Lado a Lado
3 Capítulo 3
Notas iniciais
— Emma -
Já rolei no meu colchonete que eu humildemente chamo de cama, não sei quantas vezes. Não consegui deixar passar em branco a data de hoje. Geralmente tento reprimir esses sentimentos sobre meu aniversário e não ter alguém para me abraçar e me desejar uma feliz aniversário para me renovara a fé, é algo que aprendi a viver sem há muito tempo. Mas, hoje excepcionalmente esta difícil aceitar isso.
Quando eu vi aquela morena eu senti coisas que eu nunca havia sentido na vida antes, e quando eu digo nunca é nunca mesmo. Mal tive tempo em pensar em nada a minha vida a não ser minha própria sobrevivência. Eu ainda quando muito nova fui abandonada em uma praça pública, não essa em que vivo. Eu não me lembro muito bem como foi, só o que já me contaram. Me disseram que minha mãe havia morrido e meu pai se entregado a bebida e por isso me abandonou. Isso é o que me disseram quando perguntei, mas uma vez sem eu perguntar ouvi por acaso um dos líderes da família dizendo que meu pai havia na verdade me vendido por um pouco de droga.
A família era um grupo de moradores de rua que tinha nas praças e era liderada em uma espécie de hierarquia que eles mesmos criaram, onde havia alguns tipos de ritos de passagem para atingir ‘cargos’ dentro da fraternidade. Já teve caso de alguns terem de fazer coisas horríveis para subir postos dentro da fraternidade. A lei máxima era de que todos se protegiam e ninguém podia mexer com a família. E a lei sobre todas as leis era que o que o líder dissesse teria que ser cumprido, todos concordando ou não.
Vivi com eles por muito tempo, praticamente minha infância e metade da minha adolescência. 14 anos para ser exata. Lembro-me bem da época e da idade, pois foi quando comecei a desenvolver-me fisicamente e ouvi muitos deles dizerem que eu estava me tornado uma linda mulher e os olhares de uns sobre mim me causavam arrepios, pois eu já soube de coisas que fizeram com as meninas que era da fraternidade e se tinha uma coisa que me causava pavor era que uma dessas coisas acontecesse comigo.
Então tomei a mais difícil e perigosa decisão de minha vida nessa época, que fora de sair da fraternidade. A partir daquele momento eu estaria sem proteção alguma e não seriam apenas os olhares dos líderes e seguidores da família sob mim, mas sim do mundo inteiro. Entretanto eu decidi arriscar mesmo assim, eu não sei explicar, mas algo dentro de mim me dizia que eu ainda poderia ir além de tudo aquilo, e mesmo com tudo que já passei até aquele momento eu conseguiria para algum lugar, além de uma perambulante de rua implorando por centavos e restos de comida, ou mesmo virar uma traficante ou prostituta como muitos optavam ser. Optar é uma palavra muito abrangente, digamos que os líderes da família e a vida faziam essa opção por eles.
Claro que para sair não foi fácil e tive que pagar um preço por isso. Quando cheguei ao chefe e pedi para sair, foi o dia que mais senti medo na vida. Ele riu na minha cara e disse que eu não sabia que estava fazendo, eu quase desisti, mas quando ouvi ele me dizer que tinha planos grandes para mim, eu entendi o que ele queria dizer, eu seria sua próxima vitima e eu não poderia aceitar isso, como eu disse antes, eu sinto aqui dentro de mim que ainda irei além disso tudo. Eu sinto como se eu tivesse um chamado a cumprir nessa terra, não sei bem o que, quando ou se vou conseguir mesmo, mas eu vou tentar.
Resumindo bem o fim dessa história, eu perdi meu único bem que era meu violão e embora eu tenha sofrido algumas fraturas físicas, dentre elas duas costelas quebradas e carrego em mim a cicatriz da facada que eu levei em minha barriga para me lembrar para sempre disso, e os constantes pesadelos que tenho perder meu violão foi uma dor quase igual, ele era meu único amigo. Estranho né? Mas, era isso que eu sentia, eu podia cantar e esquecer-me do mundo e suas maldades enquanto o dedilhava.
Embora tudo isso, e ter ficado cerca de 20 dias internada em um hospital entre a vida e a morte consegui minha carta de ‘alforria’ e hoje eu sou uma loba solitária. Engraçado esse termo que tem nos livros, mas é assim que me sinto, pois estou sempre alerta a tudo a minha volta e estou completamente sozinha.
A minha vida começou a ser essa desde então, andar por ai em busca de um rumo em que eu pudesse sobreviver sem precisar tomar das outras pessoas, porque acredite em mim, ser preso por estar roubando comida nesse mundo não comove ninguém. As pessoas te xingam, desfazem de você sem a menor cerimônia. E apanhar de policias quando se tem madames te acusando de ser uma trombadinha safada não é muito bom, vai por mim.
Em uma dessas fugas da policia, passei em um semáforo e vi um garoto fazendo malabares e pessoas lhe dando alguns trocados. A partir daí eu ia todos os dias observa-lo a fazer, não levou duas semanas completas e eu aprendi a fazer. E lá estava eu ajuntando o dinheiro necessário para comprar os pinos e minhas tintas e comecei a me apresentar nas ruas.
Entre essas apresentações desenvolvi a mania ou habilidade se assim preferir colocar, de observar as pessoas, dentre essas observações comecei a prestar mais atenção nas pessoas que estavam sempre lendo, elas pareciam viajar em sua leitura, como se o mundo a volta não mais existisse e isso me deixava fascinada, além de que em toda parte da cidade havia letras e isso me despertou o interesse em saber o que a cidade dizia.
A partir disso comecei a passar horas olhando jornais que as pessoas jogavam fora, tentando entender como se lia aquilo, eu passava tanto tempo olhando que me causava dor de cabeça. Eu tentava juntar as letras com as imagens. E não sei dizer ao certo quando e como, mas eu já estava entendo o eu continua nos papéis e eu conseguia ler e isso se tornou meu fascínio eu lia de tudo no jornal. Desde esportes a bolsa de valores, simplesmente tudo.
Um dia eu estava lendo o mesmo jornal pela quinta vez, quando o senhor da banca me contou a informação mais valiosa desse mundo. Ele me disse que havia um lugar em que eu poderia ir e pegar os livros ler e devolver, infinitamente e de graça. De cara eu não acreditei que existisse uma maravilha dessas nesse mundo tão horrível.
Bom eu paguei para ver e fui ao local que ele me disse e constatei que era verdade. Existia esse lugar milagroso, chamado biblioteca. De começo eu não consegui fazer um cadastro por não ter endereço fixo, e voltei arrasada para ‘casa’. Passada alguns dias o dono da banca me viu lendo o mesmo jornal e me perguntou se eu não fui eu expliquei o ocorrido a ele. Ele me ouviu e do nada entrou na banca, passado um tempo ele me voltou com uma conta do endereço da casa dele para eu fazer o cadastro na biblioteca. Nem preciso dizer a felicidade que senti. Sai correndo de lá e cheguei toda eufórica a biblioteca e fiquei maravilhada com a quantidade de livros que tinha naquele lugar.
Após conseguir isso comecei a ler todo tipo de livro. De romance a geometria. Cálculos, física, história da arte, como surgiu a vida na terra, por que o céu é azul. Tudo que eu via na rua eu queria saber o porquê e me afundava nos livros. E com os livros descobri que eu sou autodidata. Que sou capaz de aprender a partir da observação, ou mesmo do auto estudo e isso explicou como eu aprendi a tocar violão e a ler sozinha.
Esse é minha história não é bonita como nos romances de Nicolas Sparks, tão pouco dramática como Shakespeare e não tão feia como os contos de meninos abandonados nas ruas tornando-se cenário para falsos altruístas, é apenas como ela é. Não sou grata por estar viva e também não sou revoltada por as coisas serem assim. Com toda certeza não sou feliz, assim como também não sou totalmente triste. Não possuo muitos sentimentos, nada tão profundo em minha alma. Tenho mais coisas em minha cabeça do que no coração, afinal é em minha cabeça que esconde meus verdadeiros fantasmas, é onde eu guardo as coisas que vi e vivi até hoje. E mesmo agora eu aqui contando a mim mesma toda minha trajetória eu não consigo identificar o que sinto, nem mesmo sei se sinto. Apenas mais um arquivo em minha memória, mais uma lembrança dentre tantas outras que guardo comigo, mas com certeza essa estará na aba das coisas encantadoras que vi nessa vida. O sorriso. Um sorriso triste, mas tão iluminado. Aquela mulher não me sai da minha mente. Por que será que ela estava triste? Quem seria capaz de tirar o sorriso dos lábios daquela mulher? Em pensar nisso sinto um pulsar em meu coração. Não sei o que isso significa como eu disse nunca senti nada na vida além dos fatos vis que vivi, mas o calor que me veio dentro do peito quando vi a alegria dela em pegar minha rosa foi algo mágico, nunca senti nada parecido com aquilo na vida, eu só queria poder encontra-la mais uma vez. Preciso sentir essa coisa estranha mais uma vez. Minha vida é tão igual todos os dias, que eu preciso de qualquer coisa que me faça lembrar que sou humana e que estou viva de vez em quando.
— Lado A Lado – Lado A Lado – Lado A Lado –
— Regina –
Havia se passado uma semana desde que eu tive a triste notícia de que eu não seria colunista da Revista. Se eu disser que não foi humilhante voltar para o jornal e ouvir os pesares das pessoas quando cheguei lá, estaria mentindo. Mas já não me sinto tão mal, voltei a fazer o que sei fazer de melhor, trabalhar até esquecer meu nome.
Todos os dias eu acordava cedo ia para o jornal e só sai de lá quando a última pessoa tivesse saído. Segui minha rotina tranquilamente. Exceto por hoje que estou de folga. Ontem senti um mal estar por estar trabalhando de mais e meu chefe me deu três dias de folga. Eu queria folga? Não, não queria. Mas não tive escolha. Bom que iria aproveitar esses dias para fazer umas caminhadas e andar um pouco pela cidade e ir visitar alguns lugares.
Por isso acordei bem cedo, não que eu não acorde normalmente, mas hoje queria aproveitar mais o dia. Já tomei um longo banho, deixando a água quente bater em minha pele, não importa a estação do ano em que estou eu sempre tomo banho com água pelando. Depois do banho coloquei uma roupa confortável, uma calça jeans, camiseta branca, um All Star também branco e separei uma jaqueta preta para por cima, por que por mais sol que faça aqui ainda é pouco frio.
Sai de meu quarto fui até a cozinha pensei em fazer o café da manhã, mas mudei de ideia iria tomar em um lugar que eu sempre ia quando preciso de inspiração para escrever, depois que comecei a namorar Robin eu parei de ir lá porque ele me dizia que se sentia exposto lá, agora eu entendo a que tipo de exposição ele se referia. Lembrar-me disso me faz pensar o quão burra foi e o quão cega por aquele homem eu estava, ele me deu todas as dicas e só eu não enxerguei. Talvez eu mereça o que aconteceu. Não digo isso por estar pensando que eu sou a pessoa mais triste do mundo ou coisa assim, mas digo por eu ter me enfiado de cabeça a uma relação tão rasa quanto a que eu tinha com Robin. Eu não sentia amor por ele, mas ouvia sua voz em meio ao silêncio e isso já me aquecia. Era bom saber que no fim do dia tinha alguém me esperando, entende? É bom ter alguém, simples assim. Quem já esteve só entende o que sinto. Por isso digo que mereço, porque eu não resisti mais ao silêncio em vez de ter uma voz acolhedora agora só me resta o barulho me gritando do quanto errei.
Balanço a cabeça negando as coisas que estou pensando, ou mesmo para espantar esses pensamentos e enfim pego as chaves de meu apartamento, que não é muito grande, mas que esta de ótimo tamanho para mim. Pego minha jaqueta e saio porta fora rumo à cidade em busca de algo novo.
— Lado A Lado – Lado A Lado – Lado A Lado –
Assim que sinto o ventinho da manhã de encontro com meu rosto, respiro fundo apreciando a vida em si. Ajeito-me e saio rum a cidade. Decido ir a pé mesmo, pois quero andar sem rumo. Ando algum tempo vejo algumas lojas com derivados artigos. Desde roupas, calçados a enfeites de geladeira. Que eu particularmente não tenho detesto essas coisas cheia de frescurinha sei lá, não gosto muito.
Ando mais um pouco e sinto meu estômago roncar vi uma loja que vendia bolos e ia direção, até olhar para os lados, pronta para atravessar a rua e o que eu vejo? Um carrinho de cachorro quente do outro lado, dentro de um parque e isso me desperta um desejo enorme, sinto-me salivar de imediato e então atravesso a rua e vou em direção ao carrinho de cacho quente. Compro um com o simpático vendedor e peço para ele caprichar na mostarda coisa que ele faz divinamente. Compro também um refrigerante e decido sentar-me a um dos bancos que tinha ali no parque. Dei uma generosa mordia e suspirei, estava divino o cachorro quente, tão divino que eu mal engulo e dou outra mordida, assim derrubando um pouco de mostarda em minha camiseta branca.
— Parabéns Regina Mills – Digo em voz alta a mim mesma. Vou até o carrinho do senhor simpático e pego uns guardanapos para me limpar e ficar com uns em mãos caso ocorra outro acidente. E dessa vez decido comer mais contida, dou outra mordida e decido olhar a minha volta. Olho para um lado, depois para o outro e quando fixo meu olhar para frente fico paralisada em ver que tinha um par de olhos me olhando atentamente.
Então me lembro de que estou no mesmo parque em que encontrei com aquela artista de rua. Ela esta olhando fixamente e com um leve sorriso nos lábios naturalmente deve ter me visto comendo como uma desesperada e ainda derrubar mostarda em minha camiseta. Encaro-a e a olho com um olhar mais firme e ela então desvia o olhar e abaixa a cabeça, e percebo que ela ficou envergonhada.
Ela se agacha em seu violão e pega uns lenços e começa a fazer uma espécie de mágica onde o lenço sumia. Ela fazia de uma forma tão descontraída e engraçada arrancando gargalhadas das pessoas que passavam ali, que senti um desejo enorme de me aproximar dela e assistir sua apresentação de perto. E foi o que eu fiz, fui até mais perto dela, mas não no meio das pessoas que tinha ali. Decidi me sentar em um dos bancos que tinha quase de frente a ela e fico admirando suas palhaçadas e sua desenvoltura.
Não sei quanto tempo fiquei ali a assistindo. A via desviar o olhar para mim de vez em quando, e sentia-a ficar envergonhada quando eu sorria de lado com as palhaçadas que ela fazia ali. Passado um tempo, ela guarda as coisas e vem até a mim. Sorrio para ela, mas ela nada me diz, apenas senta-se ao meu lado e assim ficamos olhando as coisas em nossas volta, as pessoas indo e vindo.
Eu estava perdida olhando umas crianças brincando correndo atrás de umas pombinhas que estava comendo as migalhas de pães que elas mesmas jogavam, quando sinto algo no meu braço e olho e vejo uma caixinha estendida em minha direção com alguns biscoitinhos tipo amanteigados, era uma caixinha com vários sabores sortidos dentro, uns até tinha cobertura de chocolate. Eu olho para ela, e quase me perco na cor dos olhos dela. Era de um verde tão lindo, que dava vontade ficar olhando, estudando, decorando a cor que ia mudando conforme os raios solares o tocavam.
Ela percebe meu transe e vejo-a ficar sem graça e então me toco que eu não esbocei reação alguma ao ouvir um sussurro: – Me desculpe – Ela me diz e vai puxando a caixinha de minha direção, mas antes que ela tira por completo eu agarro seu braço.
— Não, eu quero – Digo atropelando as palavras – Adoro os de chocolate – Digo. E quase que me perco novamente em a ver abrir um sorriso, tímido mas lindo e consegui ver seus dentes meio tortinhos, lindos dando-a um charme a mais.
Ela então pega um e começa a comer. Vejo a comer de uma forma meio desajeitada, sujando sua boca e acabo sorrindo disso. Ela me olha sem entender e então levanto minha mão direcionando a ela, e sinto-a recuar e então me apresso em explicar – Tem cobertura em seu rosto – Explico. Ela parece entender e então vou lentamente com a mão para limpar a cobertura que esta espalhada pela tinta branca em seus rosto.
Eu limpo lentamente, e sinto sua pele. Sinto um arrepio na espinha ela me encarava o tempo todo, estudando meus gestos. Sem notar ou me controlar meus gesto eu deslizo minha mão um pouco mais para o lado e alcanço sua bochecha. E meu coração quase para ao ver que ela fechou os olhos com meu toque.
Não sei explicar o que senti, mas meu toque e o ato dela em fechar os olhos para sentir meu toque me pareceram tão sincero. Senti uma emoção, algo que nunca senti antes na vida. Foi grande e pequeno. Vi ali o quanto ela precisava de um carinho, parecia uma criança assustada. Seus olhos carregava uma carreta de história, pronta a se colidir em algo. E senti uma necessidade de lhe dar carinho. Louco, né? Mas foi tão forte, que sentia meu coração acelerar. Depois de um tempo sinto minha mão molhar e percebo que ela deixou uma lágrima escorrer e isso me partiu em vários pedaços. Só consegui secar sua lágrima. Ela abriu os olhos me estudando o tempo todo, e então abri um sorriso para ela, queria dizer através de meu sorriso que tudo ficaria bem. Ela pareceu entender, pois logo se se encostou ao banco e voltamos a olhar as pessoas andando por ali novamente.
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