La vie nocturne

9 Capítulo 8 - Anthony


Quando voltaram ao presente, Anthony observou a reação de Angel. Ela tremia. Parecia estar sobrecarregada.

—Então... – sua voz não passava de um sussurro. – Esta é Rose.

—Sim — Anthony falava com cuidado.

—E você ainda não sabe o que ela quer.

—Não.

Angel assentiu. Não parecia muito bem. Estava pálida demais, mesmo no escuro.

—Posso sugerir uma coisa sem você surtar? – ele perguntou.

—Surtar? – ela bufou, parecendo voltar ao normal. – Eu nunca surto!

—É claro que não – ele se aproximou dela inconscientemente. – Beba meu sangue.

Isso a calou. E com certeza fez o sangue voltar ao seu rosto.

—Não... – Angel disse, mas foi uma negatória tão fraca que até ela riu, balançando a cabeça. – Por que você faz isso?

—Eu não faço absolutamente nada! – ele se defendeu. – E é para seu bem. E, bom, no caso de qualquer coisa acontecer...

—Podermos nos contatar de forma rápida? – completou. – Isso seria útil. Mas eu... – ela se interrompeu subitamente, e olhou para o lado. Suas bochechas estavam muito rosadas, até na escuridão. Ela ainda abraçava o travesseiro. Parecia uma criança, na verdade. Se não a tivesse visto naquele vestido na festa de Halloween, ele com certeza pensaria que ela tinha uns quatorze anos. Ele se surpreendeu com a lembrança e a forma como o deixou inquieto e se forçou a focar na conversa.

—Você o que?

Ela soltou um longo suspiro.

—Eu não deveria querer isso – admitiu.

Anthony encontrou seus olhos. Azuis, mais profundos que os seus. Grandes e expressivos. Era muito fácil ler suas emoções.

—Nem eu – ele sussurrou.

O ar pareceu mudar com aquela afirmação. O coração de Angel batia rápido, e sem controle sob si mesmo, Anthony de repente sentiu mais desejo pelo sangue dela do que por qualquer outro em toda sua vida. Ele não sentiu suas mãos indo na direção dela, puxando-a para si. Não percebeu que ela não ofereceu nenhuma resistência. Só o que conseguia sentir era o cheiro do sangue dela, seus cabelos quando ele os afastou do pescoço, a maciez de sua pele; ele era feito apenas de sensações, e não de pensamentos, naquele momento. Quando a mordeu, foi como se estivesse no deserto há anos, e finalmente encontrasse água. Ela soltou a respiração com um gemido, e ele se conteve para não perder o pouco de controle que ainda tinha. Tentou ser gentil com ela, pôs a mão atrás de sua cabeça para apoiá-la melhor, e com a outra segurou seu rosto. Ela não o ajudou. Puxava-o para perto, os dedos entrelaçados em seu cabelo, em sua nuca, como se eles estivessem se beijando. A essa altura eles estavam deitados, e as pernas dela o envolveram. Anthony passou as mãos para a cintura dela, apertando-a contra si.

Foi só quando começou a senti-la mais fraca que se lembrou. Eles não estavam se beijando; ele estava bebendo o sangue dela. Provavelmente a matando.

Anthony parou imediatamente. Ela deixou a cabeça cair no travesseiro, de olhos fechados, fraca demais, mas tinha um meio sorriso nos lábios. Ele queria beijá-la, talvez mais do que queria seu sangue, e isso o surpreendeu tanto que o paralisou por um momento. Controlando-se novamente, mordeu o próprio pulso e o posicionou na boca dela.

-Beba – sussurrou. Sua voz estava rouca demais. Angel bebeu, ainda de olhos fechados. Depois de algum tempo ela abriu os olhos, mais recomposta, e parou de beber, afastando seu pulso e se sentando.

Eles se olharam em silêncio por um momento. Então, ela soltou uma risadinha nervosa, e ele a acompanhou.

—Amanhã eu tenho aula – ela se lembrou, ainda rindo. Anthony riu mais ainda.

—Boa sorte acordando cedo – disse olhando para o relógio na escrivaninha. – São... Nossa, já são três da manhã?

—O tempo voa quando se compartilha visões do passado, sangue e essas coisas – ela ainda ria.

—Então... Acho que eu devo ir – ele olhou na direção da janela e pensou, de verdade, em ir embora. Em voltar para sua casa provavelmente vazia. Para seu quarto desarrumado. Para o silêncio. Para seus próprios pensamentos.

—Sim... – ela olhou para baixo. – Ou... Sei lá.

—O quê?

—Você podia ficar – Angel murmurou. – Só hoje. Falta pouco pra amanhecer, de qualquer forma. Se você quiser, é claro...

Anthony pensou em ficar. Em não ficar sozinho. Ficar com a risada dela. No quarto dela, na cama dela. Se sentindo mais leve do que se sentira em séculos.

—Acho que eu posso fazer esse sacrifício – brincou. – Mas você vai ter que ficar acordada.

—Acho que eu posso fazer esse sacrifício – ela sorriu e voltou a se deitar. Anthony permaneceu sentado, encostado na parede, com Angel ao seu lado, virada na sua direção. – Então, já esteve em alguma festa do pijama?

—Inúmeras – respondeu. – Mas todas acabavam com meninas desmaiadas e eu tendo que limpar o sangue da minha roupa.

—Ah – ela parou de sorrir. – Que... Inconveniente.

—Demais – ele assentiu. Olhava para o quarto. – Por que você não tem nenhum bicho de pelúcia? Acho que nunca encontrei uma menina que não tivesse pelo menos um.

—Eu tenho – ela admitiu. – Eles estão no armário. Eu os guardo quando vou dormir porque tenho medo de acordar à noite e eles me assustarem.

—Como... Um bicho de pelúcia pode ser assustador?

—No escuro – ela deu de ombros. – Tudo fica distorcido no escuro.

Anthony assentiu, pensando no que ela dissera.

—Não tem medo de dormir e me encontrar aqui? – perguntou. Ela demorou a responder, e ele teve que olhá-la. Ela o encarava, os olhos semicerrados.

—Acho que tenho mais medo de acordar sozinha – disse, por fim. – Só que faço isso todo dia. Já me acostumei.

—Acho que eu entendo... – ele parou, pensando no absurdo daquela conversa. Ele estava no quarto de uma garota, depois de beber o sangue dela. Eles estavam conversando. Sobre coisas banais. Quando foi a última vez que isso tinha acontecido?

—Você pode deitar se quiser, sabe – ela disse e bocejou em seguida. – Eu não mordo, diferente de algumas pessoas.

Anthony riu.

—Sério, essa posição não deve ser confortável por muito tempo. – Agora ela se espreguiçava. Um pedaço da sua barriga apareceu com o movimento, e ele se sentiu tentado a tocar aquela parte, descobrir se era tão macia quanto parecia. Começou a se imaginar levantando a blusa dela, e se interrompeu aí. Não eram pensamentos adequados, principalmente estando na mesma cama que ela.

Ele se recompôs e se deitou, tendo o cuidado de manter uma distância segura de Angel. A menina fechava os olhos, com sono demais para mantê-los abertos.

-Posso perguntar uma coisa? – ela perguntou.

-Já perguntou.

-É sério – ela abriu os olhos com um meio sorriso.

-Claro, Angel.

-Lucienne... Você gostava dela? – agora ela estava séria. E meio receosa, ele percebeu. – Quer dizer...

-Ela era uma amiga – Anthony respondeu rápido. Não queria se prender às lembranças de Lucie. – Uma boa amiga. Nada mais que isso, para mim, pelo menos.

-E como... Quer dizer, Rose... Matou Lucie. E você, depois de transformado, fez alguma coisa? Tentou se vingar?

Anthony ficou em silêncio por muito tempo. Angel o encarava. Não o estava acusando, ele percebeu, era pura e verdadeira curiosidade. Parecia até um pouco preocupada com ele, se isso não fosse loucura.

-Não fiz nada – ele disse, admitindo aquilo em voz alta pela primeira vez. – Juro que pensei, inúmeras vezes, se faria alguma coisa, o que faria... Mas Rose... Ela me sugou para sua vida de forma tão súbita que eu não tive... – ele suspirou e fez uma pausa. – Não. Eu tive escolha, sim. Eu escolhi deixar minha vida humana para trás, e com ela, Lucie também. Não queria me lembrar da dor. Rose conseguia me fazer reprimir todas as lembranças dolorosas, e isso, apesar de doentio, me fazia gostar ainda mais dela. Se é que você pode chamar aquilo de “gostar”.

Angel assentiu, desviando os olhos. Ela não havia gostado da resposta, ele podia ver. Agora o clima parecia meio tenso. Ela ficou calada por tanto tempo que ele começou a se sentir desconfortável. Então, ele deu uma espiada nos pensamentos dela, usando a conexão renovada entre os dois. Ela estava inquieta com imagens de Rose e Anthony, juntos. A mesma mulher que a queria morta, e ele, de quem ela parecia gostar. Muito.

Anthony sentiu algo dentro de si se quebrar e se juntar novamente. Sentiu como se tivesse emergido depois de muito tempo debaixo d’água. Sem pensar, pegou a mão dela e a segurou em cima do travesseiro.

-Saia da minha cabeça – ela sussurrou com raiva.

-Faz muito tempo, Angel – ele não conseguia se sentir mal. Se sentia feliz, de verdade.

-É verdade. Você tem o quê, uns mil anos de idade?

Era tão fácil rir com ela! Ele não queria, sabia que a deixaria com mais raiva. E deixou. Ela tentou retirar a mão de dentro da sua, mas ele a segurou com mais força.

-Você devia dormir – ele sussurrou depois de um tempo.

-Você devia... – ela respirou fundo e fechou os olhos. – Esquece. Cansada demais pra isso.

-Eu quero matar Rose – ele a assegurou. – Nada do que aconteceu no passado vai me impedir de fazer isso.

Ela abriu os olhos e o encarou novamente. Dessa vez, pareceu relaxar.

-Tudo bem – e bocejou. O sono havia voltado. – Boa noite, Anthony...

-Boa noite, Angel.

-E obrigada – completou. Estava quase dormindo.

-Pelo quê? – ele perguntou.

Se ela pretendia responder, não o fez. Em vez disso, dormiu, soltando de leve a mão dele. Anthony queria se inclinar e beijar sua testa, num gesto tão clichê que se forçou a parar com esses pensamentos e sentimentos. Precisava se lembrar de quem era. Um vampiro. Com uma existência entediante e inútil.

Mas precisava ser assim? Ele olhou ao redor do quarto novamente, inspirando o cheiro dela que estava na superfície de tudo. Ela tinha uma vida tão mundana. Melhores amigas, escola na segunda de manhã, família. E, no entanto, suas histórias pareciam se cruzar inevitavelmente. O tio dela era um Caçador. Rose a queria morta. Era puro azar ou ela tinha mesmo algo de especial?

Voltou a atenção para a mão dela, que ele ainda segurava. Prestando atenção, com sua visão noturna melhor do que a humana, havia uma pequena marca perto do pulso. Pensou ser a cicatriz da sua mordida, mas olhou melhor. Era menor e circular, meio irregular. Quase como um sol. Parecia muito familiar. Onde ele já havia visto aquele sinal?

Não se demorou muito nesse pensamento. Ele mesmo começava a sentir sono de novo, mesmo que, para um vampiro, ainda fosse cedo demais para dormir. Resolveu pegar algum livro na estante dela e ler até dormir. Com delicadeza, soltou a mão dela e saiu da cama.

Ela tinha alguns romances que estavam na moda, mas também autores clássicos. Jane Austen, Bukowski, até Shakespeare. Ele pegou Romeu e Julieta, não por gostar muito, mas exatamente porque o cansaria mais rápido. Voltou a deitar-se ao lado de Angel, e abriu o livro. Notou que as páginas estavam cheias de anotações. Pensou, primeiro, que fossem para alguma aula de literatura, mas percebeu que eram pessoais. A maioria eram frases sarcásticas, pensamentos que ela tivera sobre certo trecho, às vezes até mesmo risadas. Ele podia imaginar ela rindo lendo aquilo, algumas passagens absurdas da peça, que poderia ter sido vista como uma comédia, não fosse a busca humana incessante por um romance absurdo como aquele.

Anthony se divertiu lendo os pensamentos dela. Quando passou para a peça em si, já estava quase dormindo. Então ele fechou o livro e olhou para Angel. E se sentiu em paz.

Notas finais
Comentem :3