Lança-de-vento

2 Capítulo 2-Quebra de rotina


Dário já sentia os ventos gelados que marcavam o início do inverno enquanto passeava no centro do acampamento em que já estivera abrigado por mais de uma semana após a batalha. Por ordem do rei, Dário foi incumbido de fortificar a posição, transformando o acampamento em um pequeno forte fronteiriço e seus homens já trabalhavam há dois dias e um pouco de progresso fora feito. No lugar de uma tenda, uma pequena casa de pedra com telhado de madeira foi erguida para o general e seus oficiais.

Ao passar pelo arco do que seria o portão do forte um dia, Dário avistou Hoth, que gritava com alguns homens e resolveu descobrir do que se tratava, mas ao se aproximar os homens baixaram a cabeça enquanto Hoth já se adiantava para falar.

_ Senhor, eu peguei estes dois aqui se esgueirando próximos à casa de comando.

_ O que vocês pretendiam fazer? _ Perguntou Dário, com um tom mais tranqüilo que seus dias de descanso lhe proporcionaram.

_ Perdão senhor, é que ele queria bisbilhotar sua reunião e eu estava tentando trazê-lo de volta. _ Disse um dos homens e o rosto do outro mudou de tal forma que confirmou o que fora dito.

_ Vocês têm sorte de eu não estar de mau humor hoje e de aquela reunião não ser para nada além de discussões sobre a construção do forte, portanto não receberão uma punição muito pesada. Eu quero que você limpe as latrinas durante uma semana._ Disse Dário ao homem que teoricamente não havia bisbilhotado. _ Mas quanto a você, soldado, eu quero que o ajude na limpeza e você também será encarregado de afiar as armas e polir as armaduras de todos os soldados. Apresente-se ao ferreiro e transmita esse recado a ele. _ Disse Dário ao outro, já seguindo em seu passeio matinal sem que seu tom de voz mudasse em nada.

Os homens apenas assentiram, fizeram uma reverência e se retiraram cabisbaixos para iniciar seus novos serviços no futuro forte.

Ao sair do perímetro do acampamento, Dário fez uma curva para o leste, em direção a um pequeno córrego que passava a uns duzentos metros dali. Ele caminhava sem guarda, confiante por ter derrotado o grosso das forças Samithenas, mas não parecia se lembrar de que estavam próximos ao território inimigo e que estaria sujeito a um atentado a qualquer instante. Provido apenas de sua nova adaga, ele saiu em busca de água e ervas para os feridos que se recompunham no acampamento.

Ao se aproximar do córrego, Dário ouviu um ruído que aparentava ser de passos à sua esquerda e quase não teve tempo de se virar quando viu um machado passar a poucos centímetros de seu peito, fazendo um ruído alto enquanto cortava o ar. Num impulso para se defender, Dário saltou para trás sem pensar e acabou pisando em uma armadilha que o içou pelos pés de ponta cabeça. Dessa vez conseguiu ver de quem partiu o ataque e num momento de fúria misturada com medo, Dário forçou sua cabeça para cima e seus braços conseguiram alcançar a corda que o prendia. Ele então agarrou com força a corda com sua mão esquerda enquanto levava a direita ao cabo da adaga, foi quando sentiu uma pancada nas costas que o fez perder o fôlego, caindo de volta na posição inicial, de ponta cabeça e viu pouco do que se seguiu após o homem maldito lhe atingir com o cabo do machado na nuca.

Já era quase noite quando Dário acordou atordoado e, procurando em sua cintura pela sua única proteção, viu que havia sido saqueado. Quando finalmente decidiu olhar em volta e se localizar, viu que o homem que o atingira estava próximo a uma fogueira, no centro do que parecia ser uma espécie de caverna-casa observando seu mais novo “brinquedo” e não percebeu que seu prisioneiro havia despertado. Dário tentou aproveitar a chance e escapar, mas quando tentou se colocar de pé, percebeu que estava preso pela perna a uma rocha no chão da caverna e acabou caindo. Ele tentou se levantar para procurar algo cortante e se libertar, mas já era tarde demais, pois o homem já andava em sua direção com a faca em punho. Dário recuou com os braços no chão e lutou desesperadamente para se livrar da corda, mas ela estava muito bem amarrada, quando o homem chegou perto ele usou as mãos para se levantar. Antecipando sua morte, Dário resolveu discutir com o homem inutilmente, pois este não entendia sua língua. O homem já levantava a faca, apertando o passo quando ambos ouviram um estalo seguido de um sibilar, um som familiar para Dário, que viu o rosto retorcido do homem tentando dizer algo em sua língua nativa antes de cair no chão com uma flecha cravada no flanco esquerdo e atravessando até sair do outro lado passando exatamente pelo coração. Ao olhar para a saída da caverna, Dário pôde reconhecer um de seus capitães de retaguarda, Tegon. Tegon era um dos seus mais novos oficiais. Ele havia acabado de sair das linhas da retaguarda e era um jovem ágil e habilidoso com o arco, havendo percebido o sumiço do general enquanto fazia sua patrulha pela região do córrego chamou quatro de seus melhores atiradores e saiu à procura de Dário que, por sorte, foi encontrado a tempo.

Ao sair da caverna, Dário percebeu que Tegon estava ferido e exausto, o que o surpreendeu. Saber que havia tanta lealdade em seus homens o fez refletir durante dias depois do ocorrido.

_ Eles queriam usá-lo para negociar nosso rendimento. Tinham um acampamento não muito longe daqui, senhor. Tivemos que lutar para libertá-lo e quando o líder percebeu que havia sido derrotado, pegou o senhor e fugiu. Nós o seguimos até esta caverna e por sorte chegamos a tempo. _ Disse Tegon, ao perceber que Dário observava suas feridas.

_ Eu nem sei o que dizer, Tegon... Você salvou minha vida. _ Disse Dário enquanto se livrava das amarras._ Vamos voltar ao acampamento, você precisa de medicamentos e o trabalho precisa continuar.

Ao dizer isso, Dário pegou sua adaga da mão do cadáver e partiu sem olhar para trás.

Naquela noite, Dário foi acometido por pesadelos horríveis, nos quais sua família era executada em sua frente e ele nada podia fazer a não ser assistir aos horrores feitos, impedindo que dormisse. Já devia estar prestes a amanhecer quando ele desistiu de tentar dormir e saiu para um novo passeio.

Quando saiu, Dário avistou ao longe, Hoth, que confraternizava com um dos homens e resolveu se unir a eles.

Ao ver Dário se aproximando, Hoth fez uma saudação e com um sorriso disse:

_ Pelo visto não é o único aqui com sono curto.

Não querendo preocupar Hoth com seus pesadelos, Dário simplesmente assentiu com um sorriso leve e se sentou com os homens.

_ Já que está de pé, eu gostaria que continuássemos aquela nossa conversa. _ Disse Hoth.

_ Conversa? _ Perguntou Dário, já sabendo qual seria a resposta.

_ Sobre os artefatos.

_ Já esperava que fosse isso, Hoth. Como eu não me lembro onde nós paramos, vou explicar desde o começo... Bom, foi numa noite de inverno a cerca de treze anos, quando eu ainda era um ferreiro recém chegado na vila. Eu já estava fechando a oficina quando vi um clarão de luz azulada vindo dos céus, sobre as nuvens. Eu nunca tinha visto tal coisa, uma esfera de fogo que parecia ter sido cuspida por um enorme dragão atravessou o céu lentamente e quando caiu, um enorme tremor pôde ser sentido por todos. Ninguém na vila teve coragem para ir ver o que era aquilo. Mas eu, no auge da juventude, não hesitei em me enfiar na floresta a procura do local da queda daquele objeto. _ Disse Dário, e então pegou um copo e o encheu com o vinho que havia acabado chegar de Ergellion e tomando um demorado gole antes de prosseguir.

_ Quando eu cheguei ao local da queda, havia muita poeira e fumaça. Eu esperei e quando tudo se dispersou, eu pude ver, uma rocha negra como a noite e que brilhava como se fosse de vidro. No começo, tive medo de me aproximar, mas quando reconheci que ela poderia ter algum valor como metal, logo me adiantei. Ao tocar nela, outra surpresa. A rocha que havia apenas alguns instantes soltava fumaça e chiava de tão quente estava agora tão gelada quanto uma noite de inverno. Eu voltei correndo para a vila e, sem falar nada para ninguém, fui a minha oficina buscar uma corda, eu precisava testar aquele mineral. De alguma forma, ele me atraía.

_ Eu preciso começar meu turno na vigia, obrigado pela história senhor. _ Disse o homem que estava com eles e, fazendo uma saudação, se retirou para o serviço.

_ Continue, não pense que um ouvinte a menos vá tirar o interesse do outro. _ Disse Hoth. Dário tomou mais um gole do vinho, respirou fundo e prosseguiu.

_ Eu levei aquele estranho mineral durante a madrugada para minha oficina e tentei derrete-lo, o que foi a parte mais difícil. O mineral era tão resistente que eu quase incendiei minha oficina tentando derretê-lo, levando horas para conseguir. Ao amanhecer eu finalmente consegui, eu adquiri apenas uma pequena quantia de metal puro se comparado ao tamanho da rocha na qual veio, um material esverdeado e escuro quase como uma jade impura. Apenas sete artefatos foram feitos, dentre eles, minha lâmina dupla, que alguns chamam de Lança-de-vento.

_ Lança de vento? De onde surgiu esse nome? _ Perguntou Hoth, interessado.

_ Simplesmente porque essa lâmina pesa menos que um bastão de madeira, ela é tão leve quanto o vento e igualmente rápida. Eu não sei da onde veio aquele mineral, mas parece ter poderes mágicos. Cada um dos 7 artefatos tem uma característica especial e um dos motivos para eu estar aqui hoje com você é que aquele desgraçado do Muufir roubou os outros 6. Eu soube que ele os vendeu em Lortigon, uma cidade cuja população é quase toda formada por bandidos de todos os tipos e que tem saída para o mar, portanto é o ponto preferido para a venda de saques. Eu entrei no exército depois disso, sem esperanças, mas com o sonho de um dia, recuperar meus artefatos. Por isso não matei Muufir. Mas já chega de histórias por enquanto, eu tenho planos a fazer e você tem homens a comandar, bom dia Hoth.

Com isso Dário voltou à casa de comando e Hoth foi para seu serviço de supervisão no portão.

Notas finais
Vou ficar cerca de um mês sem postar. Desculpa negada + são os estudos.