Lapso Paradoxal
35 Capítulo 33 - Jogo da Mentira
— Acho que já dei tempo demais para vocês pensarem em tudo e se adaptarem a esse, bem, clima de disputa. Espero que estejam preparados pois muito sangue promete rolar aqui, mas essa primeira rodada eu prometo pegar leve, então vamos ao que interessa, vamos jogar o Jogo da Mentira — Aquela voz irritante voltou em menos de vinte minutos a nos aterrorizar, naquele ‘pausa’, todos haviam conversado entre si, alguns procuraram uma saída, outros tentaram descobrir quem era a pessoa que havia os colocado naquele lugar, alguns até desconfiaram de mim, mas eu consegui driblar as suspeitas, sempre fui boa em fingir, mas o meu problema maior estava em Paulo, o rapaz que dizia ser um portador. O filho da mãe disse que não pode revelar sua habilidade, mas que irá trabalhar comigo para vencermos esse jogo, ele se diz enganado pelo portador dessa ‘sala de jogos’ e agora quer se vingar, e eu poderia confiar em suas palavras? Primeiro que ele foi precipitadamente falar comigo, isso o coloca sob suspeita, e como no mundo eu poderia confiar em um portador? Eles queriam a chave, eles queriam me matar, me aliar a um deles é a última coisa que faria no mundo, por mais que Paulo tenha mostrado alguns traços confiáveis, ele tem a fala mansa e um aspecto gentil, até diria que é uma pessoa idiota que não consegue fazer mal a ninguém, mas assim como eu consigo fingir bem, ele também pode conseguir.
— Então, tudo ainda está em pé? – Ele se aproximou de mim sorrindo de canto e falando baixo, algumas pessoas já estavam desconfiadas que eu e ele faríamos uma equipe por conversamos separados dos outros.
— Você não vê que está colocando as pessoas contra a gente agindo assim? Seja mais esperto. E eu nunca prometi uma aliança com você.
— Se acha confiante demais pra ganhar esse jogo sozinha? – Ele perguntou dando de ombros para o que eu havia dito.
— Eu me acho e eu vou ganhar, não vou perder pra vermes como esses, eu não tenho motivos pra vencer, mas tenho motivos pra acabar com cada um nessa sala. – O ‘narrador’, termo em que decidi chama-lo, começou a explicar as regras dessa primeira rodada enquanto todos ouviam com um ar de apreensão.
“O jogo da mentira é simples: Duas pessoas serão selecionadas, ambas vão ter que contar 3 mentiras, e fazer todos pensarem que é uma verdade, assim como contarem 3 verdades, mas fazer com que todos pensem que foi uma mentira. Bom, complicado né? Mas deixa eu explicar de uma maneira mais simples, o candidato A terá 6 chances, dentre elas, ele precisa contar 3 mentiras e fazer com que os outros pensem que é verdade, e 3 verdades para que pensem que é mentira, por exemplo, pegarei 3 pessoas para serem os ‘jurados’, Marica, Naiara e Yasmin (só um exemplo), Marica acredita em 2 das 3 mentiras do candidato A, Naiara acredita em 1 das 3 mentiras e Yasmin em nenhuma, por outro lado, Marica não acredita em uma verdade do candidato A, Naiara não acredita em 3 e Yasmin, em 1 também, a pontuação do candidato A será a de 8 para 18, já que há 6 afirmações do candidato para 3 pessoas, quem tiver a pontuação maior, sairá vitorioso! Então, vamos logo para o nosso sorteio, não vou ser bonzinho ao ponto de deixar vocês fazerem perguntas, não tenho culpa se alguém for burro ao ponto de não entender. – Ao explicar isso, uma tela enorme surgiu na nossa frente, nela havia uma roleta com os nomes de todas as pessoas naquela sala, ao começar a rodar, via algumas pessoas desesperadas.
— Pare com essa merda! Não temos que jogar porra nenhuma, não é mesmo? – Varderlei, o homem gordo, começou a olhar para as outras pessoas.
— Combinamos que não íamos jogar mesmo isso! – Disse Inês, a garota com aspecto de favelada.
— Mas... ele disse que se não jogarmos, ambos os jogadores escolhidos vão morrer! – Yasmin, após secar suas lágrimas, falou em um tom de voz alto com seu rosto corado.
— N-não! – Aquele grito repentino foi de Marica, a garota havia sido selecionada na roleta, juntamente com Keno, o rapaz negro e quieto.
— Isso é alguma pegadinha, sério, não temos porque temer, é só jogarmos isso, vai acontecer alguma trollagem e seremos liberados, os câmeras logo vão aparecer. – Keno começou a sorrir ao ver seu nome selecionado, mas ninguém ali parecia mais acreditar nisso.
— Andem logo, vocês vão jogar isso. – Letícia, a garota depressiva e com cara de merda falou friamente, logo depois, a voz irritante voltou a se pronunciar.
— Como ela disse, comecem logo! Marica, você será a primeira, não há uma ordem para contar suas mentiras e verdades, você quem decide, mas antes, você tem que pegar aquela lousa ali no canto e escrever quais serão as mentiras e as verdades, você também, Keno. – Duas lousas pequenas e brancas haviam aparecido atrás de todos naquele lugar, os dois jogadores, mesmo que sem vontade, as pegaram.
— Ei, vocês vão mesmo jogar isso? É sério? – O homem bombado se meteu na frente dos dois.
— Querem testar para verem o que acontece, caso não joguem, hm? – A voz irritante parecia bem séria agora, eu olhei para Paulo, não sabia o que pensar, mas acreditava mesmo que muitas pessoas morreriam ali, e era tudo que eu queria.
— Vamos jogar, eu não quero morrer! – Marica começou a chorar e soluçar ao mesmo tempo enquanto caminhava com a lousa em suas mãos.
— E ah, se deixarem algum dos jurados verem o que escreveram aí, é morte na hora. Aliás, os jurados serão Paulo, Letícia e Naiara! – Eu era uma das juradas então, eu devia trollar todo mundo ali? Eu saberia quando estiverem mentindo, estão desesperados, eu devo escolher quem é o mais apto a sobreviver, Keno era um rapaz falso e egoísta, isso já percebi desde que o vi, e Marica é um lixo de humana, garota fraca e que se aproveita dos outros, sempre quer aparecer e ser a melhor, essa é uma decisão complicada, queria ver os dois se fodendo, mas já que não posso isso, primeiro vai essa escrota. Alguns minutos se passaram e finalmente os dois haviam escrito suas afirmações nas pequenas lousas.
— Cara, tem que ter um jeito de sairmos daqui, isso é um pesadelo! – O rapaz gordo continuava a reclamar e falar sozinho, alguns ali já haviam aceitado esse jogo, mas ninguém parecia tranquilo.
— Vejo que já terminaram, Marica, como eu disse, você começará! – A mulher engoliu seco, segurou firme sua lousa e olhou para todos ali na sala que estavam reunidos sentados naquele chão branco, eu quase estava ficando cega ao ter que olhar para a sala toda e só ver branco.
— B-bom, a primeira afirmação... Eu sou Corinthiana. – O quê? O que diabos ela está falando? Essa guria é uma cretina sem cérebro mesmo, ela devia pensar em perguntas óbvias para todos que quiserem saber que é uma mentira mesmo, mas isso é jogar na sorte.
— Ei, espera aí. Esse jogo não é questão de sorte apenas? Eu posso responder chutando, assim como Naiara e a Letícia, não tem nada a ver com mentira ou verdade, isso é probabilidade e sorte, não é? – Paulo sorria esperando a resposta do narrador.
— Hahahahha, é claro né! Mas também há uma chance de se usar a cabeça pra criar mentiras que parecem verdades.
— Bom... eu serei a primeira – Letícia se levantou e olhou diretamente para Marica. – Você não parece ser alguém que conhece ou gosta de futebol, eu diria que não torce pra nenhum time, então, isso é certamente uma mentira. Ei voz irritante, por exemplo, se ela colocou ‘eu sou corinthiana’ e na frente escreveu ser uma verdade, então, se eu falei que é mentira, ela pontua, não é?
— Isso mesmo, esse é o objetivo do jogo, não é muito questão de sorte não, vai de cada pessoa ao elaborar suas perguntas, e não se preocupem, prometo que o próximo jogo será menos complicado haha. – Aquela voz ficou muda repentinamente aguardando que nós três também escrevêssemos nossa análise sobre as frases de Marica, possuíamos uma lousa cada também, mas ninguém podia ver a lousa do outro, no final, a rodada havia terminado, Marica havia falado coisas óbvias de serem mentiras, mas se ela fosse inteligente, pelo menos um pouco, em suas respostas, trocaria as mentiras pelas verdades, para que isso nos confundisse, mas duvido que ela havia intelecto para isso, mas Keno parecia um rapaz perspicaz, em algumas perguntas sinto que me senti confusa, como ‘Se eu fosse gay, eu seria preconceituoso com héteros?’, isso podia ser tanto uma mentira como verdade, mas se em sua lousa, ele colocasse ser verdade, para ele perder, eu também teria que dizer que isso é uma verdade, mas analisando o perfil do rapaz, ele tentou fazer com que todos nós pensássemos que ele não era propenso a afirmações verdadeiras. Ele só fez afirmações fantasiosas demais como: ‘Se eu escolhesse me matar seria afogado’, se pressupõe que isso seja uma afirmação falsa, por ser um tanto absurda, ele quer que pensemos que é uma afirmação falsa, se soubermos que é falsa, iremos colocar falsa, mas ele não espera que alguém esteja ali somente para fodê-lo, mas, bem, eu estava. Consegui prever os movimentos de ambos, Marica era cautelosa e ela colocava verdades e mentiras de maneira aleatória, brincava com a sorte, mas não acredito que essa seja a melhor estratégia, afinal, percebi que Paulo e Letícia não sabiam o que responder, Keno induziu as pessoas a uma resposta, mas ele podia enganá-las com isso, mas havia algo muito errado. Keno sempre olhava para mim, todo tempo, como se quisesse me dizer o que era mentira e o que era verdade, percebi que ele piscava com o olho direito quando era uma mentira, e com o olho direito, quando verdade. Isso não é trapaça? A voz não havia falado nada a respeito, e então, os resultados foram anunciados.
— Ora ora, esse jogo foi mais rápido do que imaginei! Parabéns, é assim mesmo que gosto, rapidez e eficiência, agora, vamos ver o que rolou. – Aquela tela enorme se abriu na frente de todos novamente, e nela, as seis afirmações de cada um dos dois e se eram mentiras ou verdades:
Marica:
— Eu sou corinthiana = Mentira
— Nasci em Cordeirópolis = Verdade
— Nunca fui em um swing = Mentira
— Já roubei uma amiga na escola = Verdade
— Tenho medo de engordar = Mentira
— Sou uma telepata = Verdade
Keno:
— Se eu fosse gay, eu seria preconceituoso com héteros = Verdade
— Se eu fosse me matar, seria afogado = Mentira
— Perdi meu bv com 5 anos = Verdade
— Sempre invejei meu irmão = Mentira
— Nunca bati em ninguém = Mentira
— Minha comida favorita é morango = Verdade
Assim como eu havia imagino, Keno havia mesmo passado as respostas para mim. No começo eu não acreditei nem confiei nisso, mas eu quis testá-lo e resolvi colocar todas as perguntas como ele sugeriu. Respondi mentira na primeira, verdade, mentira, verdade, verdade e mentira, com isso, ele somou todos os meus 6 pontos, e de outro lado, eu havia errado todas de Marica. No final, Keno tinha 14 de 18 e Marica, 8 de 18.
— Sinto muito Marica, você será a primeira a deixar nosso ‘programa’. Oh Deus, como eu sempre quis dizer isso! – Naquele momento, todos se entreolharam apavorados.
— C-calma aí, o que acontece agora? – Perguntou Keno enquanto eu percebi claramente ele tremendo.
— Isso só pode estar errado! Eles quiseram me ferrar, por isso erraram minhas perguntas, esses vermes! – Marica se enalteceu e começou a gritar histericamente na frente de todos.
— Não, não está errado! Você perdeu, e eu não aceito mal perdedores. Keno, agora é sua voz. – A voz agora mudou o seu tom, era sarcástica e cruel.
— Minha vez? – Acho que Keno já sabia o que deveria fazer. Ele tem que matá-la todos aqui tem que matar pra sobreviver, não podia ter algo melhor! Isso sim era a melhor forma de entretenimento.
— Por favor não me mate! Ele está nos enganando, não vai acontecer nada, eu juro! – Marica se ajoelhou e começou a chorar enquanto de longe fitava Keno que parecia trêmulo.
— Calma gente, ela tem razão, quem garante que vai acontecer algo? – Disse Ines, a garota humilde e simpática.
— E quem garante que se Keno não fizer isso, ambos morrerão? Pensem com cuidado, estamos em um lugar fictício, isso é sobrenatural e todos sabem, se não estamos mesmo mortos, então essa voz aí vai fazer tudo que falou, por que duvidar de algo que está na nossa frente? – Letícia se meteu na frente de Keno, encarando o menino enquanto falava.
— E-eu não consigo, querem que eu mate ela? – Keno se afastou de Letícia e se encostou em uma parede, por onde se escorreu e se sentou no cão com os olhos bem abertos, sem se quer piscar. – Eu não posso! – O rapaz começou a chorar, um comportamento bem estranho vindo dele, quando o vi pela primeira vez na sala, ele se mostrou alguém bem mesquinho e egoísta, ok que uma situação envolvendo assassinato mudaria tudo, mas era matar ou morrer, qualquer um iria tentar matar algum ser desconhecido para sobreviver, mas por que ele exita? Ou será que... sou eu que estou vendo tudo de maneira distorcida? Foi então que algo surpreendente aconteceu.
— Não precisamos nos matar, não vai acontecer nada! – Marica se aproximou de Keno e o abraçou, ela chorava, mas de uma maneira forçada, estava tentando seduzir o garoto com medo de ser morta, mas repentinamente, Keno se levanta, vira a garota de costas para si e começa a dar uma chave de cadeado em seu pescoço, o rapaz se joga no chão com a garota e começa a sufoca-la, ele pressionava seu braço musculoso contra o pescoço da garota, algumas das pessoas ali tentaram impedir o assassinato, mas naquele momento, as pessoas que foram em direção aos dois se contorceram de dor e caíram no chão.
— Eu disse, não há como parar esse jogo. – Aquela voz voltou a falar, e parecia feliz, ainda mais ao perceber que Marica havia morrido sufocada, alguns olharam com espanto para Keno, ele parecia em transe, abriu bem seus olhos e se afastou do corpo esticado de Marica que morrera com a boca aberta, os braços de Keno estavam arranhados por consequência da luta que a garota teve para tentar fugir, o rapaz ficou encarando a menina esparramada no chão, e em seguida, olhou para todos os outros.
— O que você fez!? – Inês gritou enquanto caía ajoelhada no chão. Keno parecia não entender, ele olhou para suas mãos, seus olhos arregalados, e naquele momento, eu percebi algo de estranho.
— Eu fiz isso? Eu matei ela? Como assim!? Eu não me lembro de nada, não me lembro de nada disso! – Keno gritava desesperado, ele se jogou no chão, parecia não saber o que fez, e o que eu havia percebido era exatamente isso: Keno não parecia estar fingindo.
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