Notas iniciais
Desculpem, eu tinha postado o capítulo errado antes.

–Angel? Acorde! O funeral é daqui a uma hora!

Minha cabeça girava. Abri os olhos com dificuldade e vi Annie, já pronta, com os braços na cintura e me olhando com urgência.

–Oi? – minha voz era rouca.

–Levanta – ela me puxou pra fora da cama e eu soltei um enorme bocejo enquanto pegava minha toalha e ia para o banheiro de Annie. Mas Summer estava lá dentro. Então peguei minhas roupas e fui para o banheiro do corredor. Lavei meu rosto com água fria enquanto esperava a banheira encher, e só enquanto escovava os dentes é que meu torpor matinal passou totalmente e me lembrei do dia anterior.

Rodrigo.

Senti uma pontada de dor no peito e quase ofeguei. Lágrimas se formaram quase automaticamente nos meus olhos. Olhei meu reflexo no espelho, pálida, assustada. Com olheiras profundas. E olhei para minhas roupas, dobradas cuidadosamente. Um vestido preto com renda e sapatos pretos. Minha mente estava a quilômetros dali, pensando em anos atrás, quando eu estava nesta mesma posição, olhando minhas roupas de luto, mais ou menos iguais a essas, tomando coragem para sair do banheiro e ir para o funeral dos meus pais.

Tentei bloquear essas lembranças. Eu teria que ser forte por Annie, dessa vez. Assim como ela foi por mim antes. Pensei em outras coisas. Pensei nos problemas que tínhamos em mãos. Que eu tinha, na verdade. Só então me lembrei de Dave, subitamente aparecendo no beco para me salvar de Rose, e aquela arma que ele tinha nas mãos. Isso, sim, era algo a se pensar.

Quando saí do banheiro, parte da família de Annie já tinha ido para a igreja. Summer terminava de se arrumar e Erick tinha aparecido, também de preto, para ir conosco. Ao descer as escadas, vi Annie e ele abraçados perto da porta. Ela chorava de novo. Ambos filhos únicos, ela e Rodrigo eram como irmãos.

Foi uma pequena cerimônia, apenas com a família de Annie que morava na cidade, que não era muita. Os pais de Summer apareceram, e a avó de Erick também. Celia Ruiter entrou na igreja como se comparecer a funerais fosse algo que fizesse todos os dias, e olhou para o corpo de Rodrigo não com uma expressão de tristeza, mas de profunda resignação. Então murmurou algo para Annie que a fez franzir a testa. Erick tratou de levá-la para longe.

–O que ela disse? – sussurrei quando Celia se afastou. Annie havia chorado mais desde que chegara, e os olhos estavam apertados.

–Que... Não estava acabado...? – soou como uma pergunta.

–O que não estava acabado?

–Boa pergunta – ela fungou. – Como se eu já não tivesse coisas suficientes pra pensar.

Observei Celia com mais atenção. Ela tinha o cabelo loiro curto quase branco, e pequenos olhos escuros. Tinha quase uns setenta anos e uma elegância invejável, com a postura perfeita e a silhueta magra. Enquanto eu olhava, ela passou por Dave, e os dois se encararam como dois cães prestes a se atacar. Eu ouvira falar de alguma história sobre os dois não se darem bem por alguma coisa que acontecera no passado. Mas um entendimento mútuo pareceu passar por eles enquanto se olhavam. Então cada um foi para seu lado.

–Como se as coisas já não estivessem estranhas o suficiente – murmurei para mim mesma e fui me juntar a Annie e Summer.

O resto do dia passou sem muita agitação. A atmosfera melancólica parecia afetar até mesmo o clima, que passou de nublado à tempestuoso durante a tarde. Durante o enterro inteiro, senti como se estivesse sendo observada. Agarrei-me ao braço de Annie como se ela pudesse me proteger, mas sabia que ninguém estava seguro.

A chuva já tinha começado a cair bem antes de chegarmos em casa. Ensopada, mas pouco me importando com isso, entrei no meu quarto apenas para sair novamente quando lembrei dos assuntos que tinha a tratar com Dave.

Ele estava no sofá. Como sempre. Não sei por que não se dava ao trabalho de subir para seu quarto. Acho que ficar no sofá tornava mais fácil sair de casa, se fosse preciso.

–Você me deve uma explicação – fui direto ao ponto.

–Sim, acho que devo – ele coçou o queixo. Debaixo dos olhos haviam olheiras profundas. Parecia cansado demais para discutir. Mas não disse nada. Apenas se recostou e fechou os olhos, como se fosse dormir. Por um segundo, achei que tivesse dormido mesmo. Mas então abriu os olhos e suspirou. – O que quer saber?

Soltei uma risada sem humor.

–Bom, primeiramente, com o que você realmente trabalha? – eu estava estressada. — Porque essa de homem de negócios que viaja muito não me convence mais, já que eu nunca o vi vestido com nada nem parecido com um terno.

Por incrível que pareça, ele riu. Se parecia muito com a minha mãe, percebi com uma pontada de dor. Cruzei os braços com força para me manter firme.

–O normal seria eu negar tudo e fazer você acreditar que está inventando coisas – ele começou. – Mas eu já vi a cicatriz no seu pulso e posso dizer que seu envolvimento nisso tudo está bem além do que eu imaginava.

Arregalei os olhos, sentindo uma vergonha inexplicável. Mas ele ainda ria, como se ver mordidas de vampiros fosse algo que fizesse sempre. Talvez fosse mesmo.

–Eu caço vampiros, Angel – disse com simplicidade, como se dissesse que ia pedir pizza. – Comecei bem jovem, talvez na sua idade. Mas eu não sou qualquer tipo de Caçador. Primeiro, eu não faço isso pela honra do serviço. Algumas pessoas têm problemas com vampiros, e me chamam para acabar com isso, e me pagam. Afinal, eu preciso comer. Preciso sustentar você. Pagar as contas. Escolhi esse tipo de trabalho porque é algo no que eu realmente sou bom, e sabe... Eu sempre fui o preguiçoso da família.

Eu não tinha palavras. Não sabia nem como me sentir sobre isso.

–Minha mãe... Sabia? – foi a única coisa que pensei em perguntar.

–No início, não. Mas começou a desconfiar. Pouco antes de conhecer seu pai, ela já sabia de tudo. Quando teve você, resolveu se afastar. Eu trazia muitos problemas para dentro de casa, como você pode imaginar.

Bom, isso explicava muita coisa, definitivamente.

–Agora, você me deve explicações também – ele se inclinou e cruzou as mãos. – A mordida no pescoço eu já sei quem foi. Aquela mulher no beco da festa; falaremos dela depois. Agora, o seu pulso...

Novamente, a vergonha. Meu rosto esquentando. Ele deve ter percebido isso, pois levantou uma sobrancelha.

–Não me diga que é uma dessas adolescentes atraídas por vampiros, Angel – ele parecia impaciente. – Não faz ideia do quanto eu tenho dor de cabeça com esse tipo...

–Não foi como você está pensando – me apressei em dizer. – Foi contra minha vontade. – Então contei sobre a festa de Halloween, de quando eu, por motivos que até eu desconhecia, salvara Anthony do Caçador. Contei sobre a noite de Ação de Graças, sobre como eu havia sido atraída para uma emboscada e Anthony havia me salvado, para depois me morder novamente e beber meu sangue. Não contei, no entanto, sobre a visita da noite passada. Até porque nada havia acontecido.

Dave ouviu tudo de forma inexpressiva, como se eu fosse um caso a ser resolvido, e Anthony fosse o vampiro que ele fosse matar. Só que não era ele quem deveria morrer, e sim Rose.

–Entendo – Dave disse quando acabei. – Bom, a primeira coisa a fazer é atrair esse tal de Anthony para uma armadilha...

–Você não ouviu nada do que eu disse? – perguntei exasperada. – Ele não quer me matar! Quem está atrás de mim é aquela vampira, Rose, que me mordeu. Ele a conhece, mas não estão juntos. Ele vai me ajudar... – parei, percebendo que tinha falado demais.

–Você tem falado com ele? – Dave arqueou uma sobrancelha com um ar levemente zombeteiro. Bufei.

–O problema não é Anthony. Podemos, por favor, focar no problema real?

–Tudo bem. Rose, você disse, não é? Eu estou seguindo ela desde New Orleans. – O tom dele passou rapidamente para profissional, mas meu choque não permitiu que continuasse.

–Você estava seguindo ela? Por quê? Você sabe algo sobre ela? – as palavras se atropelavam na minha ansiedade. – Sabe por que ela quer me matar?

Ele suspirou.

–Eu demorei um pouco a perceber que ela também estava seguindo pistas de alguém... Achei que era desse vampiro, Anthony, mas depois do que você me falou...

–Ela está atrás de mim, então – concluí. Ele apenas assentiu.

–Rose... Estava me dando trabalho numa cidade pequena da Louisiana. Todas as pessoas que atacava tinham alguma conexão. Bibliotecários, pesquisadores, todos conectados com uma única história.

–Qual história? – sussurrei.

–Não sei – ele voltou a se recostar, como se estivesse cansado. – Ela fugiu antes que eu descobrisse. E veio para cá. Na minha cabeça, não podia passar de coincidência.

Assenti, pensativa.

–Ela transformou Anthony em vampiro... – contei. – Então acho que de qualquer jeito precisamos da ajuda dele. Ele pode ter informações necessárias.

Dave apenas me olhou. Cético.

–Juro que não sou uma dessas garotas obcecadas por vampiros – prometi.

–Vou confiar em você. Não prometo confiar nele.

–É o bastante.

–Então. Quando vai vê-lo de novo? – aquilo era um sorriso? Revirei os olhos.

–Não sei – admiti. E nem mesmo consegui esconder a tristeza da minha voz.

Não demorou tanto.

Naquela noite, bem depois de Dave ter ido dormir (no sofá), eu estava acordada, em meu quarto, sofrendo de insônia causada pelo medo. Tinha medo de fechar os olhos e acordar com Rose me sufocando com um travesseiro. Mesmo que, no fundo, soubesse que isso era improvável.

Estava lendo algum livro pela décima vez quando ouvi a voz.

Angel.

Sentei-me na cama, sobressaltada, e olhei ao redor. Mas estava na minha cabeça.

Angel!

Dessa vez foi mais um grito angustiado. Levantei, sem saber o que fazer.

Socorro!

Anthony estava em perigo. Mas o que eu podia fazer? E afinal, porque ele pediria minha ajuda?

Podia ser uma emboscada. Rose podia estar me fazendo ouvir coisas. Afinal, ela também tinha bebido meu sangue. Mas mesmo assim... Não conseguia impedir a sensação de angústia que aquele grito causara. Eu não devia sentir nenhum instinto protetor em relação à Anthony, mas...

Angel... Por favor...

Peguei meu casaco, tomando minha decisão. Desci as escadas o mais silenciosamente possível e peguei as chaves do carro de Dave. Passei por ele na ponta dos pés e saí de casa.

Logo em seguida me senti muito estúpida. Rose poderia estar esperando por mim lá fora agora mesmo. Mas aquela angústia continuava, e com um surto de adrenalina, corri para o carro e em pouco tempo eu estava saindo da cidade.

Eu não sabia aonde ir, mas era guiada pela sensação de desconforto. Quanto maior, mais próxima eu estava. Acabei cruzando a ponte que levava a área menos habitada da cidade, Bent Creek. Eu não parava de pensar no problema que ia ter quando chegasse em casa e encarasse Dave, mas no momento eu só queria descobrir o que estaria fazendo Anthony sofrer tanto.

Acabei parando na frente de uma casa que parecia abandonada, exceto por uma janela que estava iluminada. Estacionei o carro do outro lado da rua e saí correndo na direção da casa, o coração aos pulos. A angústia tinha aumentado até o ponto de ser quase insuportável. Ofegando, desorientada com os pensamentos dolorosos, me coloquei debaixo da janela e tentei ouvir algo.

Havia homens conversando.

–Ele ainda não quer dizer a localização dos outros. – Alguém dizia. – Mas não que seja um problema. Quando estiver com sede o suficiente, podemos suborná-lo.

–Só se for com o seu sangue – outra voz respondeu. Alguém riu. – Mas que desperdício de tempo, até parece que ele se importa com algum deles.

–Devíamos matá-lo logo e procurar alguém mais disposto – uma terceira voz disse.

A pessoa de quem eles falavam era Anthony? Mas onde ele estava? Com cuidado, comecei a contornar a casa, decidindo que tinha ouvido o suficiente. Procurei até encontrar uma porta no chão, que provavelmente dava para um porão. Ouvi a sua voz parecendo aliviada em minha mente.

Aqui!

Tentando não fazer barulho, abri a tranca da porta e espiei lá dentro. Não havia um pingo de luz, mas escutei a voz, rouca, fraca, que vinha lá de baixo.

–Angel... – Anthony suspirou. – Você me ouviu.

Meu medo se dissipara totalmente. Me concentrei unicamente em tirá-lo dali. Eu poderia lidar com as consequências disso depois, como havia feito no cemitério, ao salvar sua vida. E aqui estou eu de novo, pensei. Pus um pé dentro do porão e encontrei uma escada. Fui descendo às cegas, pisando com cautela, até chegar ao chão. O ar era abafado e tinha cheiro de mofo, e eu mal respirava, mas senti imediatamente o cheiro de sangue. O pouco de iluminação vinda de fora, dos postes de luz, me permitiu ver uma figura no canto mais distante do porão, caída contra a parede. Procurei meu celular no bolso e o usei para providenciar mais luz, e ao apontá-lo para Anthony, ofeguei.

Ele estava terrivelmente pálido por baixo de uma camada de sangue e poeira. Havia quatro estacas no seu corpo; duas nos braços e duas nas pernas, prendendo-o ao chão. Havia cortes profundos em outras partes do corpo também. Os olhos tinham pouco foco e ele recuou como se a luz os machucasse.

Quando me recuperei do susto inicial, corri até ele. O primeiro a fazer era tirar aquelas estacas. Não havia forma menos dolorosa de fazer isso, então apenas as arranquei com toda a força, para não prolongar o momento. Ele mal reagiu de tão fraco que estava.

–O que aconteceu com você? – murmurei começando a entrar em pânico. Se ele não se movesse, como ia conseguir tirá-lo dali? Lágrimas ameaçaram se formar em meus olhos, mas trinquei os dentes para impedi-las. Eu podia surtar depois. Agora, eu mesma estava em perigo. Se aqueles homens me pegassem aqui...

Minha mente girava como louca, pensando em algum plano. Então, me veio a solução mais óbvia. Com a ponta de uma estaca, fiz um corte em meu pulso, mas ele era fraco e não saía muito sangue. Grunhi de frustração e dor, e senti uma lágrima escorrer. Que fraca eu era! Com mais força, abri outro corte, dessa vez, profundo, e imediatamente o posicionei contra os lábios de Anthony para que não houvesse tempo de sentir a dor.

Ele não reagiu no início, e pensei que ambos iríamos morrer ali mesmo. Então suas pálpebras tremeram e sua boca se abriu, recebendo o sangue humano com prazer. Com um suspiro aliviado, limpei o sangue da testa dele com a manga da minha camisa, e vi a cor voltando ao seu rosto. Ele abriu os olhos e me fitou com uma intensidade desconcertante. Então parou de beber meu sangue.

–Não, você precisa ficar mais forte... – empurrei a ferida contra sua boca. – Não consigo carregar você.

–Consigo me levantar – ele murmurou. A voz ainda era rouca, mas estava um pouco mais firme. Nos levantamos e nos encaramos por um segundo. Mas ele mal ficou de pé e começou a oscilar.

–Viu? – soltei uma risada nervosa. Mais lágrimas ameaçavam escorrer. Eu estava saindo do estado de choque. – Precisamos ir. Agora.

Ele assentiu. Depois de uma subida lenta e agonizante, finalmente estávamos do lado de fora. Não deixei que ele parasse para descansar. Fomos direto para o carro, enquanto eu olhava freneticamente por cima do ombro para me certificar de que ninguém nos vira. Eu estava colocando-o no carro, no banco de trás, quando ouvi os gritos.

–Ei, garota! O que está fazendo? – era um dos homens da casa, eu reconheci a voz. Paralisei por um segundo antes de fechar a porta do carro com tudo e ir correndo para o banco do motorista.

–O porão! Está aberto! – outra voz gritou. Praticamente me joguei dentro do carro, mal fechando a porta, e girei a chave na ignição, logo em seguida pisando no acelerador e saindo de lá.

Por favor, não me sigam, por favor, era só o que eu pensava. Olhei no retrovisor e vi que alguns deles tinham realmente tentado correr atrás do carro, e tinham desistido. Voltando a olhar para frente, quase não percebi um caminhão até que ele quase se chocou contra o carro de Dave. Com uma guinada súbita para a direita, consegui desviar, mas escutei a cabeça de Anthony batendo na janela. Ele gritou de dor.

–Desculpe! – gritei histérica. Minhas mãos tremiam enquanto eu parava o carro num sinal vermelho. Eu mal conseguia respirar. As lágrimas agora saíam sem controle. – Ai, meu Deus. Você está bem?

Ele esfregava um ponto na cabeça, mas me encarou com um misto de confusão e surpresa. Como se me visse ali pela primeira vez.

–Você realmente veio – sussurrou incrédulo.

–Você me chamou – dei de ombros, virando para frente. Tentei limpar as lágrimas para não parecer tão ridícula quanto já estava. — Onde deixo você?

Ele não respondeu. Espiando pelo retrovisor, parecia ainda estar em choque. Os cortes tinham se curado e os olhos recuperaram o foco. Mas ainda estava horrível.

O sinal ficou verde, e eu perguntei de novo. Dessa vez, ele me deu um endereço. Seguindo as placas, já que não conhecia bem essa parte da cidade, cheguei à uma casa de aspecto antigo que era a única da rua. Sem vizinhos, apenas com um bosque inteiro à disposição.

–Você... Mora aqui? – perguntei desconfiada. Todas as luzes estavam apagadas. Tinha uns três ou quatro andares. Parecia grande demais para uma pessoa só.

–Morar... Implica algo constante. – Ele fazia esforço para abrir a porta do carro e sair. Desliguei o carro e o ajudei, apesar de ele ficar contrariado por isso. – Eu durmo aqui. Não muito mais do que isso.

–Victor e Alex “dormem” aqui também? – perguntei. Ele assentiu.

–Na maioria das vezes – disse. – Considere uma república de vampiros.

Eu ri com a comparação. As lágrimas tinham secado e eu estava mais calma. Não tinha certeza se ele ia querer que eu o levasse até a porta, ou se eu mesma queria isso. Mas ainda estava preocupada com ele.

–Então... – ele começou a se despedir, mas eu me adiantei.

–O que aconteceu hoje? – perguntei. – Como você foi parar lá?

Ele se recostou no carro, respirando fundo.

–Eu estava com uma garota – começou. Senti um incômodo estranho com essa informação, mas esperei que continuasse. – Esperava poder me alimentar dela, ela estava quase cedendo. Ou era o que eu pensava. Era a filha de um Caçador, e estava fazendo papel de isca. Eles me prenderam, e estavam drenando meu sangue para me deixar fraco. Não entendi porque não me mataram até que começaram a fazer perguntas. Estavam me observando há um tempo. Sabiam que eu tinha a localização de mais vampiros, mas eu não sou um delator. – Ele trincou os dentes, falando com raiva e determinação.

Encarei seu rosto furioso por tempo indeterminado. Eu tinha subestimado sua lealdade aos amigos. Talvez “amigos” nem fosse a palavra certa; talvez ele fosse leal à espécie. Coisa que não se podia dizer de muitos humanos. Demorei um pouco a perceber que, no fundo, começava a admirá-lo e desviei os olhos.

–Você... Me salvou – ele disse pensativo. – De novo.

–Não vamos fazer disso um hábito – respondi com suavidade.

–Por quê? – ele me encarou, os olhos intensos novamente.

–Por que você me chamou se não queria que eu o salvasse? – rebati.

–Não sei por que pensei em você – ele murmurou, olhando para o chão. Estava de braços cruzados, na defensiva. – Nem imaginava o que você poderia fazer para me ajudar.

–Obrigada.

–Mas... – ele deu de ombros. – Eu não estava pensando com clareza. E por algum motivo... – hesitou.

Esperei. Mas ele apenas suspirou, como se pensar fosse cansativo demais.

–Você devia entrar e descansar – segurei seu braço com delicadeza e comecei a guiá-lo para a porta, mas ele parou no meio do caminho.

–Posso fazer isso sozinho – reclamou.

–Claro que pode – respondi com sarcasmo. – Vá, então.

Ele me encarou com dor, mas virou e caminhou, cambaleante, para a porta. Percebi que não queria deixá-lo. Isso estava passando dos limites. Respirei fundo, com raiva de mim mesma, e me voltei para o carro. Estava abrindo a porta quando lembrei dos problemas primários; Rose, Rodrigo, e todo o perigo iminente. Achei extraordinário que ela não tivesse aparecido nenhuma vez esta noite para tentar me matar. Olhei para a porta, e me deparei com Anthony me encarando também.

Balancei a cabeça, frustrada. Que se dane.

Fechei a porta do carro e fui até ele.

Notas finais
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