Lapsus
4 A FRONTEIRA DO ASFALTO
A noite em São Paulo não chegava com o cair do sol; ela simplesmente se manifestava, uma mancha de óleo que se espalhava pelas avenidas e engolia os contornos dos prédios. Kevin caminhava com uma urgência febril, os ombros tensos e os olhos saltando de um lado para o outro. Seus passos ecoavam no concreto como batidas de um metrônomo apressado, fugindo de um perseguidor que ele não reconhecia, mas tinha uma sede voraz de alcançá-lo.
Ele parou abruptamente diante de uma escadaria de concreto. Era uma estrutura banal, ligando a calçada a um viaduto superior. Para qualquer cidadão, era apenas um atalho. Para Kevin, era uma barreira intransponível.
Ele ficou estático. Seus músculos retesaram sob o sobretudo, e uma gota de suor frio escorreu por sua nuca. Kevin tentou inclinar o corpo para frente, mas era como se estivesse colidindo contra uma parede de vidro invisível. Sua mente ordenava o movimento, mas o mundo parecia negar sua permissão para subir.
— Droga! — ele rosnou entre dentes.
Ao seu lado, a normalidade o insultava. Uma mulher carregando sacolas pesadas de mercado subiu os degraus com um suspiro de cansaço, ignorando-o completamente. Atrás dela, uma criança pulava de dois em dois degraus, rindo enquanto desafiava a gravidade com a leveza de quem ainda não sabe que a realidade pode ter regras cruéis. Para eles, a escada era sólida. Para Kevin, era uma barreira intransponível.
Ele fechou os olhos, concentrou-se no centro do próprio peito e deu um passo violento. O impacto foi quase físico. Por um segundo, a visão dele oscilou, as cores da cidade se embaralhando como estática de TV, até que seu pé finalmente encontrou o primeiro degrau. Pouco a pouco, lutando contra uma resistência que parecia vir do próprio ar, ele forçou a subida.
Ao alcançar o topo, ele parou para recuperar o fôlego, um sorriso sarcástico e amargo cruzando seus lábios.
— Que ridículo — murmurou para as sombras.
Não muito longe dali, Marcos permanecia sentado no chão, as costas apoiadas em um muro pichado. Ele estava a poucos metros do local onde o "homem-morto-vivo" o ajudara a levantar. A imagem do sujeito caminhando e falando ao celular — o mesmo homem que ele vira ser triturado por metal e asfalto — girava em seu cérebro como um carrossel macabro.
O fluxo humano de São Paulo passava por ele com a indiferença de um rio contornando uma pedra. Para os passantes, Marcos era apenas mais uma estatística da miséria urbana, um vulto sem teto e sem nome. Mas o vazio dentro de Marcos era mais profundo que a falta de um teto; era uma negação da própria sanidade. Se o que ele vira era real, então seu poder não era apenas sobre memórias, mas sobre uma realidade que se recusava a permanecer morta.
Seus olhos fixos no nada não enxergavam os carros ou os pedestres. Ele duvidava da solidez de suas próprias mãos.
Num impulso súbito, a paranoia falou mais alto que a depressão. Ele se levantou, sentindo os músculos protestarem. O porteiro e seus perseguidores ainda deviam estar por perto, mas a cidade era vasta e ele já não era mais uma anomalia visível. Ele sabia que o prédio na praça era território inimigo, uma armadilha armada. Restava-lhe apenas um fio de esperança: o endereço que Laura lhe dera.
Mesmo sabendo que não encontrara nada lá antes, sua mente se agarrava àquele pedaço de papel como um náufrago se agarra a um mastro podre.
Marcos começou a caminhar. Ele não apenas rumava ao endereço; ele ia para lá para montar guarda. Se Laura fosse o erro no sistema ou a única verdade que lhe restava, ele a encontraria. Nem que precisasse observar aquela calçada até que o tempo parasse de vez.
Os dias se fundiram em um ciclo monótono de fome e vigília, até que a silhueta de Laura finalmente cortou a monotonia do asfalto. Ela surgiu exatamente como ele previra, mas algo em Marcos reagiu de forma inédita. O peito, que antes abrigava apenas confusão e vazio, deu um solavanco. Uma pontada de afeto — real, visceral e dolorosa — o atingiu.
— O que é isso? — sussurrou para si mesmo, irritado com a própria vulnerabilidade. Ele não deveria se importar tanto com uma estranha, mas seu corpo parecia ter uma memória que sua mente ainda negava.
Marcos atravessou a rua, ignorando o freio dos carros. Laura o viu e estacou, deixando escapar um suspiro pesado que misturava exaustão e desapontamento.
— Laura! — ele chamou, a voz rouca pelo tempo no relento.
— Marcos? — Ela o analisou, os olhos estreitos.
— Sou eu. Escuta, eu preciso te pedir desculpas...
— Pedir desculpas por me deixar esperando sozinha por horas? — Laura o cortou, a voz afiada. — Eu achei que você estivesse pronto para cumprir o acordo. Achei que quisesse respostas.
— Eu fui levado. Um homem chamado Kevin... ele me tirou da rua à força.
Laura sustentou o olhar dele por um segundo eterno, mas não houve suavidade na expressão dela.
— E você espera que eu confie em você agora? Depois de sumir e aparecer com uma história de sequestro?
— Eu não quero que acredite em mim, eu quero que me escute! — Marcos deu um passo à frente, a intensidade do seu olhar fazendo-a recuar. — Por quê? Por que eu sinto que cada centímetro do seu rosto é familiar? Por que eu sonho com você todas as vezes que fecho os olhos?
— Eu não tenho tempo para o seu sentimentalismo, Marcos. Estou ocupada.
Ela tentou passar por ele, mas Marcos segurou seu braço. O toque disparou uma faísca elétrica que ambos sentiram.
— Eu não vou deixar você fugir de novo. Esses flashes... o que eu sinto quando estou perto de você... nada disso é fabricado, Laura. É real? Diga a verdade!
— É impossível — Laura rebateu, embora sua voz tenha vacilado por um milésimo de segundo. — Porque se fosse real, eu me lembraria de você. Mas a verdade é que eu nem sei quem você é. E se eu disser algo que não deveria para a pessoa errada...
— Por que tudo tem que ser um maldito enigma? — Marcos explodiu, a frustração transbordando. — Qual o problema de vocês? O que custa falar a verdade sem metáforas?
— Sinto muito, Marcos. Se é que esse é o seu nome. Eu quis confiar em você, mas você falhou no teste. Daqui para frente, esqueça que eu existo. Não me procure mais.
Ela puxou o braço com uma força que demonstrava um desprezo final. Marcos ficou estático, assistindo-a cruzar a soleira do prédio onde o encontro original deveria ter ocorrido. A porta se fechou com um clique definitivo.
Ele não aceitou o fim. Avançou e forçou a entrada, esperando encontrar uma recepção ou um corredor comum. Em vez disso, deparou-se com um labirinto de corredores estéreis e luzes frias, uma cópia quase idêntica — e perturbadora — daquela que encontrara no prédio do quarto andar.
— Laura? — Ele chamou, sua voz sendo engolida pelo carpete grosso. Nenhuma resposta.
Ele correu até o único elevador visível. Sobre as portas de metal, uma placa de plástico amarelo: EM MANUTENÇÃO.
— O quê? Para onde ela foi? — Ele apertou o botão de chamada repetidamente, mas o elevador estava morto, um bloco de ferro inerte.
Sem outras portas ou saídas visíveis, a claustrofobia começou a apertar. Ele girou nos calcanhares e voltou pela porta de entrada, mas ao atravessar o batente, o choque o paralisou.
Ele não estava na rua do endereço de Laura.
Marcos encontrava-se exatamente na calçada da praça, em frente ao prédio comercial de onde fora levado por Kevin dias atrás. O mesmo asfalto pichado, o mesmo banco de madeira. O espaço entre os dois bairros simplesmente desaparecera.
— Não é possível... — murmurou, o pânico subindo pela garganta.
Ele deu alguns passos, tentando entender como a geografia da cidade se dobrara daquela forma, mas logo percebeu algo pior. O movimento ao redor do prédio comercial estava frenético. Carros pretos com vidros fumê circulavam o quarteirão. Homens de postura rígida e fones de ouvido montavam guarda em cada esquina.
O cerco havia fechado. Ele não era mais um fantasma; ele era o alvo, e o caçador acabara de acender as luzes.
Marcos recuou. O primeiro passo foi instintivo; o segundo, puro pânico. Seus olhos saltavam de um para-brisa fumê para o próximo, mapeando homens que se moviam com uma calma predatória. Os pontos cegos da cidade haviam sido deletados. Ele não era mais um pedestre; era uma anomalia cercada por anticorpos.
— Não... não agora — ele sibilou, o peito subindo e descendo em espasmos curtos.
A metros dali, um dos homens de terno escuro inclinou a cabeça. O movimento foi sutil, mas o gesto de pressionar o ponto eletrônico no ouvido soou como o gatilho de uma execução.
— Alvo localizado. Setor Norte — a voz do homem era um eco frio que Marcos captou no vento.
Ele não esperou o cerco fechar. Virou as costas e correu. O som dos passos atrás dele não era o de uma perseguição desesperada, mas de uma marcha precisa, ensaiada. Ele dobrou a primeira esquina, cortou o trânsito sentindo o calor do motor de um ônibus que quase o atingiu, e mergulhou em um beco.
Outra rua. Outro erro. O mundo parecia estar encolhendo, as paredes dos prédios se inclinando sobre ele como mandíbulas de concreto.
— Pensa, Marcos... foca... — ele sussurrava para si mesmo, as lágrimas de frustração turvando a visão.
Ao girar em um cruzamento estreito, ele colidiu violentamente contra um vulto sólido. O impacto foi tão seco que ambos foram ao chão. Marcos rolou, tentando se levantar para lutar, mas estacou ao ver quem estava caído à sua frente.
Era Kevin.
— O quê? Marcos? — Kevin grunhiu, a voz carregada de um cansaço que parecia vir da alma.
— Kevin... eu... — Marcos tentou formular uma frase, a adrenalina ainda chicoteando seu sangue. — Me desculpe. Eu não achei que um homem do seu tamanho cairia com um empurrão desses.
Kevin, ainda estendido no asfalto, soltou um riso amargo que se transformou em um suspiro de dor.
— Não fique aí fazendo piada — Kevin disse, estendendo a mão trêmula. — Me ajude a levantar. Agora.
Marcos hesitou, observando o homem. Havia algo de errado na forma como Kevin se movia, como se ele estivesse lutando contra uma gravidade que só existia para ele.
— Levante-se sozinho — Marcos retrucou, o cinismo sendo sua única defesa. — Você parece bem forte quando quer me bater.
Kevin sustentou o olhar de Marcos por um longo tempo. Seus olhos eram poços de uma tristeza indescritível. Como explicar o inexplicável? Como dizer que, para ele, o simples ato de erguer o tronco contra o chão daquela rua exigia um esforço monumental de vontade contra uma realidade que tentava apagá-lo?
— Eu... eu não consigo — Kevin admitiu, a voz falhando.
— O quê? — Marcos franziu a testa, a desconfiança vacilando. — Como assim não pode?
— Só me ajude a levantar. Depois conversamos sobre isso. Se houver um "depois".
Marcos bufou, mas cedeu. Agarrou o braço de Kevin e o puxou para cima. Mas assim que o homem ficou de pé, a paranoia de Marcos assumiu o controle. Ele girou Kevin e o prendeu em um mata-leão técnico, usando o corpo maior do outro como escudo.
— Agora, me diga a verdade — Marcos rosnou no ouvido de Kevin, apertando o braço contra a traqueia dele. — Chega de enigmas. Chega de labirintos.
— Marcos... não é a hora — Kevin sussurrou, a respiração sufocada. — Olhe em volta.
As sombras no fim da rua se materializaram. Três homens armados surgiram, as armas apontadas com uma precisão cirúrgica. A tensão no ar era quase elétrica, um estalido de violência prestes a romper.
— Largue ele, Marcos — ordenou um dos agentes, a voz desprovida de humanidade. — Você não tem para onde ir.
Marcos sentiu o peso da situação. O suor escorria por sua têmpora. Ele olhou para os canos pretos das pistolas e tomou uma decisão suicida.
— Quer saber? Eu me rendo — ele disse, afrouxando o aperto em Kevin.
— O que você está fazendo? — Kevin sibilou, incrédulo.
— Se vocês dois se recusam a me dar respostas, talvez essa gente dê — Marcos retrucou, as mãos começando a subir.
— Marcos, confie em mim — Kevin recuperou o fôlego, a urgência em sua voz agora era um grito sufocado. — Esses homens trabalham para algo que você não quer conhecer. Se eles te levarem agora, você nunca mais volta.
Os homens se aproximaram, cercando-os. O líder do grupo parou a dois metros e repetiu, frio:
— Solte-o.
Marcos soltou Kevin, que cambaleou por um momento antes de se estabilizar. Kevin olhou fixamente para o líder do grupo. Seus olhos pareceram brilhar com uma autoridade que não pertencia àquele beco.
— Prender este homem é um erro. — Kevin disse, a voz subitamente profunda e ressonante. — Volte para a base. Leve seus homens com você. Agora.
O agente estancou. Por um segundo, ele pareceu lutar contra uma ideia invisível. Seus olhos vacilaram, as pupilas dilatando. Ele baixou a arma.
— Entendido, senhor Kevin. — o homem murmurou. Ele fez um sinal seco para os subordinados. — Abortar missão. Retorno imediato para a base.
Marcos assistiu, boquiaberto, enquanto os caçadores guardavam as armas e caminhavam de volta para os carros, submissos a uma ordem que não fazia sentido lógico.
— O quê? — Marcos se virou para Kevin, a mente explodindo. — Então você também tem isso? Esses poderes?
— Poderes? — Kevin riu, um som seco e triste. — Você realmente não entende nada. Manter você na ignorância é a única coisa que te protege, Marcos.
— Me protege de quê? De quem?
— Deste lugar — Kevin disse, começando a se afastar, sua silhueta já se perdendo na névoa da madrugada. — Eu preciso ir. Faça o que eu pedi: esqueça a Laura. Fique neutro. Não cause mais oscilações. E, quando estiver pronto... acorde.
— Acordar para quê? Kevin! — Marcos avançou, desesperado por um fio de clareza.
Kevin parou e virou-se. Ele estava perto demais agora.
— Sinto muito, amigo — disse Kevin, o olhar carregado de uma misericórdia brutal. — Mas você ainda está sonhando muito alto.
Antes que Marcos pudesse reagir, o punho de Kevin o atingiu na têmpora com a precisão de um martelo hidráulico. A última coisa que Marcos viu foi o asfalto subindo para encontrá-lo.
O vazio do desmaio foi substituído por uma claridade cirúrgica. Marcos não estava em um beco; ele estava no topo do mundo.
O escritório era vasto, com paredes de vidro que emolduravam o horizonte de São Paulo como se a metrópole fosse um tabuleiro a seus pés. O aroma de couro novo e café importado era inebriante. Marcos olhou para baixo e viu as próprias mãos: limpas, cuidadas, repousando sobre uma mesa de jacarandá. No canto da mesa, uma placa de vidro gravada a laser confirmava sua posição de comando.
Ele vestia um terno sob medida que parecia uma armadura de status. A cidade lá fora, vista daquela altura, parecia silenciosa e sob controle.
Duas batidas leves na porta de correr interromperam sua contemplação. Um homem de meia-idade, com uma barba aparada com precisão milimétrica e um terno que custava mais do que Marcos vira em meses, entrou com um sorriso que não chegava aos olhos. Era Carlos.
— Marcos, tem um minuto? — A voz de Carlos era aveludada, mas carregava o peso de quem é dono do ar que os outros respiram.
— Senhor Carlos. Por favor, entre. Em que posso ser útil?
Carlos caminhou até a janela, observando a vista com uma expressão de posse.
— Tivemos quedas acentuadas nos últimos meses. O conselho está inquieto. Sugeri uma reformulação no marketing, mas começo a suspeitar que o problema seja estrutural.
— Estrutural? — Marcos sentiu um calafrio que não condizia com a temperatura controlada da sala.
— O produto — Carlos virou-se, apoiando as mãos na mesa de Marcos e inclinando-se para frente. — Ele não está mais satisfazendo os nossos consumidores. A experiência está se tornando instável, ruidosa.
— É uma proposta ousada, senhor. Sabíamos dos riscos desde o início.
— Ousadia não paga dividendos, Marcos. Resultados, sim. — O sorriso de Carlos desapareceu, revelando uma frieza absoluta. — Se você não estancar esse vazamento, teremos problemas sérios. E eu detesto problemas. Não me force a desligá-lo da empresa, especialmente agora, neste seu momento... delicado.
— Eu entendo — Marcos respondeu, a garganta subitamente seca. — Vou encontrar uma solução.
— Eu sei que vai. Você sempre foi o nosso melhor elemento. — Carlos deu um tapinha paternal no ombro de Marcos e saiu, deixando um rastro de perfume caro e uma ameaça silenciosa no ar.
Marcos desabou na cadeira, o coração martelando. Seu celular pessoal vibrou sobre a mesa. O nome na tela fez o mundo ganhar cor: Laura.
Ele atendeu no primeiro toque, a voz suavizando instantaneamente. — Amor?
— Marcos? — A voz de Laura estava carregada de uma alegria vibrante, quase febril. — Você não vai acreditar... eu tenho uma notícia. A melhor de todas.
Marcos fechou os olhos, sorrindo pela primeira vez. — Por favor, me conte. Eu preciso de uma boa notícia agora.
— Eu... — Laura começou, mas a voz dela subitamente se tornou mecânica, distorcida por uma estática violenta.
O escritório começou a vibrar. O vidro da janela trincou em um padrão de teia de aranha. A voz de Laura foi substituída por um rugido gutural que parecia vir de todas as direções ao mesmo tempo, uma voz que Marcos reconheceria em qualquer inferno.
— ACORDE! — Era a voz de Kevin, mas ele não estava mais ali.
O impacto foi como ser arremessado de um avião.
Marcos sentiu o asfalto frio e úmido contra o rosto. O cheiro de couro e sucesso evaporou, substituído pelo odor de fuligem e esgoto. Ele estava jogado na calçada, um trapo humano descartado à margem da vida que acabara de habitar no sonho.
Ele tentou respirar, mas o peito doía como se tivesse sido esmagado. Estava cercado por prédios cinzentos, sob um céu que não prometia nada além de mais dúvidas. Ele não era um executivo. Ele não era um mestre da cidade.
Ele era apenas um homem encurralado entre uma memória que parecia mentira e uma realidade que se recusava a fazer sentido.
Fale com o autor