Lamb of God
2 Capítulo 2 - Roman Godfrey
Notas iniciais
Ele não respondeu. Apenas passou seus olhos por mim novamente, ajeitando-se em sua cadeira de couro. Aceitei aquilo como um sim, pigarreando e logo pegando meu gravador, e minha agenda de anotações em minha bolsa, antes de voltar minha atenção ao homem a minha frente, com um sorriso forçado. Roman me deixava desconfortável, por alguma razão.
— Bem Sr. Godfrey, quero começar essa entrevista te perguntando como se sente sendo o bilionário mais novo da América? E como lida com as críticas que eventualmente enfrenta por sua pouca idade? — Comecei, alternando minha atenção a agenda e a ele várias vezes.
O loiro ajeitou-se novamente em sua cadeira, curvando-se levemente para frente, me encarando com seus olhos penetrantes e soltando um longo suspiro antes de começar a falar.
— Nada. — Ele respondeu com um sorriso irônico nos lábios — Não sinto nada a respeito disso. Essa é a vida a qual fui preparado para ter, então... Nunca fez diferença. — Sua resposta ácida me deixou desnorteada por um momento. A arrogância de Roman fazia meu sangue ferver eventualmente. — Sobre sua outra pergunta. — Ele continuou, fazendo-me prender meus olhos nos seus por longos segundos. — Eu 'tô pouco me fodendo para as críticas. Sou o bilionário mais novo da América, como você mesma disse, porquê eu me importaria com as críticas?
Ele tinha um ponto válido, mas não era a resposta que esperava dele. Logo nos primeiros minutos, percebi que aquela entrevista seria um fracasso. Friccionei os dedos na testa, pensando na confusão que havia me metido, querendo tomar a frente de uma entrevista com um Godfrey. A fama daquela família nunca foi uma das melhores, e os Estados Unidos inteiro parecia saber daquilo, principalmente depois do misterioso suicídio de seu pai, o fundador da Godfrey Institute.
— Desculpe, eu posso falar "fodendo" na entrevista? Senão, você pode mudar para algo mais apropriado. — Seu sorriso cínico dançava em seus lábios, como se estivesse se divertindo com meu nervosismo aparente.
— Você pode falar o que lhe for conveniente para a pergunta, Sr. Godfrey. — O encarei de volta, dessa vez com uma confiança desconhecida até mesmo por mim mesma.
Ele me irritava. Meu sangue borbulhava por sua arrogância. Mas eu já devia esperar aquela atitude, afinal, era só um moleque com muito dinheiro. Não que nossa diferença de idade fosse grande, mas ele agia como um garotinho que queria mostrar seus brinquedinhos e todas as suas regalias para as outras crianças do parquinho. Um verdadeiro riquinho de merda. Mas, como estávamos ali, eu precisava continuar a entrevista para acabar com aquele circo logo.
— Próxima pergunta. — Disse, olhando agora para minha agenda de anotações. — Como você lida com a pressão que lhe é depositada por ser responsável por todo o executivo? — Tive coragem de encará-lo novamente, com o semblante sério, sentindo meus olhos arderem numa fúria quase sobrenatural.
— De qual pressão está falando? — Ele disse, antes de soltar um riso nasal e me olhar de canto. — Meu trabalho aqui, Srta. Williams, é garantir que o Instituto continue com seu progresso, e para isso, eu tenho um grupo muito bem organizado para me ajudar. Eles só precisam da minha autorização, assinar papéis não parece nem de perto algo de grande pressão pra mim.
Ele terminou sua sentença, apoiando o rosto em ambas as mãos cruzadas enquanto novamente aquele maldito sorriso estampava seus lábios. Qual era a dele? Queria me enlouquecer? Descobrir os limites da minha raiva? Ou simplesmente não queria aquela entrevista que, para ele, parecia tão estúpida, assim como eu naquele momento.
— Certo. — Suspirei pesado, desviando meu olhar do dele. Não dava. Parecia que ele queria me ver surtar, ou fazer algo fora do comum para simplesmente me demitirem. Roman Godfrey parecia querer minha cabeça, mesmo sem saber nada sobre mim. — Agradeço seu tempo Sr. Godfrey, acabamos por aqui. — Me levantei rapidamente, guardando meus materiais com pressa.
Aquela entrevista tinha sido um fracasso, a pior de todas as que já tive que fazer. Roman era ácido, cínico e arrogante, qualquer pergunta lhe parecia uma ofensa pessoal, o que tornava meu trabalho difícil por ali. Ficaria na cidade por mais alguns dias, infelizmente, porque o hotel não aceitava check out antes do combinado. Mas acreditava que Hemlock Grove tinha muito mais a me oferecer do que um mesquinho rico.
— Já? Nossa essa foi a entrevista mais entediante que eu já tive de dar. — Ele disse, jogando seu peso no encosto da cadeira e soltando um riso baixo, como se me achasse uma fracassada.
— Sim, já. Geralmente pessoas sem conteúdo e entediantes não rendem boas matérias. E o New York Times é um jornal de prestígio. Não precisamos de nenhum moleque mimado e metido a chefe em nossas paginas. Passar bem, Sr. Godfrey. — Coloquei minha bolsa em um dos ombros, e dei as costas para o rapaz, sem nenhuma cerimônia.
Sabia que o que tinha falado poderia me custar caro, toda minha carreira e prestígio que conquistei ao longo de meus vinte e um anos. Começar do zero não era uma opção, nem de longe. Mas Godfrey havia me humilhado, como se minhas perguntas fossem questionamentos supérfluos ou entediantes, como o mesmo disse. Mas eu estava interessada em saber como um rapaz tão jovem conseguia ser tão bem sucedido, além de claro, uma bela herança.
Enquanto fechava a porta de vidro atrás de mim, dei uma última olhada para Roman, e um sorriso diferente tomava seus lábios. Dessa vez não era cínico, muito menos irônico. Parecia um sorriso de verdadeira satisfação. Senti um arrepio na espinha e fiz meu caminho para fora da grande torre. Mal podia esperar para ir para o hotel e esquecer que aquela entrevista havia acontecido. Ou para algum bar, onde pudesse realmente esquecer aquela entrevista. Fodam-se os Godfreys.
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