Lapso Paradoxal

37 Capítulo 35 - Encurralados


E mais uma vez, eu me via cercada por pessoas com olhares ameaçadores e sedentos por sangue, e acima de tudo, para saírem daquele lugar.

— Me diz que isso é uma piada, certo? Você é a causadora de toda essa merda? Então trate de nos tirar daqui! – Gritou Yasmin, que antes, se mostrava tímida e precavida com tudo, mas agora, diante do desespero, já expôs sua verdadeira natureza humana.

— Como eu disse antes, não tem como sairmos daqui. – Há alguns minutos atrás, antes de ser colocada nessa roda e questionada por todos, contei exatamente tudo que eu sabia até então. Disse sobre a chave, sobre os portadores, sobre como Kamihate controlava esse jogo – através da explicação de Paulo -, também contei que a única maneira de sairmos dali é se acharmos a pessoa que o Kamihate apostou, ou então, como o próprio disse, ir até o fim até sobrar um candidato, que no caso, se restar apenas um, seria o que ele apostou. Dito isso, alguns ficaram rindo da minha cara, mas percebi que um ou dois acreditaram, meio a uma lacuna sem saídas, eles se agarraram na minha explicação e decidiram confiar em mim, eram eles Luilton, o rapaz ruivo, e Carlos, o homem mais velho e marrento. Paulo também sabia de tudo mas ele se negou a falar qualquer coisa, mesmo que tivesse pedido minha ajuda, nesse momento em que me expus, ele não quis se envolver, não passa de um covarde, mas eu também não quis criar mais dúvidas naquelas pessoas dizendo que Paulo era um dos outros portadores e que ele sabia mais do que imaginavam, eu ainda precisava tomar cuidado com ele, é claro, mas o foco agora era ganhar a confiança daquelas pessoas, tudo que eu fiz, nesse momento, foi com a intenção de pressionar Kamihate, assim como a pessoa que ele apostou, essa pessoa se sentirá pressionada quando começarmos a investigar, e com isso, notarei sua atitude diferente e o pegarei antes mesmo que outra pessoa possa morrer nesses jogos infantis e doentios.

— Calma pessoa, a garota parece saber mesmo de tudo! E eu vi, lembro bem que a uns dois dias, vi da tragédia de Americana, se não me engano, passaram vários nomes no noticiário, menos dessa guria, o prédio eu me lembro bem de cabeça, ficava perto de uma praça, se você tivesse como provar que mora lá mesmo... – Carlos havia acendido uma pequena chama para que eu pudesse provar que realmente, tudo que havia dito, era verdade. Em meu celular havia uma filmagem que fiz dos corpos dos policiais naquela noite em que Lucia morreu, eu gravei isso apenas por precaução, caso precisasse futuramente, mas não esperei que iria precisar nesse momento. Mostrar aquilo para aquelas pessoas jogadas no medo iria lhes causar mais dúvidas e infortúnios, mas eu tinha que provar de alguma forma que estava dizendo a verdade.

— Vejam, eu fiz essa filmagem no dia do massacre em meu prédio, vários policiais morreram, além de duas pessoas de fora, eu estava lá, e sabem por quê? Porque eu matei a mulher que fez tudo isso. – Dei o celular com o vídeo nas mãos de Carlos, todos vieram aglomerados para cima do rapaz para verem o vídeo, alguns, como Inês, não aguentaram as cenas fortes, outros, em seguida, me fitaram como se eu fosse um fantasma.

— Essa filmagem pode ter sido pega do whatsapp ou do youtube, quem garante que você que fez? – Claro que alguns poderiam pensar isso, mas o ponto não era esse, eu não tinha tempo, o próximo jogo iria começar em 10 minutos, tinha que ser rápida.

— Ei, eu acredito nela também, eu me calei até agora, mas eu também sou de Americana, a verdade é que estava esse tempo todo cochichando com ela porque eu sou amigo dela, mas não queria que soubessem, por medo, medo de que descobrindo quem ela é, também iriam ficar contra mim, mas agora não posso me calar ao ver minha melhor amiga em perigo, tudo que ela disse é verdade, eu estive esse tempo todo ajudando-a, então confiem em cada palavra do que ela diz, ela tem mesmo essa chave, temos que encontrar a pessoa que o Kamihate apostou aqui! Se fizermos isso, vencemos, ninguém precisa morrer. – Paulo parecia um ator profissional, seu tom de voz já dizia que ele fizera aquilo pensando só em seu benefício, é óbvio que ele queria sair dali e ter a chave, portanto, fazer jogadas arriscadas começou a entrar em pauta.

— E como diabos vamos saber quem é o tal do elemento que o dono desse lugar apostou? Pode ser qualquer um! Ele pode ter apenas apostado aleatoriamente sabe. – Disse Varderlei, o homem gordo e irritado.

— Você é idiota por acaso? Se essa pessoa morrer ou perder em algum jogo, ele perderá, ao menos foi o que Naiara disse, não sei se o ‘perder’ quer dizer que ele morrerá, mas tudo isso será em vão, pensemos que estamos em um jogo de vídeo-game, ele só tem uma vida, o seu personagem foi escolhido para vencer, por que ele escolheria alguém que saberia que morreria facilmente? É claro que isso fica complicado a partir do momento em que Naiara disse que ele não pode influenciar diretamente nos jogos, ou seja, ele não pode escolher quem morrerá ou quem será escolhido, se essas são mesmo as regras do jogo, ele escolheu uma pessoa que teria certa vantagem sobre todos os outros nesse jogo... e creio eu, que essa pessoa seja você, Naiara. – Bruna, a garota fria e com olhos afiados havia me surpreendido agora, sua explicação estava correta, mas não tinha como isso ser possível.

— Está enganada mocinha, ele tem o objetivo de prender a Naiara nesse local, se ele tivesse escolhido ela, teria que ter um modo de saber que ela ganharia, mas ela não tem poderes, é uma humana como nós, não é possível que ela venha a ganhar... – Esse maldito sabia que estava errado, Paulo sabe que eu matei várias pessoas e era capaz de tudo pra vencer, pensando por essa linha de raciocínio, o que Bruna diz pode ser verdade, se ele apostou mesmo em mim, o jogo só acabaria... se eu morresse, e como eu não posso morrer e Paulo não me deixará morrer, então ele sabe que essa é uma grande vantagem, foi por isso que ele colocou Paulo nesse jogo, ele queria que ele me protegesse, pois apostou em mim, esse maldito filho da mãe quer que eu mate todos nessa sala, até mesmo Paulo, mas pensando por outra linha, Paulo também poderia ser o escolhido por ele, visto que Paulo tem algum poder, e eu meio que já sei qual é esse poder, eu não sabia o que fazer, expor Paulo poderia fazer com que alguém o matasse achando que ele é o escolhido, mas pensando que eu PRECISE vencer esse jogo, sendo eu a escolhida, Paulo seria meu grande aliado, visto que seu poder é o de entrar no corpo das pessoas e controla-las enquanto seu corpo entra em um estado de ‘bot’ automático, pois nada explica o que aconteceu com os dois primeiros que morreram.

— Eu acho que não podemos tirar conclusões assim. Talvez ele queira que pensamos assim, que eu sou a escolhida, aí vocês me matam, ele vence, e fim. Não tem porque concluir nada com isso.

— Como não? Quem me controlou enquanto eu matava a Marica? Porque não fui eu que fiz aquilo! – Keno gritou desesperado enquanto me olhava com fúria.

— É! Foi muito estranho isso, o careca ter se matado também... você não tem mesmo nenhum poder? Você estava em último Naiara, ia perder, mas algo controlou o Dioni e ele perdeu, ou seja, ou o Kamihate apostou em você mesmo e fez isso, ou você mesma fez isso. – Paulo interrompeu a observação de Vanderlei.

— Ou então, outra pessoa fez isso. – Todos olharam para Paulo admirados.

— Quem poderia? – Perguntou Inês.

— Eu, oras. – Paulo sorriu ironicamente enquanto olhava para todos ali. – Irei me apresentar então, meu nome é Paulo e eu sou o portador da Eternidade Nula, eu posso entrar no corpo de qualquer pessoa aqui, quando eu quiser, então é o seguinte seus merdas, eu não sou o escolhido, eu apenas quero que a Naiara viva até o final, ou até acharmos o escolhido, então não vou deixar que ninguém faça nada com ela. – Todos se surpreenderam, mas não eu.

— Você tá brincando comigo, não é? Diz que tá irmãozinho, você matou duas pessoas aqui? VOCÊ MATOU? – O rapaz gordo começou a bufar, suas veias saltaram em seu rosto, ele se aproximou da motosserra que eu havia soltado no chão e começou a tentar liga-la, até que ele conseguiu, todos se afastaram, alguns começaram a gritar, mas Paulo demonstrou calma, ele apenas sorriu balançando a cabeça ironicamente. – Quer dizer que se você morrer, ninguém mais morre aqui né? – Eu queria que isso fosse verdade, mas ele estava totalmente enganado. Eu olhei de relance para Paulo, eu sabia o que aquela habilidade fazia, o filho da mãe só podia controlar 3 pessoas por dia, durante sete horas, se naquele dia, ele havia controlado duas pessoas já, ele só tinha mais uma chance para usar o seu poder. O que ele poderia fazer agora? Matar Varderlei e deixar todos com medo dele, ou então controlar Vanderlei e através dele, ameaçar todos ali, mas antes de apostar em uma dessas duas, vi o rapaz partir para cima de Paulo que não moveu um músculo se quer, alguns gritaram de longe, mas ninguém ousou se aproximar, eis que Vanderlei parou no caminho, ele, com a motosserra ainda ligada que fazia um barulho ensurdecedor, a levantou para cima, segurando-a com as duas mãos, foi aí que percebi que ele já estava sob controle. – Prestem bem atenção, se vocês forem contra mim ou tentarem fazer algo contra a Naiara, algo pior do que isso acontecerá com vocês. – Vanderlei, ou melhor, Paulo, soltou a motosserra em sua cabeça, a lamina entrou bem no meio, percorrendo o centro da mesma rasgando seu cérebro e seu crânio fazendo várias partes de sua cabeça voarem por aquela sala branca, a motosserra continuou ligada descendo até as costelas de Varderlei, ela não podia ser desligada, então triturava todo corpo do rapaz até formar uma cratera de sangue e vísceras em volta daquilo, até que depois de bater em um osso grosso, a mesma parou de funcionar, todos já estavam bem longe, Letícia vomitava, Carlos havia desmaiado, Keno gritava desesperado, tudo se transformou em um inferno. Olhei para Paulo e ele parecia estar de volta em seu corpo, ele não sorria, fazia um gesto preocupante, afinal, sabia que agora seu poder não retornaria em menos de 24 horas, e esse jogo não duraria isso.

— Espero que tenha entendido o recado. Naiara, você vai chegar até o fim, entendeu? Vamos encontrar em quem ele apostou. – Paulo disse isso enquanto Luilton se aproximava.

— Calma, cara, calma, não queremos isso, pelo amor de Deus, eu só quero sair daqui! Qual o seu objetivo?

— Eu disse, não? Quero que a Naiara fique bem até encontramos a pessoa em quem o Kamihate apostou. – Letícia, toda suja de vômito, cambaleando, tentou se aproximar.

— Mas ele não apostou em você? Com alguém com uma habilidade dessa, por que ele não apostaria? Você é o que tem mais chances de ganhar! – Letícia estava errada, agora que Paulo usou todo seu poder, eu é que tinha mais chances de vencer, Paulo está nas minhas mãos, se eu quisesse contaria o segredo dele para todos os outros ali, então Kamihate certamente não teria apostado nele.

— Hahahaha, que belo espetáculo amigos! Pensei que aguentaria até o próximo jogo, mas olha a bagunça que fizeram, meu Deus! Vocês são podres mesmo, agora que sabem que são inimigos, vamos nos empenhar mais no próximo jogo que irá começar agora, certo? – Eu senti um frio na espinha só de ouvir aquela voz, mas ainda havia algo errado, algo que não percebi naquilo tudo. Por que Paulo não quer que eu morra? Até entendo Kamihate não poder me matar, mas ele certamente ficaria feliz se eu morresse aqui, tanto que ele manipulou para que eu ficasse em último naquele labirinto, mas Paulo quer me salvar, ele acha mesmo que sou capaz de vencer Kamihate. Pelo que Paulo disse, a pessoa escolhida pelo Kamihate tem ciência de que foi escolhida, então não pode ser ele, se fosse, ele teria me matado, ou será que ele está me usando como escudo contra essas pessoas?

— Mais um jogo? Eu não aguento mais! – Gritou Inês enquanto esbugalhava seus olhos ajoelhada rezando para Deus.

— Calma, por que esse vai ser divertido! Vamos jogar detetive, acho que vocês conhecem esse jogo, não é mesmo? Há um policial, um ladrão, e o resto, civis comuns. Dentro do bolso de uma certa pessoa aqui há uma joia, essa pessoa é o ladrão, e como sabem, o ladrão precisa matar o maior número de civis antes que seja pego pelo policial, e o policial, encontrar o ladrão antes que ele faça uma chacina, e no bolso do policial há um revólver, no dos civis, não há nada, claro, mas temos mais regras específicas aqui. Vocês vão ser ‘jogados em uma floresta de pinheiros, será o palco do nosso jogo, os civis, 7 no total, poderão ganhar imunidade, isso se eles forem e tocarem no policial, mas o policial não pode revelar que é o policial! Ou seja, o civil tem UMA só chance para escolher acreditar em quem é o policial, se ele fizer a escolha correta, ele estará salvo e o ladrão não poderá mata-lo, mas se ele fizer a escolha errada, perderá sua imunidade, e ah, vamos ao ladrão, o ladrão em si está em apuros, ele precisa relar em pelo menos 5 civis, caso contrário, ele morre! Mas lembrando que se o civil estiver sem imunidade... ele morrerá assim que for tocado pelo ladrão, e caso o ladrão não o mate, o jogo acaba, e o ladrão vai sair perdedor e o policial terá que executá-lo. Simples não! Hahahahaha, o jogo tem 1 hora de duração, acaba quando o ladrão tocar em cinco civis, quando o policial prender o ladrão, ou quando o ladrão ou policial morrerem, e ah, esqueci de falar, vocês, cada um, terá uma arma que poderá usar nesse jogo, se acreditarem que alguém é o ladrão, podem matar, se acreditarem que alguém é o policial podem matar se quiserem acabar o jogo, mas essas são as regras, e ninguém pode revelar quem é, quem fizer isso perderá automaticamente. Então, vamos começar? – A voz foi interrompida, e assim como antes, com um flash negro, fomos levados do nada para uma floresta úmida e escura cheia de pinheiros e samambaias. Ele disse que no bolso do ladrão e policial vai ter uma joia e um revólver, eu nem sei porque me surpreendi no momento em que enfiei a mão no meu bolso direito. Eu era a ladra.