La vie nocturne
12 Capítulo 11
Notas iniciais
—Primeiramente – Dave começou. Estávamos todos sentados na sala, eu e Anthony no sofá, e meu tio na poltrona de couro. – Você sabe que nossa família teve início bem longe daqui, num...
—Pequeno vilarejo na França, sim – completei. – Ouvi essa história milhões de vezes.
—Muito bem – ele ficou em silêncio por um momento. Parecia procurar as palavras. – Algumas famílias são mais unidas que outras, por diversos motivos. E assim era a nossa. Mais do que isso, éramos respeitados entre os nossos. Até que seu bisavô se apaixonou por uma estrangeira, e desequilibrou tudo.
—Como assim... Entre os nossos? – sussurrei, prevendo que não ia gostar da resposta.
E eu estava certa. Dave soltou um longo suspiro e deu um meio sorriso.
—Sei que a essa altura você dificilmente se surpreenderia com qualquer coisa — debochou. – Mas nós viemos de uma família de bruxas e bruxos. Uma muito poderosa, aliás.
Tenho que dar crédito ao meu tio. Ele me deu tempo para processar isso. Pensei como isso poderia ter passado em segredo por tantos anos. Mas é claro, nós não éramos muito próximos do resto da família. Meus pais sempre me disseram isso. Eles tinham primos distantes, que nunca mais viam. E eu nunca nem ouvira uma palavra sobre meus avós. Estranho, sim, mas não é raro filhos quererem fugir de seus pais.
—Tudo bem... – consegui responder depois de um tempo. – Bem, já que eu não consigo mover coisas com a mente nem explodir nada, imagino que algo deve ter acontecido. Ou eu teria poderes. Certo?
—Certo. – Dave estava um pouco sombrio demais. Seu olhar estava meio sem foco, e me perguntei no que ele estaria pensando. – Seu bisavô conheceu Eleonora. Não me lembro do sobrenome de solteira dela, pois a primeira coisa que ele fez quando voltou de viagem, trazendo ela consigo, foi casar novamente. Ele tinha tido uma esposa, uma bruxa de outra família, porém ela morrera nos primeiros anos do casamento.
—E qual era o problema com... Eleonora? – perguntei, e me surpreendi quando a resposta veio de Anthony, e não do meu tio.
—Ela praticava outro tipo de magia – sua voz era baixa, mas me deu um susto. Quase tinha me esquecido da presença dele, se é que isso era possível. Agora ele sorria de forma sarcástica. – Uma que estava muito famosa na época.
—Magia de Caçador – Dave assentiu. – Eleonora ficou muito conhecida entre bruxos e vampiros. Apesar de ela não ser uma Caçadora praticante, seus conhecimentos foram cruciais. Pode-se dizer que ela iniciou o trabalho da família, apesar das conseqüências que isso trouxe.
—Consequências? – eu gostava cada vez menos da história.
—Primeiro você precisa entender o trabalho de uma bruxa, ou um bruxo. Eles normalmente não se misturam com vampiros, a não ser que seja muito necessário. Se envolvem mais com questões da natureza, equilíbrio, essas coisas. Ajudam humanos comuns, prioritariamente. Nos dias de hoje, é muito comum você ver um bruxo numa ONG, ou em projetos sociais, ou até mesmo no governo de uma cidade bem-sucedida. A magia não se resume a mover objetos com a mente ou explodir coisas. Existe muito poder psíquico envolvido, energia, empatia. Já se foi o tempo onde bruxos se reuniam ao redor de fogueiras e rezavam para deuses pagãos.
Assenti, mesmo que minha cabeça estivesse queimando de tanta informação. Queria me enrolar debaixo de cobertores e tentar me lembrar do mundo como ele era antes dessa loucura.
—Então, foi um choque quando Eleonora quis misturar as coisas. Ela tinha um passado conturbado com vampiros atacando sua cidade, por isso sentia um ódio irremediável por eles. Darden, seu bisavô, tão cego de amor como ele estava, apoiou-a em todas suas decisões e pesquisas, e acabou se tornando ele mesmo um Caçador. O problema foi o quanto ele se entusiasmou com isso. Quis atrair vampiros para os arredores do vilarejo, o que não deixou os moradores muito felizes. Ele jurava que conseguiria exterminar todos os monstros que viessem. Até então, aquele era um lugar pacífico, visitado somente por turistas. Quando vampiros ficaram sabendo de sua existência... Ou melhor, da existência de pessoas estúpidas o bastante para ameaçá-los, eles vieram. E foi um caos.
Dave ficou em silêncio por um minuto. Como se ele tivesse estado lá, e se lembrasse do massacre. Olhei pelo canto do olho para Anthony. Ele parecia desconfortável. Pela primeira vez, compreendi que ele tinha vivenciado essa história. Olhando agora, era impossível pensar que aquele garoto – ele não podia ter mais de vinte anos quando fora transformado – estava vivendo já fazia tantos anos, e presenciando tanta história se desenrolar no mundo.
—Darden e Eleonora fugiram. – Dave continuou, interrompendo meus pensamentos. – Porém, quando tinham se estabelecido em outra vila, os bruxos sobreviventes os encontraram. Eles os levaram para uma cidade, esqueci o nome, onde havia um conselho antigo de bruxas. Afinal, eles precisavam ser punidos. Eleonora a essa altura estava grávida, e os anciãos foram brandos na decisão. Eles lançaram uma “maldição”, na falta de uma palavra melhor, na futura família de Darden. Todos eles nasceriam sem magia, e ficariam condenados para sempre a caçar os monstros que ele atraiu para seu vilarejo.
Dave fez uma pausa, hesitando.
—Alguns poderes adicionais vieram com essa maldição. Podemos sentir quando vampiros se aproximam, quando eles representam perigo. É diferente para cada um, mas na nossa família, em geral, é uma dor de cabeça. Nossos reflexos, se desenvolvidos, ficam mais rápidos que de um humano comum. Somos mais sensíveis ao cheiro de sangue; não me pergunte por quê. Sua mãe quase desmaiava toda vez que via sangue – ele riu repentinamente. – Teria sido uma péssima Caçadora. Ela se afastou ainda muito nova, e quando conheceu seu pai, decidiu de uma vez por todas viver uma vida normal, sem qualquer envolvimento com bruxas, Caçadores ou vampiros. Nossos pais não gostaram nada disso, mas eles acreditavam que filhos deviam traçar o próprio caminho, apesar de tudo. – Havia agora um rancor pesado na sua voz. Por nenhum motivo, senti um frio estranho na barriga, como se eu estivesse prestes a cair de um lugar alto. Ele ia falar dos meus avós, finalmente, depois de tanto tempo.
—Darden e Eleonora, no entanto, não tiveram uma família grande – Dave continuou a história, e me senti desapontada. – Apesar de seus seguidores serem inúmeros. Existem, até hoje, bruxos que abrem mão de sua magia voluntariamente para se tornarem Caçadores. Talvez por isso esse legado ainda sobrevive. Se não fosse pelo apoio de outros, seríamos uma minoria insignificante.
Ele fez outra pausa, e eu começava a me sentir impaciente. Dave não poderia evitar o assunto por muito tempo. Ao mesmo tempo, eu sentia uma inquietação, como se a resposta fosse me perturbar muito mais do que qualquer outra coisa que ele tivesse contado. Talvez fosse meu sentido de Caçadora.
Só de pensar nessa ideia, eu sentia calafrios.
—Seus bisavós tiveram duas filhas – ele finalmente disse. – Heloise. Ela era a mais nova. Casou-se com Marshall Allen, um bruxo que desistiu de sua magia para ser um Caçador. Ele morreu numa batalha, e ela morreu pouco tempo depois, de alguma doença. Tiveram apenas uma filha, Justine Allen. Minha prima. Ela também se manteve longe da família, o mais distante possível. Nunca fica parada num lugar por muito tempo. Da última vez que tive notícias, estava em algum lugar esquecido da Alemanha com o marido, Matthew Clarke.
Congelei. Eu conhecia esses nomes.
—E tem a primeira filha. Celia Ruiter. – Dave sussurrou, e eu estava certa. Era pior do que tudo. – Minha mãe.
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