La vie nocturne

11 Capítulo 10


Notas iniciais
Obrigada por estarem lendo e comentando, vocês fazem de mim uma autora muito feliz.

Contar para Annie foi a parte fácil do meu dia.

Antes mesmo de chegar em casa, eu já tinha imaginado quinhentas possíveis desculpas para o caso de Dave encontrar Anthony no meu quarto. Como ele faria isso, eu não sabia, afinal, a chave estava comigo todo esse tempo. Mas meu tio era um Caçador; quem sabe do que ele era capaz.

Por isso, entrei com o coração na mão pela porta da frente, um sorriso cauteloso nos lábios. Encontrei Dave jogado no sofá comendo uma tigela de cereal e assistindo TV. Alguma série policial. Parecia inofensivo.

—Cheguei – anunciei, como se não fosse óbvio. – E então...?

Ele tirou os olhos da televisão e me encarou.

—Então... O quê? – perguntou, comendo outra colher de cereal. Senti o início do alívio.

—Algo interessante hoje? – relaxei um pouco e joguei minha bolsa no sofá enquanto ia até a cozinha pegar água.

—Além da forma ridícula que esses seriados descobrem quem é o assassino – ele bufou. – Não. E você?

—Não – respondi rápido demais e engasguei com um pouco de água, o que deu início a uma tosse suspeita. – Bom, a não ser pelo fato de que dormi demais e cheguei atrasada – falei para disfarçar.

—Ah, sim. Aliás, por que seu quarto está trancado?

Ainda bem que eu estava fora do seu campo de visão, ou ele teria visto a forma como eu quase deixei o copo cair, mas o peguei antes que se espatifasse no chão e o deixei na pia como se fosse um bicho querendo me morder.

—Está bagunçado demais. – Dei uma risada fraca.

—E...?

—Não queria ofendê-lo com tamanha bagunça. – Sarcasmo era a melhor forma de mecanismo de defesa. Voltei para a sala e o encarei muito séria. – Foi para seu bem. Seus olhos poderiam derreter. É sério. – Ele começou a rir de verdade. – Não ria; pode ter um corpo lá dentro. Não duvido. Eu o salvei da radioatividade do meu quarto.

Eu tinha sorte de ter Dave como tio. Fazê-lo rir era difícil, mas uma vez feito, era impossível que ele voltasse a ficar sério rapidamente. Em alguns minutos ele já tinha feito dezenas de piadas sobre meu quarto supostamente bagunçado. E a história da porta trancada fora esquecida.

Era bom vê-lo assim. Me lembrava uma época feliz, em que ele e minha mãe faziam piada de tudo até esgotarem a paciência de todos. Menos meu pai. Ele era o único a pedir mais, e a rir, também. Ele ria de tudo. Ele achava minha mãe a pessoa mais engraçada do mundo.

Quando finalmente paramos de rir, e a série acabou, ele disse que ia pedir algo para jantar. Comida chinesa. Não era meu preferido, mas parecia apropriado. Eu disse que ia fazer o dever de casa enquanto isso, e subi para meu quarto.

Hesitei na porta, mas respirei fundo e passei a chave.

Estava vazio. É claro. Soltei a respiração, sentindo um pouco de desapontamento. Mas eu não podia esperar que ele ainda estivesse ali mesmo. Íamos fazer o quê? Comer comida chinesa com Dave? Não vivíamos nesse mundo.

Tomei um banho decente, lavando com água fria meu rosto que estava quente demais, apesar do frio lá fora. Vesti uma calça de pijama e uma regata confortável. Estava agitada demais para pensar no dever de casa. Em vez disso, me sentei na cama e olhei ao redor do quarto. Tentando vê-lo pela primeira vez, como se fosse pelos olhos de Anthony. Não tinha nada muito vergonhoso ali, a não ser...

Meus olhos captaram uma mudança. Faltava um livro na minha estante, e eu logo o localizei ao lado da cama, no chão, marcado em uma página diferente da que eu tinha deixado. Meu rosto esquentou. Ele tinha lido minhas anotações.

—Idiota – murmurei com raiva. Não se era dele ou de mim mesma.

Escrever nos livros era um hábito antigo que eu adquira de Annie. Era mais frequente em livros que eu achava engraçados, e Anthony simplesmente pegou o mais hilário deles. Romeu e Julieta, a mestra das comédias, em minha opinião. Claro que perdia por muito pouco de alguns livros de Bukowski. Eu só esperava que ele não tivesse lido e me achado estúpida por ridicularizar um dos maiores romances da história. Mesmo que ele já fosse ridículo sem minha ajuda.

Deixei meus sentimentos por Shakespeare de lado por um momento e pensei na noite passada. A forma como trocamos sangue, como se estivéssemos... Deixei escapar um suspiro exasperado e me levantei, sem ter certeza do porque. Não conseguia ficar parada.

—Angel! – Dave gritou lá embaixo. – A comida chegou.

E eu não tinha feito o dever. Pelo menos era literatura.

Comemos em silêncio. Dave parecia bem entretido com o macarrão, mas eu olhava pela janela. Era uma noite agradável.

—Alguma notícia de Rose? – ele perguntou de repente, e eu dei um pulo ao ouvir o nome.

—Não... Quer dizer... – era agora. Eu teria que contar alguma coisa. – Eu vi Anthony de novo.

—Ah – ele não parecia surpreso. – Quando?

Era uma ótima pergunta.

—Ele... Apareceu em um sonho. A conexão, você sabe. – Levantei o pulso com a cicatriz para enfatizar. Era melhor do que dizer que ele passou a noite aqui, ou que eu fui salvá-lo de Caçadores. Então contei a ele as novas informações, sobre o escritor Brant, o possível ritual, o solstício dali a algumas semanas...

Dave empalideceu visivelmente enquanto eu falava. Quando terminei, ele tinha parado de comer, metade do macarrão intacto.

—Ah, Angel – ele sussurrou, e sua voz era muito diferente de qualquer tom que ele já tivesse usado comigo. – É muito pior do que pensei...

Ele pegou o celular antes que eu pudesse perguntar qualquer coisa e discou um número. A pessoa atendeu quase imediatamente.

Então meu tio começou a falar em francês.

Odiava quando ele fazia isso, porque nossa família inteira era descendente de franceses e eu era a única que não tinha escolhido francês como língua estrangeira na escola. Mas eu pensei “alguém da família vai me ensinar algum dia, seria perda de tempo”. Então minha mãe morreu e meu tio vivia viajando. Que bela sorte.

De qualquer forma, ele conversou com a tal pessoa por uns dez minutos. Terminei minha comida, até porque não adiantaria nada passar fome por causa daquilo, limpei tudo e esperei ele terminar e me dar alguma explicação.

Mas então eu senti um puxão no fundo da minha mente. Tentei não demonstrar nenhuma reação, apesar do coração acelerado e da sensação de alívio que se instalou no meu interior.

Angel.

Anthony.

Fui para a sala para que Dave não visse o sorriso involuntário que se espalhou pelo meu rosto.

Então, pela janela da sala, vi uma sombra lá fora. Ela se aproximava da casa. A felicidade foi logo substituída pelo medo.

Ela está aqui.

Mesmo sem vê-la, eu sabia. Eu sentia. A dor de cabeça veio com tudo e me assustou, depois de tanto tempo sem tê-la.

Anthony, ela está aqui.

—Tio Dave – sussurrei com urgência. Ele notou o medo na minha voz e veio correndo da cozinha, o celular já no bolso.

A essa altura o vulto tinha desaparecido da janela, mas a dor de cabeça não passara. Pela expressão de Dave, ele também sentia a dor, e pensar no que isso significava me deixou com mais medo ainda.

—Ela não pode entrar – ele sussurrava também. – Mas fique atrás de mim. Ela não pode entrar nas nossas cabeças também.

De algum lugar da calça jeans ele puxou um canivete e ficou segurando. Alguns minutos se passaram, e eu percebi que a dor passava. Ela só queria assustar mesmo? Resolvi me sentar no sofá. Começava a sentir a exaustão depois da adrenalina.

Logo em seguida, ouvimos uma batida na porta. Eu pulei, e Dave foi abri-la com o canivete em posição de ataque. Alguns metros atrás dele, me surpreendi quando vi Anthony na porta, com uma expressão surpresa.

—Você deve ser o Caçador – ele sorriu com sarcasmo e olhou para mim. Suspirei, aliviada.

—E você deve ser o vampiro bonzinho – Dave guardou o canivete e olhou para os dois lados na rua. – Suponho que não precise convidá-lo para entrar.

Meu rosto esquentou. Claro que ele sabia.

—É uma ótima suposição – Anthony aproveitou o espaço dado por Dave para entrar. E, pela primeira vez, ele estava na sala de casa, como se fosse uma visita normal.

—Então... – fechando a porta, Dave virou para nos olhar. – Temos alguns assuntos a tratar.

Notas finais
Desculpem pelo tamanho dos capítulos, logo logo vou tentar escrever direto sem muitas pausas, é mais falta de tempo mesmo. Continuem comentando!