La vie nocturne

10 Capítulo 9


Notas iniciais
Mil desculpas pela demora! Agora voltando ao ponto de vista da Angel.

Acordei depois de um sono sem sonhos. Senti que estava mais quente do que o normal, e joguei as cobertas de lado, ao mesmo tempo em que me espreguiçava. Então meu braço esbarrou em algo duro, e eu me assustei e olhei para o lado, para a fonte do calor. E me lembrei da noite passada.

Anthony dormia de bruços, os lábios um pouco entreabertos, o cabelo bagunçado em todas as direções. Ainda usava a calça jeans e a camisa, mas vi que a jaqueta e os sapatos estavam no chão.

Fiquei sem reação. Deveriam existir regras de como proceder nessas situações. Não sabia se o acordava também, ou se o deixava ali e ia para a escola. E, enquanto me lembrava da existência da escola, olhei meu relógio. Eu estava uns quinze minutos atrasada. Voltei a olhar para Anthony, respirando fundo. Dave me mataria, e o mataria, se o visse aqui. Mas acordá-lo parecia tão desumano.

Decidi ir me arrumar e depois pensar nisso. Levantei com todo cuidado que consegui e fui para meu banheiro. Tentei agir como se não tivesse um vampiro dormindo na minha cama, mas também tentei não fazer muito barulho, o que dificultou o processo. Peguei qualquer roupa do armário e nem me dei ao trabalho de arrumar o cabelo. Juntei meus livros espalhados e os coloquei na bolsa. Voltei a olhar para Anthony. Ele nem havia se movido. Suspirando, peguei a chave do meu quarto e o tranquei. E rezei para Dave não tentar entrar ali.

Mas meu tio ainda estava desmaiado no sofá, como sempre. Tinha um copo vazio de uísque na sua frente, o qual eu coloquei na pia para lavar mais tarde. Peguei um pedaço de pão do dia anterior, passei um pouco de manteiga, tomei um gole de café frio fazendo uma careta, e saí na mesma hora em que Annie passava com o carro. Acenei, correndo, antes que ela passasse direto.

—Pensei que ia pegar o carro de Dave hoje – ela disse pela janela aberta. Com o pão na boca, e me atrapalhando com a bolsa, entrei no carro. – Meu Deus, o que aconteceu com você?!

Engoli um pedaço de pão e balancei a cabeça.

—Nada – minha voz estava aguda demais. Limpei a garganta. – Acordei tarde. Não achei as chaves. Não tomei café. – Levantei o pão, enfatizando. Annie ria alto.

—Você parece um furacão.

—Devastadora? Obrigada.

—Se eu ver migalhas por aqui, você vai ver devastação. – Agora eu ria, terminando meu farto café da manhã.

Depois disso falamos sobre o de sempre. As provas do final do semestre se aproximavam, e estávamos planejando uma reunião para estudar naquele final de semana, já que todos estavam quase reprovando em Cálculo. Quer dizer, nem todos. Summer gostava de números, coisa que eu nunca conseguiria entender. Então ela seria nossa professora.

Voltar à rotina quase me fez esquecer os acontecimentos daquela semana. Annie parecia normal, mas ela era controlada demais. Eu conseguia ver a tristeza que ela escondia com comentários sarcásticos e humorados. Rodrigo ainda era recente demais. Eu queria perguntar como ela realmente estava agüentando tudo isso, mas não sabia se seria melhor. Além disso, eu pensava se deveria ou não contar tudo o que estava acontecendo para ela. Havia grandes chances de ela nem mesmo acreditar em mim. Mas talvez eu devesse avisá-la. Ninguém próximo de mim estava seguro.

Esse pensamento me deixou deprimida. Olhei para a janela enquanto nos aproximávamos da escola. Vi Summer e Erick nas escadas, esperando por nós.

—Annie – sussurrei.

—Sim? – ela já havia estacionado e estava pegando a bolsa para sair, mas eu segurei seu braço.

—Eu preciso... Contar uma coisa. – Isso era mais difícil do que eu pensava.

Ela viu minha seriedade e pareceu um pouco surpresa.

—Tudo bem... – Deixou a bolsa no colo e se voltou para mim. – O que foi?

Ela não ia acreditar em mim. Nem eu acreditava em mim mesma. Se não fosse aquela marca no meu pulso, e agora no meu pescoço (casualmente escondida por uma gola alta), eu pensaria que tudo foi um sonho. Agora, na escola, na minha vida normal, tudo parecia tão distante.

—Você está quieta demais o caminho inteiro, Angel – ela observou. – É sobre... – vi que ela começava a perder um pouco o controle das emoções. – É sobre Rodrigo?

—Não – respondi rápido, mas então me corrigi. – Quer dizer... Mais ou menos, eu acho. – Então, com uma súbita inspiração: — Talvez... Eu saiba o que realmente aconteceu naquela noite.

Annie ficou paralisada por um longo tempo, um pouco pálida. Ouvi, ao longe, o primeiro sinal tocando. Tínhamos cinco minutos para estar dentro da sala.

—Não devia ter começado esse assunto agora – percebi em voz alta. – Olha, na hora do almoço nós conversamos. Atrás da arquibancada. Tudo bem?

—Ok – Annie assentiu, ainda desconfiada, e saiu do carro. Eu a segui.

Sempre íamos para trás da arquibancada quando tínhamos coisas importantes para conversar. Só que geralmente Summer estava conosco. Me senti mal de excluí-la dessa vez, e pensei se não deveria contar a ela também. E depois tinha Erick. Eles estariam mais seguros se ignorassem os acontecimentos? Quantas pessoas se envolveriam nesse segredo?

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Annie me olhava como se eu fosse louca. Eu já esperava por isso.

—Angel... – ela falava com cautela. – Você está se sentindo bem?

—Antes que você questione minha sanidade – respirei fundo. – Só... Não grite, ok? – E abaixei a gola da blusa para deixar a mordida visível. Vi o rosto de Annie ficando rapidamente pálido e ela abrir a boca, talvez para gritar. Mas em vez disso, ela disse:

—Como isso aconteceu? – ela parecia apavorada. – Você não pode estar falando sério. Diga o que realmente...

—Annie – interrompi. – Eu gostaria muito que eu estivesse louca ou inventando tudo isso para chamar atenção, mas... – senti um tremor. – É tudo verdade.

Os olhos dela começavam a se encher de lágrimas. Era a última coisa que eu queria. Era complicado demais; eu não deveria ter dito na escola. Queria poder voltar atrás.

—Então Rodrigo... – ela sussurrou. – Foi essa... Rose que o matou?

—Tenho quase certeza que sim – disse lentamente. Havia contado absolutamente tudo, até sobre Anthony. Bom, talvez não que ele tinha passado a noite no meu quarto, mas tudo que era relevante. – Anthony acha que ela precisa de mim para alguma coisa. Não temos mais informações do que isso, mas...

—Angel! – ela parecia prestes a ter um colapso nervoso. – Não dá. Não. Isso tudo... – agora ela andava de um lado para o outro. – Vampiros? É sério isso? E um deles mordeu você! E quer te matar!

—Sim, mas...

—E Rodrigo!

—Annie, eu só contei isso para a sua segurança. As coisas podem ficar meio perigosas daqui pra frente, se Rose quiser mesmo me matar... – as palavras mal pareciam reais. Eu as dizia como se estivesse lendo um livro. Não era real. A não ser pelo fato de que era.

-Eu... Não consigo processar isso. Desculpa. – Agora ela estava sentada no chão, de pernas cruzadas, as mãos apoiando a cabeça. – Mas... Se for mesmo verdade, Summer e Erick deviam saber também.

—Eu sei. Achei melhor contar para você antes, porque, sabe... Você tem as melhores reações. – Fiz uma careta. – Summer vai pirar. Erick...

—Vai morrer de medo, se acreditar – ela soltou uma risada fraca. – Mesmo que nunca admita.

—Na verdade, ele vai ser o primeiro a pular na sua frente se alguma coisa acontecer – sentei-me ao lado dela, abraçando os joelhos. – Mesmo que também nunca admita isso.

Ficamos em silêncio por algum tempo, enquanto o intervalo do almoço acabava e as pessoas treinando no campo corriam de um lado para o outro. O dia estava razoavelmente ensolarado. Será que Anthony já tinha ido embora?

-Acho que eu não acreditaria em você se Rodrigo não estivesse morto agora — Annie murmurou de repente. – Acho que depois disso... Acredito que qualquer coisa é possível.

—Quem diria que nossas vidas ficariam assim – sussurrei. O vento levantou algumas folhas. Observamos enquanto elas se debatiam no ar, indo para longe.

—Quando você vai contar para Summer e Erick? – Annie perguntou depois de um tempo. Ela começou a se levantar e me ajudou a ficar de pé.

—Talvez... Sábado. Quando formos estudar. É melhor não contar na escola.

—Você pensa nisso agora? – ela riu. Começamos a voltar para o prédio da escola. Já estávamos atrasadas. – Mas tem razão. Lá se vai minha concentração pelo resto do dia.

—Desculpe.

—Tudo bem. E, Angel... – me virei para olhá-la. – Se eu puder ajudar com qualquer coisa... Sobre essa Rose, para impedir ela de chegar a você...

—Annie, não – disse rapidamente. – Eu contei isso exatamente para evitar que você se envolvesse. Fique longe. Na verdade, acho até que você deveria se afastar de mim, pelo menos por enquanto...

—É, isso com certeza vai rolar – ela revirou os olhos. – Qual sua definição de melhores amigas?

Não queria, mas senti um nó na garganta e meus olhos arderam. Queria dizer alguma coisa, talvez abraçá-la, mas ela riu e voltou a andar.

—E não me venha com sentimentalismo. Venha, vamos logo para eu poder passar duas aulas inteiras pensando no que acabou de me dizer e acabar com meu desempenho escolar.

Notas finais
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