LaLaan - A Dança Dos Corvos
7 Capítulo 6 - Encontro Sigiloso
Notas iniciais
Os sonhos estranhos começaram a ficar cada vez mais comuns. Todos eles eram relacionados a olhos amarelos ou pretos, ou seja, relacionados a Aylla ou LaLaan. Na maioria das vezes estavam relacionados a Aylla, eram raras as vezes que algo relacionado a LaLaan aparecia em meus sonhos. Mesmo se tornando parte do meu cotidiano, eles continuavam perturbadores. Cada um deles. Os dias se passavam e tive a impressão de que iria enlouquecer, apesar da companhia de LaLaan ser formidável. Uma hora ou outra eu acabaria lembrando e ficando inquieto. Eu não podia mais esperar nem tentar esquecer. Os sonhos estavam cada vez piores, não tardariam a afetar minha saúde mental. Era como se eles quisessem me falar algo, mas não conseguiam se expressar direito. Eu precisava me encontrar com Aylla... E, em consideração a LaLaan, a mesma não poderia saber disso. Nunca. Eu sabia o quanto ela odiava Aylla. Arrisco a alegar que ela até tinha um pouco de ciúmes dela. Passei um dia inteiro pensando em um jeito, e LaLaan, como se pudesse ler a minha mente, me observava com expressão desconfiada, apesar de que eu estava tentando ser o mais natural possível.
Mais um dia se passou. Então eu tive um sonho mais calmo, mais sereno, diferente dos demais. Eu estava na cachoeira conversando com Aylla, eu suponho, uma vez que a garota era idêntica a mesma.
– LaLaan é filha da noite... – Ela disse em uma doce voz, a mesma de todos os sonhos anteriores. – Portanto, ela não aguenta o fardo do amanhecer.
Eu a fitava, sem saber o que dizer.
– O amanhecer é sua única chance – Ela terminou, logo fazendo-me acordar.
Olhei para a cabeceira da cama. LaLaan estava em sua forma de corvo, aparentemente com os olhos fechados. Levantei silenciosamente da cama, chegando perto do relógio e tentando ao máximo enxergar as horas.
5h40 da manhã. Faltavam 20 minutos para o amanhecer.
Apressadamente e o mais silenciosamente possível, peguei apenas o meu casaco preto que estava pendurado atrás da porta. “Se eu tentar pegar a calça, o armário fará barulho”, pensei. Fui com a bermuda preta que eu estava usando para dormir, mesmo não gostando muito de usar bermuda.
Consegui sair de casa sem acordar ninguém com sucesso. Fiz uma expressão vitoriosa ao olhar para o céu. Estava prestes a amanhecer.
Em passos largos e rápidos, atravessei a floresta até a cachoeira. Eu já podia ver o sol nascendo vagarosamente. Suspirei, logo notando a aproximação de Aylla, que estava sorrindo. Seu sorriso crescia a cada passo que dava. Notei um sorriso surgir em minha face, feliz por finalmente poder vê-la.
– Jean! – Ela disse ao me ver, quase correndo até mim. Ela parecia muito feliz, talvez até emocionada ao me ver. Não demorou para me dar o abraço mais caloroso que já recebi em toda a minha vida. – Eu consegui... Eu consegui te ver novamente... – Ela dizia em um tom baixo.
– Aylla... – Retribuí o abraço. Por algum motivo, o abraço de Aylla parecia confortável, amoroso. Aquele abraço fez com que eu me sentisse bem vindo.
Fez com que eu me sentisse excepcionalmente especial. Finalmente eu pude experimentar essa sensação.
– Não temos muito tempo – Ela desfez o abraço graciosamente, fitando-me de forma intensa com seus olhos amarelos. – Logo LaLaan despertará.
– Eu queria te agradecer. – Notei que a expressão de Aylla era afetuosa. Assim como a minha, por algum motivo. – Pelo presente... Você não precisava ter me dado aquilo...
– Qualquer coisa que o faça feliz não é nenhum sacrifício. – Expandiu um pouco mais o sorriso por alguns segundos. – Foi simples guardar o dinheiro.
– Espero poder retribuir algum dia.
– Não há necessidade, Jean.
Pensei em protestar, mas olhei para o céu, vendo que não tínhamos muito tempo.
– Olhe, ando tendo sonhos esquisitos... – Cocei a cabeça – E eles quase sempre estão relacionados a você.
– Oh, é mesmo. – Posicionou o indicador na boca – Você não está tendo eles por acaso, Jean. – Olhou para o céu. – Ah, droga. Você precisa ir.
Repuxei os lábios, dando os passos iniciais para voltar para casa.
Parei de andar.
– Podemos nos encontrar mais vezes? – Virei a cabeça para trás rapidamente.
– É claro que sim. – Sorriu docemente. – Mesmo horário, mesmo lugar. Agora vá!
Dei um último sorriso para ela e apressei-me em voltar para casa. Passei até mesmo a correr. Cheguei em casa ofegante, tentando não chamar muita atenção com a respiração evidente naquele momento. Abri silenciosamente a porta, já com a respiração mais equilibrada, voltando para minha cama e tentando cair no sono de novo, com sucesso depois de um tempo. Todavia, eu tinha a estranha sensação de estar traindo LaLaan.
“Bom, não estou fazendo nada ofensivo para ela, eu suponho” Pensei. “Eu gosto de conversar com Aylla. Ela nunca fez nada de errado. Essas duas só devem ter uma relação de rivais, por algum motivo.”
Fale com o autor