Lagos Artificiais
25 Vinte e cinco
Nikita
Ela precisava dirigir com cuidado, o que menos precisaria naquele momento seria ser parada pela polícia. Sem falar, que só Deus sabia a origem do carro que ela estava, não poderia arriscar.
Já tinha perdido a noção de quanto tempo estava dirigindo. Mia e Ben adormeceram no banco de trás. Um misto de sentimentos invadiam seu coração e perturbavam sua alma. Medo e liberdade eram os mais fortes. Não sabia descrever como se sentia a se imaginar longe do Volker e do seu casamento. Seus filhos crescerem livres e felizes, sem motivos para medo ou temor de estarem separados.
De repente o carro parou. Ela tentou, tentou, mas nada do carro pegar novamente. Ficou nervosa. Desceu tentando descobrir o que havia de errado. Qual era o problema? Nikita não entendia nada de carro, mal sabia dirigir. Bateu um desespero, pensar o que fazer, a noite, no meio do nada, com duas crianças e sem ter a quem pedir ajuda, fez com que chorasse sentada no capô do carro.
— Nikita, o que você fez?
A consciência lhe pesou, e se algo de ruim acontecesse com quem mais amava em sua vida? Seus filhos? Nunca se perdoaria.
— O que vai fazer agora?
Estava tão perdida em pensamentos e lágrimas que nem ouviu o carro passando de vagar e parando.
— Boa noite.
Aquela voz fez seu corpo estremecer por inteiro, mas não era medo.
— Nikita?
Sim, ela conhecia aquela voz, enxugou as lágrimas para ver melhor. Levantou a cabeça e seus olhares se cruzaram.
— Michael?
Ela estava tão surpresa quanto.
Michael e Nikita:
Ele se aproximou dela. Eles não sabiam o que dizer numa mistura de sentimentos.
Uma vontade de tocá-la lhe bateu forte, e ela estava linda, tão linda. Tinha amadurecido, era uma mulher agora, muito mais linda de quando a conheceu alguns anos atrás. Cabelos curtos, nos ombos. Mas, a mesma boca sensual, os mesmos olhos expressivos, apesar de estarem avermelhados pelo choro, continuavam fascinantes. Queria abraçá-la e beijá-la.
— O que aconteceu? — Ele quebrou o silêncio.
— Não sei, o carro parou e não consigo fazê-lo pegar.
— Posso chamar o reboque …
Ela meneou a cabeça.
— É … é roubado.
— Está fugindo?
Ela ficou em silêncio. Ele sabia a resposta, era óbvio.
Estendeu a mão, acariciou seu rosto, ela não rejeitou o toque, apesar dele notar que estava magoada, colocou uma mexa de cabelo para trás de sua orelha.
— Ele lhe bateu?
— Não foi o único. — Desabafou, ressentida.
Ele sentiu ser traspassado pelo coração, como uma espada afiada, mas ela tinha razão.
— E para onde vai?
— Para uma antiga propriedade da minha mãe.
— É seguro?
Ela assentiu.
— Só por alguns dias … até eu poder sair do país.
— Venha, vou lhe dar uma carona.
Ela ficou paralisada por alguns segundos. Precisava dele, mas e agora? Ele descobriria.
— O que foi? É o mínimo que posso fazer por você …
— E eu agradeço, mas não é isso. Não estou sozinha.
Michael fez uma cara de dúvida.
Ela tocou em seu braço e o levou até a parte de trás do carro. Apontando para dentro. Ele olhou, estava escuro, e viu o que parecia ser duas crianças.
— São … meus … meus filhos.
Demorou alguns segundos até cair a ficha, então começou a pensar como ela devia estar desesperada, sair no meio da noite, em fuga, com dois filhos pequenos.
— Olhe … Não sei o que aconteceu, mas faço ideia, que não tenha sido nada bom. Aqui perto, o apartamento da minha irmã está vazio e ela não está no país, podem ficar lá por um tempo. O tempo que for necessário.
Apesar de ter odiado o Michael por um bom tempo, mais até que o seu marido, no momento ela não tinha opção. Era como se um milagre tivesse acontecido.
Nikita assentiu. Secou suas lágrimas, não queria que as crianças a vissem assim. Abriu a porta traseira do carro.
— Amor, quero que conheça uma pessoa.
— Tudo bem, mamãe.
Ela saiu do carro e Michael ficou surpreso quando viu uma miniatura da Nikita.
— Esse é um amigo da mamãe, o Michael.
— Oi Sr Michael. — Sorriu, admirando o homem alto.
Ele abaixou para ficar na altura dela. Não sabia explicar, estava emocionado e seus olhos encheram d'água.
— Pode me chamar só de Michael.
— Certo, Michael. — Sorriu. — Eu sou Mia.
— Mia? Porque é uma gatinha e é isso que uma gatinha faz, mia? — Ele brincou.
A menina riu com a piada. Fazendo Michael rir junto com aquele sorriso tão gostoso e fofo.
— Não, meu nome é Michelle, mas minha avó me chamou assim quando nasci, de Mia, porque ela disse que pareço muito com a minha bisavó, Mia Garnier.
— Sim, eu sei quem é, uma mulher extraordinária, excelente cantora, de quem as mulheres da sua família herdaram a beleza.
— Obrigada. — Disse orgulhosa após o elogio.
Enquanto conversavam Nikita saiu do carro com Ben, no colo.
— Esse é o Ben, está sonolento devido a medicação que tomou, está febril.
— Febril? Então é melhor irmos rápido.
Ela assentiu.
— Mia, por favor, me ajuda a pegar as suas coisas? — Pediu Michael.
— Ajudo.
Nikita deu alguns passos em direção ao carro dele, Michael e Mia pegaram as poucas das coisas que tinham levado e foram para o carro também. Ele abriu a porta e Nikita colocou o Ben. Deu a volta com Mia, ela entrou no carro.
— Não esqueça do cinto.
— Vou colocar. — Disse a menina esperta.
E guardou as coisas no porta-malas. Ele e Nikita se ajeitaram no banco da frente.
Mia vigiava seu irmão sonolento e os dois que estavam na frente.
Nikita e Michael não trocaram nenhuma palavra durante toda a viagem.
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