Ladrões de Almas

3 A Maldição


Notas iniciais
Duas frases estão escritas em latim. Mas não se preocupe, nas notas finais do capítulo, você verá a tradução.

Tony e eu passamos a tarde inteira assistindo filmes idiotas e macabros, agradeci aos céus quando ele precisou ir embora, não suportava mais ter que ouvir Caramba, você viu isso? sempre que alguém era esfolado ou acabava ficando sem pescoço. Melissa chegou alguns minutos depois com uma caixa de pizza em mãos.
– Como saí mais cedo do que eu esperava resolvi comprar a pizza. — Disse ela, colocando sobre a mesa.
– Como foi lá no hospital? — Perguntei, pegando uma fatia.
– Um bando de mães estúpidas que não sabem dar um banho gelado em seus filhos para baixar uma febrezinha. — Ela deu de ombros. — Crianças gripadas, apenas. — Ela tirou o casaco e o pendurou atrás da porta da sala. — Fez um bom serviço no jardim.
– Obrigada. — Sorri. — Frederick me ajudou.
– Oi? — Ela fez uma expressão de surpresa.
– E ele trouxe pipoca, mas não ficou para o filme depois que viu Tony. — Depois de devorar minha fatia, guardei o restante da pizza na geladeira e lavei minhas mãos.
– Tony? — Perguntou, durante um bocejo. — Hoje parece ter sido movimentado aqui.
– Mãe... — Hesitei por alguns segundos. Ela ergueu a sobrancelha, esperando q eu falasse. Tentei parecer menos interessada. — Você e o papai nunca me falaram sobre meus avós.
– Porque quer saber disso agora? — Ela levantou lentamente. Balançou a mão em minha direção, impedindo que eu continuasse. — Amanhã falamos sobre isso. Estou muito cansada, querida.

Assenti. Melissa subiu as escadas vagarosamente. Esperei que ela fechasse a porta de seu quarto e então corri até o sofá e peguei o diário que estava atrás das almofadas. Fui até meu quarto e tranquei a porta, apesar de ter certeza que Melissa não levantaria mais depois que deitasse. Sentei na cama enquanto folheava aquele caderno velho e amarelado, as palavras escritas à mão em uma caligrafia borrada, mas elegante. Então voltei à primeira página. Havia sido escrito o início do Sinal da Santa Cruz em latim.

"Per signum crucis, de inimicis nostris libera nos Deus noster."
– In nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti. Amen. — Sussurrei em latim o restante, gesticulando sobre mim o sinal.

Meu pai havia me ensinado o Latim quando eu ainda era uma criança. Ele me dissera que seria necessário caso eu quisesse ser uma excelente advogada, e eu sempre o admirei. Ele estava me preparando para algo maior, pensei. Passei mais uma página do diário.

"Eles não sabiam quem estavam atacando. Acharam que seu reinado prosseguiria sem declínio. Mas sugaram a vida de um de seus inimigos, as Bruxas de Salém. Gregoriany laçou-lhes seu Vodu: A raça do demônio que roubara a alma de seu filho só poderia alimentar-se na morada de sua vítima, mas não penetraria na de quem não os convidasse, caso o contrário, a parte de seu corpo que ultrapassasse a barreira, queimaria. O ódio e a magia de Gregoriany havia dado-nos a chance de reconhecer aqueles que rastejam por um trago de alma humana. Brionty, filho de Gregoriany, iria tornar-se um daqueles Ladrões de Almas caso não houvesse sido levado à fogueira naquela mesma noite."

Respirei fundo algumas vezes antes de continuar a leitura. Gregoriany havia assassinado Brionty, o filho, para que não se transformasse em um demônio. Peguei meu celular na escrivaninha e liguei para Tony. Apenas caixa de mensagem. Voltei à leitura.

"Não convides ninguém em voz para tua morada, caso o indivíduo recuse, desconfiai. Jogas água benta em um demônio quando estiveres em sua natureza e verás a face humana que ele possui, somente assim poderás matá-lo em brasa e observá-lo chorar um rio vermelho de impurezas."

Quem em seu estado normal, hipoteticamente, jogaria algo em um demônio? Quem, ao menos, chegaria perto de um? Suspirei. Lembrei de Frederick, ele não havia entrado sem eu convidá-lo por voz. Aquilo era idiotice. Ele já estivera aqui uma vez, quando minha mãe o recebeu junto com a família... Saí do quarto em rompante, indo até o de Melissa. Abri a porta vagarosamente, ela estava deitada na cama, as janelas abertas traziam o vento congelante da noite, fechei-as. Sentei-me ao lado de minha mãe.
– Mãe! — Sussurrei, tentando acordá-la. Ela permaneceu imóvel. — Mãe, acorda.
– Hm? — Ela gemeu sonolenta.
– Você convidou Frederick e a família dele para entrarem em nossa casa? — Perguntei, aquelas histórias estavam me deixando instigada.
– Claro que sim! — Ela falou enquanto virava bruscamente, dando-me as costas. — Acha que eu sou mal educada?! — Sua mão tateou a cama até encontrar minha perna, então empurrou-a levemente. — Saia daqui. Quero dormir!

Voltei para meu quarto e andei até minha janela, olhando para a casa de Frederick. Apenas um cômodo estava com as luzes acesas. Lembrei do que ele havia me dito sobre descobrir quem estava por trás desses assassinatos, enquanto estava me ajudando a limpar o jardim. Um arrepio percorreu minha coluna e então o vento soprou mais forte, jogando meus cabelos para trás. A luz do cômodo na casa a frente já não estava mais acesa.

Eu estava realmente confusa. Tony acreditava na possibilidade de existência desses demônios, e pelo visto meu avô e meu pai também acreditavam e investigavam, mas ambos estão mortos. E se fosse verdade? O que eu deveria fazer? E se Frederick fosse um... Demônio?

Resolvi tirar minha dúvidas com um pequeno teste. Daria um jeito de puxá-lo à força para dentro. Meu avô dizia em seu diário que os demônios não poderiam entrar na residência em que não fossem convidados por voz. Bom, eu não iria falar, apenas puxaria para dentro. Ele iria ter no máximo uma queimadura leve na mão se ele realmente fosse um, pois iria se afastar rapidamente, óbvio. Mas e se ele não fosse nada disso? E se fosse? O que eu faria? Qual seria a reação dele? O que ele iria fazer?

Que se dane, pensei. Caso esses demônios existissem, como Tony acreditava, eu faria o impossível para vê-los pagarem pelo que fizeram à meu pai. Eu daria a minha vida para ver o demônio que o matou, queimando. E como meu avô havia escrito, vê-los chorarem em brasas um rio vermelho de impurezas. Eles pagariam com sangue.

Notas finais
O Sinal da Santa Cruz foi escrito em latim, sua tradução é a seguinte: "Pelo sinal da santa cruz, livrai-nos, Deus Nosso Senhor, dos nossos inimigos." (A frase que estava no diário.) "Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém." (A frase que Annie sussurrou.)