La vie nocturne

8 Capítulo 7 - Anthony


Notas iniciais
Bom, eu realmente queria explorar o ponto de vista do Anthony, então alguns capítulos vão ser assim. Não sei ainda qual vai ser a ordem, talvez seja aleatório. Espero que gostem!

Aquela noite começou como qualquer outra.

Anthony acordou depois de um pesadelo, rígido, certificando-se de que estava em seu quarto e de que estava sozinho com cama bagunçada, o guarda roupa de madeira simples, a cômoda cheia de livros e papéis aleatórios que lhe eram familiares. Passou minutos deitado, olhando para o teto, planejando mais uma noite, visualizando o que não seria tão tedioso fazer. Por fim, acabou levantando, porque uma hora teria que fazer isso. Sua garganta estava seca. Como sempre.

Então lembrou de tudo que havia acontecido na noite anterior. Com Angel, Mark e os Caçadores.

Quanto mais tempo pensava naquilo, mais tudo parecia não ter sentido. Só o fato de a menina ter aparecido naquele porão, parecendo até mais assustada do que ele mesmo se sentia, era simplesmente incompreensível. No carro, com os cabelos desgrenhados e chorando (aliás, por que ela estava chorando?), ela não se importou em nenhum momento em ter que salvá-lo. Como se fosse sua obrigação. Como se fosse algo que fizesse sem pensar duas vezes. Que sentido tinha aquilo?

E mais importante, ele estava se importando com o papel dela naquilo mais do que com o de Mark. Depois da pequena briga de ontem, que resultou na mesa de centro quebrada e um Victor entusiasmado demais com o caos dentro da casa, Anthony e o traidor, como se referia a ele em seus pensamentos, haviam concordado em se evitarem. Era preciso conviver de forma pacífica em tempos como aqueles. O problema era que Mark não apreciava muito a ideia de paz.

Tirou isso de seus pensamentos, por enquanto. E se preparou para se alimentar.

“Caçar” era um termo que não tinha mais sentido, também. Implicava certo esforço, e Anthony não precisava se esforçar para conseguir sangue há anos. Principalmente em cidades grandes.

Colocou qualquer roupa que encontrou limpa e sua jaqueta por cima. Não se preocupou em olhar no espelho e saiu de seu quarto o mais rápido possível. Ficar muito tempo em algum lugar nunca havia lhe agradado. Anthony considerava seriamente a possibilidade de estar desenvolvendo algum tipo de loucura ou paranoia. Principalmente por causa dos pesadelos.

Ele nunca se lembrava de todos, mas todos, sem exceção, o deixavam a beira da morte. E ele acordava se sentindo sempre da mesma forma: inquieto, assustado e sozinho. Mas depois de um tempo conseguiu se acostumar.

Era um vampiro, e vampiros não desenvolviam doenças mentais. Ele achava.

No andar de baixo, inspirou fundo e pôde sentir o cheiro de Angel ainda impregnado no lugar. Sua garganta ardeu mais. E novamente estavam lá, aqueles pensamentos confusos. A noite passada. O jeito que ela abriu aquele corte muito mal feito no próprio braço para ajudá-lo a ficar forte. Ela nem hesitou. Por que ela ia querer que ele bebesse seu sangue? Anthony se divertia com isso, mas era estranho. A garota parecia estar sempre correndo de encontro a ele... Ou talvez fosse ele quem estava sempre indo até ela.

E tinham aqueles momentos raros em que os dois pareciam entrar em harmonia de espírito e simplesmente... Riam um do outro. Isso talvez fosse o mais assustador de tudo. A forma como se sentia a vontade em rir perto dela. Parecia um reflexo natural. E a forma como ela havia o olhado ontem, como se visse toda a solidão que ele já tinha até esquecido que sentia.

Anthony balançou a cabeça, inspirando mais uma vez. Olhou ao redor. Escutou com atenção. Não havia ninguém em casa. E de forma súbita e dolorosa, como não havia sido em muitos anos, ele se sentiu muito sozinho. Saiu rapidamente dali, pegando as chaves do carro, pensando na loucura em desenvolvimento na sua mente. Pensando que, na verdade, nada na sua vida parecia fazer sentido ultimamente.

Era um idiota, e sabia disso. Estava parado no jardim da casa dela, tendo estacionado a algumas quadras de distância. Não sabia o que procurava ali. Ela provavelmente estaria dormindo. Deveria estar se alimentando, ou procurando sinais de Rose.

A vampira maluca do seu passado tinha voltado para assombrá-lo, e dessa vez ela nem mesmo procurava por ele. Porque ela estaria interessada em Angel, ele não sabia. A não ser que a menina fosse algo mais. Talvez isso explicasse suas reações estranhas e o efeito que causava em Anthony. Talvez fosse uma bruxa e não soubesse.

Nunca tinha entrado na casa de Angel, e por isso não poderia vê-la, a não ser que ela saísse para o jardim, o que parecia difícil, já que ela parecia estar dormindo. A conexão entre eles criada pelo compartilhamento do sangue estava ficando um pouco fraca, mas Anthony ainda conseguia alcançar sua mente, se quisesse.

Ele se esforçou um pouco e viu com o que ela sonhava. Um garoto alto, moreno, que sorria para ela e a abraçava. Anthony sentiu algo desagradável e quis sair da mente dela, mas logo em seguida o garoto ficou com uma expressão assustada e duas feridas apareceram em seu pescoço, enquanto ele ficava pálido e morria. Angel estava com medo e chorava, e se debatia na cama, até que acordou.

Ela tinha medo de vampiros, então. Não era o que parecia quando estava com ele.

Anthony...

Ele olhou para a janela com expectativa. Ela estava o chamando? Ou só pensara nele? Sua voz era fina e assustada.

Tentou escutar mais, mas ela tinha voltado a se deitar. Estava realmente apenas pensando nele. Anthony não sabia como se sentir sobre isso.

Angel...?

Antes que pudesse se arrepender por falar com ela, sentiu o sobressalto na sua mente. Ela pulou para fora da cama e abriu a janela, apertando os olhos para enxergar no escuro. Seu cabelo era um borrão escuro ao redor do rosto pálido.

–O que você está fazendo aqui?! – ela sussurrou, mas ele escutou perfeitamente. E não sabia como responder.

–Você me chamou...? – saiu como uma pergunta. Sentia-se muito estranho e queria sair dali. – Ou não. Posso ter entendido errado, mas você estava pensando em mim agora há pouco?

–Isso realmente não é da sua conta! – ela estava com raiva e seu coração batia acelerado. – Eu estava dormindo. Apenas. Pode ir embora agora.

–Angel... – ele começou, mas sua voz soou diferente até para seus próprios ouvidos. Mesmo na escuridão, Anthony via o rosto da menina se tornar ligeiramente mais rosado.

–Sim, Anthony? – sua voz ainda era de raiva, mas tremia. Como se estivesse se esforçando para não demonstrar outra emoção. Ou talvez para não rir. Ela queria rir? Ele mesmo queria rir daquela situação ridícula.

–Pensei em lhe mostrar o resto da história – Anthony falou apenas alto o bastante para que ela escutasse.

Angel ficou surpresa por um momento, e depois pareceu hesitar. Quando falou, sua voz estava um pouco mais fina.

–Você... Quer subir aqui? – perguntou lentamente, e Anthony sentiu uma agitação dentro de si. Ficou alguns segundos parado, apenas absorvendo aquela sensação, surpreso demais para dizer qualquer coisa.

Então, no segundo seguinte, ele estava escalando a parede da casa, sem dificuldade alguma, na velocidade sobrenatural. Ouviu o arfar de surpresa dela quando parou, sentado na janela, olhando para ela. Ela tinha uma mão na boca e os olhos arregalados. Usava uma camisa larga demais de alguma banda e calças de pijama. O cabelo liso e desgrenhado, a franja meio que apontando em todas as direções. E ele teve vontade de rir de novo, mas apenas sorriu.

–Obrigado por isso – ele sussurrou com malícia enquanto entrava no quarto com um grande gesto. E pôde ver o brilho de medo nos olhos dela, logo substituído pela irritação habitual.

–Vai ficar fazendo piada ou me mostrar o resto da história? – perguntou enquanto se sentava na cama e cruzava as pernas. – E, aliás, não podia ter esperado até de manhã pra... – se interrompeu, parecendo perceber alguma coisa.

–De manhã eu geralmente durmo – Anthony a lembrou. Ele olhou ao redor do quarto. Era bem mais organizado que o seu, mas ainda bagunçado, ele achava, para uma menina. Ele podia ver pilhas de roupas em cima de uma cadeira na escrivaninha, uma estante cheia de livros e CDs e o que pareciam ser diários. A cama na qual a garota se encolhia tinha lençóis vermelhos e era encostada na parede, sem nenhum tipo de bicho de pelúcia. O guarda roupa era branco com algumas fotos grudadas nele. Anthony se aproximou e viu aquelas meninas da festa de Halloween que a acompanhavam, a loira e a ruiva, e dois adultos que podiam ser os pais dela.

–Anthony... – ela chamou, e ele percebeu que estava em silêncio há muito tempo.

–Sim – ele saiu de sua pequena inspeção e foi até a cama para se sentar ao lado dela. Angel imediatamente ficou na defensiva e agarrou o travesseiro, abraçando-o, como se fosse um escudo. Ele teve que rir. – Não vou morder você, Angel...

–Vindo de um vampiro...

–Ainda.

Ela parou de falar e ele escutou o acelerar do seu coração. Estava sendo cruel com ela e sabia, o que não sabia era como não gostar tanto disso.

–Sabe que tem um Caçador no andar de baixo, não é? – ela apertou os olhos.

–Muito bem lembrado. – Mas ele ainda não tinha parado de sorrir. – Agora feche os olhos.

–Tem certeza que a... conexão está forte o bastante? – ela perguntou. – Parece que...

–Enfraqueceu? Sim – ele admitiu. – Mas resta o suficiente pra isso.

Angel assentiu e, com um último olhar de aviso para ele, prometendo silenciosamente que se ele tentasse qualquer coisa ela com certeza gritaria, fechou os olhos.

E a visão começou.

O frio da noite foi como uma benção. A neve caía lenta e delicadamente, como se o tempo tivesse desacelerado. Mas também, depois da agitação dentro da mansão, era de se esperar que as coisas parecessem relativamente calmas lá fora.

Anthony se preparou para dar o primeiro passo de volta para casa, mas subitamente parou. O que estava fazendo? Obedecendo? Depois de ter presenciado sua amiga e acompanhante desaparecer no ar, e de ter ouvido seu grito desesperado, ele ia apenas sair correndo para casa?

Bufando, ele tirou o pouco de neve que tinha se acumulado no cabelo escuro, e colocou as luvas negras. Com uma determinação que nunca imaginou que tivesse, Anthony se esgueirou pelos lados da mansão, tomando cuidado para não ser visto em nenhuma janela ou sacada, e se dirigiu sorrateiramente ao jardim. Ele podia sentir a criatura novamente, sentir o clima ficando mais frio à medida que se aproximava. Quando finalmente pisou em uma das pedras polidas que faziam um caminho até o jardim, sua respiração falhou.

Ele deu uma boa olhada ao redor. Era como se uma pequena parte do bosque se abrisse a sua frente. Havia variadas espécies de árvores entrelaçando suas copas lá no alto, e arbustos floridos quase da sua altura. No meio, um grande e velho carvalho se erguia, e colado ao seu tronco, havia um banco de mármore.

Sob a luz pálida da lua que passava por entre as árvores, ele viu duas figuras no banco. Uma delas era Lucie, deitada, lânguida, parecendo uma Bela Adormecida. E a outra, que segurava a cabeça de Lucie no colo, era aquela mulher pálida que ele vira mais cedo. Os grandes olhos da cor da lua o fitaram, e, mesmo de longe, Anthony pôde ver seus dentes afiados quando ela sorriu. Ele cambaleou para trás.

–Você... É...

–O monstro? – ela perguntou delicadamente. Sua voz era aguda e cortante como uma lâmina. – Prefiro ser chamada de vampira.

Olhando novamente para Lucie, ele percebeu que a menina não estava respirando, e sua pele era quase tão sem cor quanto o mármore. Suas mãos estavam entrelaçadas no peito, e havia uma mancha escura em toda a lateral de seu vestido branco, de algo que escorria de seu pescoço...

Antes que pudesse assimilar a cena, a mulher – a vampira – se levantou, deixando a cabeça de Lucie repousar no mármore, e ficou de pé com sua postura digna da nobreza.

Por um momento, ele se esqueceu do seu propósito. Aquela mulher realmente sabia distrair um homem. Os cabelos lisos esvoaçantes, tão negros quanto a noite, contrastavam com a pele branca como a neve que ainda caía. Os lábios eram vermelhos e bem desenhados, o rosto era anguloso e arrogante, e o corpo era alto e esbelto. O vestido, apesar da data e da comemoração, era de um vermelho profundo, e com um decote que mostrava mais do que era considerado educado. Em outras circunstâncias, Anthony teria desviado o olhar, mas agora ele não conseguia. Estava hipnotizado.

De repente, ela estava bem à sua frente, há centímetros do seu rosto. Abalado com sua rapidez, ele deu mais um passo para trás e sua cabeça bateu em algo. Um suporte com uma tocha acesa. Sem pensar, pegou a tocha e a colocou entre seu corpo e a vampira.

–Afaste-se – ele disse recuperando o juízo.

–Não tenha medo de mim, querido – ela sussurrou sedutora.

–Você matou Lucienne! – sua voz tremeu ao pronunciar as palavras. Seu corpo todo tremia; de frio, de medo e de ódio àquela criatura.

A vampira riu.

–Anthony... – sua voz era suave. Com um gesto delicado, ela o fez abaixar a tocha, e um vento frio apagou sua chama. – Sinto muito por sua amiga. Ela era tão frágil, tão... – ela piscou os grandes olhos cinzentos e, lentamente, eles foram se tornando negros. – Fácil.

Novamente, ela sorriu, e ele viu seus caninos pontudos quase perfurando o lábio inferior.

Uma raiva descontrolada tomou conta de Anthony ao pensar na doce, ingênua Lucie, tendo sua vida sugada pela criatura perfeita na sua frente. Ele levantou um braço que tremia, indeciso se devia ou não lutar contra o monstro sozinho, mas ela o segurou. Ela era muito forte.

–Bem, se quer fazer isso do jeito difícil... – ela suspirou e, lentamente, se inclinou na sua direção. Aqueles lábios sedutores estavam se aproximando, chegando ao seu pescoço, acariciando sua pele...

Tomado por uma sensação de torpor, Anthony percebeu que estava caindo. O mundo ao seu redor oscilava às vezes embaçado, às vezes tão iluminado que chegava a machucar seus olhos. A vampira na grama salpicada de neve, afagando seus cabelos, sua bochecha, e controlando sua mente. O momento se estendeu, e Anthony perdeu a noção do tempo. A próxima coisa que sentiu foram aqueles dentes afiados se fechando no seu pescoço, e sugando seu sangue, sua vida, sua alma. E, superando todas as suas expectativas, aquela foi a melhor e a pior sensação da sua vida.

Mas, quando percebeu que estava perdendo as forças e a consciência, ele tentou se livrar dela. Empurrou debilmente a vampira pela cabeça, como que para dizer que estava morrendo. Ela entendeu.

–Você não quer morrer – ela sussurrou em seu ouvido, concluindo o óbvio. Mas era mais do que isso. Ela tinha entendido o que ele queria. O desejo mais profundo do seu subconsciente, que ele se recusava a admitir a si mesmo.

Anthony sentiu a mudança. A vampira se afastou com um sorriso radiante e sangrento. Sem pensar com clareza, ele colocou a mão no pescoço para controlar a saída de sangue que o deixava fraco.

–Já sei o que farei com você – ela declarou alegre. Em seguida, começou a puxá-lo para cima sem hesitar. – Vamos! – ela exclamou. — Vamos nos divertir muito juntos.

Preso em algum estado entre a consciência e a escuridão, Anthony se deixou ser puxado, praticamente arrastado, de volta para a mansão. Com um chute ensurdecedor, a vampira abriu as portas do salão e o levou para dentro.

As pessoas pararam. Tudo parou. Todos encararam, alarmados e apavorados, aquela dupla incomum. A vampira, majestosa e coberta de sangue, e Anthony, abatido e quase inconsciente.

Ela o exibia para os convidados como se fosse um prêmio. Sem dificuldade, o arrastou pelo salão, sem se importar com os olhares e as exclamações de horror. Os convidados, sem saberem o que fazer, foram abrindo lentamente o caminho para que eles passassem, como se fossem seus súditos obedientes e os dois, seus reis demoníacos. Deixando uma mancha desagradável de sangue no chão, Anthony observou languidamente as pessoas, os humanos e suas vidas medíocres e sem significado. Humanos que, agora, o encaravam com um misto de pavor e repugnância. Parado perto da escada, ele viu seu próprio pai o fitando, e depois fechando os olhos e balançando a cabeça, como se desaprovasse uma tolice do filho. Como se não pudesse suportar acreditar naquilo. Anthony sempre odiou o modo com os humanos fechavam os olhos para não ver a inevitável verdade de um momento difícil, e odiou sua espécie mais ainda naquele instante. Odiou seu pai por deixá-lo partir sem mover um dedo para ajudá-lo, para mostrar que se importava.

Mas ele não se importava. Ninguém se importava.

Nada importava.

Algumas horas depois, Anthony finalmente abriu os olhos. Sentia-se fraco, mas estava definitivamente consciente. Seu corpo todo doía, mas o pior era o pescoço. Parecia estar em carne viva; ardia como o inferno. Ele tentou olhar ao redor, se levantar, mas sua cabeça girou desconfortavelmente, e voltou a pender no chão duro. Ele podia sentir o cheiro que um porão geralmente tinha: sujo, abafado, um ar carregado.

–Finalmente acordou?

Ele reconheceu a voz de imediato, e se encolheu com um medo irracional. Bastou levantar um pouco os olhos para ver o rosto dela. Aquela palidez sobrenatural, a beleza das suas feições, seus olhos tempestuosos e frios. Mas agora ela sorria com malícia.

–Vamos, levante, não posso conversar com alguém no seu estado.

Ela o puxou gentilmente para cima, sem querer o tocando no pescoço. Ele soltou uma exclamação de dor. Vendo seu estado, a vampira arregalou os olhos.

–Esqueci o quanto vocês são frágeis – ela explicou arregaçando uma das mangas do novo vestido que usava e exibindo a pele translúcida do pulso. Com um movimento rápido, ela mordeu uma das veias azuladas e deixou o sangue correr. O estômago de Anthony se revirou.

–Beba – ela ordenou.

Por um momento, ele não soube do que ela falava. Ela era a vampira ali, não ele. Por que ele deveria beber o sangue dela?

–Rápido, antes que eu me cure! – ela empurrou o ferimento insistentemente na direção dos lábios pálidos de Anthony, e o fez beber o sangue que escorria. Ele protestou de início, mas ela era forte demais.

Seja lá o que ela estivesse fazendo, estava dando certo. A medida que Anthony engolia o sangue, se sentia muito melhor. Começou a pensar com mais clareza, e a dor no pescoço aos poucos foi cessando. Cedo demais, ela puxou o pulso. Sem querer, ele reclamou.

–Vá com calma, querido – ela exibiu um sorrisinho satisfeito. – Você dará um ótimo vampiro... Quando chegar a hora. Mas por enquanto, precisa se controlar.

Apesar de ainda meio embriagado pelo sangue, Anthony entendeu perfeitamente o que ela quis dizer. Levantou-se rápido demais e quase bateu a cabeça no teto baixo.

–Não serei um da sua espécie – afirmou com toda a convicção que pôde juntar. Ainda era humano, podia sentir isso. Seu coração batia acelerado dentro do peito. Ele mal podia enxergar no escuro porão.

–Não mesmo? – ela também se levantou e o encarou em desafio. – Não está cansado de viver como um deles? Com medo, aceitando as coisas como elas devem ser? Obedecendo a seu querido papai?

Ele hesitou.

–Você faz ideia do que estou lhe oferecendo? – o sorriso da vampira aumentou. – Vida eterna. Sem medo. Sem aceitação. As coisas funcionarão do seu jeito; você será o dono do seu destino. Uma vida imortal, com apenas um pequeno preço...

–Alimentar-me de outras vidas – ele terminou por ela. Balançando a cabeça, Anthony engoliu em seco para sua voz não falhar. – Não posso fazer isso.

–É um preço pequeno – ela afirmou. – Considerando as vantagens que você terá em troca. Afinal, Anthony, vamos ser francos. O que é a vida de outra pessoa comparada a sua? Você é mais importante. Você vale mais. Você entende como as coisas realmente deveriam ser; você me entende.

Enquanto ela falava, caminhava na direção dele como um felino prestes a atacar. Anthony não queria admitir, mas o medo estava indo embora, e isso não era um bom sinal. Na verdade, quanto mais ela falava, mais ele sentia vontade de correr na sua direção e beber mais do seu sangue. Então ela era o monstro? Parecia mais um anjo da morte, que dava segundas chances para pessoas como ele, que não viam utilidade na vida normal, na vida humana. Mas ele sabia que estaria brincando com fogo se aceitasse aquela proposta.

Ele deu um passo para frente.

Onde estava se metendo?

Deu um passo para trás.

Imortalidade. Força. Velocidade. Poderes sobre-humanos.

Avançou dois passos à frente.

Sangue, sangue, sangue.

Seus pés hesitaram em se afastar novamente, porque na verdade aquele pensamento o impulsionava mais para frente do que para trás. Ele estava apavorado consigo mesmo.

–Podemos continuar nessa sua dança a noite toda, querido, mas depois que o sol nascer, vou me retirar para descansar – ela olhava distraidamente as unhas. Quando voltou seus olhos para ele, eles estavam tão frios que ele sentiu um calafrio lhe percorrer. – Não vou desperdiçar nada se o transformar; pelo contrário. Estarei salvando você... De uma vida que nós dois sabemos que você não quer.

Ela tinha conseguido. Anthony sabia que ela sabia. Devia ter lido seus pensamentos mais profundos, remexido até o fundo da sua consciência para extrair aquelas informações. Seu desejo mais desesperado, mais inalcançável... Bem ali, na sua frente.

–Quem é você? – foi a última pergunta que ele fez.

Ela sorriu.

–Lilith’s Rose. – Os dois estavam a poucos centímetros de distância agora. – Isso é tudo que você precisa saber por enquanto.

Ele assentiu.

–Rose – sussurrou. – É um prazer conhece-la.

Lentamente, Rose abriu outra ferida no pulso, mais profunda que a anterior, e novamente o estômago de Anthony protestou, mas dessa vez por ansiedade. Ele mesmo agarrou o braço dela e o guiou na direção dos lábios. Ele fechou os olhos de satisfação quando engoliu novamente o líquido quente, quando sentiu o poder percorrer suas veias, uma sensação que ele nunca esperou sentir.

A melhor sensação de toda sua vida imortal.

Ele ainda nem era um vampiro de verdade, mas já sentia tanta sede por sangue que poderia beber tudo e ainda assim não estaria satisfeito. Era como uma droga. Uma maldição.

Uma maldição que ele teria que carregar para sempre.

Quando ela o afastou, eles se olharam por um momento e Rose sorriu, apenas por tempo suficiente para que ele pudesse respirar uma última vez e ver os olhos dela ficarem completamente negros.

Então ela o matou. E esperou.

Na noite seguinte, exatamente depois da meia-noite, os dois tiveram o que sempre quiseram. Rose ganhou um companheiro.

E Anthony acordou para sua nova vida.