Lamb of God

3 Capítulo 3 - Peter Rumancek


Entrei no carro sentindo uma fúria tomar conta de mim. Qual era o problema daquele moleque?! Eu só estava ali fazendo meu trabalho. Idiota, idiota, idiota! Balançava a cabeça em negação enquanto franzia o cenho de raiva, andando em modo automático até meu carro. Abri a porta e joguei a bolsa no banco do passageiro, fechando a porta com mais força do que devia. Segurei o volante com força, antes de começar a bater no mesmo, como uma forma de aliviar meus sentimentos naquele momento. Suspirei, numa tentativa falha de tirar uma mecha de cabelo do meu rosto.

— Eu só posso estar ficando louca. — Murmurei, passando as mãos pelos cabelos, lembrando do sorriso final de Roman para mim.

Não fazia sentido. Aquele sorriso não era dele. Parecia uma pessoa totalmente diferente daquela que estava entrevistando. Hemlock Grove realmente era um lugar fodido, com pessoas mais fodidas ainda. Parei para pensar no quanto os moradores dali não ficaram apavorados com os assassinatos em série do ano anterior. Eu ficaria em pânico, com certeza. Queria garantir que minha estadia naquela cidade fosse mais breve possível. Mas sabia que depois do confronto com Godfrey, eu merecia um porre. E um dos bem dados.

Vi um bar que dava de esquina para um beco pichado e cheio de lixo. Não era um dos lugares mais convidativos da cidade, mas parecia oferecer o que eu estava buscando no momento. Estacionei o carro uma quadra de distância, fazendo o resto do caminho a pé com certa pressa. Entrei no local, e como já imaginava, o cheiro era insuportável. A maioria dos presentes eram homens — claro — e todos voltaram sua atenção a morena de roupa social na entrada. Pelo visto estava na cara de eu não era da região.

Me sentei no bar, sozinha, e pedi para o homem atrás do balcão uma dose grande de uísque. Aquilo me faria melhor, e com certeza toda minha raiva pelos Godfrey se dissiparia. Ou pelo menos esse era o efeito que eu esperava. Pedi um maço de cigarros também, logo pegando um e o prendendo entre os lábios antes de acendê-lo. Sentia a fumaça preencher os pulmões, fazendo meu corpo relaxar gradativamente enquanto a expelia devagar.

Tomei a oportunidade de olhar em minha volta, e encontrei vários velhos, provavelmente afogando mágoas e frustrações em vários copos de álcool. Mas ao fundo do bar, pude ver um rapaz, de cabelos longos e barba, fumando um cigarro e seu olhar parecia distante. Levantei rapidamente da banqueta do bar e fui em sua direção, logo sendo notada por ele, por conta de meus saltos barulhentos.

— Com licença, posso me sentar aqui? — Perguntei com um sorriso simpático, antes de tirar o moreno de seu transe.

— Fique à vontade. — Me respondeu, apontando para a cadeira em minha frente.

Não sabia dizer o que havia me chamado a atenção naquele rapaz. Talvez o fato dele ser o único mais novo dentro do bar? ou por estar isolado, assim como eu, e tão distante em seu olhar? Nunca saberia explicar.

— Irina Williams. Nova York. — Disse ainda com um sorriso, antes de virar a dose de uísque inteira, sentindo a ardência prazerosa descendo por minha garganta.

— O que alguém como você faz tão longe de casa? — Ele me perguntou, ainda com o semblante neutro. Não sabia ler suas expressões, muito menos seus pensamentos. Mas algo nele havia despertado minha atenção.

— Sou jornalista. Vim entrevistar o idiota do Roman Godfrey. Mas as coisas saíram do controle e eu agora estou aqui. — Respondi, tragando o cigarro mais uma vez, desviando o olhar do rapaz por poucos segundos.

— Típico dos Godfrey. Eles sempre fazem as coisas saírem do controle. — O rapaz me respondeu, sem manter contato visual, tragando também seu cigarro.

Naquele momento, não pude evitar olhá-lo com certa curiosidade. Aquela frase me deu a entender que o rapaz bem a minha frente conhecia os Godfrey bem mais do que eu imaginava. Mas eu estava tão cega por todos os mistérios que Hemlock Grove guardava que provavelmente foi só algo que minha imaginação criou.

— Parece que você o conhece bem, huh? Ele sempre foi um babaca arrogante assim? — Perguntei, olhando-o de canto enquanto soltava um riso descontraído. O que aquele rapaz tinha a me oferecer?

— Todos aqui conhecem Roman Godfrey, minha senhora. — Ele abriu os braços como em ênfase, com um sorriso enojado nos lábios. — E todos sabem da reputação dele e daquela família de sanguessugas do cacete.

'Tô vendo mesmo. — Disse ainda o olhando de canto, com o cenho franzido. — Me desculpe as perguntas sem sentido. Mal de jornalista.

O rapaz me encarou com seus olhos azuis gélidos, numa expressão neutra, mas que mostrava certa ferocidade. Apagou o cigarro no cinzeiro, espremendo os lábios, como se tivesse um gosto ruim na boca. Merda. Eu estava me superando em irritar as pessoas naquele dia.

— Você deveria ficar longe de assuntos que não te dizem respeito, minha senhora. — Ele disse, dessa vez de cenho franzido. — Hemlock Grove não é muito amistosa com turistas, é melhor tomar cuidado.

Ele se levantou abruptamente, fazendo um barulho ensurdecedor com a cadeira. Fiquei o observando, curiosa. Realmente, as pessoas daquela cidade não eram muito simpáticas, o que começava a me fazer pensar que Nova York conseguia ser mais amistosa do que uma cidadezinha na Pensilvânia.

— Isso foi uma ameaça? — Perguntei, levantando-me junto com ele, franzindo o cenho em desafio. Eu devo aprender a calar a minha boca. Com urgência. Principalmente nessas horas.

— Não, isso foi um aviso. De alguém que não quer ver mais tragédias. — Ele olhou para minha mão direita, logo voltando o olhar para me encarar — Você nem faz ideia do que é, e está no lugar errado para descobrir. É melhor pegar suas coisas e ir embora enquanto tem chance.

Minha cara de confusão apenas aumentou. Como o que eu era? O que ele queria dizer com aquilo? Mais tragédias? Será que ele esteve presente em algum dos assassinatos? Eu tinha tantas perguntas e estava tão confusa, que nem percebi o rapaz fazendo seu caminho para fora do bar, me deixando ali, parada em pé. Deixei o dinheiro em cima da mesa, e corri em passos pequenos, para tentar alcançá-lo.

— Ei! Espera aí! — Gritei quando vi os longos cabelos castanhos e a jaqueta de couro já desgastada.

Ele olhou para mim, logo parando no meio da calçada. Corri na direção do homem, sentindo meus pés latejarem. Merda, eu precisava aprender a não usar saltos para corridas.

— O que foi? — Seu tom ríspido mostrava que ele não tinha intenção nenhuma de continuar aquela conversa.

— O que você quis dizer com "eu não sei o que sou"? — Perguntei, encarando-o nos olhos, como uma criança que pede orientação.

O homem suspirou, olhou para os lados e coçou a nuca enquanto fechava os olhos com força. Ele parecia irritado, sem vontade de se explicar para mim, mas já que havia começado, sabia que tinha que colocar um fim naquela conversa.

— Em que hotel você está hospedada? — Ele me perguntou com pressa.

— Grand Plaza. Porque? O que isso importa? — Questionei-o novamente, ainda mais confusa.

— Se quer saber o que eu quis dizer, me encontre na frente do seu hotel às 7:30 da manhã. — Ele sussurrou, ainda com rispidez em suas palavras.

— Eu nem te conheço, nem sei seu nome. Como posso confiar em você? — Perguntei novamente franzindo o cenho em desconfiança.

— Vai por mim, eu sou a pessoa mais confiável desse buraco. Eu posso te ajudar. — Ele disse, dessa vez me dando um breve sorriso.

— Me ajudar...? Com o que? — Meus questionamentos só aumentavam a cada frase dita por ele.

Como eu precisava de ajuda? Como uma simples e casual conversa de bar tornou-se em algo quase místico e misterioso daquele jeito? Quem era aquele rapaz? Hemlock Grove estava me consumindo em sua loucura, e de algum modo eu estava me permitindo mergulhar nela, sem medir as consequências.

— Sete e meia. — Ele repetiu. — E meu nome é Peter Rumancek. É um prazer te conhecer, Irina.