Naquela manhã, acordei cedo, ao menos para um final de semana. Eram 8h e os primeiros indícios de raios de sol passavam pelas cortinas, ofuscando boa parte da minha visão ainda sonolenta. Fiquei deitada por alguns minutos, pensando na noite anterior, sobre o que Melissa havia me dito de Frederick parecer interessado em mim e me indagando o que eles teriam pensado se realmente tivessem me visto na janela. Uma bisbilhoteira, com certeza. O típico da vizinha velha fazendo tricô e varrendo os olhos pela rua em busca de uma boa fofoca.

Andei até as janelas e as abri, afastando as cortinas, deixando o ar puro circular dentro do quarto. O dia parecia estar mais quente, ensolarado. Meu olhos correram para a casa dos novos vizinhos. Parecia tudo normal, a não ser por mais um carro estar estacionado em frente a casa. Fora isso, a rua parecia a mesma, tudo tão tranquilo. Dei meia volta e parti em direção ao banheiro, fiz minhas atividades matinais diárias e desci para a cozinha. A casa estava em silêncio absoluto, eu estava sozinha, definitivamente.
– Mãe? — Testei para ter certeza. Nenhuma resposta.

Havia um bilhete em cima da bancada próxima ao fogão. Em um papel amassado e aparentemente rasgado pela metade, estavam as letras de Melissa. A caligrafia médica era terrível e ficara pior com a pressa e a força com que escrevera.

"Querida, fui chamada para um plantão de urgência pelo hospital em uma cidade próxima, algo tão grave quanto um resfriado em crianças, dá pra acreditar? Tem cereal no armário e leite na geladeira. Tem um restante de lasanha congelada para seu almoço e no jantar peça uma pizza. Cuide do jardim, as plantas estão horríveis!"

Revirei os olhos assim que li a parte do jardim. Ela maltrata as pobres plantas e eu que tenho que dar um jeito. Coloquei o cereal e um pouco de leite em uma tigela. Aproximei-me da janela, olhando o trabalho que iria ter em apanhar todas as folhas secas e cortar alguns galhos. Comecei a comer vagarosamente, negando-me a ter de ir cuidar do jardim. Assim que terminei, lavei toda a louça e guardei. Meus planos em visitar alguns amigos ia abaixo. Olhei para o que estava vestindo: um jeans e uma camisa de manga. Logo voltei ao closet e vesti um short caqui e uma regata branca. Sai de casa e andei até a garagem, abrindo-a. Olhei para o Land Rover branco que meu pai me dera aos 16 anos. Passei a mão sobre o capô, lembrando do abraço que eu havia dado quando recebi a chave.
– Com licença? — Sussurrou uma voz familiar. Pulei para trás, esbarrando no retrovisor do carro.

Um jovem de cabelos castanhos claros estava encostado na soleira da garagem e pareceu tão assustado quanto eu assim que pulei. Soprei pesado, tentando ocultar minha respiração ofegante. Passei a mão em meu cabelos, tentando parecer um pouco mais normal. Seus olhos verdes se estreitaram com o largo sorriso de dentes perfeitamente alinhados. Ele parecia mais forte e mais alto de perto. Frederick estava a minha frente, sorrindo e distribuindo beleza.
– Eu vim me desculpar por ontem. — Seu sorriso enfraqueceu, mas ainda assim continuava belo. — Acabei te assustando novamente.
– Ok. — Falei feito uma idiota, sem conseguir pensar em alguma coisa com aqueles olhos me fitando. — Não se preocupe.
– Você caiu... — Ele apontou para meu pé. — Parecia machucada ontem quando correu de mim. Você está bem?
– Eu sou muito desastrada, escorreguei. — Senti meu rosto queimar com o rubor. — Mas estou bem, obrigada.

O silêncio começou a ser constrangedor depois dos cinco segundos, então me virei e peguei o que era necessário para cortar e apanhar as folhas. Uma tesoura enferrujada, um catador e uma sacola plástica preta. Não conseguia achar as luvas.
– Belo carro. Parece novo — Ele falou depois de um assobio. — É seu?

Encontrei as luvas de borracha e comecei a puxar as coisas para fora da garagem.
– Sim. — Respondi. — Meu pai me deu há dois anos.
– Precisa de ajuda? — Não precisei responder, Frederick já pegava as coisas de minhas mãos, levou-as para o jardim. — Não lembro de tê-lo visto ontem quando vim buscar a chave da nova casa. Em que seu pai trabalha?
– Ele faleceu há um ano, foi vítima de um desses ataques que estão acontecendo nessa cidade. — Sussurrei.
– Sinto muito, Annie. — Ele se virou para mim. — Eu não sabia. Perdoe-me pela falta de educação.
– Não precisa se desculpar. — Acalmei-o. — Porque se mudaram para cá? Naturalmente, vocês deveriam ir para outro lugar. Estão acontecendo coisas aqui.
– Gostamos de viver perigosamente. — Ele sussurrou sarcástico. — E vocês, porque não se mudam?
– Porque aqui é minha casa. — Falei com firmeza. — Vão descobrir logo quem está por trás disso e poderemos viver em paz.
– Você me parece muito confiante. — Ele se aproximou. — Porque?
– Um dia, talvez eu descubra. — Falei, não acreditando em minhas próprias palavras.

Comecei a cortar as folhas de alguns galhos baixos, das plantas rasteiras. Ele se agachou ao meu lado, sujando a calça jeans preta que vestia.
– Espero que não descubra. — Ele sussurrou enquanto apanhava as folhas e colocava na sacola. — Soube que eles estão matando as pessoas que investigam.
– Então são "eles"? — Olhei-o. — Como pode ter certeza de que é um grupo?
– Foi apenas uma forma de falar, Annie. — Ele falou. — Eu vou querer um suco bem gelado depois desse trabalho. — Ele levantou e pegou o catador, juntando as folhas com rapidez e facilidade.

Trabalhamos a manhã quase inteira, cortando e apanhando. Embora o sol ainda estive lá, o tempo estava ficando mais frio. Frederick não parou e nem reclamou um minuto sequer. Conversamos sobre lugares, comidas... Ele parecia ter viajado o mundo inteiro, adorava degustar vinhos e amava comida japonesa. Enquanto eu não saía da cidade, bebia refrigerante e nunca aprendera a comer com aqueles palitinhos. O jardim estava impecável, limpo e os arbustos cortados redondamente.
– Caramba, esse trabalho todo me deu uma fome... — Ele sorriu, passou a mão sobre os cabelos suados. — Terminamos. Acho que vou indo.
– Eu tenho lasanha congelada e coca. — Dei de ombros. Falei com sarcasmo — Eu arranjo uns palitinhos pra você.
– Eu topo comer lasanha com hashi. — Ele riu. — Quis dizer, palitinhos...
– Eu só preciso de um bom banho antes. — Falei enquanto apontava para minha blusa manchada de terra.
– Então marcamos outro dia... — Ele começou a andar de costas em direção a casa dele e apontou para trás. — Eu também preciso de um. Nos vemos depois.

Fiquei olhando ele voltar para casa. Tudo nele parecia perfeito, seu corpo havia sido moldado em mãos de anjos. O senso de humor dele parecia ser incrivelmente inabalável. Eram piadas a todo momento, e um sorriso estampado no rosto de marfim até catando folhas.

Voltei para dentro de casa e corri para o banheiro, lavando-me e vestindo um short surrado e uma camisa velha. Eu estava pronta para pedir esmolas. Coloquei um pouco da lasanha em um prato e o esquentei no microondas. O cheiro do molho de tomate estava invadindo toda a cozinha. Tirei-o após o bipe idiota e comi. A tarde seria inevitavelmente chata.

Depois de lavar o que havia sujado, resolvi assistir um filme. Um bando de crianças superdotadas de inteligência e tudo mais, deveriam ir para o espaço e mandar bala nos invasores, matando a rainha da população. Foi a melhor sinopse que vi, então resolvi ver o dito cujo. Estava quase no final do filme quando ouvi a campainha tocar, pausei o mesmo. Andei até a porta e olhei pelo olho-mágico. Era Tony, meu melhor amigo e filho de um dos colegas do meu pai que também fora assassinado. Seus cabelos pretos estavam bagunçados e a roupa amassada pela mochila nas costas.
– Oi, Tony. — Cumprimentei enquanto abria a porta. — Está fugindo um leão ou coisa do tipo?
– Porque está me perguntando isso? — Ele entrou antes de ser convidado.
– Seus cabelos estão de pé. — Fechei a porta e me virei para ele. — Veio correndo?
– Você sabe que eu não gosto de pentear meus cabelos. — Ele deu de ombros. — Mas o vento piorou bastante a situação.

Tony atravessou a sala e sentou no sofá, tirando da mochila um notebook e uma pasta preta com o slogan do escritório do meu pai.
– O que veio fazer aqui? E porque está com uma pasta do escritório em que nossos pais trabalhavam? — Sentei ao lado dele no sofá.
– Vim te fazer uma proposta. — Ele falou enquanto ligava o notebook. — Estamos sozinhos?
– Continue. — Pedi, assentindo para ele.
– Eu sei quem está por trás desses assassinatos. — Ele sussurrou, olhando em meus olhos.
– O que?!
– Eu sei o que matou nossos pais, Annie! — Ele abriu o email usando o endereço do pai e mostrou uma das conversas que o mesmo tivera com o meu. — E eles também sabiam.

"Eu consegui. Seu pai estava certo, não são humanos! Eu falei com uma das descendentes das bruxas, é tudo verdade. Seu pai não estava louco. Eu agora acredito em você, Dan! Ela me contou toda a história. Esses seres foram amaldiçoados como conta no diário de seu pai, essa é nossa salvação, eles não podem entrar em nossas casas sem que nós os convidemos. Tudo que esta lá é real... Nós precisamos fazer alguma coisa para impedir essas mortes o quanto antes. Vamos caçá-los. E a partir de agora trabalharemos somente em casa. "

Li mais três vezes e cheguei a mesma conclusão. Isso é loucura!
– Bruxas? Demônios? — Falei, sorrindo sarcasticamente. — Não sabia que nossos pais curtiam uma erva...
– Annie, isso é sério! — Ele gritou frustrado. — Esse é o negócio da sua família. Seu avô escreveu em um diário tudo sobre esses seres e passou para seu pai.
– Você está bem chapado. — Falei séria.

Tony tirou de sua mochila um caderno velho e amarelado. As folhas pareciam ressecadas com o tempo. Abriu em uma página e começou a ler.
– Essas coisas são demônios em pele humana, mas se revelam durante a alimentação. Tornam-se vultos pretos e flutuantes, alimentando-se da alma daqueles que os convidam. Tiram-lhe a vida por sugá-la, trazendo para si o tempo restante que o infeliz ainda possuía, tragando-lhe. — Sussurrou Tony.
– Não dá pra acreditar. — Falei.
– Claro, porque parece bastante normal alguém morrer sem causa alguma. — Ele deu de ombros irritado. — Mais normal ainda quando morrem dezenas de pessoas.
– Tony, eu não consigo acreditar, ok? — Encostei-me no sofá.
– Leia você mesma. — Ele esticou o braço, oferecendo-me o diário de meu avô. — Tudo está explicado aí.
– Ok. — Peguei-o. — Mais tarde eu dou uma olhada.
– Não mostre a ninguém. — Ele desligou o notebook e o jogou dentro da mochila. — E não convide ninguém para entrar na sua casa.
– Tá de brincadeira? — Ri.
– Não. — Ele ficou de pé. — Apenas gesticule. — Ele demonstrou. — Então, caso a pessoa não entre, você poderá acreditar em mim.
– E se você fosse um... Demônio? — Perguntei. — Eu já te convidei inúmeras vezes.
– Eu não teria acesso hoje, por exemplo. — Ele voltou a sentar ao meu lado. — Porque embora você já tenha me convidado antes, você não me convidou hoje.
– Então um convite é apenas um passe. — Sussurrei confusa. — Ontem eu te convidei, hipoteticamente, mas hoje você já precisaria de um outro convite?
– Isso. — Ele sorriu. — Mas eu não sou, já provei.
– Como faz pra virar um... — Calei-me. — Porque diabos estou perguntando isso? Eu nem acredito.
– Ele precisaria te atacar e te deixar com pouca vida, sem te matar. — Ele falou mesmo assim.

A campainha tocou. Andei até a porta, Tony correu atrás de mim.
– Não convide! — Ele sussurrou. — Apenas gesticule!

Empurrei-o para trás e girei a maçaneta, abrindo a porta.
– Olá. — Frederick falou, estava segurando uma tigela cheia de pipoca. — Achei que gostaria de assistir um filme...
– Ah, claro. — Sorri e afastei-me um pouco. Apontei para Tony. — Estávamos assistindo um agorinha.
– Oi. — Tony falou. Frederick cumprimentou com um sorriso.
– Vão me deixar morfando aqui, ou vão me convidar para entrar? — Perguntou ele, jogando uma pipoca no ar e pegando-a com a boca.

Senti um beliscão em meu braço. Em rompante olhei para Tony, que sorriu forçadamente para mim e ergueu as sobrancelhas. Eu já sabia o que ele estava pensando.
– Ah, desculpe. — Deixei o caminho livre entre a soleira e gesticulei para que Frederick entrasse.

Ao contrário do que eu pensava, ele ficou parado. Seu sorriso havia diminuído e se afastara da soleira da porta.
– O que foi, Frederick? — Tony perguntou, provocando. — Não mordemos.
– Annie, pode vir um minuto aqui fora? — Ele gesticulou com a cabeça para o jardim.

Tony colocou a mão em meu ombro, puxando-me para trás. Eu afastei sua mão de mim.
– Claro. — Passei pela porta. Andamos até o jardim.
– Acho que vim em uma má hora. — Ele fechou o sorriso e me entregou a tigela com pipocas. Fechou o casaco e colocou as mãos nos bolsos do jeans. — Desculpe incomodar.
– Você não está incomodando. — Eu segurei o braço dele antes que partisse. — Não pode apenas entrar e comer a pipoca conosco?
– Eu vou deixar vocês à sós. — Ele se virou e voltou para casa em passos rápidos e elegantes.
Voltei para dentro de casa e Tony estava espiando pela janela. Comi um pouco da pipoca, atirando umas nele.
– Ei. — Falei. — Estava ouvindo tudo?
– Annie! — Ele não tirava os olhos da janela. — Ele não entrou sem ser convidado.
– Porque ele é educado. — Sentei no sofá.
– Não. — Ele pulou no sofá, girando meu rosto pra ele. — Esse cara é um...
– Não comece. — Interrompi. — Ele não é nada disso. — Dei play no filme. — Essas coisas não existem.

Notas finais
Espero que tenha gostado! :]