Lapso Paradoxal
27 Capítulo 26 - Atrás da Morte
Minhas pernas tremiam quando tentei atravessar a rua, parecia que elas quebrariam com a gravidade sobre meu corpo, o sangue em minha pele permaneceria mesmo se eu me banhasse em ácido sulfúrico, não havia perdão para o pecado do assassinato, foi o que aprendi em todos esses anos no cristianismo, eu não havia matado uma só pessoa, eu me joguei em um penhasco no momento em que decidi ajudar a Naiara, tudo porque eu a amo. Ela não me ama, eu sei disso, sei que ela é louca pelo Vitor, mesmo ele não tendo muito mais tempo, e sei também que ajudado ela, eu estarei ajudando ele a viver, estarei ajudando ambos a ficarem juntos, a se casarem, terem filhos, com essas três mortes eu moldei no chão os trilhos dourados para o que estaria por vir para aqueles dois e para meu futuro negro, e ainda faltavam mais sete portadores, é claro que as chances de sobrevivermos até o fim são quase nulas, eu cavei minha cova com intenções e objetivos que eu desprezava, tragado pela culpa e a angústia e ao mesmo tempo a dor de amar uma pessoa distante e que provavelmente está apenas me usando. Nem me lembro mais quando tal sentimento floresceu dentro de mim, acho que ele foi colocado à força, naquela época, quando ela fez aquilo, foi um meio de escapar da realidade cruel, agora não havia mais volta, certo? Olhei para o céu e em seguida me ajoelhei para vomitar, a imagem daqueles trabalhadores, pais de família, assalariados, todos mortos, abatidos por um jogo em que eles não tinham nada a ver, um jogo criado por Deus ou o Demônio ou seja lá o que for, eu só queria saber qual o objetivo disso, por que dessa carnificina, por que é necessário matar para salvar o mundo? Aliás, por que Lúcifer, quer salvar o mundo? Claro que Naiara estava sendo enganada, as intenções de um demônio nunca podem ser boas, talvez eu esteja no lado errado, a outra moeda por mais escura que seja é a que vale mais, comecei a ter dúvidas, dúvidas que dilaceravam meu interior, mas ao ouvir uma voz em minha frente, calmamente, sem me preocupar devido à frieza que havia adquirido naqueles tempos de faroeste, inclinei meu pescoço para frente e fitei uma figura que de certo modo, eu ‘reconhecia’.
— Bom te ver amigo. – Era um rapaz de estatura baixa, cabelos raspados e bem repicados da cor loura, seu rosto parecia pálido, ele vestia um manto branco e um cinturão preto sobre o véu em sua cintura, ele mantinha metade do seu corpo nas sombras que vinham do prédio a sua frente, mas eu podia vê-lo, seus olhos, eu conhecia aqueles olhos.
— Você... é Lúcifer? – Perguntei enquanto me levantava.
— Que perspicaz, você sempre foi inteligente, apesar de às vezes demonstrar uma inocência tamanha que me dá vontade de te matar. – A voz daquele rapaz entrava em meus ouvidos e conseguia chegar até minha alma, meus olhos ávidos o fitavam, mas sem realmente penetrar sua essência.
— Você me conhece de onde? O que quer? Por que está fazendo isso!?
— Isso? Isso o que? Você decidiu ajudar sua amiga.
— Não importa o que eu decidi, por que está fazendo esse jogo? ME DIGA! – Eu tentei gritar mas minha garganta estava doendo depois de ter vomitado quase que minhas entranhas.
— Porque é necessário, você sabe mais do que ninguém.
— É necessário salvar o mundo de um vírus? Necessário matar 10 pessoas? E aquelas pessoas mortas no meio dessa batalha?
— Salvar o mundo? Ah, então foi isso. Naiara realmente é uma garota fria, não é? – Lúcifer se aproximou de mim sorrindo, eu comecei a sentir medo enquanto sentia o doce aroma que vinha do mesmo. – É necessário ficar ao lado dela? Me diga, responda isso, e eu lhe darei sua resposta.
— Não me faça de idiota... – Aquela pergunta, certamente, não tinha resposta. Ele sabia o que eu estava pensando, ele sabia de tudo.
— Você não é idiota, Marco, você é a pessoa que está preparada para mudar tudo.
— Eu? O que eu posso fazer?
— Você já fez. – Lúcifer estendeu sua mão e entregou para mim uma capsula dourada pesada, tentei abri-la mas não foi possível, parecia colada, apesar da aparente abertura em seu centro.
— O que é isso? – Desisti de abrir aquilo, senti que de alguma forma, aquilo era algo de extrema importância.
— Você só poderá abrir depois de derrotar mais três portadores, então, boa sorte. – Lúcifer se virou, eu tentei voar em direção ao mesmo para agarrá-lo mas algo me paralisou, parecia que eu havia sido segurado por mãos invisíveis.
— Você é um Deus? Um Demônio? Só me diga isso! – Lúcifer continuou virado de costas, mas de alguma forma, sem ver sua expressão, eu sabia que ele estava sério.
— Eu? Sou um humano. – Caminhando sobre a rua escura daquela periferia, Lúcifer desapareceu com a neblina, como se as sombras o tivessem capturado.
— O que foi isso? – Naiara estava parada atrás de mim com seus olhos arregalados, ela mantinha parte da boca aberta, olhando para onde Lúcifer desapareceu.
— Desde quando está aqui? – Perguntei enquanto olhava naqueles olhos que me cativavam, não importa quantas vezes eu os olhasse.
— Eu realmente não sei, ele não me disse nada claro, só me disse que... – Fiz uma pausa enquanto colocava no bolso de trás da minha calça aquela capsula que Lúcifer havia me dado, de alguma forma, sentia que a garota não podia saber daquilo, então me precavi de fazer isso sem que ela visse. – É um humano. – Naiara segurou em minha mão me arrastando até o carro enquanto caminhava.
— Ele só quer confundir sua cabeça, ele deve estar puto por estarmos em vantagem e agora vem tentar desestabilizar, até porque ele não te disse nada. – As mãos de Naiara estavam frias e suadas, sentia certo temor em sua aura.
Entramos no carro, a pedido de Naiara e Heitor fomos rumo à casa dela, ela estava preocupada com seu pai, no banco de trás, com o mesmo kit de primeiros socorros que a enfermeira trouxe em sua primeira ida para lá, esta cuidava dos ferimentos de Heitor, Naiara também parecia bem machucada, mas disse que poderia aguentar, o mais estranho, foi ela não ter me perguntado mais nada sobre Lúcifer.
— O que acha que seu pai vai pensar ao te ver assim? Ele está sendo vigiado na sua casa, está preso Naiara, você ir até lá pode nos matar, sabe que os policiais estão do lado daquela mulher, a maioria pelo que vimos, ela deve ter controlado várias pessoas já, quem sabe seu pai não esteja sobre efeito ainda e te mate. – O pai de Naiara, depois de ter matado sua mãe, pelo que me lembrei do Guilherme ter falado antes...daquilo, foi mantido preso em sua casa com três policiais cuidando para que ele não fizesse nada até encontrarem provas o suficiente do que havia acontecido, todos na polícia, pelo que percebi, estavam muito confusos com a situação presente, alguns diziam ser forças alienígenas, alguns perceberam que seus comportamentos não estavam normais, e por isso a cautela foi maior, eu me pergunto se vai ficar tudo bem pra mim depois de ter matado 3 trabalhadores e um policial.
— Vocês estão com medo? Eu posso ser testemunha, eu vi tudo que aconteceu, essas pessoas... elas estão sendo controladas, não? – A enfermeira, com os olhos inchados de tanto chorar, começou a falar com o tom de voz rouco.
— Não sei se as pessoas iriam acreditar, mas isso vai virar um caso mundial, de toda forma, quando a notícia do ‘jogo’ se veicular amanhã, todos irão saber que os portadores são assassinos, temos que dar uma explicação lógica pra eles, não tem como acreditarem que pessoas estão sendo controladas, sendo assim, vamos dizer que esses trabalhadores da obra foram pagos pela Lucia pra nos matarem, à partir daí, a polícia ficará quase que obrigada a nos proteger até pegarem os portadores, estaremos com uma camada a mais de proteção, mas antes precisamos pegar a Lucia, pelos poderes dos portadores que vi em sua anotação, Nai, ela é a última que possui ‘controle’ de alguém, lidar com os outros não remeterá a tais acontecimentos e... você não entende nada do que estamos falando, né? Portadores e etc. – Heitor olhou para a enfermeira que parecia realmente não entender nada do assunto.
— Vamos esperar em casa hoje, temos três policiais lá, não sei se estão controlados ou não, mas trancarei todas as portas, só ficaremos nós e meu pai. – Quando Naiara olhou para trás, olhei rapidamente para ela, não entendia o porquê dela querer levar a enfermeira, e quando a enfermeira percebeu esse meu olhar de dúvida, ela voltou a falar.
— Pessoal, eu estou bem... não se preocupem comigo, se quiserem, desço aqui! – Isso era o correto a se fazer! Se eu fosse o eu de semanas atrás, é claro que eu tentaria ajuda-la, mas quem garante que ela não pode estar sob efeito do controle da Lucia assim como eu estive? Aliás, como eu saí daquele efeito? Será que passou o tempo limite?
— Não diga besteiras, você nos ajudou, salvou o Heitor e me salvou lá no barracão, você vem com a gente. – Naiara falou de uma maneira firme, eu estava na rua do prédio onde a Naiara morava, vi duas viaturas de polícia estacionadas na frente, parei o carro na calçada da frente do apartamento, a rua parecia deserta, um policial se encontrava na esquina comendo o que parecia ser um chocolate, quando nos viu, rapidamente ele correu se aproximando jogando o chocolate no chão.
— Vocês.... – Ele olhou em meus olhos, parecia assustado.
— Eu moro aqui, por favor, nos deixe entrar, sei que meu pai está sendo mantido ‘preso’, mas preciso muito falar com ele, já que ele viu a mulher, ele sabe como ela é! Aliás, vocês não pegaram nenhum retrato falado? – Nai perguntava ansiosa enquanto o policial parecia não entender o porquê daquilo.
— Não, não foi assim, ele nos disse que recebeu uma ligação, e logo em seguida... aconteceu o que aconteceu. – Naiara parecia ter se esquecido do fato de que sua mãe morreu, que fora morta por seu próprio pai, ao se conectar novamente com essa realidade, ela desmaiou, eu a segurei, ela parecia mais pesada do que era, mas na verdade eu é que estava fraco, ainda pensava no que era aquela capsula que Lúcifer havia me dado, não sei se Naiara estava fingindo somente para entrar em sua casa, mas sei que isso fez com que o policial nos levasse até seu apartamento. Chegando lá, coloquei Naiara deitada em seu sofá, o pai dela estava algemado sentado na cadeira da cozinha, os dois policiais estavam dentro do apartamento, os dois pareciam bem sonolentos, um estava sentado em uma das cadeiras da cozinha também, o outro, via televisão na sala, eles pareciam bem aconchegados.
— N-Naiara! – O pai de Naiara se levantou e correu ao seu encontro, a menina ainda estava desacordada no sofá, ele foi segurado pela camisa pelo policial que também estava na cozinha.
— O que estão fazendo aqui? O que é isso Celso? – O policial gritou com o que tinha nos trazido para cima.
— Ela desmaiou, é a filha dele cara, ela mora aqui, não tive o que fazer.
— Vocês... depois de tudo que aconteceu! Isso é loucura! Quero saber o que porra tá acontecendo. – O policial que estava vendo televisão se levantou de sua poltrona e me segurou pelo colarinho. Heitor e a enfermeira foram até o quarto de Naiara, ele precisava de primeiros socorros adequados.
— Foi o que dissemos na delegacia! Estamos sendo caçados por maníacos, no hospital fomos capturados por um deles e levados pra um tipo de barracão velho, tivemos que matar pra não sermos mortos, isso é loucura sim, e nós estamos sofrendo mais do que vocês imaginam. – Eu me soltei das mãos do policial e encarei os três ali, tinha que fazê-los acreditar.
— Quem está com vocês? Quem são aqueles dois? – O policial que estava na cozinha perguntou.
— Ela é uma enfermeira que foi capturada no hospital, e o outro é um amigo nosso que estava no hospital também, ele está sendo caçado, assim como eu e Naiara, tudo por aquela merda de chave. – O pai de Naiara arregalou seus olhos e se aproximou do quarto onde a enfermeira e Heitor estavam.
— Qual o problema velhote? – O policial que nos trouxe foi atrás do homem, esse começou a tremer e quase caiu para trás.
— E-ela... é ela! – Me atentei às palavras do homem.
— Ela quem? – Perguntou o policial que estava na sala.
— A mulher... que me ligou. – O pai de Naiara correu para tentar abrir a porta do quarto de Naiara onde a enfermeira e Heitor estavam. Era ela? Como assim? Essa miserável... é a Lúcia? Mas como Naiara não reconheceu a voz da mesma? Ok que há aplicativos hoje em dia pra se mudar a voz em uma ligação, mas se o pai da Naiara está dizendo isso, só posso acreditar. Ela nos pegou.
— Tem certeza? – Perguntou o policial que nos trouxe segurando fortemente o pai de Naiara que gritava em direção ao quarto.
— É ELA, ELA ME FEZ MATAR MINHA MULHER! – Os outros dois policiais pegaram suas armas e se aproximaram da porta que aparentemente estava trancada.
— Vocês, saiam do quarto agora mesmo! – Disse o policial maior que estava na cozinha ao chegarmos.
— Querem que esse garoto morra? – A enfermeira disse isso mas mal dava pra ouvir com a porta do quarto fechada, foi então que me lembrei.
— Vocês, saiam de perto da porta, saiam daí! – Gritei forte, mas, nesse momento, já era tarde. O policial maior deu um tiro no policial que segurava o pai de Naiara, a bala acertou no peito do mesmo que caiu duro no chão, sem reação, o outro policial, em seguida, deu um tiro na cabeça do policial que atirou anteriormente, e em seguida, se matou, dando um tiro em sua própria boca. Os corpos estavam jogados na entrada do quarto de Naiara, com o som dos disparos, ela acordou.
— O que? O que está acontecendo? – Naiara se levantou e viu os policiais mortos e seu pai tremendo, ajoelhado no chão.
— Lúcia... ela está... dentro do seu quarto com Heitor.
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