Lança-de-vento
1 Capítulo 1-Purificação
As primeiras estrelas já apareciam no céu que escurecia quando o exército de Muufir foi avistado ao horizonte. Todos os soldados de Dário já se empertigavam e se animavam à espera de um combate. Embora os combates noturnos não fossem a especialidade do exército Aenoriano, ninguém estava com ânimo para esperar a aurora e o inimigo já havia demonstrado sinais de fraqueza ao deixar o ultimo acampamento com tanta pressa que deixaram boa parte dos suprimentos para trás. O que agradou muito ao exército perseguidor, pois Dário já precisara ordenar o inicio do racionamento de alimentos a seus oficiais alguns dias atrás.
Quando a noite finalmente caiu, eles chegaram a uma clareira em meio à floresta de Dunilan quase na fronteira entre Aenor, o reino tão adorado por Dário, cuja capital era Ergellion, “a cidade de prata” e Samith, reino de um povo maltratado por um líder cruel e sujo, um povo que há muito, os Aenorianos vêm sonhando em libertar. Se eles chegassem a cruzar a fronteira, Dário seria obrigado a dar meia volta e abandonar a campanha, pois o rei jamais permitiria ou financiaria uma campanha nas terras secas e áridas de Samith. Eles tinham sorte e Dário já vira sinais demais de que o inimigo continuaria suas incursões saqueadoras se ele não os detivesse. Era hora de acabar com aquilo.
Muufir já havia parado e seu exercito preparava um acampamento rápido, sem defesas, que seria facilmente devastado pelos Aenorianos. Dário ordenou que dois de seus batedores fizessem um reconhecimento pela região e nos arredores do acampamento de Muufir, os Aenorianos é que iriam dormir naquele acampamento a noite.
Alguns minutos mais tarde, os batedores voltaram com boas e más noticias. A boa: o terreno lhes dava vantagem sobre a cavalaria de Muufir já que era muito cheio de rochas e arbustos. E a ruim: O acampamento de Muufir era apenas um disfarce e ele movia tropas para trás das linhas de Dário e deixara apenas sua infantaria no acampamento para distraí-lo. Ao ouvir isso o rosto de Dário iluminou-se e ele sorrindo disse:
_ Nós temos sorte por ter um inimigo tão estúpido quanto Muufir...
_ Eu não entendo senhor, por quê? _ Perguntou um dos batedores.
_ Simplesmente porque a área que nos rodeia como vocês já devem ter percebido é muito irregular e como você mesmo me disse Godfrey, o campo de batalha e desfavorável a qualquer carga de cavalaria. Antes mesmo de nos atingir, ele já terá perdido pelo menos trinta por cento de seus cavalos para o terreno irregular, sua carga seria obrigada a acontecer a uma velocidade mais baixa, o que facilitaria a manobra de nossa retaguarda. _ Respondeu Dário, enquanto seus batedores, perplexos, faziam reverência e se retiravam para que se começassem os preparativos.
_Dois mil contra Três mil e quinhentos!? _ Exclamou sem entender Hoth, um homem de notáveis estatura e força e um cabelo negro como a noite que ele sempre deixava o mais curto possível e um rosto que, apesar das cicatrizes, aparentava ser amigável. Hoth era como um irmão de Dário e era o único que se sentia a vontade para falar sobre certas coisas com o general.
_ Sim, Hoth... Se essa é a única forma de defendermos a honra de Aenor, assim será! A cidadela de prata nunca deixará seus filhos morrerem, ainda mais por causa de saques de bárbaros como os Samithenos de Muufir. Eu morreria antes de permitir que isso acontecesse! _ Disse Dário, mostrando traços de cansaço devido à perseguição que já se estendia por mais de uma semana. _ Vamos logo, os planos já foram feitos.
E dizendo isso colocou seu elmo sobre a cabeça. Era um elmo de base relativamente simples, mas o que mais encantava as pessoas era sua fronte, decorada com penas feitas de prata formando um “M” sobre o nariz e com detalhes em ouro branco nas bordas, que combinado com a tradicional capa azul de general dava a Dário um ar altivo, quase heróico.
Quando saiu de sua tenda de comando, Dário já podia ver seus homens se organizando em filas e blocos quase perfeitos, o que deu certo orgulho de si mesmo, que começou apenas como um simples ferreiro na vila de Carid, que era próxima à cidadela prateada de Ergellion. Se transformou no primo-general de Aenor e do rei Tuor, subindo a partir de um simples soldado raso da Nona de lanças quando o exercito ainda não tinha a organização simples e eficiente que tinha atualmente. Mas não havia tempo para lembranças do passado agora, seu exército estava pronto para o combate e o inimigo já devia estar próximo.
Quando Dário viu que a infantaria de Muufir já se movia ele ordenou que os corneteiros soassem a nota de marcha. Ao soar a nota, dois mil homens iniciaram a marcha como se fossem um só, numa clara demonstração de disciplina e anos de treino.
Mesmo com a vantagem do terreno irregular, Dário ordenou que durante a marcha, fossem colocadas pequenas estacas e alguns dos projéteis que os homens carregavam em direções aleatórias, para atrapalhar ainda mais qualquer força que fosse mandada na tentativa de flanqueá-los. Quando a uma distância de aproximadamente trezentos metros do inimigo, Dário ordenou que entrassem na formação de combate -A vanguarda, que era composta por besteiros que, além das bestas, eram equipados com escudos e espadas de uma mão, capazes de formar uma muralha de escudos se necessário, ficava a frente do exército enquanto a retaguarda, que era composta por arqueiros, que, além dos arcos, eram equipados com duas espadas de uma mão, usadas com agilidade e maestria para atacar os flancos do inimigo ou uma infantaria leve se necessário, ficava na retaguarda e\\ou nos flancos, dependendo da necessidade. Os exércitos eram sempre compostos de números proporcionais de vanguarda e retaguarda e somente oficiais eram autorizados a usar qualquer tipo de equipamento que não fosse o padrão- e seus homens rapidamente se reorganizaram. A moral já estava alta em seu exercito mas Dário nunca perdia uma oportunidade de fazer um discurso, então já se adiantou e ficou entre suas forças de retaguarda e vanguarda e começou:
_ Homens! Ergam-se perante o inimigo, pois o combate se aproxima! Numa noite que se tornará tão negra para eles ao ver nosso exército prateado no campo, uma noite que ficará como um espinho na memória de cada Samitheno que venha a se abrigar aquele buraco que eles chamam de país, fazendo aquele povo sofrer enquanto vivem na luxúria. Nós vamos hoje esmagar os últimos dos vermes que por muito nos incomodam com saques e ataques. Nós somos Aenorianos e nunca cairemos perante nenhum inimigo seja ele forte o quanto for... nós sempre o enfrentaremos como enfrentamos há anos e como enfrentaremos hoje. Vida longa a todos vocês, façam com que esses malditos aprendam que Aenor não é um país de fracos!
Ao ver a reação de seus homens, Dário pôde perceber que seu discurso foi suficiente para deixar seus homens quase sedentos por sangue e decidiu que já era hora de se iniciar aquele combate.
_Eu quero que a vanguarda forme uma fileira dupla e, ao toque da corneta, entre na formação de muralha de escudos com quatro filas de profundidade!_ Disse Dário aos seus oficiais. _A retaguarda será dividida em três partes. Uma central, voltada para a frente e que irá conter a maior parte das tropas e duas laterais viradas para as diagonais exteriores traseiras já preparadas para o momento em que nos flanquearão.
Os homens já carregavam seus arcos e bestas quando foi ouvida a corneta do inimigo, que os incitou ao avanço rápido. Nesse momento a primeira leva de flechas dos arqueiros de ambos os lados fora disparada, enquanto os besteiros da vanguarda Aenoriana aguardavam a aproximação do inimigo.
Depois de mais dois disparos dos arqueiros, com poucas baixas do lado Aenoriano, os inimigos já estavam a menos de cinqüenta metros da vanguarda e Hoth e os outros capitães da vanguarda ordenaram que os besteiros disparassem. Uma onda de morte se espalhou pela linha de frente inimiga quando estes estavam começando sua carga, o que os fez hesitar, mas somente por tempo suficiente para que os homens da vanguarda Aenoriana pudessem guardar suas bestas nos suportes às suas costas e se equiparem com os escudos e espadas. As cornetas soaram tarde demais. Não houve tempo para que a vanguarda entrasse em formação de muralha de escudos e por alguns instantes houve caos na linha de frente da vanguarda que, em meio a esse caos teve várias baixas. Mas não demorou muito para que a vanguarda conseguisse se organizar na formação desejada e a partir daí, o combate se intensificou nas linhas de frente com uma vantagem gritante para os Aenorianos. As cimitarras e lanças que a desorganizada e leve infantaria dos Samithenos carregava não eram suficiente para sequer causar danos aos escudos Aenorianos, que foram usados para empurrar e golpear brutalmente os inimigos enquanto uma estocada de espada era preparada por trás deles. O combate já ia se estabilizando quando um segundo toque de cornetas Samithenas foi ouvido pelos homens e do meio das matas próximas, milhares de cavalos surgiram a galope com um som que parecia um trovão numa noite quieta. O chão se estremecia com um número enorme de cavaleiros. Um número grande demais para ser parado a tempo e o que se seguiu foi um caos quando os primeiros cavalos caíam devido ao terreno e às armadilhas colocadas pelos Aenorianos. Os que vinham logo atrás não podiam fazer nada a não ser rezar para não cair em uma das estacas e conseguir seguir a marcha ao menos a pé.
Apenas cerca de mil cavaleiros do que aparentava ser uma força de aproximadamente três mil sobraram vivos, fossem montados ou não. Mas logo foram atingidos por uma chuva de flechas vindas da retaguarda Aenoriana que, sedenta de sangue já sacava suas espadas e corria em formação dispersa em direção aos cavaleiros. Dário nada fez para impedí-los, mesmo quando alguns eram pisoteados pelos poucos cavalos que sobraram, pois eles eram capazes de vencer ali. Sua atenção estava voltada para sua vanguarda que se dobrou diante dos inimigos, o que o surpreendeu. Como poderia uma infantaria leve como aquelas dobrar a vanguarda mais bem treinada de Aenor? Foi quando em meio à confusão ele pode ver o que causou tudo aquilo, a guarda pessoal de Muufir, que usava armaduras espessas de cobre e aço que cobriam todo o corpo e atacavam com maças e escudos redondos de bronze puro. Eles usavam elmos que aparentavam serem barbatanas de peixe e máscaras que lhe cobriam o rosto até a altura dos olhos, máscaras que completavam o aspecto de peixes na cabeça dos homens que as usavam, interessando muito a Dário.
Vendo que se continuasse assim, suas filas se romperiam, Dário logo ordenou que a vanguarda se abrisse nos flancos, o que deu uma mobilidade maior para seus homens que logo se voltaram em direção ao centro da confusão na tentativa de flanquear a guarda de Muufir. O combate não se prosseguiu por muito tempo até que finalmente a vanguarda dos flancos conseguiu vencer a infantaria leve Samithena e a moral dos guardas se quebrou e os poucos homens que lhes restavam se renderam, entre eles estava o próprio Muufir.
Dário ordenou que seus homens desarmassem o inimigo e que colocassem todos de joelhos em fila e quando terminaram já foi direto para o rosto familiar de Muufir.
_ Para quem já foi considerado temido você está muito encolhido, Muufir. Eu espero que saiba que sua arrogância levou seu país a uma guerra da qual ele não sairá vivo. Assim como eu espero que aconteça com você... amarrem-no!
Enquanto seus homens amarravam o relutante Muufir, Dário removeu seu elmo e se postou diante dos soldados Samithenos com um olhar de desprezo, e depois de tantos anos de guerra contra aqueles homens, não conseguiu pensar em outra coisa para dizer senão “Matem todos eles!”. Sua ordem foi seguida com certa hesitação por seus homens, mas depois que o serviço havia terminado, todos estavam se sentindo mais leves e até o cansaço que Dário aparentava havia sumido, mesmo que somente superficialmente.
Naquela noite não houve festas nem muita exaltação por parte dos soldados, que somente comeram e foram dormir. Dário apenas ordenou que uma pequena paliçada fosse erguida ao redor do acampamento e entrou na tenda principal, onde Hoth o esperava com um olhar frio que provocou um arrepio em Dário.
_ Vamos conversar amanhã pela manhã, Hoth. Estou muito cansado hoje para qualquer que seja o assunto. _ Já foi dizendo Dário.
_ Me desculpe senhor, mas é que... é um assunto de interesse do senhor. _ Disse Hoth.
_ Prossiga então. _ Disse Dário pegando um copo e enchendo-o com a bebida encontrada em barris pelo acampamento inimigo.
_ É sobre sua esposa, ela manda noticias de Ergellion. Ela mandou uma carta e este objeto. _E Hoth tirou de seu casaco um pano que envolvia um objeto menor e o entregou a Dário, que logo o desenrolou. Era uma adaga muito ornamentada, com o cabo de prata com o desenho de um dragão que tinha safiras nos olhos. Um presente de sua esposa! Era uma boa noticia por si só já que o casamento tivera que ser arranjado às pressas devido a sua campanha, que começara a cerca de 2 meses.
_ E a carta, onde está? _ Perguntou Dário.
_ Aqui senhor. _ Disse Hoth entregando a carta a Dário.
Após alguns minutos lendo a carta os olhos de Dário se iluminaram e um sorriso surgiu em seu rosto.
_ Eu serei pai... Pai, Hoth! Eu serei pai! _ Disse Dário, quase sem acreditar no que tinha lido. Após alguns instantes olhando vagamente para o que parecia ser o seu futuro, Dário deu um abraço em seu amigo de infância e saiu da tenda.
_ Hoje eu não consigo dormir. _ Disse com alegria enquanto se dirigia a um dos postos de vigia para pegar o primeiro turno junto com um de seus soldados, o que não era raro, não fosse a ocasião.
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