Na noite posterior do meu encontro com Aylla, tive um sonho mais sereno, nada perturbador; eu diria até agradável. LaLaan ficou quieta ao longo daquele dia, o que me fez ficar desconfiado sobre ela ter conhecimento ou não do meu encontro com Aylla. Não mandei indiretas, tampouco demonstrei estar incomodado.

No dia seguinte, acordei no mesmo horário e segui o mesmo esquema de ontem, com sucesso. Logo eu estava na cachoeira; Aylla havia acabado de chegar. Todavia, ela parecia diferente hoje. Estava séria. Não abriu nem um mínimo de sorriso quando me viu. Hesitante, caminhei até ficar em frente a ela.

– Aylla? – Ela olhava fixamente para o cordão que LaLaan me deu – O que houve?

– UMBRA! – Trêmula, ela deu um grito mais que repentino e tentou arrancar meu cordão, puxando-o com força. Felizmente, o cordão não saiu.

– Ei, pare com isso! – Segurei suas mãos com força, que logo soltaram o pingente de corvo – Qual é o seu problema?

– Jean... – Ela proferiu meu nome com seu tom de voz bem alterado. Não era mais a doce voz de Aylla, e sim uma voz agressiva.

Sem ter tempo nem para andar um passo para trás, as asas brancas saíram das costas de Aylla. Seus olhos estavam totalmente modificados: Sua esclera estava bem vermelha e sua pupila havia tomado uma forma vertical. Sua expressão era raivosa, selvagem. Ela tremia.

– Ignis – Murmurou ao tirar uma pequena faca do bolso do sobretudo, logo rapidamente atirando-a em mim. Fechei os olhos e, sem pensar, apertei o pingente de corvo.

Não senti a faca perfurando meu corpo.

Resolvi abrir os olhos e me deparo com LaLaan na minha frente, de costas para mim, usando suas grandes asas negras como uma “barreira”, juntando-as em sua frente.

– La... – Mal pude terminar de falar seu nome. Eu estava bem surpreso e feliz por ela ter atendido ao meu chamado.

Ela virou rapidamente a cabeça para mim. Todavia, sua expressão não parecia muito feliz. Ela estava séria e com um ar de desaprovação para mim. Logo ela voltou as asas negras para trás, o que me fez recuar um passo.

– Um...Bra... – Aylla tremia mais ainda, olhando fixamente para LaLaan com o mesmo olhar selvagem.

– Pobre Anja Lux – LaLaan cruzou os braços – Sucumbiu à sua verdadeira natureza, foi? – Apesar de não ser capaz de ver, eu tinha certeza que ela lançou seu típico olhar irônico.

– Anja Niger! – Ela gritou, raivosa, logo não hesitando em avançar e atacá-la com um soco.

LaLaan desviou facilmente. Aylla tentou dar vários golpes nela consecutivamente, sem sucesso. LaLaan era bem ágil.

– Venenum – LaLaan murmurou. Meio segundo depois, suas unhas cresceram em um tamanho consideravelmente grande e bem pontudas, quase como agulhas. Não tardou em atacar Aylla assim que a mesma tentou desferir um soco em LaLaan.

Depois de uns 5 segundos, ela tirou suas unhas do abdome de Aylla, que caiu no chão agonizando.

– Vamos, Jean. – LaLaan virou de costas para Aylla, começando a andar, com uma expressão neutra.

Olhei para Aylla, que me fitava estranhamente. Ora sua expressão era de raiva, ora era de tristeza. Fiquei com um pouco de pena dela, mesmo estando ciente da sua tentativa súbita de me matar.

– J...e... – Ela dizia, com dificuldade e com a voz trêmula.

Perturbado com aquela cena, virei de costas o mais rápido que pude e segui LaLaan, um pouco triste.

– Eu te disse que Aylla era perigosa. – LaLaan disse, não tirando o olho do caminho de volta – Você não me escutou.

Pensei em me desculpar, mas preferi ficar em silêncio. Passamos o dia inteiro em silêncio, só trocando algumas palavras em pouquíssimas vezes. A expressão de LaLaan não saia do neutro. Ela apenas me fitava friamente, o que me deixava ligeiramente incomodado ou até mesmo intimidado. De fato, eu estava bem triste e um tanto pensativo. Aylla realmente parecia ser uma ótima pessoa, totalmente o contrário do que ela foi nesse amanhecer. Por que ela tentou atirar aquela faca contra mim? Por que ela falava Umbra quase toda hora?

As perguntas voltaram a pipocar na minha mente. Eu não conseguia me conformar com o fato de que uma pessoa tão doce como Aylla viraria uma coisa quase selvagem e tentaria me matar. Pensando bem, o fato de que ela estava tremendo o tempo todo é bem suspeito. Era como se ela estivesse lutando contra si mesma. Será que foi ela mesma que tentou me matar? Se não fosse ela, quem mais seria? Talvez outra anja desconhecida? Aylla morreu envenenada?

Não sei. Eu finalmente notei que, por mais que eu pensasse que sabia de quase tudo, na verdade eu não sabia de nada.

– A partir de agora, Jean – LaLaan finalmente falou algo, continuando com sua expressão séria, assim como seu tom de voz, perto da hora de dormir – Aconselho você a não sair de perto de mim.

– Por quê?

– Porque coisas piores virão depois disso. E principalmente – Franziu a testa levemente, claramente mandando uma indireta – Não seja persuadido.

Assenti, olhando para baixo. É óbvio que ela estava se referindo a Aylla. Talvez eu tenha sido mesmo persuadido por ela. Ou não. De qualquer forma, isso quer dizer que agora eu terei que desconfiar de tudo e de todos. Senti minha espinha gelar, com um pouco de medo do que estaria por vir.

Se pensar bem, não precisava ser adivinha para saber que depois da morte de Aylla viriam mais problemas com “criaturas mitológicas”.