Lapso Paradoxal

26 Capítulo 25 - Sangue Infinito


Tudo que eu segurava em minhas mãos era um martelo pequeno, e em minha frente, cinco homens, todos com aparência de trabalhadores de algum tipo de obra, devido ao fato de estarem vestidos com os mesmos uniformes e usando capacetes laranjas, além de estarem sujos e cheirando a suor, Heitor e a enfermeira recuaram, a moça ficou atrás de Heitor apenas chorando, eu estava em uma situação preocupante visto que esses ‘pedreiros’ seguravam facas e facões e não pareciam nada amigáveis.

— Acho que não vai adiantar pedir pra eles acordarem não é? – Eu disse enquanto sorria para Heitor entendendo a nossa situação. – Heitor pegou a cadeira que eu estava sentada e se colocou em minha frente enquanto dois homens partiram para cima, com a cadeira Heitor bloqueou as facadas, mas em seguida, um outro apareceu por trás e desferiu um golpe contra o braço de Heitor que soltou a cadeira e deu alguns passos para trás.

— Não vai adiantar fazer nada, estamos sem saída aqui, acho que chegou ao fim essa luta, Nai. – Aquelas palavras me atingiram com tudo. Eu estava tão perto! Derrotei três portadores já, seus poderes eram absurdos, mas eu passei por isso, então como eu poderia morrer pra cinco pedreiros com faquinhas?

— Eu enterrei a chave em um lugar aqui de Americana! Se me matarem nunca encontrarão seus merdas! – Eu abri meus braços e me joguei na frente daqueles homens enquanto gritava, provavelmente, Lucia não pediu para eles me matarem, então, como previ, eles pararam, um deles se aproximou de mim e me deu uma chave de cadeado no pescoço, soltei o martelo imobilizada, os homens não diziam nada, assim como Marco, pareciam zumbis, robôs cumprindo ordens sem nem pestanejar.

— E se machucarem esses três aí também, vou me assegurar de nunca dizer onde está a porra da chave. – Havia algo de errado por ali. Se eles obedeciam apenas certas ordens de Lucia, então porque estavam me obedecendo naquele momento? Ao menos que Lucia disse para obedecer tudo que eu dizer (?) Claro que ela não pediu para eles me matarem, apenas me capturarem e matarem os outros presentes, mas quando eu disse isso, dois deles pausaram seus passos que iam em direção a Heitor que sangrava na parte de cima do seu braço direito, se isso estivesse certo, então, de alguma forma, eles tem consciência e podem agir em relação ao que for melhor para a conveniência das ordens que receberam? Eu estava errada, os dois que pararam voltaram a se mover em direção a Heitor e a enfermeira, um avançou correndo com a ponta da faca apontada para Heitor, ele desviou e segurou a cadeira novamente, o outro foi por cima de Heitor e deu várias facadas na cadeira, uma delas pegou na perna de Heitor, eu não podia mais ver aquilo, em minha cintura, presa junto à minha calça, havia um punhal que eu havia comprado antes da viagem para Poços de Caldas, enquanto o homem me segurando prestava atenção em seus ‘amigos’, peguei o punhal e desferi um golpe na barriga daquele homem que eu sabia que era inocente, ele foi usado como fantoche por Lucia apenas para me capturar, e eu, enfiei com tudo aquela lâmina afiada na barriga do rapaz que me soltou imediatamente, com isso, me movi para frente, outro homem veio em minha direção, mas a enfermeira me puxou para o lado dela.

— Você está bem? – Perguntou ela. Antes que eu pudesse responder, o homem que tentou me atacar e que segurava um facão enorme, movimentou seu braço para cima e o desceu com tudo, mas naquele instante, Heitor jogou a cadeira contra ele que se deslocou para o lado, mas com isso, Heitor recebeu um golpe de outro homem em suas costas, ele cambaleou para frente e a enfermeira o segurou. Estávamos cercados.

— É impossível lutar. – Eu admiti isso mas parti pra cima do homem que foi deslocado pro lado, ele parecia meio sonso, aproveitei isso e enfiei o meu punhal em seu pescoço, puxando-o de volta, a lâmina ficou coberta com sangue, sangue este que fazia uma bica da veia do pescoço do rapaz que por sorte eu havia atingido, ele colocou suas mãos contra o pescoço e foi se ajoelhando aos poucos. Heitor aproveitou essa oportunidade, segurou a corda que me prendia na cadeira e esticando-a, correu em direção a um dos homens fazendo-o cair ao passar a corda sobre suas pernas, Heitor pegou a faca do homem que tomou um golpe na barriga e se virou no chão, protegendo o golpe de outro homem que ia dar uma facada direta em seu rosto. A enfermeira deu um chute no saco desse homem que estava em cima de Heitor, o garoto então segurou o pulso do homem e enfiou a ponta da faca no pescoço sujo de cal do mesmo, abrindo-o até que o sangue jorrasse pelo rosto branco de Heitor que fechou seus olhos. Eu peguei o facão do homem que atingi no pescoço e me protegi dos outros dois que me encurralaram contra a parede, eu desferia golpes aleatórios, um deles se jogou na frente do outro e recebeu um golpe do meu facão, o outro aproveitou e me jogou contra a parede, deixei cair as duas armas brancas, mas Heitor já estava atrás do homem que fora atingido, ele colocou a corda sobre seu pescoço e começou a enforca-lo se arrastando contra o chão, a enfermeira parecia trêmula e não conseguiu se levantar, eu então fiz o mesmo que ela e dei um chute no saco do homem que me pressionava contra a parede, ele se contorceu mas não me soltou, foi então que mordi seu pescoço até arrancar pedaço de sua pele, bati minha cabeça contra a do mesmo, até ele se soltar, peguei o punhal que estava no chão, eu precisava só de um golpe, o homem rapidamente pegou o facão do seu lado, ele pretendia me acertar, eu desviei do seu golpe que mirava meu pescoço e enfiei o punhal em seu olho esquerdo, mas mesmo assim ele não parou, moveu o facão até minhas perna, cortando-a, o corte não foi profundo, mas eu me ajoelhei, ele iria dar outro golpe, então não tive escolha se não rolar no chão e socar o punhal em seu coração, espremi ele fortemente até sentir o órgão do homem, comecei a rodar para garantir que ele estava morto, o sangue percorreu minhas mãos enquanto eu caí junto com o homem no chão, dois deles faziam barulhos, sons de gritos, o homem que eu havia atingido no pescoço e na barriga ainda estavam vivos, mas morreriam em minutos.

— Ajuda...ajuda! – O homem atingido na barriga gritava tentando se levantar, eu não aguentei aquilo, eles eram inocentes, mas que escolha eu tinha? Era matar ou morrer, mas mesmo assim, vomitei em cima daquele homem morto em minha frente, eu não podia suportar esse fardo, o fedor de sangue era algo comum em minha vida, quando pensei que finalmente me livraria daquela maré de sangue, outros três homens, vestindo os mesmos uniformes daqueles alvejados, entraram no salão, mas dessa vez, com revólveres.

— Lutamos bem Nai, mas agora acho que começaram a apelar. – Heitor se jogou no chão, ele havia tomado vários golpes de faca, e antes, um tiro! Nem sei como ele conseguia respirar, a enfermeira ficou ajoelhada rezando, os três homens miravam para os dois, eu era a única de pé encostada na parede, foi quando vi algo que fez meus olhos se arregalarem.

— Eu sinto muito. – Disse um dos homens prestes a atirar, mas antes, um buraco se abriu em seu peito, o som de um disparo ecoou por todo salão, e em seguida, mais dois disparos espalharam fumaça pelos arredores do local, e quando me dei conta, os três homens estavam no chão, um até tentou atirar em Marco, mas ele mirou novamente e acertou sua testa, fazendo com que sua cabeça abrisse em um formato triangular, expondo seu cérebro e couro cabeludo queimados pelo calor da bala.

— M-Marco!? – Aquele era o Marco, ou a pessoa controlada por Lucia? O efeito havia acabado? Eu não tinha como saber. Obviamente, ela não disse para Marco me matar, então ele poderia estar fingindo agora para conseguir saber a localização da chave, felizmente, antes de deixa-la nas mãos daquele designer, eu não contei nem para Marco nem para Heitor, por questões de segurança, por mais que eu confiasse neles, sabia que algo assim podia acontecer, me precavi quando analisei os poderes dos portadores, Lúcifer havia me ajudava dando essas dicas, e agora Marco estava se levantando segurando uma arma, acho que logo eu iria descobrir se era mesmo o Marco que conheci.

— Sou eu, droga. Então fui pego, não é? O estranho é que não me lembro quando ela fez isso comigo, nunca me encontrei com ela! – Marco era ele mesmo. Respirei aliviada e caí de bunda no chão, estava cansada e machucada, minha perna sangrava, mas estava preocupada com Heitor, ele parecia bem regaçado, mesmo assim, ele teve tempo para fazer uma piadinha com Marco.

— Você é idiota ou o que? Cara, quando jogávamos Dragon Guest você era o melhor, mas agora parece um debilóide, foi quando você atendeu o celular lá em Poços de Calda, agora pegue a Nai, e se puder, EU, e dê o fora daqui. – Heitor respirava ofegante, suas costas pareciam não parar de sangrar.

— Meu Deus... isso virou um massacre... – Marco olhou para todos os corpos no chão querendo vomitar, ele olhou para os que matou e virou seu rosto, fechou os olhos e começou a chorar. A arma que ele portava era a dele mesmo, depois de analisar, aquilo já havia nos salvado várias vezes, felizmente comprei mais munição também antes de partir para Poços de Calda, mas não pensava em usar ela novamente.

— Não foi sua culpa! Eles iam nos matar... fizemos o correto. – Tentei justificar aquilo, mas até eu me sentia culpada, aquelas pessoas deviam ter famílias, filhos, e eles não sabiam de nada, mas era questão de sobrevivência, não quero ser hipócrita, não quero morrer! Quero viver mais um pouco com Vitor, e a única pessoa culpada disso era Lucia.

— Eu sei, eu não sou mais criança, eu salvei meus amigos, mesmo... matando inocentes! – Marco iria se lamentar pela vida toda, pelo que eu o conhecia, mas o mais importante, precisamos sair dali agora, ou mais mortes aconteceriam.

— Você consegue andar? – Me aproximei da enfermeira e estendi minha mão, ela ainda chorava, se levantou trêmula.

— Obrigada.. vocês fizeram tudo, eu fiquei apenas olhando... – Eu não culpava ela, estávamos quase que acostumados a matar, éramos assassinos, pra falar a verdade. E ainda haviam mais 7 vivos... no final, não seríamos nada menos do que um Jason ou Michael Myers. – Marco levou Heitor nas costas e eu ajudei a enfermeira a sair daquele lugar, era um salão velho que ficava em um bairro no fim da cidade, não haviam casas habitadas por lá, apenas fábricas e indústrias, mas com certeza alguém havia ouvido aqueles tiros, provavelmente estão acostumados com isso devido à natureza daquele bairro, mas felizmente não havia ninguém na rua, olhei para o canto da janela e vi aquele homem que estava com uma sniper morto no chão, mais um inocente morto por MINHA causa, até onde eu aguentaria aquele inferno?

— Enfim, eu preciso vomitar, é sério, eu segurei demais já mas não aguento. – Marco colocou Heitor no carro que ele tinha nos trazido aqui, eu não sabia de quem era, provavelmente roubado, mas agora que estávamos dentro de um veículo de alguma forma eu me sentia mais segura.

— Como saímos do hospital? – Perguntei para Heitor que ainda estava acordado mas parecia sofrer demais.

— Ela enganou os policiais também Nai, Marco nos levou pro carro com facilidade, ele ameaçou a enfermeira e fez ela me levar enquanto ele te carregava, não havia ninguém por lá, ela deve ter controlado a maioria já, droga, quem é ela? – Eu também queria saber, se não pegássemos essa maldita, a cidade toda se voltaria contra nós, mais uma vez.

— Felizmente, eu pensei em algo Heitor. – Eu estava sentada no banco da frente, olhei para o retrovisor e notei uma figura falando com Marco enquanto ele se levantou após vomitar, foquei minha visão no retrovisor, e quando me deu conta, fiquei branca, eu quase perdi a consciência, não haviam dúvidas; A pessoa que estava na frente de Marco era Lúcifer.