Lapso Paradoxal
38 Capítulo 36 - Cruel e Necessário
Como eu imaginei, então Kamihate estava mesmo tentando acabar comigo, caso contrário, eu nunca seria a ladra. O filho da mãe quer me obrigar a desistir desse jogo e lhe entregar a chave, mas será que ele não sabia mesmo tudo que eu passei até agora? O número de pessoas que matei é bem maior do que as que estão nesse jogo, e pelo que analisei, as pessoas que estão aqui presente não são, em sua maioria, boas pessoas, o caráter de alguns é duvidoso, e tem também o Paulo, ele é um portador, por mais que ele se declare meu aliado, eu deveria acabar com ele, eu devia sair dali, caso contrário, eu não poderia cumprir meu objetivo, o meu único objetivo que restou diante de um mundo partido ao meio, até ele se descolar por completo, não resta muito tempo... eu sabia disso, sabia que precisava nadar naquele mar sangrento novamente até me afogar, percebi que não havia ninguém ao meu redor por ali, os pinheiros daquela floresta possuíam os troncos bem grossos e cinzentos, as cascas não se soltavam como na maioria dos pinheiros, eram lisas, mas claro, aquilo era um mundo artificial, criado por aquele miserável, será mesmo que ele não poderia manipular esse jogo conforme seus desejos? Não, Lúcifer não faria uma habilidade assim, até agora, nenhuma habilidade podia me atingir diretamente, então acho que tudo que Paulo disso é verdade, antes que eu pudesse analisar meu próximo movimento, senti uma pessoa se aproximando rapidamente, eram passos nada discretos, olhei pra trás mas não vi ninguém, foi então que senti minhas costas sendo tocadas, se fosse o policial, era o meu fim, mas ao me virar, dei de cara com Bruna, a garota de cabelo preto que tinha um olhar frio e parecia ser a mais inteligente daquelas pessoas.
— Como eu imaginei. – Bruna disse sem olhar diretamente em meus olhos, eu estava surpresa, como ela havia conseguido se aproximar, ouvi claramente seus passos vindo de trás, eu me virei, e ela estava em outro local, e como se ela estivesse lendo minha mente, a garota respondeu de imediato. – Se você se pergunta como, olhe mais pra baixo na direção daquele pinheiro médio. – Fitei pro local indicado pela menina e vi uma pequena lebre correndo como se estivesse sendo perseguida por um predador. – Sim, há algumas lebres aqui, vi duas já, pensei que elas poderiam servir como nossas armas, aliás, o Kamihate disse que havia uma arma pra cada um, a minha é uma tesoura, não que seja algo muito útil mais, enfim, você é o ladrão não é Naiara? – A cada segundo me surpreendia mais com aquela garota.
— Espera... – Eu tinha medo de revelar que era realmente a ladra, mas vi então que cada um de nós tinha uma pulseira na mão esquerda, a de Bruna estava acessa, e nela a frase: Sem Imunidade estava aparecendo em letras brilhantes na tonalidade azul. – Então tem até isso, o maldito não nos disse dessas pulseiras, mas seria muito desvantajoso pra todos se eles tocassem em alguém e não soubessem quem é, agora você não tem mais o que fazer, não tem porque não saber quem eu sou, você pensou que eu era a policial? – Bruna se escondeu atrás de um pinheiro, ela sabia que podíamos estar sendo observado, nossa conversa também podia ser perigosa, além dela, eu não podia revelar pra ninguém que era a ladra, então eu teria que ficar quieta.
— Eu na verdade pensei que você fosse a ladra ou a policial, afinal, se tudo que você disse é verdade, o Kamihate então faria com que você se fodesse um pouco aqui, assim como no jogo anterior, e eu estava certa, eu joguei com a probabilidade de 50 à 50, mas não acho que me dei tão mal, agora ao menos sei quem é a ladra e estarei segura, afinal, não vai me matar não é? — O que Bruna estava pensando? Ela sorriu enquanto disse isso, e dessa vez, olhou para mim.
— Por que acha que não vou te matar? Eu preciso matar cinco pessoas pra ganhar, não ouviu?
— Ou então você só precisa matar o policial, ou algum civil matar o policial, essa é a maneira mais fácil do jogo acabar, Naiara. – Bruna me puxou para o seu lado percebendo que havia alguém por perto, mas ao olhar para o canto direito, era mais uma lebre. Não conseguia enxergar muito bem o céu, era tudo branco como a sala, afinal, ainda devíamos estar dentro dela, mas sentia um enorme frio no meio daqueles pinheiros, e no final, Bruna tinha razão, olhei para ela percebendo onde ela queria chegar.
— Acha então que matarei um, para não matar cinco? É verdade que eu quero evitar mortes, mas por outro lado, o jogo acabaria mais rápido se só sobrassem quatro pessoas, sabe, eu não tenho muito tempo. – Me lembrei da ‘arma’ enquanto tentava explicar meu ponto para Bruna, Kamihate disse que cada um teria uma, mas eu não tenho nenhuma, isso era mais uma desvantagem pra mim, ou não, afinal, eu poderia matar o civil que eu tocasse, eu quase havia tocado em Bruna, mas me afastei dela, e ela também foi bem displicente ao me puxar para o seu lado. – E por que me puxou pro seu lado sabendo que sou a ladra? Sabia bem que poderia te matar em um piscar de olhos.
— É porque eu confio em você, sei que não é uma pessoa ruim. Você disse que pode acabar com esse jogo se acharmos quem é o traidor, quem fez tudo isso, e acredito em você, sei que vai dar um jeito nisso tudo, portanto, vamos evitar matar pessoas, eu pareço forte mas eu estou com medo, estou tremendo e com ânsia, as coisas que vi não saem da minha mente, aquele cara sendo mutilado, eu estou com medo do Paulo, tenho medo dele tomar meu corpo... – Bruna não sabia que Paulo não tinha mais como usar o seu poder hoje, mas isso eu não podia revelar também, a garota parecia mesmo assustada e sendo sincera, e no final, eu também não queria mais matar ninguém, mas nesse jogo era necessário pelo menos uma morte, a minha ou a do policial, então... eu tinha que matar alguém, de todo jeito, sabia do meu karma.
— E como acha que encontrarei quem é o policial, bom agora só tenho mais 7 pessoas pra desconfiar e... – Foi então que algo surgiu em minha mente, mas antes de colocar minha ideia em ação, precisaria me certificar de que não havia ninguém ao redor. – Você consegue escalar até aquele primeiro tronco? Apontei para um tronco pequeno que estava em cima de nossas cabeças naquele pinheiro mediano.
— Nunca escalei nem um pé de jaboticaba, mas por quê? – Eu realmente estava pedindo demais, foi então que me lembrei, coloquei a mão em meu bolso traseiro e lá havia, ainda, o bloco de notas que levava comigo, lá eu havia anotado as habilidades dos portadores, eu não precisava falar com Bruna, bastava escrever.
“Vamos enganar todos. Primeiro vamos correr desesperadas, fingindo que o ladrão está nos perseguindo, quando encontrarmos alguma pessoa, ela verá sua pulseira, ela vai saber que o ladrão realmente a tocou, mas como eu estarei junto de você, não irá desconfiar que fui eu, posso dizer que eu fugi antes dele me tocar, vamos usar a desculpa que o ladrão estava usando um capuz, por isso não conseguimos indentificá-lo, e quando a pessoa der alguma brecha, você a faz relar em mim, até encontrarmos o policial.” – Bruna ia lendo tudo, quando repentinamente ouvimos passos logo à frente ao norte, e não era uma lebre, empurrei Bruna e disse baixinho:
— Vamos! – Saímos as duas correndo como se estivéssemos fugindo de alguma coisa, eu guardei a tesoura da garota em meu bolso, ao andar alguns metros, vimos a imagem de Letícia, ela estava sentada encolhida entre dois pinheiros bem próximos, ela parecia estar chorando, quando ela percebeu nossa presença, se levantou meio desequilibrada, e consigo, ela carregava um machado que mal aguentava o peso.
— Parem! Não vou participar desse jogo, eu não sou como todos! Eu sou superior, vocês são todos pecadores, eu sou.... eu sou pura, não posso morrer aqui! – Letícia chorava sem se segurar, ela estava mesmo com medo da morte, mas nesse jogo, era necessário fazer sacrifícios. Eu havia chegado tão longe pra nada? Não era hora de amolecer, eu não queria ver as pessoas morrendo mesmo, mas havia mesmo jeito disso acontecer?
— Calma, espera, somos civis! Fomos pegas pelo ladrão, a Naiara me salvou, era um dos garotos, ele estava de capuz, eu relei nele pensando que ele era o policial, mas ele me enganou, graças a Deus ele não relou em mim, eu e ela conseguimos fugir a tempo, não sei quem era, mas era lento... queremos apenas ajuda, estamos com medo também. – Letícia olhava apenas para mim enquanto Bruna dava um show de interpretação, realmente essa garota tinha talento.
— Você confia nela!? – Letícia berrou e pela primeira vez olhou para Bruna e em seguida voltou o olhar frio para mim. Ela segurava sua machadinha trêmula mas com sede de sangue.
— Ela me salvou guria! Se não fosse ela eu teria morrido, confia em mim, solta essa droga de machado isso sim tá dando medo. – Bruna segurou a mão de Letícia tentando acalmá-la. – Viu, eu estou aqui, estamos com você, não a deixaremos morrer. – Letícia soltou o machado com sua outra mão, Bruna a abraçou fortemente, e nesse momento, ela segurou o braço de Letícia e a jogou em minha direção, fazendo-a me tocar, no mesmo instante a pulseira de Letícia ficou azul com a mesma frase da de Bruna, ambas perderam sua chance de imunidade.
— O-o que? O que é isso!? – Letícia empurrou Bruna se afastando e olhando para nós duas após segurar novamente seu machado, mas dessa vez, apontando para nós.
— Isso foi necessário, eu sou a ladra, Letícia, mas não quero matar nenhum civil, eu quero apenas o policial, com isso todos poderão viver, não acha? Sei que alguém vai ter que morrer mas é inevitável, você prefere que eu mate cinco, ou apenas um? Por isso preciso de sua ajuda e a da Bruna. – Letícia parecia não querer se render, ela era louca, eu via em seus olhos, uma pessoa egoísta que só pensava em si, passou a vida toda atrás de outras pessoas dependendo de seus esforços, ela era o tipo de ser humano que eu mais desprezava, se achava a superior diante da sociedade com seus bens e cuidados dos seus pais, mas em uma selva, em um jogo de vida ou morte, ela se mostrava patética e pronta para fazer o que for pra sobreviver. Infelizmente, essa eu não podia deixar passar. – Vamos, eu estou desarmada! Eu não vou tocar em vocês, se fosse assim já teria tocado em Bruna, quero mesmo ajuda pra achar o policial. – Tentei convencê-la mais uma vez, mas Letícia parecia não ceder.
— Vai se foder sua louca! A culpa é toda sua por estarmos aqui, somente sua, você que deveria morrer, se matarmos o ladrão o jogo acaba, não é? Não temos que matar o policial, temos que matar você, era isso desde o começo! – Letícia parecia fora de si completamente, foi então que me ajoelhei na frente dela abrindo meus dois braços.
— Então me mate. Eu me rendo. Desculpe Bruna, eu acho que ela tem razão, eu meio que sou culpada de vocês estarem aqui, sou culpada disso tudo, então é melhor dar um fim na minha vida. Tudo que contei pra vocês é verdade, então, se responsabilizem depois ok? – Letícia ficou me olhando enquanto ainda chorava, ela segurava o machado mas não sabia o que fazer com o mesmo, no instante em que ela desviou seu olhar para Bruna, eu tirei a tesoura que Bruna havia me dado do meu bolso e com um único golpe, cortei a garganta de Letícia e me joguei em cima dela, caindo com a menina no chão, peguei o machado com a outra mão e o joguei para frente enquanto que com a outra tapava a boca da menina esperando ela morrer lentamente, parece que eu dei azar em acertar uma veia pois o sangue jorrava em meu rosto, Bruna caiu assustada atrás de mim, Letícia me olhava com repulso, devia estar vendo todas as merdas que fez na vida, eu também me lembraria de tudo antes de morrer, eu estava com a ânsia comum que sempre tive desde o início desse jogo, mas não podia perder aqui, Letícia era uma ameaça, e assim que a vi arregalar os olhos pela última vez, respirei aliviada, guardei a tesoura novamente em meu bolso e retirei a pulseira de Letícia que ainda estava com a mensagem azul. Ainda carregava comigo aquelas fitas que usei na batalha anterior, eu escondi com ela a minha pulseira original, e na outra mão, coloquei a que estava com Letícia. Bruna finalmente conseguiu se aproximar e falar alguma coisa.
— Você então pretende matar todos nós? – Era assim que ela me via não era? Eu me tornei um monstro e não há mais antidoto, eu sabia.
— Eu fiz isso porque ela não tinha mais jeito, Bruna, você mesmo viu, pode me achar uma assassina agora, e sabe, eu sou mesmo, mas meu objetivo ainda é o policial, por isso peguei a pulseira dela, isso vai ser fácil pra convencermos os outros. – Bruna parecia não confiar em mim, mas ainda assim, ela aceitou minha explicação, ela estava segurando para não chorar, foi quando ouvi o barulho de um disparo vindo de cima, Bruna havia tomado um tiro em seu quadril, a bala atravessou e quase pegou em meu joelho, imediatamente, peguei o machado de Letícia e me escondi atrás de um pinheiro. Alguém estava nos observando esse tempo todo.
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