Lapso Paradoxal
29 Capítulo 28 - Salvadora
‘Quando eu recebi esse poder, eu só pude ter certeza de uma coisa: Eu salvaria esse mundo. Depois que minha irmã foi assassinada por dois assaltantes brutalmente, resolvi me tornar enfermeira, eu não consegui salvar ela, a mesma estava jogada no portão de casa toda esfaqueada como um queijo suíço, se eu ao menos soubesse algo de primeiros socorros...mas ela morreu em meus braços, senti seu sangue gelado em meu corpo, ela nem conseguiu sequer me dizer o que estava tentando, se engasgou com seu próprio sangue, olhei aqueles olhos mortos e arregalados, ela sentiu muita dor, todos sentem, esses miseráveis acabam com a vida uns dos outros sem nem piscarem, o Brasil era um país ferrado até o talo, o mundo todo na verdade, milhares de pessoas morriam como minha irmã, e milhões de pessoas como eu, sentem a necessidade por justiça, mas nada nunca acontece.
— Eu...posso mesmo usar isso para mudar o mundo? – Perguntei para aquele rapaz louro enquanto o mesmo sorria ao me entregar aquele piercing de língua dourado.
— Claro que podem, seu poder é um dos mais fortes, se souber usá-lo, pode mudar tudo. – Eu não sabia se conseguia ou se queria mudar tudo, mas queria fazer o que estivesse ao meu alcance. Quando soube daquela garota que estava com a chave, procurei respostas por todos os cantos. O porquê daquele jogo, o motivo dos outros portadores, o motivo de Naiara, e quando descobri através daquele site que fui ‘convidada’ para participar que Naiara guardava a chave para um vírus que dizimaria metade humanidade, eu tive mais certeza do que nunca do que eu deveria fazer. Essa era a minha chance de fazer a diferença, de salvar o mundo, salvar pessoas inocentes...e eu faria isso. Claro que não seria fácil, depois de descobrir que Naiara havia matado dois portadores, eu fiquei apreensiva e comecei a imaginar que ela não era alguém normal, por mais que Lúcifer tinha avisado antes, ‘Naiara não é uma adversária fraca, só porque ela não tem nenhum poder especial como vocês, não a subestimem’, e eu tinha que fazer isso sozinha, os outros portadores na certa só queriam a chave pra desejos pessoais, pra desejos egoístas e fúteis, mas eu não, eu apenas queria o fim de todas as pessoas desgraçadas que habitam esse planeta, esses assassinos, ladrões, traficantes, estupradores, molestadores, todos esses seres vivos repugnantes que fazem vítimas diárias, pessoas mesquinhas e arrogantes, bêbados, vagabundos, parasitas, pessoas sem cura, todos que não fazem diferença nesse mundo merecem um fim, eu preciso limpar o tanto quanto puder, não sei o que posso fazer com esse poder, não sabia, até ver com meus próprios olhos.
Antes de lutar com aquela puta, eu precisava fazer alguns testes, não podia me jogar de cara e ser pega, eu sempre fui uma pessoa precavida, morava com minha avó, desde pequena meus pais nunca se importaram comigo e minha irmã, nos ‘abandonaram’, deixando ambas com minha vó sem nem pensarem duas vezes, eu não vejo minha mãe a anos, meu pai se mudou para o Paraná pelo que sei, depois de ter se separado dela, eu nunca precisei e nunca precisarei desses vermes sem alma, minha teoria é que pessoas assim nasceram por engano, Deus não quer pessoas ruins, então não tem como ele ter feito alguém assim pisar no seu precioso mundo, eu queria ajudar Deus, sendo uma de suas seguidoras mais fiéis, eu vou na igreja desde os 11 anos, toda semana, nunca abandonei meu Senhor, ele me deu essa força de vontade, e agora vou mostrar pra ele do que sua serva é capaz, aquele homem era certamente um anjo, Lúcifer, o anjo caído, ele me deu esse poder, me deu a vontade divina para exterminar as baratas asquerosas que rondam pelos esgotos desse mundo, essa cidade fedia, era nojenta, só via pessoas ruins por todos os cantos, minha vizinha, minha tia, o carteiro, o vendedor de chips na rua, todos, todos, todos, todos, todos eles fediam à merda, eu tinha que dar a descarga antes que tudo ficasse infectado, não queria mais vítimas, não queria mais sangue. Testei o poder que fora me dado em minha avó, pedi o dia todo para ela me obedecer com ordens pequenas como pegar água pra mim, coçar minhas costas, ir até o mercado, depois disso fui até minha tia, pedi para ela se masturbar em minha frente, pedi para ela bater a cabeça na parede, comecei a testar várias pessoas e pude notar algumas peculiaridades. Esse poder podia atingir várias pessoas de uma vez, mas eu podia dar apenas uma ordem por vez para cada, eu testei em uma pessoa: “Você vai até todos os mercados da cidade e comprará uma lata de óleo da mesma marca em cada um, caso não houver tal marca, você comprará outra, depois disso vai jogá-las todas em um rio, se não houver um rio em menos de 10 quilômetros de onde estiver, vai trazer até mim, e em seguida vai se matar.” Eu podia dar apenas uma ordem por pessoas, mas podia ‘prolongar’ essa ordem, e também percebi que as ordens duravam apenas 7 horas cada uma, e que eu podia controlar pessoas que ouvissem minha voz, não importasse a distância nem se fosse por telefone ou computador, até mesmo por gravação eu podia controlar, contanto que fosse minha voz eu poderia controlar uma nação. Pensei em fazer algum anúncio pelo rádio ou televisão para pegarem a Naiara, mas eu correria risco, alguém poderia me pegar nisso também, ou o efeito poderia acabar e a pessoa poderia ir atrás de mim, esse era um outro problema, se a pessoa perdesse o controle ela iria se lembrar de mim ou minha voz, menos do que ela havia feito, ou então lembraria vagamente, como se estivesse dormindo. Testei pessoas de bairros pobres, todas faveladas e futuros bandidos, fiz todos se baterem, matei vários, mas claro, tudo discretamente, durante 1 mês matei pelo menos 30 deles, um por dia, naquele buraco mais que isso morriam por dia vítimas de gangues e vingança, todos vermes jogados em seus lugares, usei meus cobaias para descobrir mais sobre esse poder, eu estava me preparando para a batalha final, a batalha em que Deus iria me coroar, eu poderia morrer no meio dessa luta divina, mas morreria depois de cumprir minha missão e salvar o mundo das mãos de Satanás, sim, Naiara era a encarnação de Satã, isso soube desde que ouvi os motivos dela, continuar tudo pra salvar seu namorado Vitor, ela mataria metade da população por isso, uma fachada boa para Satã, talvez ela nem soubesse ainda que é Satã, mas seu coração transborda maldade, o dela e dos seguidores dela, todos demônios controlados, eu precisava de mais poder, de mais estratégia, tinha que pegá-la e tortura-la até ela se entregar, então, nada melhor do que ir atrás da pessoa que ela ama, do único motivo para ela acabar com o mundo.
Quando soube do hospital que ele estava sendo mantido, eu já tinha noção do que fazer dali adiante. Consegui controlar umas pessoas e consegui o celular de Naiara, descobri com a mãe dela para onde ela foi, eu sabia que não tinha como outros portadores ganharem dela, ela havia derrotado dois até então, eu sabia que ela era formidável, mas eu tinha minha carta na manga, se eu tivesse Vitor em mãos ela me obedeceria, custe o que custasse, eu não queria apenas a chave, queria vê-la sofrer, queria me vingar de todas as pessoas que ela matou, todos os inocentes! Ok que eu havia matado alguns inocentes também, mas todos eram podres, eu sabia que eram, não cometi um pecado tão grave, eu precisava disso pra salvar milhões, matar alguns inúteis. Desde pequena sempre fui sozinha, eu tive que me segurar até agora para não criticar ninguém, para manter o padrão que a sociedade desejava, nunca pude expressar minha verdadeira opinião, mas foda-se essa sociedade que apoia os bandidos, que defende marginais, o Brasil está cheio de impunidade, mas agora eu tenho o poder pra acabar com isso, eu sou...a salvadora.
Tudo estava planejado, eu atrairia Naiara até o hospital, ela não poderia fazer nada, ou ela me dava a chave, ou Vitor morreria. Isso seria um plano ingênuo de minha parte, visto que Naiara poderia reviver Vitor, e no caso, é o que ela faria, se vencesse essa guerra, mas o SE acho que tem um peso maior para Naiara, pois ela também pode não vencer, mas Vitor morrerá em breve, então ela precisa vencer, ela não iria me entregar a chave, o futuro de Vitor mesmo que eu o mate ou não, será o mesmo, ela deve estar emocionalmente preparada para a morte do mesmo, então é claro que isso não iria funcionar. Primeiro eu me certifiquei de controlar alguns policiais da cidade, não foi fácil, eu tive que falar com um por vez, mas eu não podia dar uma ordem simples. Antes de fazer isso, testei com uma pessoa da favela de Americana, pedi para ela apenas matar uma pessoa se no caso, determinada pessoa a ofendesse. Esse cobaia ficou oito horas sem ser ofendido, mas quando sua irmã o chamou de galinha, ele a matou imediatamente, e antes disso, ele nem se lembrava de eu ter dado essa ordem, meu poder era realmente magnífico, eu poderia ‘programar’ pessoas, e foi o que fiz com os policiais, usei todos, dei ordens para deixarem tirar Vitor do hospital, eu permaneceria por lá, apenas observando, sem que ninguém notasse minha presença, Naiara iria até esse hospital, e lá, eu iria captura-la com a ordem que dei para Marcos no primeiro dia que falei com ela por celular, pedi rapidamente para que Marco, quando entrasse no hospital e só duas pessoas no máximo estivessem por perto, que ele capturasse Naiara e a levasse até o barracão que eu arranjei, junto de outros trabalhadores que consegui manipular, eles assoviaram para mim, eram podres também, não me lamentaria pela morte dos mesmos, a garota que usei para se passar por mim era uma das enfermeiras do hospital também, a ordem que dei a ela foi a mais complicada possível, pois eu teria que dar diretamente essa ordem a todo momento, eu pedi para ela usar um aparelho em seu ouvido, nesse aparelho, eu iria dar várias ordens para ela conforme o que fosse acontecendo, desde que Marco a levou até o barracão até a ida até a casa de Naiara, ela, secretamente, me informou tudo sussurrando baixinho, às vezes eu nem precisava ouvir nada dela, ouvia de Naiara mesmo, visto que uma escuta estava presa na piranha do cabelo daquela enfermeira vadia, o plano era que depois que Marco conseguisse a levar com Naiara e Heitor até o barracão, deixaria Naiara abalada psicologicamente após matar aqueles trabalhadores, claro que não dei a ordem para eles matarem ela, mas deixei que Heitor vivesse para que Naiara o protegesse, tanto ele como a enfermeira, Naiara foi ingênua em pensar que EU ordenaria Marco a trazer outras pessoas, se meu objetivo real era somente ela. Ela não é tão boa como Lúcifer me disse, é apenas uma garota assustada que mata pelo seu próprio bem, egoísta como a maioria dessa população alienada e lunática, mas meu plano seguiu conforme imaginei, Naiara, Marco e Heitor venceram aqueles siderúrgicos de merda, e depois disso, foram até a casa de Naiara, estava tudo saindo conforme pensei, eu tinha dado sorte até então, por Naiara ser burra e não ter notado nada, Deus estava do meu lado, é claro que eu teria sorte! Não tem como Lúcifer vencer, Satã iria ciar diante das minhas garras, eu tenho o poder da justiça divina agora, eu me aloquei na portaria daquele prédio, ordenei o senhor da portaria que não me notasse lá dentro com ele, ele operou as câmeras como se estivesse sozinho, fiquei assombrado com esse poder, ele poderia até criar ilusões, se eu pedisse para alguém ver aliens no lugar de humanos na rua, essa pessoa veria, eu testei isso antes, mas pedi para que um mendigo comesse pedras achando que era frango.
Meu plano estava quase que completo, Naiara, Marco, Heitor e a enfermeira estavam no apartamento de Naiara, os policiais que estavam lá eram meras ferramentas para que eu descartasse quando quisesse, assim como o pai de Naiara, depois de ter pedido para ele matar sua mãe para afetar Naiara, eu tinha planos ainda piores com ele! Faria Naiara sofrer o tanto quanto ela causou sofrimento, ela iria pagar por cada gota de sangue derramada, eu tomei conta da sala das câmeras e portaria quando pedi para o homem de lá morder sua língua e se matar, se alguém me visse lá eu apenas ordenaria para essa pessoa para ela esquecer o que viu e seguir em frente. Antes de entrar naquele prédio eu pesquisei e soube do sistema de auto-falantes em cada corredor, isso era perfeito, eu colocaria todos naquele prédio contra Naiara, eu sabia que ela jamais diria onde está a chave, então eu usei a enfermeira, usei ela como minha arma final. Primeiro eu dei pra ela um gravador com minha voz dizendo para ela usar isso quando policiais estivessem por perto, nessa gravação eu dizia “Se você for policial, mate outro policial por perto e depois se mate”, ela claramente teve que usar isso, eu então ordenei anteriormente para ela que, quando estivesse dentro do quarto de Naiara cuidando dos ferimentos de Heitor, primeiro, dopasse o garoto com um sedativo que dei para a mesma, e depois começasse a fingir que era eu, e que queria que Naiara dissesse a localização da chave, ou eu mataria Heitor. É claro que ela não ligava pra Heitor, se ele morresse ela iria seguir em frente, mas nunca diria onde estava a chave, essa garota é um demônio, é o Satã mesmo, mas eu previ isso, eu previ, primeiramente, que ela descobriria que a enfermeira não era eu, pedi para a enfermeira mudar a voz dela em cada 10 em 10 minutos, para que Naiara pensasse que eu mudava a voz para ela não perceber que era eu, também ordenei para que a enfermeira tentasse imitar minha voz o máximo possível, já haviam se passado quase 4 horas, eu tinha mais 3 horas sobrando do controle dela, enquanto ela estava dentro do quarto, eu comecei a dar ordens diretamente na escuta dela, tudo que eu dizia, pedi para que ela repetisse, mas é claro que essa ideia, teoricamente, nunca foi pensada por mim, visto que eu só podia dar UMA ordem, mesmo que prolongada, para cada pessoa, então eu dei a ordem para a enfermeira esquecer todas as minhas outras ordens e acabar com o efeito quando uma parte do plano fosse completa, em seguida, eu daria outra ordem para ela, e assim, não teria dado várias ordens de uma só vez. Eu tive que ficar o tempo todo como se ela fosse meu robô, a controlei de maneira explendida, eu até inventei a história do amigo da Naiara, era um chute, que ela havia deixado a chave com um amigo, e eu realmente estava certa! Pela reação de Naiara, ela havia se entregado, Naiara havia deixado a chave com um amigo em Americana, eu não precisava mais dela, daí então eu só precisaria achar os amigos da Naiara da cidade e ir atrás de um por um e ordenar que eles me digam onde a chave está. Eu havia vencido já, não tinha porque deixar a enfermeira viva, então a última ordem foi que ela pulasse da janela, mas é claro que matar Naiara seria meu trunfo, essa era uma das tarefas principais dessa minha missão divina, erradicar Satã do mundo, sua ferramenta de destruição em massa era parte do segundo plano, se eu matasse Naiara, a humanidade estaria salva, então ordenei para que todos no prédio fossem atrás dela, ordenei para que dois policiais de fora não deixassem ninguém entrar, Naiara não podia fugir, não havia saída se não as janelas e ela não iria pular, eu iria captura-la, tortura-la por semanas, quem sabe meses, fazer Satã pagar por todo mal que vem cometendo, por influenciar todas as pessoas na terra a serem marginais miseráveis, eu agora acabaria de vez com isso. Quando aquele policial apareceu com um saco preto carregando o corpo de Naiara, eu fechei meus olhos e agradeci ao meu Deus pela vitória da humanidade."
Fale com o autor