Lapso Paradoxal
15 Capítulo 15 - Duas Escolhas
Tudo havia acontecido em um piscar de olhos, eu parecia estar sonhando, é claro que aquilo tinha que ser um sonho, não é? Como era possível, afinal, ter a vida bagunçada de um dia para o outro? E pensar que eu queria me matar, será que é meu castigo por isso? Não, eu quem aceitei a chave, aceitei o meu destino, por que estou reclamando? Eu deveria apenas agradecer por ainda estar viva nesse jogo doentio. Marco carregava Heitor em suas costas, sua testa sangrava, eu tinha uma costela quebrada mas conseguia andar, não pretendíamos ir para Poços de Caldas, afinal, o motorista estaria nos esperando lá sabe-se lá com quantos fantoches, na verdade, estaríamos fodidos de todo jeito, não tinha ideia de quantas pessoas ele havia controlado até o momento, mas o mais importante agora era manter nossa segurança. Heitor havia batido a cabeça e não queria acordar, comecei a ficar preocupada demais, ele era essencial para minha vitória, além de ser meu grande amigo. Caminhávamos lentamente pela beira da rodovia, não podíamos deixar que nenhum carro nos visse, teríamos que chegar a pé até a próxima cidade, Palmeiral. Era um município com menos de 10 mil pessoas, até o Elias nos achar, aquela cidade poderia ser um bom refúgio, mas quando vi a placa de 3 km até Palmeiral, minhas pernas já começaram a doer. Eu mal conseguia respirar com a costela quebrada, Marco não aguentava levar Heitor, não tínhamos escolha a não ser pedir uma carona até lá, na verdade, é claro que a maioria dos carros passando ali naquele trecho iriam pra Poços de Caldas, e como estamos todos sangrando, certamente nos levariam pro hospital, então não tinha jeito, teríamos que ir pra Poços de Caldas e enfrentar o filho da mãe.
— Marco, venha. – Subi até a rodovia e apontei minha mão direita para a estrada, esperando algum carro passar. Depois de cinco minutos, uma saveiro preta parou imediatamente ao me ver sangrando e com expressão de dor.
— O que aconteceu? Subam logo, meu Deus! – Felizmente era só uma ‘pessoa’, parecia ser um universitário, ele era careca apesar de ter minha idade aparentemente, mas parecia uma boa pessoa.
— Sofremos um acidente, nossas motos se colidiram, elas ficaram pra trás, não podíamos esperar, não conseguimos carona até agora então estávamos indo a pé até Poços de Caldas. – Montei primeiro, e em seguida, Marco junto de Heitor desmaiado, o carro ficou apertado mas mesmo assim o rapaz pareceu não se importar, assim que Marco fechou a porta ele pisou no freio.
Durante o percurso, ele nos perguntou muitas coisas mas consegui mentir tudo de uma maneira convincente, ele só nos deixaria no hospital e cairia fora, assim eu esperava. Chegando em Poços de Calda, o rapaz foi diretamente até o pronto socorro, fomos atendidos por 4 enfermeiras, Marco foi levado para fazer um curativo em sua cabeça, Heitor foi internado, e eu fiquei em uma cama com algumas faixas em volta do meu corpo, o médico que me atendeu disse que um pequeno pedaço de uma costela minha havia se quebrado, mas nada de grave. O que mais me preocupava ali era o fato de quem era quem naquele hospital, além de ficar com medo da notícia do ônibus se espalhar por aí. Eles logo associariam isso com a gente, ao não encontrarem nossas motos que nunca existiram. Fiquei pensando em como o motorista se safaria dessa... digo, se ele fosse mesmo motorista. Se ele fosse, a empresa iria questionar o que aconteceu, se bem que, assim como Heitor disse, ele poderia nos denunciar facilmente, seria fácil tirar a chave da gente se fossemos presos, ele nos acusaria de todas as mortes anteriores, é, claramente, era o que aconteceria, mas se ele não fosse o motorista mesmo, poderia ele nos denunciar? Porque seria estranho ele revelar uma história de que estava em um ônibus e que matamos várias pessoas e etc, mas com os poderes que tem, ele nem precisaria. Eu comecei a pensar naquela merda de poder, pelo que Lúcifer me disse, os fantoches só poderiam ser criados com outra vida, ou seja, pra ter um boneco alguém precisa morrer. Não creio que Elias tenha matado alguém, ele pode ter as piores intenções mas não tinha recursos, ele não era um assassino profissional e isso eu sabia dizer só de olhar para ele, então... Antes que eu pudesse pensar em mais alguma coisa, Marco entrou em meu quarto, onde eu estava sozinha.
— Eles me deram ‘alta’. Disseram que a polícia está vindo pra nos ‘interrogar’, e não se preocupe, eu pesquisei no google maps, há um rio perto de onde o motorista jogou o ônibus, é só dizermos pra polícia que as motos caíram lá, eu e você em uma e Heitor em outra, Heitor confirmaria a história quando acordasse, aliás, dei uma passada pra vê-lo, ele parece bem, só teve um pequeno traumatismo, mas o médico que o atendeu disse que é questão de horas pra ele acordar. – Eu não via um traumatismo como algo ‘pequeno’, mas Marco havia nos salvado, ao menos por enquanto, a polícia seria a grande pedra em nosso caminho, mas não mais que os fantoches.
— Marco, como você acha que o Elias cria aqueles fantoches?
— E eu vou saber? Você não disse que eles são criados por vidas humanas? Então ele tem que matar alguém pra criar outra pessoa, bom, é isso que você disse.
— Exatamente, mas, você acha que se mais de 10 pessoas tivessem morrido em Americana, ninguém ficaria sabendo? Primeiro, Marco, Elias mora lá, então não sei se deveríamos temer tanto essa cidade, o plano inicial dele e do Carlos era nos pegar na estrada, e pela cara de frustração dele no ônibus, ele havia falhado, ou seja, ele terá que criar mais fantoches aqui na cidade, pois ele nunca esteve aqui, então não deve ter nenhum ainda, isso nos dá tempo, podemos ir pra outra cidade quando Heitor acordar, vamos fugir deles, essa é a estratégia, fugir deles até os dias passarem, não vamos mais lutar, Marco.
— Eu concordo, fugir é o melhor caminho, eles podem vir atrás, mas é só corremos com tudo, não? E quanto ao que você falou, pode ser que ele crie esses fantoches de maneira diferente...
— Não consigo imaginar o Lúcifer mentindo pra mim, certamente, esses fantoches são criados com outra vida humana em troca... – Foi então que algo veio repentinamente à minha cabeça.
— O que foi? Ficou pálida!
— Marco, pense... Se quisesse um corpo humano vazio, onde encontraria?
— O que?
— O que Lúcifer me disse é que, pra se criar um fantoche é preciso de uma outra pessoa, mas ele não especificou se a pessoa precisava estar viva, ou não, digo, viva antes...
— O que quer dizer Naiara?
— Exatamente o que eu disse! Um local onde você acharia vários corpos... um necrotério. – Marco abriu bem seus olhos não acreditando na minha teoria.
— Acha que ele faz os fantoches através de um necrotério?
— Levando em conta que ele controlou todas aquelas pessoas no ônibus, e em Americana não morrem mais do que 5 pessoas por dia, nem teve indícios de assassinato antes de viajarmos.. sim, eu acredito nisso, ele está usando corpos do necrotério, essas pessoas, Marco, aquelas do ônibus, elas já estavam todas mortas antes. Eu pesquisei aqui pelos óbitos de Americana no mês inteiro, mas não achei ninguém das pessoas que estavam no ônibus. – Fiz uma pausa e senti uma forte dor de cabeça a me contemplar.
— Mas você não disse que todas estavam mortas!? – Marco parecia querer encerrar aquela conversa sem sentido que eu criara, me olhando com irritação.
— Eu pesquisei as de Limeira também, e veja isso. – Dei meu celular nas mãos de Marco, sua cara de surpresa foi tão clichê como minha reação.
— Isso...
— Isso é possível e foi o que aconteceu. Pense bem, Marco, o portador não iria matar ninguém, visto que ele não pode vencer a polícia mesmo com seus fantoches. O portador não podia criar fantoches de pessoas mortas da cidade em que elas morreram, a cidade ficaria um caos achando que estão em um apocalipse zumbi ao verem mortos andando por aí, por isso ele usou pessoas de outra cidade, ele deve ter conseguido alguma maneira de se infiltrar no necrotério de Limeira, ele não precisou necessariamente pegar corpos de pessoas mortas em um só dia, porque é claro que todos aqueles passageiros não morreram em um dia só, no IML há cadáveres que ficam congelados para autópsia ou investigação, se tivesse mais, aposto que ele lotaria o ônibus, e não só de Limeiras podia ser das cidades da região também, pense bem, ele precisaria de pelo menos um fio de cabelo de um cadáver pra criar um fantoche, é o que eu penso. Sei que estamos em uma situação fantasiosa a tempos, mas essa é a coisa mais insana que aconteceu até agora, minha ideia é que ele pegue uma parte do corpo das pessoas para criar um novo corpo e introduzir memórias falsas nessa pessoa, mas para isso, a pessoa precisa estar morta. Eu não sei mesmo como funciona! Se soubéssemos, poderíamos vencer Elias, se é que esse é seu nome. – Comecei a me irritar ao pensar que aquele bastardo filho da mãe estava um passo a nossa frente.
— E por que ele não nos matou no ônibus? Olha, ele teve a chance. Éramos nós três contra todos, o portador poderia usar no mínimo 4 fantoches que já venceriam e pegariam a chave, então tem algo errado por aí, Naiara, eram dois portadores no ônibus! – As palavras de Marco soaram bem forte em minha mente. ‘Dois portadores’. Haviam mesmo dois portadores no ônibus? Eu meio que sabia a resposta disso já, mas não precisava chegar nesse ponto, não agora.
— Isso é mesmo estranho, com certeza Carlos ao menos me queria morta, assim como o ruivo da barraca, mas os outros não demonstraram intenções assassinas, talvez, como eu disse antes, o Elias não tenha controle sobre essas pessoas, digo, ele podia apenas criar os fantoches, mas não dar ordens. – Me levantei da cama, estava cansada de ficar deitada, o tempo passava, não era mais a hora do recreio, agora a aula seria intensiva e sem intervalos.
— Realmente, mas o fato é que vimos Moacir se matando, e depois o Leonardo e o vida louca lá, além de todo restante! – Marco começou a clarear minha mente, eu queria estar errada mas.. será mesmo que era aquilo?
— Marco, lembra que alguém de nós citou a possibilidade do motorista ter dado voltas em círculos para nos confundir? Digo, ele pode saber um caminho que possibilite isso, não tem como comprovar que estávamos presos em um loop, tirando que não passava nenhum carro e que não tinha sinal, boa parte das estradas dessa região não pega celular.
— Acha mesmo que isso é possível? Demos várias voltas Naiara, não tem como, você viu. E não passar nenhum carro em umas duas horas, não é nada normal.
— Ao menos que alguém tenha feito um desvio. – Marco balançou a cabeça negativamente com minha suposta afirmação.
— Não tá falando sério com isso né Naiara?
— Estou, sim.
— E onde quer chegar?
— Que talvez, houvesse um só portador, que no caso, é o Elias, no ônibus.
— Mas Carlos queria a chave! Ele não parecia um fantoche.
— E por que você diz isso? Pode haver fantoches como ele, que podem ser controlados, não sabemos como isso funciona.
— Naiara, Carlos era o portador, e ele está morto! Não tem porque ficar colocando isso na cabeça. – No instante em que eu iria responder, alguém entrou em meu quarto, pensei ser a polícia, mas era Heitor, ele estava se segurando na porta com sua cabeça toda enfaixada.
— Cara, você não podia sair do seu quarto! – Marco o segurou e o ajudou a se sentar na beirada da minha cama.
— Ninguém me viu, eu sou bom mesmo nisso.
— Não é hora de piadas, você, pelo que Marco falou, sofreu a porra de um traumatismo. – Heitor parecia bem para alguém que estava desacordado até minutos atrás, de alguma forma, eu fiquei feliz com aquilo e respirei fundo.
— Eu pareço ter traumatismo? Acho que só desmaiei pra valer mesmo, devia estar com sono, sabe, todos estamos cansados haha.
— A polícia tá vindo. – Marco fechou a porta mas não sem antes olhar para o corredor para observar se alguém estava vindo.
— Escondeu a arma na mochila? – Heitor tentava se levantar mas ainda cambaleava muito.
— Escondi, é óbvio, Heitor, eu tenho algo que te contar, mas vou tentar ser bem rápida e falar de maneira resumida. – Contei toda história e teoria que havia contado para Marco, para Heitor. O garoto, ao contrário de Marco, achou bem provável minha ideia, deixando Marco ainda mais irritado.
— Eu concordo com isso do necrotério, vinha pensando desde que soubemos disso, digo, do portador.
— Então acham mesmo que ele tá agora no necrotério daqui fazendo um exército? Bem, eu pensei de novo nisso, não tem como ele entrar no necrotério, o filho da mãe deve estar indo em velórios... – Marco olhava pela janela, quando vi sirenes de polícia clareava o local.
— Eles chegaram, hein. – Heitor franziu sua testa e olhou para mim. – Vamos fugir como você disse, Nai.
— Temos duas escolhas. – Eu respirei fundo naquele momento, era uma situação crucial para minha vitória, para o futuro da terra, para Vitor. Mas deixaria aquilo nas mãos dos meus amigos, sem eles, eu sei que não seria nada, eu não me esconderia sozinha, estávamos todos juntos nesse inferno que criei. – Podemos ir pra uma cidade do interior do Mato Grosso ou até do Acre, eu tenho dinheiro pra isso, pelo menos pra passarmos um mês lá, peguei o dinheiro de todos os cadáveres no ônibus – não sei como fantoches tem dinheiro, e isso me incomoda muito – e antes que falem algo, não não me sinto mal por isso, já estou totalmente corrompida, e eu tinha que revista-los, enfim, podemos nos esconder até o prazo terminar, ou... – Parei enquanto Marco e Heitor olhavam atentamente em minha direção. Ambos estavam machucados, cansados, mas mesmo assim, ao meu lado. Eu deixei uma lágrima escorrer pelos meus olhos sem que eles percebessem e a enxuguei rapidamente, eu me arrependia demais de tudo aquilo, Vitor devia sentir vergonha de mim, mas já estávamos no inferno, então, iríamos assassinar o demônio. – Vamos até o necrotério ou velório municipal pegar esse filho da puta. – Os dois se entreolharam, ouvi o som dos passos dos policiais subindo as escadas, eu olhei para baixo, não sabia como encarar Marco e Heitor, eu estava mesmo pedindo demais.
— Acho que se formos o quanto antes, podemos pegá-lo de surpresa. – Heitor respondeu sem hesitar enquanto sorria, dele eu já esperava isso, mas ver Marco apoiando essa ideia...
— Ele vai nos caçar de todo jeito, temos que tomar a frente, a melhor defesa é mesmo o ataque. – Marco se encostou contra a janela do quarto. Eles realmente eram pessoas boas...jogadas na escuridão, por mim.
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