A escola continuava a mesma, tirando o fato ridículo de ser a única na cidade em que os alunos devem usar uniformes. As pessoas continuavam as mesmas: Idiotas, egoístas e ignorantes. Tudo igual. Tudo miseravelmente igual. Inferno.
– Então, eu pergunto à vocês, porque temos que usar esses uniformes horríveis? -

Uma patricinha estava no centro do gramado, algumas pessoas se amontoavam ao redor dela para ouvir seu discurso.
– Essa vadia se acha... — Duas meninas comentavam sobre ela enquanto passavam olhando.
– Isso mesmo! Queremos essas saias de vocês mais curtas! — Um garoto gritava entre o grupo que logo se enchia de risos.

Tony estava parado ao meu lado, como sempre imerso em seu mundo, jogando alguma idiotice no smartphone. Olhei ao redor do campus em busca de Frederick, o carro estava no estacionamento, mas nem sinal dele.

Logo o toque de entrada soou pela escola e os poucos alunos que estavam fora do prédio, assim como eu, foram em direção às suas salas. Para minha surpresa, Frederick já ocupava uma das últimas carteiras e acenou quando me viu. Segui até ele e quando já ia colocar meu material sobre a mesa de acento duplo, a loira que discursava do lado de fora pegou o lugar.
– Oi. — Disse cinicamente. — Tem uma carteira vaga bem ali ao lado.

Sorri amargamente e me virei indo em direção à Tony, que já observava tudo de longe.
– Perdeu o lugar. — Ele disse sorrindo.
– Cala a boca. — Murmurei.

Sentei-me ao lado de Tony durante toda a aula. Os professores se apresentavam e logo falavam sobre a matéria e o que iríamos contemplar durante o ano. O único professor que chamou minha atenção foi o Ethan. Ele lecionava filosofia.
– Não acho que as coisas vão mudar nessa cidade. — Ele falava em relação aos ataques que estavam acontecendo. — As pessoas não procuram mudanças, estão assustadas. Ninguém tenta entender o que esta acontecendo.
– Deus esta punindo os maus. — Disse uma garota ruiva.
– Você acha que uma criança de 5 anos é uma pessoa má? — Ele a olhou de forma penetrante. — E pior, acha que aquele garoto que morreu semana passada merecia aquilo? O que ele fez de tão mau para que Deus o punisse?
– E-eu não sei. — Ela suspirou por fim.

Todos permaneceram quietos. Por rabo de olho, pude perceber que Frederick não desviava os olhos de mim. A garota ao lado dele estava inquieta.
– Quantos de vocês perderam alguém nessa onda de mortes? — Ethan perguntou.

Cerca de dez pessoas levantaram as mãos, dentre elas eu e Tony.
– Todos vocês viram as fotos de como as pessoas que vocês perderam ficaram? Pareciam estar dormindo. Não tem nenhum ferimento. — Ele continuou e observou cada um de nós. — Quem você perdeu? — O professor se dirigiu à ruiva que antes havia falado. — E porque acha que ele foi punido por Deus?
– Meu padrasto. — Ela baixou a cabeça. — Porque ele... — Ela balançou a cabeça negativamente sem conseguir continuar. Ela estava chorando. — Ele era um homem desprezível. Um alcoólatra violento. — A ruiva balbuciou. — Eu e minha mãe estamos melhor sem ele! — Por fim, saiu da sala em prantos, relembrando o que sofrera.

O professor assobiou e caminhou pela sala, sentou-se em sobre minha carteira e me encarou.
– Quem você perdeu?
– Meu pai. — Disse.
– Acredita em Deus?
– Claro. — Sussurrei já sabendo onde ele queria chegar. — E acho que Ele não esta punindo ninguém, mas não tenho autoridade no assunto para dizer o que penso sobre isso.
– Você concorda com essa garota, amigo? — O professor perguntou à Tony. — E quem você perdeu?
– Sim. — Tony assentiu me olhando e logo desviou o olhar para Ethan. — Também perdi meu pai.

Ethan se levantou e caminhou até o quadro, virou-se para a turma com a cabeça baixa.
– Sinto muito por cada um de vocês que perderam alguém. — Ele levantou a cabeça. — Estou à disposição se quiserem conversar sobre o que aconteceu. Falar sobre o trauma é o primeiro passo para superá-lo.

Logo o toque soou novamente, intervalo. Frederick desapareceu entre os alunos que saiam da sala.
– Acho que alguém não gostou nada do assunto da aula de hoje. — Tony sussurrou enquanto o observava sair.
– Talvez. — Disse.

Caminhamos até o refeitório e lá novamente a garota questionava sobre o uniforme com outros tantos seguidores, logo um dos supervisores a levava para a diretoria. Uma fila se estendia pela cantina e só de olhar me desmotivou, então peguei uma bebida em uma das máquinas e me encostei na parede, esperando que Tony comprasse seu lanche. Varri os olhos pelo refeitório lotado à procura de Frederick. O que ele estaria fazendo?
– Ainda não consigo acreditar que Dan tenha morrido. — A voz de Ethan fez-me sair de uma série de pensamentos. — Eu te assustei?
– O que disse? — Perguntei novamente para ter certeza do que pensava ter ouvido.
– Seu pai... Dan. Não acredito que ele foi morto. — Ethan se encostou na parede ao meu lado e esticou a mão para me cumprimentar. — Você tem os mesmos olhos que ele, mas ainda bem que é mais bonita.
– Como o conheceu? Nunca vi você por aqui. — O cumprimentei.
– Participei de umas caçadas com ele. Seu pai tinha uma mira incrível.
– Caçadas? — Então ele sabia?!
– Sim. Ursos. — Ele me observou.
– Ah... — Suspirei desapontada. — Não sabia que ele caçava.
– Deve haver muitas coisas que você ainda não sabe sobre seu pai. — Ele insistiu. — Não é?
– Tenho certeza que sim.
– Sabe... Quando íamos caçar esses ursos... — Ele sorriu — Seu pai sempre levava um caderno com ele, uma espécie de diário. Era do seu avô, ele escrevia tudo sobre os animais que matávamos. Dan guardou o caderno?

Hesitei em responder.
– Talvez. — Franzi o cenho. — Você tem algum interesse nesse diário? Acho que minha mãe poderá te ajudar.
– Creio que não. Melissa nunca gostou desse tipo de coisa. — Ethan olhou em volta e sussurrou em meu ouvido. — Deixe-a fora disso.
– Ela não sabe? — Ethan já havia entendido que eu sabia.
– Sabe, mas pensa que Dan havia parado e ele não parou. Esse foi o erro dele! — Ethan sussurrou nervoso. — E é melhor deixá-la fora disso. A primeira vez que ela tentou ajudar não deu certo.
– E o que houve? — Virei-me curiosa.

Tony voltou com o lanche. Parou sorridente em nossa frente.
– Sua aula foi demais. — Tony disse.
– Obrigado. Que bom que tenha gostado. — Ethan mudou a feição nervosa por um sorriso.
– Ele sabe. — Eu o avisei.
– Quem mais aqui sabe? — Ethan me olhou surpreso.
– Ninguém além de nós dois, eu acho.
– Do que estão falando? — Tony mordiscou o sanduíche.
– Tony, ele conhecia meu pai. Eles caçaram juntos. — Disse em resumo.
– Isso é ótimo. — Ele disse se engasgando. — Você vai nos ajudar?

Ethan suspirou irritado.
– Eu quero apenas o diário. Vocês são dois adolescentes que não sabem de nada. Não vou arriscar minha caçada. — Ele avisou.
– Ótimo, então continue sua caçada sem o diário. — Disse rispidamente.
– Garota, quantos anos você tem? Sei lá, 18 anos? — Ele franziu o cenho. — E qual o plano de vocês?
– Temos uma escuta no carro de um deles. — Sussurrei de forma ameaçadora. — Uma câmera que registrou um ataque e mais... Sabemos de um grupo em forma humana e onde vivem.
– Vocês são loucos?! — Ele nos olhava surpreso. — Eu preciso ver o vídeo, hoje! — O toque soou novamente. — E como tem tanta certeza de quem são?
– Vai saber se colaborar conosco. — Insisti.

Ergui minha mão para ele. Ethan hesitou um pouco, mas logo apertou minha mão, selando o acordo.
– Fechado.

Notas finais
Mil desculpas pela demora. Logo virão mais capítulos!