Lança-de-vento

5 Capítulo 5 - Um inimigo desconhecido


Notas iniciais
Demorou mas saiu... XD

Três dias se passaram desde que o exército Aenoriano partiu de Ergellion em direção a Tévia, o reino da floresta.

O acampamento montado pelos soldados parecia tranqüilo, enquanto os homens acordavam e se preparavam para seu quarto dia de marcha. Os ânimos ainda estavam bons e os homens, motivados, cantavam antigas canções de heróis da guerra. Aquele era provavelmente o ultimo dia em que poderiam fazer aquilo, pois o reino da floresta era relativamente grande e era época de chuva naquelas terras. Chuvas torrenciais que poderiam atrasá-los por dias até que chegassem à capital Teviana.

O acampamento fora rapidamente desarmado sob a supervisão dos oficiais Aenorianos. Dário já esperava, olhando o horizonte, que seus homens entrassem em formação para o longo dia de marcha que teriam. Ele queria viajar o máximo possível naquele dia pois o céu estava limpo e não apresentava sinais de chuva, o que era um bom sinal.

Logo que os homens se aprontaram e entraram em formação, Dário ordenou que os oficiais iniciassem a marcha em direção a Tévia que, se não houvessem contratempos, chegaria em dois dias. Dário queria ter partido direto para Samith, mas já que era obrigado a seguir aquela estrada antes, ele esperava que os soldados Tévios fossem tão valorosos como diziam.

A floresta de Tévia era um lugar que amedrontava Dário e seus homens. Haviam lendas de que demônios espreitavam por entre as árvores durante a noite e isso dificultava o sono dos soldados quando o acampamento fora montado em uma clareira próxima à estrada. Por não ser território Aenoriano, os soldados não tinham permissão de derrubar nenhuma árvore e por isso o acampamento havia sido montado de forma dispersa, o que ajudava a amedrontar os soldados.

Dário estava em sua tenda, lendo um livro que havia comprado durante seu descanso em Ergellion quando foi incomodado por um de seus oficiais, que dizia que os soldados disseram ter ouvido ruídos amedrontadores na floresta.

_ Devem ser apenas ursos, capitão. Mande seus soldados descansarem em paz, não há nenhum demônio nesta floresta. _ Disse Dário, mesmo que não acreditasse em suas próprias palavras.

_ S-Sim senhor! _ Disse o capitão, se retirando. Era um dos novos homens, um oficial que fazia parte da guarda da cidade, acostumado apenas com lutas de bar e com ladrões baixos. Era um homem valoroso, mas ainda não tinha a dureza de um soldado.

Dário voltou para sua leitura, mas logo foi interrompido novamente, não por um oficial mas sim por um grito agonizante de um de seus soldados. Ele logo saltou de sua cadeira e correu para fora da tenda, para ter uma visão extremamente perturbadora. Um de seus homens havia sido destroçado em questão de segundos e ele era o primeiro a aparecer para ver aquilo, as partes do homem estavam penduradas pela carne em uma arvore morta que ficava próxima a sua tenda, a cabeça do homem não estava junto das outras partes e Dário ficou imóvel, em choque, enquanto mais homens chegavam para verificar o que havia acontecido. Ninguém acreditava no que estava vendo e muitos que eram amigos do soldado gritavam de ódio com os punhos levantados em direção à floresta. O que poderia ter feito aquilo? Será que realmente havia demônios naquela floresta? Dário quis partir dali logo mas não podia deixar aquilo sem troco, seus homens não permitiriam.

Durante toda a noite, os homens de Dário não se aquietaram, fosse por medo ou revolta. Um grupo de seis homens foi para a floresta em busca de sinais, dentre eles estavam Hoth, Tegon e Eldion. Tegon conseguiu encontrar um rastro de sangue que levava mais para dentro da floresta. Rapidamente os homens começaram a seguir o rastro e quando haviam andado cerca de trezentos metros se depararam com um ser enorme que pareceu ter percebido a presença deles e começou a correr ainda mais para dentro da floresta. Os seis começaram a perseguir o ser, que corria loucamente com um objeto redondo nas mãos quebrando galhos grossos sem o menor esforço. Eldion então parou rapidamente parecendo assustado, o que fez com que os outros também o fizesse.

_ O que aconteceu Eldion, o que houve? _ Perguntou Hoth apressadamente.

_ Vocês não viram o que aquela criatura tinha nas mãos? _ Respondeu Eldion.

_ É claro que não, nós mal conseguimos perceber que você havia parado! Você conseguiu enxergar algo? _ Respondeu Hoth.

_ Sim, e digo que é melhor deixarmos a criatura e partir logo, ou então trazer pelo menos mais vinte homens aqui. O que ele tinha nas mãos era a cabeça de alguém.

_ Eu não sei nem a forma da criatura que estamos seguindo e você conseguiu enxergar o que ela tem na mão? O seu apelido me fazia pensar que seria o contrário.

_ Eu não tenho uma visão ruim, meu apelido é Eldion, o cego porque eu perdi um dos meus olhos em batalha. Mas de qualquer forma, minha visão parece ter se aguçado desde a batalha contra os Argores.

_ Está bem, realmente a criatura parece ser forte demais para nós, vamos voltar e falar com Dário.

De volta ao acampamento, Dário recebeu as noticias com um espanto gigantesco. Aquilo mostrava que realmente poderiam existir demônios no mundo ainda. Seres a muito esquecidos pelas pessoas.

_ Nós não podemos mais ficar aqui, temos que partir imediatamente para a capital de Tévia. Esta floresta é amaldiçoada.

O acampamento foi quase imediatamente desmontado, mesmo com a relutância de alguns homens, que queriam vingança. A estrada não ficava muito longe dali e o exercito logo a alcançou sem maiores dificuldades e marcharam pelo resto da madrugada em alta velocidade.

A manhã havia chegado e, finalmente, os homens de Dário se sentiram seguros para fazer uma pequena parada. Fogueiras eram acesas ao longo da estrada, pois eram poucos os que queriam adentrar naquela floresta depois do acontecido. Dário olhava para o horizonte e segurava um copo de água com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos, ele não queria ficar mais nem um segundo naquela floresta, pois algo o dizia para partir.

Depois que todos fizeram suas refeições e descansaram por alguns minutos, Dário ordenou que partissem. Aquela viajem não deveria durar mais do que o previsto pois as forças Samithenas teriam mais condições de se recuperar a cada dia que se passasse e em seu interior, Dário rezava para que não chovesse, apesar de que o clima estava bem seco nos últimos dias.

A posição do sol indicava o fim da tarde quando Eldion conseguiu avistar a primeira torre de madeira da cidade. Ele logo tratou de avisar Dário, que se aliviou com o pensamento de que poderiam dormir em um lugar seco e protegido, já que o tempo havia mudado de forma muito rápida na noite anterior, trazendo uma chuva que dificultou ainda mais o sono de seus homens, que já estavam sujos com apenas dois dias e meio de marcha.

Ao adentrar a cidade, Dário pôde reconhecer a riqueza da cultura dos Tévios. Eles possuíam um conhecimento arquitetônico de fazer inveja a qualquer um. As casas eram todas feitas de madeira e pedra, como quaisquer outras, mas o que realmente impressionava era que nenhuma árvore parecia ter sido derrubada na região e todas pareciam fazer parte das casas. Muitas como colunas principais e outras como uma das paredes ou até mesmo, com as maiores, eram construídas sacadas e varandas. A cidade parecia ter nascido junto com a floresta, o que encantou a todos os soldados que passavam pela entrada, a qual era guarnecida apenas por duas torres altas de madeira contendo alguns homens armados com arcos longos e lanças e vestindo armaduras de couro e madeira.

O palácio do rei Fimbol tinha ao mesmo tempo uma simplicidade se comparado ao restante da cidade e monumental se comparado aos padrões conhecidos pelos Aenorianos. Ele havia sido feito sobre e ao redor da maior árvore daquela floresta, que devia ter cerca de quarenta metros de altura e vinte de diâmetro. Somente a copa da arvore aparecia por sobre a construção, mostrando folhas verdes e vivas, o que era estranho para aquela época do ano. O palácio era feito de madeira e pedras, assim como o restante das construções da cidade, mas tinha algo que surpreendia ainda mais a todos. Não havia nenhum tipo de concreto ou qualquer substância que pudesse dar adesão às pedras e tábuas, as raízes da árvore se estendiam até uma altura surpreendente e eram elas que sustentavam as paredes do edifício, mantendo as pedras unidas. Dário olhava boquiaberto para cima quando foi surpreendido pelo representante de Fimbol.

_ General. Meu senhor o aguarda em seu palácio para que conversem. Seus homens serão abrigados pela noite e poderão descansar com tranqüilidade, pois os soldados do rei devem chegar de sua missão amanhã pela noite. _ Disse o representante.

_ Está bem, você pode passar as instruções de como chegar ao abrigo ao meu segundo em comando, Hoth. Eu irei me encontrar com o seu rei. _ Disse Dário, ainda atordoado com a genialidade daquele povo.

Dário entrou no palácio, enquanto Hoth seguia o representante até os alojamentos. O palácio era ainda mais surpreendente por dentro. Parecia a Dário, que ele estava de volta à floresta pois o chão, que era de pedra, estava recoberto das folhas caídas da árvore. As paredes do primeiro andar eram de pedra e davam um ar de primitivo ao palácio, mas quando subiu a primeira escadaria, que levava ao segundo andar, Dário não conseguiu acreditar em seus olhos. As paredes, agora de madeira, possuíam pinturas e runas entalhadas e recobertas de ouro. Tochas iluminavam o interior, presas em suportes que não permitiam que as cinzas caíssem no chão. O ambiente era claro e limpo e Dário ficou admirando por alguns instantes quando um guarda se aproximou dele e disse:

_ Senhor, em quê posso ajudá-lo?

_ Ah, sim... Eu sou Dário, e vim a convite de seu rei para que possamos conversar. _ Disse Dário, agora tratando com extremo respeito aquele povo, que antes parecia ser um povo fraco e dependente para ele. Um simples bando de selvagens procurando a proteção de um reino poderoso.

O guarda não disse nada mais e com uma bela reverência levou Dário para uma escadaria em espiral que levava à sala do trono. Dário cumprimentou o guarda com sua rude reverência militar e começou a subir as escadas, seguido pelo guarda. Na subida ele viu toda a extensão do tronco da árvore, que tinha apenas alguns galhos que se estendiam de tempos em tempos para as paredes do palácio, atravessando-as e aparecendo do lado de fora. Alguns, como em algumas casas da cidade, eram usados para sustentarem belas e adornadas sacadas.

Hoth não precisou caminhar muito tempo até que chegassem em uma área visivelmente militar da cidade, uma área com centenas de casas idênticas e com um sistema de guarda ao redor do perímetro. O representante então parou e lhe disse:

_ Todos os alojamentos estão vagos, vocês terão que se espremer um pouco pois a cidade não foi feita para comportar tantos soldados de uma vez, me perdoe. Há também uma área de treino no centro e algumas torres de vigia, que vocês poderão usar livremente. Perdoe-me mas eu tenho que deixa-los agora, o rei pode estar precisando de mim.

_ Está bem, eu agradeço a hospitalidade de seu povo. Não precisa se preocupar conosco. Pode ir se quiser. _ Disse Hoth.

_ Então até mais, jovem comandante. Se quiserem se distrair um pouco, há uma pequena taverna no centro da cidade que possui um ótimo vinho, devo dizer. Boa noite a todos. _ Disse o representante que, após fazer uma reverência, deixou os soldados.

Hoth tratou logo de contar quantos alojamentos havia naquele lugar e distribuí-los, assim como os postos de guarda. Em pouco tempo os homens já se sentiam em casa e Hoth pôde ver alguns se amontoando na área de treinamento. Ele foi então ver do que se tratava e percebeu que eram duelos que estavam ocorrendo e apostas já estavam sendo feitas entre os homens. Animado, ele logo procurou quem estava por trás daquilo, não para puni-lo, mas para se “inscrever” nas lutas.

Pequenas gotas de suor brotavam do rosto de Dário que, ao chegar no topo da escadaria, estava ofegando levemente. Já havia mais de um mês que estava sem treinar, afinal de contas. O guarda que o acompanhava tomou a dianteira e pediu para que esperasse e então abriu as portas do salão e anunciou a chegada de Dário ao rei.

O salão real era adornado com pequenas bandeiras do que pareciam ser as casas nobres do reino de Tévia e com estátuas de antigos reis, feitas de uma madeira clara e aparentemente resistente aos cupins, assim como toda a madeira usada na cidade. O rei, que se vestia de forma nobre, com roupas de um tecido leve e tinha um colar oculto sob a camisa, aguardava a aproximação de Dário, que se deliciava com a beleza daquele lugar.

_ Dário, o herói de Aenor e Tévia! _ Disse o rei, acordando Dário de seu transe.

_ Meu senhor... _ Gaguejou Dário, coisa que raramente fazia.

_ Aproxime-se meu caro, temos muito a conversar.

_ Sim, senhor. _ Disse Dário, sentando-se em uma cadeira oferecida pelo rei, que fez sinal para que seus servos os deixassem.

Tão logo o último servo deixou o cômodo, o rei pôs se a falar.

_ Meus soldados estarão sob seu comanda daqui a dois dias, quando eles tiverem chegado e descansado. Eu... não queria ser obrigado a fazer isso mas, acho que já não há mais esperanças para ninguém que venha a se aventurar fora da cidade. _ Disse o rei.

Dário, já sabendo do que o rei falava, se ajeitou na cadeira, esperando que ele continuasse.

_ Eu já recebi notícias de um dos meus batedores. Me parece que vocês tiveram um encontro inesperado na floresta não é mesmo? _ Disse incisivamente o rei.

_ Sim, uma criatura estranha dilacerou um dos meus homens... _ Disse Dário, sem querer revelar muitos detalhes. _ Aquilo nos deixou assustados, ninguém nunca havia visto algo parecido antes.

_ Eu creio que não. E para que não vejam mais, eu queria te pedir... que elimine aquela criatura.

Dário então baixou a cabeça, vendo que eram reais suas expectativas.

_ Aquela criatura, ninguém sabia o porquê dela nos atacar. Até que, há pouco tempo, um velho curandeiro da cidade finalmente nos contou. Aquela criatura era Figrod, o demônio da floresta. Desde que existe a floresta de Tévia, aquele demônio tem vivido em suas árvores, tendo sido amaldiçoado pelos próprios deuses, que se enfureceram por ele não ter feito a tarefa para a qual foi designado, o fizeram prisioneiro aqui nesta floresta, para que nunca saísse, sob pena de ser transformado em pedra. Desde então, ele vaga por entre as árvores e mata por puro ódio qualquer humano que venha a cruzar seu caminho. _ Disse o rei.

_ E você quer que eu o mate? Está louco? _ Disse Dário, se exaltando um pouco.

_ Acalme-se por favor, meus homens conhecem bem a floresta e sabem por onde o demônio vaga durante as noites. Você é o general mais experto, do reino mais poderoso. Não será uma tarefa difícil, mas eu sei que não posso pedir isso sem lhe oferecer uma recompensa. Eu lhe darei aquilo que desejar pois, para mim, o mais importante é que possamos crescer novamente e que ninguém de meu povo se fira mais. _ Disse o rei, que já esperava uma resposta negativa, com o rosto um pouco contorcido.

_ Não precisa me bajular com elogios e nem com presentes, mas vejo que a situação é realmente desesperadora para seu povo. Eu não posso responder por todo meu exército mas, vou tentar convence-los a fazer tal feito. _ Disse Dário, calmo novamente.

_ Isso seria ótimo Dário. Eu lhe garanto que não terá perdido seu tempo em vir a Tévia nossos homens são bem treinados e serão de grande ajuda em suas batalhas. Quanto ao demônio, não há problema se não quiser caçá-lo, eu agradeço por tudo que já fez por meu povo. _ Disse o rei, se levantando. Dário apenas assentiu e, com uma reverência se retirou. Quando passou pela porta, os servos do rei, que estavam encostados no corrimão espiralado da longa escadaria fizeram sua elegante reverência a Dário e caminharam de volta ao salão.

Ao chegar na área dos alojamentos militares junto com o representante do rei, Dário viu que vários soldados se apinhavam no centro de uma pequena abertura entre as casas. Uma leve poeira subia e podiam-se ouvir urros e gritos, que atraíram ainda mais a atenção dele, que foi ver o que se passava.

Ao se aproximar mais, Dário percebeu o que acontecia, um círculo havia se formado e dois homens se degladiavam com espadas de madeira. Um deles era seu segundo em comando, Hoth, que já aparentava estar vencendo a luta. O soldado que lutava contra Hoth era um jovem da vanguarda, um dos novos mas que tinha um belo estilo de luta. Com muita agilidade o jovem soldado desferia várias tentativas de estocada com a espada, que quase atingiam Hoth. Mas então, num momento de esperteza, Hoth saltou para o lado do rapaz quando este tentava mais uma estocada e com um potente chute, desarmou o oponente, que foi facilmente atingido devido ao desequilíbrio provocado pelo chute. Hoth levantou sua espada com um grito de comemoração. Ele havia vencido o “torneio” e os homens aplaudiam e gritavam seu nome, enquanto vários passavam pequenas bolsas com moedas adiante, para o organizador da lutas.

_ Contemple, general. O melhor guerreiro de Aenor! _ Disse Hoth, caminhando de braços abertos em direção a Dário, que sorrindo rejeitou aquele abraço suado que lhe era oferecido pelo amigo.

_ Sim, quem sabe podemos ver se realmente o é depois que lutar contra mim. Ou sente-se cansado demais? _ Disse Dário, provocativo, entrando na “brincadeira”.

_ Claro que não! Um guerreiro como eu? Nunca se cansa. _ Respondeu Hoth, limpando a espada de madeira que caiu da mão do adversário e entregando-a a Dário.

Os dois se postaram no centro do círculo de homens, que agora estava calado devido à grande expectativa da luta. O general contra seu segundo em comando! Era uma luta rara em qualquer exército do mundo, mas o clima descontraído tornou aquilo possível.

Tão logo eles se posicionaram em seus respectivos lugares, Hoth avançou gritando com a espada levantada em direção a Dário, que se esquivou agilmente do golpe e contra-atacou com uma tentativa falha de cortar o braço de Hoth. Os dois deram um pequeno salto para trás e então foi a vez de Dário atacar com uma investida contra a perna direita de Hoth, mas seu golpe foi aparado pela outra espada. A luta prosseguiu equilibrada por mais cerca de cinco minutos quando Hoth já ofegante tentou atingir Dário no ombro, mas Dário deu um pulinho para trás, fazendo Hoth girar. Dário aproveitou aquela chance e já ia dar uma estocada nas costas de Hoth quando sentiu uma pesada pancada em seu calcanharl, pancada essa que o derrubou. Hoth havia dado uma rasteira em Dário que, com uma espada apontada para o pescoço, se rendeu.

_ Haha! Eu não disse? Eu sou o melhor de Aenor! _ Disse Hoth, caçoando amigavelmente o amigo.

_ É Hoth, parece que você não perdeu nada da sua habilidade. Ainda bem que luta conosco e não contra nós. _ Disse Dário sorrindo. Acompanhado por Hoth, ele deixou a rodinha, que já se animava com o início de uma nova luta.

_ Eu tenho uma possível nova tarefa, Hoth. _ Disse Dário com o semblante agora sério a Hoth.

_ O que aconteceu? Qual é essa tarefa? _ Perguntou Hoth, sem demonstrar muita surpresa.

_ Lembra-se daquela criatura da floresta?

_ Sim, claro.

_ É um demônio antigo que habita a floreta de Tévia. E o rei me pediu que o matasse.

O rosto de Hoth ficou sério também.

_ De qualquer forma, nós ainda teríamos que esperar pelo exercito Tévio. Que só estará aqui amanhã pela noite e deverá descansar. _ Disse Dário. _ Descansaremos hoje e amanhã podemos discutir isso com mais calma.

_ Sim, senhor. De qualquer forma, vou preparar os homens. _ Respondeu Hoth.

_ Não Hoth. Se nós formos atrás daquela criatura, não quero arriscar o pescoço de nenhum outro dos nossos homens. Nós iremos em um pequeno grupo que eu escolherei. Vá descansar e amanhã conversaremos mais sobre isso.

Hoth não disse mais nada e, após uma reverência, se dirigiu ao seu alojamento.

No dia seguinte, Dário não procurou por Hoth. Até a noite cair, tudo seguia tranquilamente, até que os soldados Tévios chegaram. Eles se dirigiram até os alojamentos e o comandante deles foi até o alojamento de Dário, que já o aguardava na entrada.

_ General, meus homens chegaram e estarão ao seu dispor pelo amanhecer. _ Disse o jovem comandante.

_ Ótimo comandante. Mas eu preciso de dois dos seus ainda hoje. _ Disse Dário.

_ Claro senhor, mas posso perguntar o porquê?

_ Sim, eu tenho uma missão designada pelo seu próprio rei. Eu vou caçar o demônio Figrod e preciso de um homem que conheça seu paradeiro e um homem rápido, capaz de correr de volta à cidade em caso de necessidade.

_ Claro senhor. _ Disse o comandante e então entrou em meio aos soldados enfileirados. Após alguns instantes ele voltou com dois homens, um deles tinha uma estatura baixa e cabelos longos enquanto o outro era um pouco mais alto e tinha uma barba com fiapos grisalhos que cobria parte de seu rosto, junto com os cabelos também longos.

_ Esses aqui são Tongüil e Ferian. Meu melhor corredor e um dos homens que sobreviveram a um atque de Figrod, respectivamente. _ Disse o jovem comandante.

_ Muito bem. E o seu nome seria? _ Perguntou Dário.

_ Regian, senhor.

_ Ótimo, Regian. Não se preocupe com seus homens, eles têm mais chances de voltar vivos do que eu.

_ Eu confio no senhor, boa sorte. _ Disse Regian, e com uma longa reverência se despediu de Dário, deixando seus dois homens para trás e se dirigindo ao centro da cidade, de onde cada um iria para sua casa.

_ Muito bem, me acompanhem! _ Disse Dário aos dois homens.

Dário bateu à porta do alojamento onde se encontrava Hoth e ordenou que esse fosse chamar também Eldion, Tegon e mais três dos melhores soldados, sendo um de retaguarda, para que se reunissem na área de treino dos alojamentos.

_ Muito bem, vocês foram chamados aqui para cumprirem uma importante missão. Nós fomos incumbidos da tarefa de eliminar aquela criatura que nós encontramos na floresta. Criatura essa que vem a ser um demônio antigo. Não precisarei entrar em muitos detalhes, basta que vocês sigam minhas ordens e tudo sairá bem. Nós partiremos assim que vocês tiverem se equipado, a missão deverá ser finalizada antes do amanhecer. Então vão e se preparem.

Todos então de dispersaram e foram se equipar o mais rápido que podiam, com a exceção de Dário e dos dois soldados Tévios, que já estavam equipados.

Poucos minutos depois, todos estavam reunidos novamente, prontos para partir.

A caminhada na floresta se tornou algo mais rápido com uma menor quantidade de homens e a ajuda de um guia. Rapidamente então, Dário e sua comitiva chegaram a uma pequena caverna. A caverna exalava um odor fétido e amedrontava qualquer um que se aproximasse. O chão estava coberto de ossos e partes de corpos humanos. Mas ao olhar para cima, Dário pôde lembrar do que vira no acampamento algumas noites atrás. Dezenas de partes de pessoas estavam penduradas nos galhos das árvores e alguns ainda pingavam sangue, dando a perceber que havia novas vítimas. Então, os nove homens munidos de apenas uma tocha, seguiram caverna adentro para procurar o demônio desgraçado.

Quanto mais desciam, mais fedido se tornava o ar, com as partes podres de pessoas presas às paredes. Dário estava tonto e seu nariz já havia sangrado duas vezes desde que eles entraram na caverna. Ao que parecia, ele estava mais sensível àqueles odores do que o resto dos homens, mas eles continuaram ate que chegaram ao que parecia um pequeno salão na caverna. Ao longe, Eldion pôde ver, para o espanto dos demais, que a criatura dormia, encostada à parede.

_ E então, o que faremos agora? _ Sussurrou ele para Dário, que estava limpando o sangue do nariz novamente.

_ Nós devemos explorar as fraquezas do monstro. O fato de ele estar dormindo, por exemplo. _ Sussurrou Dário de volta. _ Hoth. Vá com cuidado até o demônio e tente bater com toda sua força na cabeça dele, enquanto o resto procura qualquer coisa para arremessar se for o caso dele acordar. _ E então, olhando para Tegon, disse:

_ Quanto a você, mire nas pernas da criatura e, mesmo se Hoth se suceder em atingir a criatura, atire! Algo me diz que isso não vai ser tão fácil quanto parece.

Então todos se prepararam, se armando com pedras, lanças antigas e ossos. Tudo o que podiam encontrar no chão daquela caverna escura e fedida e quando Hoth chegou a uma distância suficientemente próxima da criatura, levantou sua longa marreta e respirou fundo, preparando um golpe que seria capaz de transformar um homem de dois metros em um anão de trinta centímetros. Mas para a surpresa de todos, a criatura já estava acordada e com um rugido, se levantou. Hoth desferiu seu golpe, assustado e só conseguiu atingir (e decepar) um dedo da criatura. Tão logo ele desferiu o golpe, o demônio o arremessou contra a parede da caverna e saiu em disparada em direção aos outros membros da comitiva, que arremessavam loucamente, tudo o que podiam encontrar. Tegon disparou com habilidade uma flecha, que penetrou uma das patas dianteiras da criatura, que já mancava pelo golpe de Hoth derrubando-a e dando tempo para que Hoth se juntasse aos outros em uma retirada. Mas novamente a criatura os surpreendeu, ela ficou de pé somente nas patas traseiras e, mantendo a mesma velocidade, pôs-se a seguir os nove. A velocidade do demônio era maior do que a dos homens e ele logo os alcançou, desferindo um pesado golpe sobre Ferian, que por pouco se salvou. O golpe acabou atingindo uma estalactite e derrubando parte do teto da caverna sobre o monstro. Por um breve momento, o demônio ficou preso e, aproveitando isso, Tegon disparou junto com um de seus homens, suas flechas. Uma delas atingiu o ombro da criatura sem causar muita dor, mas a outra conseguiu perfurar um dos olhos de Figrod que, em um momento de fúria, se soltou. Logo que saíram da caverna, Dário deu ordens para que o seguissem. Durante cerca de uma hora, todos correram em meio à densa floresta até que chegaram a uma pequena clareira, onde fizeram uma nova tentativa de ganhar terreno sobre Figrod.

_ Rápido, preparem suas armas. _ Gritou Dário.

Figrod apareceu na clareira e quando viu os homens armados, parou e por alguns instantes eles puderam vê-lo sob a luz do luar. Figrod então arrancou uma arvore inteira do chão e ao invés de usá-la como arma, como todos esperavam que fizesse. Ele arrancou um pedaço dela com os dentes e pôs-se a mastigá-lo. Isso fez com que todas as suas feridas se curassem. Pasmo ao ver aquilo, Dário ordenou que o seguissem novamente e voltou a correr, floresta adentro. Por mais alguns minutos eles correram até que Figrod alcançou um dos soldados de vanguarda Aenoriano e não se ouviu mais nada. Mas Dário porém, sabia que ele havia morrido no exato momenteo em que Figrod o alcançara, ele sentiu o cheiro de sangue e isso o deixou muito surpreso, seu olfato estava muito aguçado naquela semana.

Os homens já beiravam a exaustão quando Figrod os alcançou novamente. Dário ordenou que continuassem em linha reta sem ele e então parou, se voltando para o monstro. Figrod, vendo naquilo um desafio também parou e se eriçou, a espera de um combate. Dário rapidamente voltou a correr, irritando profundamente seu oponente, que não percebeu a armadilha. Algumas centenas de metros depois, Dário se agachou e deu um golpe na pata dianteira de Figrod, que quase caiu mas, se apoiando na outra, continuou a perseguir Dário até que finalmente o alcançou. Ele pegou Dário com apenas uma mão e o arremessou metros à frente. Dário caiu de costas no chão e se levantou rapidamente com um sorriso no rosto, apenas esperando. O monstro saltou para cima dele, que deu apenas um passo para o lado e assistiu à magia dos deuses em ação. O monstro se transformou lentamente em pedra, até que sobrasse apenas uma estátua com um corte na perna. A corrida havia sido toda planejada por Dário, que era bom em estratégias rápidas, assim que saíram da caverna. Dário havia passado a noite toda estudando mapas da região e, assim que pôde ver a lua, soube em que direção correr para que saíssem da floresta o mais rápido possível. E ele sabia que, se provocado, o monstro não pensaria duas vezes em atacá-lo com tudo. Com um ato de genialidade ao invés de brutalidade, Dário venceu a criatura, perdendo apenas um homem e conseguindo algumas costelas fraturadas.

Tão logo chegaram na cidade, os nove homens se dirigiram ao palácio. O rei havia sido chamado assim que eles foram avistados pelas sentinelas, quando se dirigiam para a cidade e os aguardava atônito na porta do palácio.

Carregado pelos homens, Dário chegou com um sorriso e disse ao rei:

_ Pronto, seu demônio está morto.

O rei, pasmo, não sabia o que dizer por alguns instantes mas, ao ver Dário ferido, logo disse:

_ Venham ,entrem no palácio, eu tenho bons médicos e cirurgiões que podem ajudar-los com qualquer ferida que tenham conseguido.

Mas apenas Dário tinha alguma ferida que passava se simples arranhões, então foi levado à enfermaria do palácio para se tratar.

Após uma cirurgia estranha, que sofreu sob efeito de ervas e drogas anestésicas para consertar suas costelas. Dário recebeu a visita do rei.

_ Agora que está se recuperando, eu não queria que pensasse que sou apressado mas... Que presente deseja deste humilde rei que lhe deve a vida? _ Disse o rei.

Dário então finalmente conseguiu ver que colar era aquele que o rei usava. E reconheceu o mineral verde escuro que estava incrustado no centro.

_ Quero seu colar, meu rei. Se não lhe for muita perda. _ Disse Dário.

_ Não, claro que não, este colar foi recompensa de uma batalha que travamos contra os Samithenos há muito tempo. A única na verdade. Seria uma honra para mim que a usasse. _ Respondeu o rei, tirando o colar e entregando-o a Dário, que o recebeu como uma criança que acaba de receber um novo presente.

Na manhã do décimo dia após a cirurgia, Dário estava estranhamente cicatrizado. O que causou espanto nos curandeiros, que diziam que levaria cerca de um mês para que ele pudesse tirar as ataduras. Dário estranhou também, mas não tinha muito tempo e então tratou logo de se despedir de todos, agradecendo devidamente os cuidados dos cirurgiões e curandeiros e, sob uma festa que já durava três dias, partiu com seus novos aliados em direção a Samith, em direção ao seu destino.

Notas finais
Ufa! Reviews please. Eu kero saber se gostaram...