Lapso Paradoxal

28 Capítulo 27 - Movimento Antecipado


‘Parece que meu plano havia dado certo, depois de ser driblada por aquela maldita diversas vezes, agora ela estava no covil, presa em meu quarto, assim como planejei. Desde quando a enfermeira apareceu junto com Heitor, sabia que havia algo de errado. Lúcia não era idiota, ela não iria pedir para Marco levar junto uma enfermeira para curar Heitor, aliás, não há motivos pra deixar Heitor vivo, a não ser desfazer as suspeitas da enfermeira quanto a sua identidade, ter ela parar curar Heitor era conveniente para nos fazer acreditar que ela era uma inocente, e pelos cuidados que ela teve com o garoto, logo percebi que era essa realmente sua profissão, a mulher que ficara em nossa frente, era mesmo uma profissional da saúde, e isso batia com minhas teorias anteriores, o como Lúcia havia chegado tão perto de Marco, mesmo com todos os policiais e seguranças, se infiltrar em um hospital não é tão fácil como na ficção – mesmo ela podendo controlar pessoas — , então, ela só poderia ser alguma funcionária do hospital, se não do qual Marco estava internado, de outro, tendo o ‘diploma’ em mãos ela poderia facilmente pôr os pés ali, e sabendo deste fato, pensei em leva-la até minha casa. Se aquela pessoa não fosse Lúcia, ela recusaria a ida até meu apartamento, qualquer pessoa em sã consciência, depois de tudo que aconteceu, iria querer ir para sua casa ou então até a polícia, mas não para a casa de estranhos que estão envolvidos com um jogo de assassinato, a reação dela diante das mortes foi um teatro muito bem moldado, ela era uma atriz de primeira, mas não podia me enganar, eu já havia, durante aquele tempo enfrentando os portadores, visto o rosto de desespero de inocentes, como em Poços de Calda, ou mesmo as pessoas do ônibus, eu sabia como eles lidavam com a morte e o medo, e certamente, a enfermeira não fazia jus a esses rostos apavorados, ela, pelo contrário, mantinha um olhar sempre sereno e concentrado, eu nunca deixei de prestar atenção em seu semblante desde que a vi, e com a confirmação da mesma em querer nos acompanhar até meu apartamento, pude concluir quase que 100% que ela era a maldita. A voz dela estava diferente, mas claro que ela poderia como, de fato, estava forçando para não ser reconhecida, percebi isso no carro, ela usava um tom mais fino às vezes, e em outras vezes, quase voltava para o seu tom normal. Eu sabia o que ela queria, sabia do risco de leva-la até o local onde meu pai estava, mas se eu pudesse prendê-la em minha casa, eu certamente venceria, me precavi de tomar o cuidado de que ela não fizesse nada, mas caso ela controlasse alguém em minha frente, eu a mataria na hora, é claro que isso era uma suspeita com 98% de chances de ser real, ela ainda poderia ser uma inocente, por isso não fiz nada, não até confirmar

, eu peguei a arma de Marco e Heitor estava desarmado, nenhum deles, feridos como estavam, poderiam fazer algo contra mim, eu apenas não consegui prever o choque recebido ao me defrontar, novamente, com a realidade cruel que me cercava. Minha mãe estava morta.

No confronto no barracão eu havia me esquecido disso, lutava para sobreviver, mas quando me dei conta do que realmente estava acontecendo defronte para meu apartamento, minha visão começou a ficar turva, e quando notei, estava acordando no meu sofá. Temi que poderia ser tarde e Lúcia tivesse vencido, ao ver os corpos dos policiais, meu coração pulsou violento, temendo o pior, mas ao ver que Marco e meu pai estavam vivos, me senti menos tensa, porém, logo sabendo que Heitor estava no quarto com ela, senti, por um lado, uma ponta de esperança para minha vitória, mas pelo outro, preocupação para com meu amigo, pois meu plano inicial era o de pegá-la logo que entrássemos em casa, eu iria enrolar sua boca com uma fita e entrega-la aos policiais, dizendo a verdade sobre o ‘poder’ desta, mesmo com o ceticismo da polícia, acho que o que aconteceu até então era suficiente para todos crerem que havia sim, algo que pudesse os controlar, e que aquilo, vinha daquela mulher.

— Pai, se afaste! Você também Marco, já foram pegos uma vez, droga. – Eu peguei meu pai pela camisa e o joguei para longe, ele e Marco ficaram no canto da sala, o quarto onde Lucia e Heitor estavam ficou em silêncio, eu me aproximei da porta apreensiva.

— Eu estou sendo piedosa até demais, darei 5 minutos para me trazer a chave, ou verá a cabeça do seu amiguinho aqui decapitada na cama. – As palavras de Lúcia pareciam desesperadas, aquilo me espantou, pensei que a mulher fosse mais fria do que isso.

— E como quer que eu busque a chave em cinco minutos? Ela está longe daqui, você deve saber que não a mantenho comigo.

— Não tente me enrolar! O moleque tá desmaiado aqui, posso matar ele a qualquer momento! – Eu era a única que Lúcia não podia controlar ali, portanto, só eu podia encará-la, cara a cara, sem medo.

— O que quer que eu faça? Não tenho teleporte! Escuta, desista, e você pode viver, será apenas presa e acho que terá sua boca fechada pra sempre, eu não quero mais matar ninguém, e você sabe que está em desvantagem, seu plano poderia ter sido o de se infiltrar em minha casa, mas falhou ao pensar que estaria no controle, esse é meu quarto sua puta, acha mesmo que pode sair daí? – Eu não entendia o que Lúcia queria, ela realmente foi imprudente ao se trancar em meu quarto, eu podia chamar policiais com tampões em seus ouvidos, eles entrariam e atirariam sem pensar, ter um refém não mudaria muita coisa.

— Você me faz rir, Naiara, não aprendeu com a morte da sua mãe ainda? Você é tão coração gelado assim? Matou sua família e agora vai matar seus amigos, tudo por uma chave? Tudo para um desejo? Vale mesmo a pena perder todos que ama sua egoísta de merda? – Eu comecei a ficar nervosa e a tremer enquanto tentava pensar em algo para manter Heitor seguro.

— Eu não tive culpa de nada, ele apareceu com essa chave, eu não tenho como fugir, se eu entregar ela pra você, eu não sei o que acontecerá! O que loucos, com o direito a um desejo, podem desejar?

— Você está me tirando, não é? Você vai destruir o mundo sua louca! Eu não tenho nenhum desejo, tudo que quero é salvar a humanidade, nada mais, eu não sou enfermeira por dinheiro, eu aderi a essa profissão porque queria salvar todos que podia, queria ajudar os que necessitassem, e você, o que faz pelos outros? Os mata! Eu vou salvar esse mundo mesmo que tenha que trilhar em rastros de vísceras e tripas, desde que ganhei esse poder e fiquei sabendo dos seus planos, eu decidi ir até o fim, e agora que estou aqui não tem como voltar, eu vou ter essa chave a todo custo. – Eu rezei para que Marco não tivesse ouvido o que ela falou, então esses malditos sabem do propósito da chave comigo? O quanto eles sabem? Eu comecei a ficar com um extremo peso na consciência e me influenciar pelas palavras daquela mulher, no fundo, ela tinha razão, ela era a mocinha e eu a vilã ali, mas eu não podia desistir, Vitor... estava esperando por mim.

— Eu só quero que tudo fique bem também, está mais do que provado que vocês portadores são insanos, todos vocês, duvido que você fará algo bom com seu desejo, então solte logo o Heitor que eu não farei nada.

— Querida, se toque, você é a pessoa mais hipócrita que eu conheci! – Naquele momento, senti algo estranho em meu peito, mas não pelas palavras de Lúcia, era algo inquietante, uma sensação de que, de alguma forma, eu estava errada. Lúcia estava se esforçando mesmo tanto assim para mudar sua voz, nesse momento? – Olha... tudo bem, eu me rendo, eu percebi que não tem como eu sair daqui. – Aquelas palavras me fizeram ficar atenta, Marco e meu pai se mantinham distantes, com medo de serem controlados novamente, o revólver de Marco estava preso em minha cintura junto de minha calça na parte de trás, eu estava pronta para atirar a qualquer momento, eu não sabia o que ela estava tramando, por que se render agora?

— Desistiu tão fácil assim? Você está pensando em algo? Se estiver, é melhor parar, estou ouvindo as viaturas lá embaixo, acabaram de chegar, você está encurralada Lúcia, se sair agora pode viver, eu prometo não atirar nem fazer nada, vou pedir pro Marco e meu pai saírem, assim que você sair, eu vou colocar uma fita adesiva que trouxe comigo em sua boca, entendeu? – A mulher fez silêncio durante alguns segundos, eu podia ouvir os policiais subindo pela escada, mas algo não parecia certo, por que eu estava com tanto medo? Eu retirei a fita adesiva que estava carregando comigo para todo canto do bolso da minha calça, e foi quando ouvi ela chorando e dizendo mais alguma coisa.

— Naiara... como você conseguiu me vencer? COMO? Eu posso controlar as pessoas, eu tenho a merda desse poder e você é só... uma humana. Como? Me diga... onde você colocou a chave? Eu sei que você deixou com alguém daqui, um dos portadores sabe, mas ele se recusa a nos contar, ele disse que foi com um amigo, só isso, ele está em vantagem Naiara, não sei o que ele está esperando, talvez ele queira te testar um pouco antes, pois ele poderia ter acabado com esse jogo, ou então foi um blefe... não, com certeza não foi um blefe, ele parecia saber demais, você pode ter me vencido, mas está no fio da navalha Naiara. – Eu engoli seco e minhas pernas ficaram bambas, lembrei de Vitor, da minha mãe, lembrei de tudo que tinha acontecido até agora, eu fechava meus olhos e tudo que podia ver era a cor vermelha, o único cheiro que sentia era de sangue, eu estava presa nesse lapso, até ser enterrada? Como alguém sabia da chave? Estavam me vigiando?

— Como assim? Quem te falou isso? Por favor, preciso que você me diga, se vai se render, me ajude a ganhar, prometo que darei um jeito de você não ficar presa, vou dizer que alguém estava te controlando, no caso, esse portador que você disse saber e... – Naquele instante, percebi o golpe que eu havia levado, foi direto no coração, eu fui enganada da pior forma possível. A polícia batia fortemente na porta do meu apartamento, os vizinhos já estavam todos lá fora pela gritaria que eu podia ouvir, foi quando percebi que Lúcia ficou em silêncio, os policiais, prestes a arrombarem a porta, eu entendi tudo, mesmo depois de baleada, tentei dar meus últimos suspiros.

— MARCO, PAI, tampem os ouvidos e venha pra cá! – Me aproximei da porta e como previ, ela estava aberta, assim como a janela, corri para dentro do quarto e vi o corpo da enfermeira morta esparramado na calçada ao lado do lixo, o sangue cobriu um bom perímetro do lugar, os vizinhos gritando, várias luzes de sirenes iluminando o quarteirão, os policiais batiam na porta de entrada do meu apartamento, pedi para meu pai e Marco entrarem no quarto, eles estavam com as mãos apertadas em seus ouvidos, foi quando ouvi, do sistema de som do prédio: “Todos nesse prédio, matem todos que estiverem junto com a Naiara, exceto a própria Naiara, uma garota loira, a única por aqui, ao invés disso, capturem-na.” – O sistema de som daquele prédio possuía um auto-falante por corredor, quem estava no prédio, provavelmente foi capaz de ouvir, os policiais finalmente haviam arrombado a porta, eu tranquei meu quarto e liguei meu rádio, coloquei o som no último, era um CD do The Doors, a música era “Let My Fire”.

— O que diabos foi isso!? – Marco gritou perto do meu ouvido, Heitor ainda dormia, meu pai estava trêmulo e os policiais batiam violentamente contra a porta.

— Ela nos pegou! Não era ela Marco, não era aquela vadia!

— Mas como? Ela estava agindo COMO ELA.

— Eu acho que sei como, mas isso não era hora pra isso, se ficarmos aqui, vamos morrer! – Eu estava gritando para que Marco pudesse ouvir com todo aquele som, Lúcia estava naquele prédio, e ela ainda deveria estar controlando o sistema de som, não havia saída, meu quarto ficava de frente para a rua, os policiais arrombariam a porta em segundos, foi quando peguei Heitor e o coloquei dentro do meu guarda roupa, ele parecia bem dopado, joguei algumas roupas por cima dele e subi até a janela.

— VAMOS, temos que subir aqui... na verdade, eu tenho que subir. Vocês ficam, a Lúcia disse pra matar todos que estiverem comigo, se forem comigo, vão morrer, vocês ficam aqui, quando a hipnose acabar, os policiais vão cair na real, não sei como isso acaba ou como funciona mas... – Eu comecei a chorar. – Fique bem pai, Marco, cuide dele por favor, eu não vou morrer, não tem como eu morrer. – Eu estava fraca, com medo, acuada, eram todos contra mim novamente. Não me deixei levar pelas emoções, subi até a janela, havia uma lixeira lá embaixo, ela estava bem cheia, com toda confusão, aposto que os lixeiros nem passaram por ali, era arriscado, mas eu tinha que pular, era o único jeito, as pessoas da rua não devem ter ouvido a Lúcia, eu não pensei nem duas vezes, apenas me joguei com tudo, eu sabia que podia morrer, só em filmes mesmo pra alguém cair de 6 andares em uma lixeira e sobreviver, eu caí e senti meu corpo todo se contorcer, pensei que iria agonizar até morrer, o cheiro do lixo nem me incomodava, era até gelado lá, acho que já havia perdido muito sangue, mas... eu estava viva. Como eu estava viva? Mesmo com lixo, a queda deveria ter me matado, foi quando senti algo ‘macio’ por baixo de mim, recobrei aos poucos minha ‘consciência’, remexi no lixo, e vi que havia um colchão lá.

— Só pode estar brincando... – Parecia que alguém me queria salva. Não havia como ter sorte assim, aliás, eu estava tendo muita sorte, ultimamente, mas deixei de lado essas teorias, me levantei e saí da lata de lixo, algumas pessoas me observaram espantadas, alguns ameaçaram correr atrás de mim, eu saí cambaleando, mas antes de adentrar ao beco do lado do prédio, ouvi um outro grande impacto, alguém havia caído na lata de lixo novamente, diferente de mim, essa pessoa logo saiu de lá, ela caiu no chão e se levantou lentamente, essa pessoa era Marco.

— O que diabos!? Eu disse pra ficar!

— Eu prometi que iria até o fim com você, não prometi? Então vamos logo dar o fora daqui.

— Não, espera! Por que dar o fora? Lucia está lá dentro, temos que pegá-la, é nossa última e única chance Marco!

— Mas você ouviu! Todos dentro do prédio estão sobre controle dela, eu contei, devia ter mais de 10 policiais.

— Que seja 100, você fica aqui fora, eu vou pegar a maldita.

— E como fará isso?

— Vou entrar no prédio novamente, mas pelos fundos. Peça para os policiais fecharem o prédio todo, diga que a assassina está lá dentro, Marco, vamos vencer mais essa ok? – Eu sorri para o garoto, sorri querendo chorar, mas sorri com sangue nas veias também querendo vencer e pegar a pessoa que havia matado minha mãe.