil anos condensada em um segundo.
— Me perdoe — ele disse, abaixando-se rapidamente para recolher os destroços. — Eu arruinei o seu relógio. Ele parecia... antigo. Prometo que te compro um novo, o melhor que houver na cidade.
Marcos levantou-se, segurando o que sobrara da carcaça plástica. Ao estender a mão para entregar o objeto a ela, seus dedos tocaram a palma de Laura.
O contato foi o gatilho.
No instante do toque, o corredor da LatruX sofreu um glitch violento. As luzes fluorescentes estouraram em um flash branco e, em um piscar de olhos, o mármore sob seus pés tornou-se o carpete puído do apartamento. O cheiro de ozônio voltou a ser o cheiro de lugar fechado.
Laura estava sozinha. Novamente trancada.
— Não... — ela arquejou, olhando para as próprias mãos.
O relógio não estava ali. Ela olhou para a parede e, para seu horror, o objeto estava pendurado exatamente no mesmo lugar, intacto. Mas havia algo diferente: o som. O tique-taque não vinha mais da parede. Ele ecoava dentro de sua cabeça, firme, rítmico, como se o mecanismo tivesse sido transferido para o seu próprio crânio.
Ela correu até a parede e arrancou o relógio novamente, desesperada por silêncio. No momento em que suas mãos envolveram a moldura, o som parou. O silêncio voltou a ser absoluto, mas a transição não ocorreu. Ela continuou ali, presa no quarto, segurando um objeto que agora parecia apenas um pedaço morto de plástico.
A realidade a expulsara do corredor. Mas a lembrança do toque de Marcos continuava queimando em sua pele como uma marca de fogo. Ela precisava encontrá-lo.
O sedã preto deslizava pelas ruas de São Paulo como um espectro. No banco de trás, a pressão do cano da arma contra as costelas de Marcos era a única coisa que o mantinha ancorado à realidade. Ao seu lado, Carlos observava o asfalto com um tédio soberano.
— Você tinha o mundo aos seus pés, Marcos — Carlos começou, a voz suave como veludo e afiada como navalha. — Eu te dei o cetro, te dei a coroa, e você jogou tudo na sarjeta por causa de um fantasma. Por causa dela.
— Eu não sei do que você está falando — Marcos sibilou, a pulsação acelerada. — Eu nem sei quem você é de verdade.
— Eu vou te dar o benefício da dúvida, já que sua memória tem a consistência de uma peneira. Mas entenda: eu não posso mais permitir que você sangre suas dúvidas sobre os meus cidadãos. Você está infectando a lógica do lugar que eu levei uma vida inteira para codificar.
— "Codificar"? "Seu mundo"? Do que você está falando, Carlos?
Carlos virou o rosto lentamente. O sorriso que surgiu em seus lábios não era humano; era predatório.
— Bem-vindo à LatruX, Marcos. Bem-vindo ao Latruverso.
Carlos estalou os dedos.
O som não foi o de um estalo comum, mas o de um trovão digital. Marcos não teve tempo de piscar. Em um milésimo de segundo, o cheiro de couro do carro e o ruído do motor desapareceram. O estofado do banco se dissolveu sob ele, transformando-se em um sofá de veludo italiano. O teto do carro expandiu-se até sumir, dando lugar a um pé-direito de seis metros.
Marcos soltou um grito sufocado, agarrando-se aos braços do sofá. Ele não estava mais no trânsito. Ele estava no topo de um arranha-céu imponente, em uma sala circular envolta por paredes de vidro que ofereciam uma visão impossível de 360 graus de uma São Paulo eterna e perfeita.
— O que aconteceu? — Marcos arquejou, o cérebro tentando processar a mudança súbita de cenário. — Como... como viemos parar aqui?
— Espaço e tempo são sugestões, Marcos. Aqui, eu sou o autor da sugestão — Carlos levantou-se com elegância.
Uma mulher de rosto simétrico e movimentos coreografados entrou na sala, portando uma bandeja de prata. Ela serviu o café em silêncio absoluto, seus olhos não possuindo o brilho da consciência, mas a opacidade de um programa bem executado.
— Que lugar é este? — Marcos levantou-se, as pernas trêmulas. Ele tocou o vidro da janela; parecia real, mas vibrava em uma frequência sutil.
— Este deveria ser o magnum opus da humanidade. O paraíso sem Deus — Carlos caminhou até a borda da sala. — Mas o projeto tornou-se instável. No fim, a LatruX foi abandonada pelos seus financiadores. O mundo lá fora morreu, Marcos. Ou está morrendo. Eu não sou o Carlos que você pensa que conheceu, e você... bem, você certamente não é o Marcos original.
— Isso é uma simulação? Tipo a Matrix?
Carlos soltou uma risada genuína, quase ofendido. — Matrix foi uma fantasia escrita por inteligências artificiais para escravizar corpos. O Latruverso é mais refinado. Foi criado por mentes humanas. Por mim... e pela Laura. Nós construímos um refúgio. Uma utopia onde o sol nunca se põe na esperança e, principalmente, onde não existem guerras. Porque não há nada pelo que lutar.
— Uma utopia... — Marcos murmurou, olhando para a cidade lá embaixo.
— Exato. O ciclo perfeito. Dez anos que se repetem, década após década, sem dor, sem fome, sem perdas. — O rosto de Carlos escureceu subitamente. — Deveria ser eterno. Deveria ser a paz definitiva. Exceto por um pequeno erro de execução.
— Que erro?
Carlos virou-se bruscamente, apontando o dedo para o peito de Marcos. — Você!
— Eu? O que eu fiz?
— Você é o vírus, Marcos! — Carlos gritou, a máscara de cortesia caindo. — Sua consciência desenvolveu uma resistência que não previmos. Você começou a ter "vontades". Começou a usar essa sua habilidade de projetar memórias para contaminar os outros. Onde deveria haver apenas obediência e rotina, você plantou a dúvida. Plantou sentimentos reais em seres que foram desenhados para serem apenas felizes.
Carlos aproximou-se, o olhar carregado de um ódio milenar. — Estamos presos há décadas tentando limpar o rastro de caos que você deixa em cada ciclo. Você trouxe a podridão do mundo real para dentro do meu santuário. Você é a falha que impede o Latruverso de ser perfeito. E desta vez, Marcos... não haverá reinicialização para você.
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