Lapso Paradoxal
14 Capítulo 14 - Estrada para o Inferno
‘O medo já havia sido derrotado por mim. Era isso que eu pensava enquanto esperava por Marco embaixo daquele pé de jatobá velho, o cheiro do sangue dos cadáveres a poucos metros dali ainda impregnava minhas narinas, eu olhava para o céu clareado pelo luar e só pensava em Vitor, lembrei do dia em que ele me levou pra acampar, eu senti medo de animais selvagens, mas ele sempre tão confiante, logo me tranquilizou, eu comecei a pensar seriamente no que fazer daqui pra frente, meu coração doía enquanto eu fitava pequenos feixes de luz no céu, aquelas estrelas poderiam mesmo desaparecer algum dia? Eu amava Vitor do fundo do coração, mas eu podia mesmo, deixar esse mundo acabar? Eu sabia que aquele ‘espaço’ que estava era artificial, mas a beleza da natureza ao meu redor me fazia pensar que o mundo continuaria, apenas as pessoas seriam dizimadas. E quem era eu pra dizimar metade da população? Eu já decidi o que faria, comecei a chorar feito uma garotinha, mas logo limpei minhas lágrimas, precisava me fingir de morta para quando eles chegassem, espero que o portador tenha caído na armadilha do Marco, ele não era um bom ator como Heitor, mas eu estava confiando nele, era nossa única chance de vitória, Vitor... apenas espere mais um pouco, eu ainda vou te ver, olhar em seus olhos, e dizer que te amo.
Quando eles chegaram, mantive meus olhos fechados, pela voz, pude perceber que Carlos, o motorista, Gustavo e Valdecir estavam por lá, então... o portador era um desses? Comecei a refletir sobre tudo isso, por que esses portadores existem? Isso é apenas um passa tempo para quem quer que seja? Quem era Lúcifer? Por que ele me escolheu primeiro? Qual o objetivo disso tudo? Eu não podia acreditar, por mais que vários dias tenham se passado desde o começo desse inferno, ainda era tudo muito surreal para manter em minha mente e considerar como algo ‘normal’ nessa altura do campeonato. Eu estava com a arma do Marco atrás da minha calça, no meu bolso do lado esquerdo da parte de trás, estava a chave falsa que pedi para um designer de metais em Americana moldar antes de partir para a viagem, felizmente ele foi rápido em sua produção, eu fiz duas amostras de chave, duas idênticas à que Lúcifer me deu, eu podia enganar os portadores com isso, afinal, eram iguais, e duvido que eles saberiam quais eram as originais, tenho que agradecer àquele designer, ele fez um ótimo trabalho mesmo, por mais que tenha custado caro, mas não tem preço para minha sobrevivência, e a de Vitor, a chave original estava guardada na minha bolsa em um compartimento secreto que criei com uma agulha e fita adesiva camuflando com a parte do tecido de dentro da bolsa. Eu estava calma, e isso me fazia querer rir, porque algum deles poderia me matar a qualquer momento, Mas tinha que atacar primeiro, foi quando meio à escuridão da noite, apenas com as fracas luzes da lanterna voltadas para o chão, abri vagamente meus olhos e vi Carlos estendendo sua mão para pegar a chave ‘fake’ que Marco dava pra ele, então não tinha engano, Carlos era mesmo o portador desse loop. Por isso ele se aproximou de mim? E quem é o portador dos fantoches? Será que ele está no ônibus? Não, eu não podia pensar nessas coisas agora, quando Carlos pegou a chave, coloquei minha mão atrás de minhas costas pegando o revólver, Marco havia me ensinado como atirar, eu não erraria, apontei para a barriga de Carlos, a ideia inicial era atirar em seus joelhos, mas como portador, ele poderia ter alguma carta na manga, um tiro na barriga o deixaria quase morto, eu não queria que ele morresse, queria tortura-lo para ele confessar quem é o portador das marionetes, eu não ia perder essa chance, foi então que com um disparo certeiro, vi o sangue jorrando de sua barriga após a bala penetrar, Carlos foi para trás, o som do disparo quase me deixou surda, o cheiro da pólvora me fez tossir, os outros ficaram com os olhos arregalados sem entender, eu me levantei, não era hora de hesitar, era hora de matar. Apontei para a cabeça de Valdecir e puxei o gatilho, meu coração estava fragmentado e não sentia mais dor ou remorso, eles eram bonecos, não tinham alma, isso era 99% garantido, mas mesmo assim, eu ainda me sentia mal em tirar uma ‘vida’, depois de ver o crânio do senhor se abrindo, meus olhos se encheram de lágrimas, apontei a arma para Gustavo e dei um tiro quase que a queima roupa em sua boca, ele estava perto de mim, o sangue jorrou em meu corpo, vi seu maxilar voando, seus olhos esbugalhados saltaram do seu rosto, Marco também ficou todo sujo de sangue enquanto ele dava uma chave de braço no pescoço de Carlos para imobilizá-lo, e antes que eu pudesse atirar no motorista, Marco me pediu para parar.
— Calma, calma! Ele não é um boneco! – Eu quase cometi um grave erro, abaixei minha arma enquanto tremia. Eu havia matado mais duas pessoas, eu havia feito uma carnificina ali. Olhei atentamente para os corpos de Gustavo e Valdecir, os dois com suas cabeças estouradas, eu deixei o revólver cair no chão e comecei a vomitar. O que eu fiz? Eles não eram mesmo humanos? E se eu estivesse errada. Foi naquele momento que surpreendentemente, Marco me fez reagir. – Naiara! Eles não são humanos mesmo, não se culpe! Tem que interrogar o Carlos, antes que ele morra. – O motorista havia se mijado nas calças, ele só ficava sentado imóvel, não conseguia mover suas pernas, chorava pedindo para que eu não o matasse, sinceramente, eu não sei o que faria com ele depois. Ele viu eu matando duas pessoas, ele não acreditaria em toda essa história da chave... mas no momento, eu precisava tirar a verdade de Carlos.
— Fala de uma vez, quem é o portador dos fantoches. – Apontei minha arma para a cabeça de Carlos que mal conseguia falar, o buraco da bala foi fundo, ele estava perdendo muito sangue, Marco tentava estacar o ferimento para que ele não morresse, mas o homem cuspia sangue de sua boca e tremia feito vara bamba.
— Maldita... então eu fui enganado? – Ele não iria falar, é claro, se eles estavam trabalhando juntos, era óbvio.
— Eu vou te matar, você vai morrer de todo jeito, sabe disso não é?
— Por que eu diria? O portador não tá aqui, mesmo se quiser encontra-lo, você nunca, nunca vai saber. – Carlos cuspia sangue no rosto de Marco que se afastava, ele não tinha mais forças, se atirou no chão e olhou para o céu esperando pela morte.
— Chega Naiara... isso é cruel demais. – Marco começou a chorar também, é claro que um humano normal naquela situação não aguentaria. Marco era uma ótima pessoa, ia pra igreja todo fim de semana, ajudava seus pais, sempre foi um bom garoto. Por que ele estava me ajudando? Por que ele estava ali, naquele caos?
— Mar...co? Você é o Marco, não é? – Carlos dava seus últimos suspiros enquanto fitava Marco que se levantava e olhava para o rapaz.
— Sim... – Marco não entendia o que Carlos queria, mas o sorriso que Carlos demonstrou naquele momento me deixou pensativa.
— Hahahaha, então é isso... – Segundos depois, ele estava morto. Eu não sabia mesmo o que fazer dali adiante. O motorista iria nos denunciar, isso era uma certeza, mas eu não podia matar ele, era um humano, ele era inocente. E aquelas pessoas ‘não humanas, eles eram o que? Olhei mais uma vez para os cadáveres no chão, não aguentava aquele cheiro forte de sangue, eu me joguei nos braços de Marco e comecei a chorar desesperadamente.
— Eu não consigo, Marco, não posso mais fazer isso! – Marco me abraçou enquanto também chorava.
— Você não precisa, já está bom assim... – Não, eu não podia! Se eu desistisse, a morte de todos terá sido em vão. Tudo que passamos até agora, toda nossa luta, do que teria servido? Me afastei de Marco e enxuguei as lágrimas.
— Não estará bom até a vitória, Marco. – Olhei para o motorista e fui em direção a ele.
— E-eu juro que não falo pra ninguém, por favor, não tenho nada a ver com isso! – Ele parecia tão assustado que me dava muita pena, eu guardei minha arma e resolvi contar toda a história da chave pra ele.
— Eu acredito em vocês, eu não tenho porque duvidar! Essa situação é uma loucura! – Depois de ter contado tudo para o motorista, eu queria, do fundo do coração, acreditar que ele iria ser nosso aliado. Ele estava tremendo ainda, pálido uma gema de ovo, nos afastamos dos corpos e fomos em direção ao ônibus novamente, eu precisava de um plano para salvar Heitor.
— Acha que eles ouviram os tiros? – Marco me perguntou enquanto caminhava na frente, ele estava sem expressão, depois de tudo aquilo, não era possível manter a sanidade. Eu não piscava, não movia um músculo se quer da minha face, me corroía com a culpa de ter matado novamente, mas estava ainda no começo, se eu não aguentasse agora, como seria mais pra frente?
— Provavelmente, não estamos longe. Você e o motorista chegaram lá dizendo que eu peguei os outros, eles vão acreditar se o motorista for quem disser, precisamos tirar o Heitor de lá e sair desse loop, aparentemente, estamos livres agora que Carlos morreu, mas com o ônibus quebrado vai dificultar. – Fui interrompida pelo motorista naquele instante em que enxergávamos as lanternas do ônibus.
— Eu posso concertar o ônibus, não demoraria nem meia hora. – O problema seria os outros bonecos. Todos eles haviam me dado a mesma resposta, eles eram provavelmente todos fantoches do portador, mas eu não tinha como ter certeza, tirando o motorista que deu uma resposta diferente para Marco a respeito do Albergue das Massas, o resto respondeu que conhecia, eu não posso deixar que dúvidas pairem em minha mente, todos eles são fantoches.
— Eles podem nos matar a qualquer hora... – Marco disse isso baixo, ele sabia da nossa situação de matar ou ser morto.
— Temos duas armas aqui, vamos ameaçá-los, você com a espingarda que era do ruivo e eu com o revólver, faremos eles se afastarem do ônibus enquanto o motorista concerta, depois vamos embora e deixámos eles lá, não precisamos matar. – Eu sei que estava sendo ingênua com aquele plano, mas não queria mesmo... não queria mais ter que matar!
— Então vamos fazer isso, vamos ameaça-los, os homens mais perigosos foram mortos, não vão querer nos enfrentar. – Marco parecia bem nervoso, sua voz estava trêmula, quando chegamos no local onde os outros estavam, pisei em algo pegajoso, clareei com a lanterna e percebi um líquido vermelho escorrido no chão, e depois de muito se deparar com essa substância nesses últimos dias, eu sabia do que se tratava. Corremos mais para frente e vi o corpo de Mariana estendido no chão com um corte profundo em sua garganta, ela estava deitada de barriga pra cima com a boca aberta, eu podia ver sua guela toda, algumas moscas rodeavam seu cadáver, mais pra frente, clareando o chão, vi outros corpos. Cleuza, Neide, Márcio, aquilo parecia cenário de algum filme trash dos anos 80, todos eles estavam com suas gargantas cortadas, da mesma forma que Moacir fez no banheiro do ônibus, Kelly estava com seus olhos abertos e um sorriso em seu rosto, sua cabeça quase saiu do seu pescoço devido ao tamanho do corte que fora proferido nessa região, o motorista começou a passar mal novamente, Marco não aguentou e vomitou em cima do cadáver de Juliana. Na frente da rocha avermelhada clareada pelas lanternas do ônibus, estava Heitor, olhando fixamente para mim. Me aproximei correndo, usando a faca que era de Gustavo, cortei as cordas que o prendiam, ele se levantou e não proferiu nenhuma palavra. Seu olhar estava distante, seu rosto era de alguém que havia visto o inferno.
— Heitor! Você tá bem? – Marco se recuperou e se aproximou de nós, Heitor era o único vivo ali, todos os outros estavam mortos, seus corpos rodeavam o chão de terra com grama.
— Eu ainda não acredito no que vi. – O rapaz finalmente havia falado, ele piscou várias vezes dando várias tapas em seu rosto com as duas mãos.
— O que aconteceu aqui!? – Perguntei me agarrando no garoto.
— Foi uma carnificina total, do nada, eles ficaram loucos, pareciam possuídos, todos eles tiraram uma lâmina parecida com uma tesoura dos seus bolsos e cortaram suas gargantas sem NEM PISCAR, eles cravaram a lâmina em suas peles e fizeram cortes transversais profundos, como isso é possível porra? Foram todos de uma vez! – Contei tudo que havia acontecido para Heitor, começamos a pensar que aquilo poderia estar ligado com o portador dos bonecos, e até mesmo com Carlos.
— Talvez o portador dos bonecos tenha ficado com medo de alguém entrega-lo, então ele ordenou para todos se matarem. – Marco disse isso, mas todos já tinham pensado nessa possibilidade, mas, se ele podia controlar assim esses bonecos, por que não nos matou?
— Está pensando porque ele não pediu para nos matarem de uma vez, se eles são controlados, né? – Heitor começou a falar, mas o motorista, que tentava concertar o ônibus, ainda tremendo e chorando baixinho, ouviu algo e nos chamou atenção.
— Pessoal, ei, a guria ali tá viva! – Ele não se moveu de onde estava, apenas apontou para o corpo de Andrea, percebi que suas pernas estavam tentando se mover, aquela era nossa chance. Corri até ela junto de Marco e Heitor, a garganta dela não estava totalmente cortada, o rasgo foi feito mas de maneira que não houve muito sangramento, ela estava com falta de ar e não conseguia falar, uma de suas mãos estava apertando contra o ferimento, Marco imediatamente rasgou sua própria camisa e colocou pressionada contra o corte, Heitor pegou uma garrafa de água e jogou um pouco na superfície do pescoço da mulher, eu segurei sua cabeça erguida e olhei nos olhos dela.
— Quem é o maldito portador? Quem é seu ‘dono’? – Eu sei que aquelas palavras não foram apropriadas mas não podia pensar em mais nada, eu sabia que ela era uma boneca sem alma sendo controlada, mas acredito eu que, mesmo um boneco diante da morte, pode sucumbir ao medo.
— Acha mesmo que ela vai falar, se tá sendo controlada pelo portador? – Heitor estava certo, mas eu tinha que tentar, mas antes que eu pudesse perguntar mais alguma coisa, o motorista chegou por trás de mim com um pedaço de ferro em suas mãos e cravou na testa da mulher, o ferro se encravou firmemente contra seu crânio abrindo um buraco enorme, via pedaços do cérebro da mesma escorrendo pelas laterais, seus olhos ficaram abertos assim como sua boca, eu e todos ali se afastamos encarando o motorista, antes que eu pudesse pegar o revólver preso em minha calça, ele levantou as mãos.
— Chega disso! Eu estou farto, farto desse massacre! Ela estava morrendo, todos aqui morreram! Sendo bonecos ou o que for, pareciam humanos com sentimentos pra mim, todos queriam viver, todos estavam querendo apenas sair desse lugar, por que isso? Quem são vocês? Não façam mais ninguém sofrer! – Ele começou a chorar enquanto se sentava no chão feito uma criança. – Acha que vão se livrar disso? Eu não vou denunciar vocês, mas o que a polícia vai pensar que aconteceu? – Ele estava certo, alguns sabiam da nossa viagem, sabiam que estávamos naquela merda de ônibus. Pensei que quando o portador fosse morto, como Carlos foi, aquele lugar iria desaparecer, mas pelo visto, aquele lugar era real, nós só estávamos presos em uma droga de loop mesmo voltando para o ponto de início, preso em um tipo de universo paralelo, mas agora que reparei, ainda não passou nenhum carro na rodovia, será que estávamos mesmo livres?
— Ninguém saberá, você é o único que controla as passagens, que sabe quem embarcou, então você é o único que pode nos denunciar aqui. O problema é que você trabalha na empresa, quando chegar em Minas com o ônibus sem ninguém, todo sujo de sangue, terá que dar uma explicação, e é claro que nunca irão acreditar na verdade, eles vão atrás dos corpos e vão achar esse cenário, provavelmente vão desconfiar de você primeiro, e então, você irá nos dedurar, isso é o senso comum, mesmo não sendo nós quem matávamos essas ‘criaturas’, eles vão associar o incidente em Americana com isso e seremos tidos como aberrações mundiais que mataram várias pessoas, ou seja, nossa única alternativa... é te matar aqui. – Heitor pegou o pedaço de ferro cravado na cabeça de Andrea, tirou ele violentamente enquanto o sangue manchava seu rosto, e foi andando em direção ao motorista que engatinhava de costas tentando fugir do rapaz.
— Calma! – Marco o segurou pelos braços.
— Calma o que cara? Não vê a situação que estamos? Ou ele, ou a gente. – Heitor tinha razão, não tinha como o motorista se safar sem nos denunciar.
— Eu não vou dizer nada, eu juro! Eu já pensei nisso, quando chegarmos lá, eu vou até a polícia dizer que três maníacos me assaltaram na estrada, vou dizer que eles me renderam e tiraram todos os passageiros nesse local em que estamos, eu e vocês vamos de ônibus até a entrada de Poços de Calda, lá eu jogarei o ônibus em uma ribanceira e vamos de a pé até a cidade, eu direi que consegui escapar de lá porque me fingi de morto, direi que eles mataram todos aqui e pegaram o ônibus e foram embora, a polícia vai pensar que eles que jogaram o ônibus no buraco, eu direi que caminhei daqui até a cidade, vou parecer exausto, como já estou, e vocês três podem se trocar com algumas roupas que trouxeram e chegarem na cidade como se não tivessem montado em meu ônibus, eu juro que vou esquecer de vocês, que não vou falar nada, eu prometo, eu juro por tudo. – Elias chorava feito um bebê clamando por sua vida, eu queria acreditar naquelas palavras, não estava mais disposta a derramar sangue, foi então que aceitei essa proposta.
Decidi que faríamos como ele havia planejado, queimamos nossas passagens para que ninguém tivesse prova de que estávamos lá, empilhamos os corpos ali pra parecer que as pessoas haviam sido assassinada mesmo, os outros mortos no meio do mato, o motorista diria que foram uns que fugiram e depois foram pegos. Depois que Elias concertou o ônibus, finalmente, estávamos saindo daquele inferno. O meu celular havia ficado com sinal novamente, mas não tinha o porquê ligar pra alguém, vimos alguns carros passando na rodovia já, eu tinha certeza que estávamos fora daquela estrada infinita, Marco e Heitor estavam quietos, eles não concordaram com minha decisão, todos estávamos apreensivos, mas eu queria mesmo fazer tudo aquilo sem matar mais ninguém, eu não suportaria! Quando vi a placa de Poços de Calda respirei fundo, finalmente, estávamos chegando, agora era hora do motorista parar o ônibus e seguir com seu plano, ele o jogaria em um buraco no meio do mato na beira da estrada e seguiríamos a pé, eu, Marco e Heitor por um caminho diferente do de Elias, e ele nunca mais falaria da gente pra ninguém. E eu também, de Minas, pensava em ir para o norte do país, só lá mesmo eu estaria segura, não queria envolver mais Marco e Heitor nisso, eu iria me esconder até o prazo terminar, não tinha como me encontrarem... foi o que pensei, quando vi o motorista desviar o ônibus de sua rota e jogá-lo contra a ribanceira, com todos nós ainda dentro do mesmo. O ônibus foi descendo reto até se chocar contra uma enorme pedra, fomos arremessados para longe dentro do ônibus, Marco estava sangrando na cabeça, Heitor havia desmaiado, eu consegui me segurar mas ainda assim atingi uma costela em um dos bancos à frente, eu olhei para o banco do motorista e vi Elias se levantando todo ensanguentando, ele olhou diretamente para mim com raiva.
— Você vai ser pega, garota, isso eu te garanto. Você não pode vencer meus lacaios. – Dizendo isso, ele saiu do ônibus pela porta da frente e desapareceu no matagal. O filho da mãe era o portador das marionetes.
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