Lado a Lado
2 Capítulo 2
Notas iniciais
— Emma –
Ei órfã, levanta! – Emma se assusta com uma voz em um tom alto e um solavanco em seu ombro a despertando de vez, e em um pulo ela se levanta – Vai órfã, vai ficar ai me olhando desse jeito ou vai ganhar meu dinheiro – Diz o homem andando ao redor dela – Estamos de olho em você, cada vez mais você anda trazendo menos dinheiro.
Ela nada responde, apenas fica atenta aos movimentos do homem que lhe dá um empurrão – Anda, vai logo, que na sua idade você tem trabalho em dobro, ou acha que tem aquela carinha de criança perdida de antes? – O homem fala com a voz carregada de maldade e deboche.
Ela sente seu corpo ser empurrado e ela cai no chão e fecha seus olhos devido a dor da queda. Respira fundo e antes mesmo que possa abrir seus olhos sente braços a segurando, pensa em gritar, mas uma dor aguda na região de seu estômago a impede de gritar por auxílio.
— Então agora você é autossuficiente? Hm? – Mais outro soco – Acha que é melhor do que nós? – Um tapa forte em seu rosto – Você não passa de um monte lixo. Você acha que alguém nessa cidade tem pena de você? Você é só mais uma estatística nesse monte de lixo largado nas ruas – O homem grita dessa vez com seu rosto próximo a ela. Ela esta tão apavorada, mas a dor eminente que sente por todo seu corpo a impede de pensar em qualquer coisa a não ser gritar, o que não pode fazer já que estava sendo segurada por uma pessoa de cada lado de seus braços, enquanto outra tapava sua boca. O homem diz mais alguma coisa que ela não consegue mais prestar atenção, o hálito quente e cheirando a álcool esta tão próxima de seu rosto e suas lágrimas caem ao sentir as mãos do home erguer sua blusa e então à dor mais crescente e maior delas veio a seguir em seu estômago.
Ela acordada suada e sobressaltada, levanta em um pulo e olhando por todos os lados. Como todas as noites o sonho parecia real, como uma lembrança de poucos segundo atrás de ela acordar. A loira então perceber estar sozinha e aos poucos tenta se acalmar.
Joga-se em sua cama improvisada leva as mãos ao rosto até chegar aos cabelos e respira fundo. Olha para o céu e percebe que o astro já deu seus primeiros raios solares e lembrando-se do motivo que decidiu começar sua jornada sozinha. Dos abusos que tinha que ser submetida parar viver em equipe. Equipe essa que eles alegavam ser uma família, mas o que realmente eram estava longe disso, contudo era o mais próximo que ela já teve como proteção.
— Mais um dia – Emma pensa e tirando uma velha manta remendada de cima de seu corpo. Ela pega uma sacola e uma capa de violão no chão com uma frase escrita com algum tipo de tinta branca a frase: [Sobre] Vivendo.
A loira caminha um pouco e chega a um dos banheiros públicos que tinha espalhado pelo imenso parque. Ao entrar ela verifica se não tem ninguém no local. Suspira fundo e então começa mais uma de sua rotina. Abre a pequena sacola e de lá ela tira algumas maquiagens, pega uma tinta branca que já estava acabando devido ser mais usada. Com os dedos ela vai espalhando a tinta branca em seu rosto até o mesmo ficar completamente branco. Após a tinta branca ela pega a tinta vermelha e passa em seus finos lábios, dando várias voltas até sua boca parecer bem maior do que realmente é e dando um ar de como ela estivesse rindo o tempo todo. Retira um pincel de dentro da mesma sacola e começa a fazer os retoques com uma tinta preta fazendo alguns detalhes em seu rosto e dando a devida forma de sua arte corporal. Por fim pega um objeto vermelho, o olha por alguns segundo, suspira mais uma vez e coloca na ponta de seu nariz.
Senhoras e senhores, lhes apresento a verdadeira boba da corte – Fala curvando-se e fazendo um gesto real como se tivesse cumprimentando algum tipo de nobreza do trono real.
Ao finalizar sua fala escorre uma lágrima de seus olhos que ela limpa de imediato e balançando a cabeça. Há muito tempo ela se priva de chorar e não seria hoje que teria sua recaída. Não hoje, para alguns hoje seria o dia ideal para pensar em si mesmo e no que sua vida se tornou. Mas, não para Emma, ela não poderia se deixar pensar, sentir se não ela desmoronaria.
Ela se olha mais uma vez no espelho quebrado e embaçado devido a danificações, como pichações e como um lampejo de ideia resolve fazer algo diferente, com o pincel desenha uma lágrima escorrendo pelo seu olho direito, o mesmo caminho que sua verdadeira lágrima havia feito. Depois de terminado ela junta suas coisas e sai do banheiro.
Respira fundo assim que sai sentindo o sol, a brisa calma passar por seu rosto e como um mantra ela diz muitas vezes repetida para si mesma – É só mais um dia como outro qualquer – E sente-se acalmar depois de um tempo, e vai para mais um dia, apenas mais um dia de muitos que já viveu tantos dias que ela mesma nem sabia mais dizer ao certo a soma deles.
Caminha por um tempo até chegar a uma parte da praça e abre a capa de seu violão, estende o mesmo. Não havia um violão lá dentro era apenas a capa, mas dentro tinha algumas flores de plásticos, uns lenços, bolinha e pinos de plástico para ela fazer seus malabares e uma cartola, já surrada e com alguns pontos desfiados.
Então começa sua apresentação pegando os pinos e os equilibrando em suas mãos. Primeiro ela joga dois e os rodopia no ar e os pegando na mão e repetindo o processo, depois inseri mais um, tendo que os rodopiar mais rápido e mais alto, depois outro e mais outro, totalizando cinco e fica assim por algum tempo e a sua volta começa a juntar pessoas, que se impressiona com sua habilidade com os pinos.
Após um bom tempo e de juntar certa quantidade pessoas decide finalizar pegando todos os pinos sem os deixar cair com uma habilidade impressionante. Todos batem palma para sua apresentação e ela se curva agradecendo o publico e por quase um segundo ela quis sorrir em agradecimento, mas não sentiu força para isso.
Ela se agachou para guardar os pinos para pegar agora as bolas, se levantou e tomou sua postura e seus olhos pairaram ao longe, buscou por algo naquele parque que nem mesma ela sabia dizer o que era, mas como muito cedo aprendeu ter perspicácia olhou tudo e em uma parte mais afastada ela pode ver uma mulher a observando atentamente.
O olhar da mulher era diferente dos demais olhares que ela recebeu ao longo de suas apresentações e isso lhe chamou atenção. Emma reconheceu aquele tipo de olhar, ainda pouco ela tinha visto esse mesmo olhar refletido no espelho estampado em seus olhos.
Sem nem ao menos saber o porquê aquele olhar lhe tocou de alguma forma e uma ideia lhe veio a cabeça. Ela voltou a sua capa sem violão e pegou uma das rosas de plástico, uma rosa vermelha, era a que Emma julgava a mais bonita e foi em direção à mulher que estava sentada no banco ainda a olhando fixamente.
A passos curtos e contido foi se achegando a mulher, estudando sua reação, geralmente as pessoas fugiam dela, mas a mulher elegante que com a distancia cada vez menor devido Emma estar chegando mais próxima a ela pode ver o quão linda aquela mulher era. Emma teve certeza que nunca vira uma beleza a daquela mulher.
Quando finalmente chegou a frente da mulher ela se ajoelhou aos pés da mulher, de cabeça baixa como se tivesse fazendo uma espécie de reverência lhe estendeu a rosa.
— Pra mim? – A mulher perguntou e Emma apenas confirmou com a cabeça ainda na mesma posição. Obrigada – Agradeceu a mulher então Emma a olhou e ficou paralisada com tamanha beleza da mulher. Ela tinha um sorriso largo, meio triste no momento, mas o mais lindo que Emma já viu na vida. Sua pele era branca, mas tinha um tom bronzeado naturalmente, os cabelos eram curtos e escuros assim como seus olhos, e no segundo seguinte Emma percebeu que rolou uma lágrima dos olhos da mulher e aquilo pareceu lhe ferir a alma, e então em um ato impensado ela se levantou e sentou-se ao lado dela e lhe estendeu uma de suas mãos, que estava com uma luva branca e foi aproximando a mão do rosto da mulher e vendo se a mesma não ia protestar. Coisa que ela não fez então Emma com todo cuidado limpou a lágrima da mulher que com o gesto colocou-se a chorar mais ainda.
Emma não sabia o que fazer então apenas colocou sua mão na mão dela a confortando, a mulher de cabelos escuros retribuiu o gesto e apertou a mão da artista de rua e encostou sua cabeça no ombro da mesma. Elas ficaram assim por um tempo, Emma sentia que seu coração ia explodir, ela nunca tinha ficado tanto tempo assim com alguém e o cheiro que emanava dos cabelos da morena era tão maravilhoso que ela teve que fechar os olhinhos por alguns segundo e aspirar aquele cheiro.
Depois de um tempo Regina se afastou dela e sorriu – Me desculpe – Disse sem graça – Estou tendo um dia complicado – Se explicou e Emma apenas assentiu com a cabeça, mostrando que entendia. – Bom eu acho que já vou indo – Fala se levantando. Emma sentiu seu coração doer, ela não queria que ela fosse. E também queria dizer a ela que tudo ficaria bem, mas nada sai de sua boca. – Obrigada pela rosa – Diz Regina e ao ver que a artista nada dizia se sentiu meio desconcertada então apenas se levantou deu uma última olhada para Emma e saiu rebolando deixando Emma suspirando com o gingado que a morena fazia com seus quadris, quando a morena sumiu de sua vista ela tombou a cabeça para o lado do ombro onde a morena tinha se encostado, constatando que o cheiro dela tinha ficado em si, e pela primeira vez em anos esboçou um meio sorriso de lado.
O dia passou e a loira conseguiu algum dinheiro. Ela juntou suas coisas e decidiu andar um pouco pela cidade antes que anoitecesse. Andando pelos lugares ela olhava algumas vitrines com roupas que chamava sua atenção, mas sem encostar-se às coisas, pois desde cedo aprendeu que gente como ela pode olhar, mas nunca tocar nas coisas. Ela dá mais alguns passos e vê uma confeitaria e lhe vem uma ideia a cabeça. Ela tira alguns poucos trocados do bolso o contado e decide entrar.
Ela adentra o local e nota que mais para o fundo tem um espaço para as pessoas poderem ficar e degustar as delícias que tinham ali. Andou um pouco e viu cada bolo mais lindo que o outro e seus olhos brilhavam e sua barriga quase berrava por comida.
—Olá – Diz uma mulher com a pele extremante branca e cabelo curto próximo a ela – Posso ajuda-la?
— Ei – Emma responde meio tímida – Eu... Eu – Ela gagueja e pensa seriamente em sair correndo dali.
— Não precisa se preocupar – A mola diz de forma simpática – o que deseja?
— Eu queria saber quanto custa o bolo mais barato que você tem? – Ela diz baixo, tímida e completamente vermelha. A mulher vai atrás do balcão e lhe estende uma caixa com três cupcake— Toma – Ela diz sorrindo amigavelmente. Emma ergue as mãos para pegar, mas desiste no meio do caminho e encara a mulher.
— Você não me disse quanto custa – Ela fala para mulher
— Pra você são de graça – A mulher diz e Emma recolhe as mãos imediatamente.
— Olha, eu não quero roubar, eu realmente quero comprar – Emma diz colocando seu dinheiro em cima do balcão –Diz quanto custa – Ela pede e a mulher tenta dizer mais uma vez que era uma cortesia e Emma logo corta – Eu já cai nessa há muito tempo. As pessoas dizem que são de graça e depois que saímos da loja nos denuncia para policia, então, por favor, eu só quero um preço eu pago e saio.
— Tudo bem – A mulher concorda e pega quatro notas e algumas moedas – Isso aqui dá – Ela coloca o dinheiro na registradora. Em seguida passa o código de barras da embalagem no leitor de preços, em seguida coloca em uma sacola e entrega a loira juntamente com a nota. A loira pega e sorri meio sem jeito para a mulher – É presente para alguém? – Ela pergunta e vê o rosto da loira se fechar e ela ficar com o olhar longe.
— É sim – A loira responde depois de um tempo – É meu aniversário – Ela diz e sai porta fora rapidamente e nem escuta a mulher gritar Feliz Aniversário a ela.
Emma voltou para o local que ela escolheu para dormir e estava uma noite muito bonita e se não fosse todas coisas que pesavam sobre si, ela até estaria se sentindo leve. Ela abriu o embrulho, tirou uma caixa de fosforo de um canto em que estavam suas coisas e colocou em cima de um dos bolinhos e então acendeu. Fechou os olhos e fez um pedindo com toda sua fé e força e por fim apagou o fosforo que representa uma velinha de aniversário e com uma lágrima descendo de seus olhos ela sussurrou:
– Feliz Aniversário Emma Swan!
Ela comeu um dos bolinhos e guardou os outros dois e então deitou desejando dormir logo e que o amanhã de alguma forma trouxesse alguma mudança para sua vida e então fechou os olhos e dormiu.
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