Contei a Anthony sobre Dave ser um Caçador, e ter seguido Rose desde New Orleans até aqui. Sobre ela aparentemente estar me procurando. Pedi que ele me mostrasse o resto da história, mas ele estava fraco demais. Quis sugerir que ele bebesse mais do meu sangue, mas não queria parecer ansiosa demais para que ele fizesse isso.

Em vez disso, ele fez um curativo na ferida que eu havia feito no meu pulso.

–Você é terrível – riu enquanto analisava o corte. – Não acertou nenhuma veia. Teria decepado a mão e não teria acertado.

–Desculpe se não tenho experiência em abrir veias como você – murmurei com raiva, o que só o fez rir mais ainda.

Enquanto ele fazia o curativo (usando uma caixa de primeiros socorros que por algum motivo tinha em casa), observei pela centésima vez a sala de estar. A casa era tão enorme quanto parecia por fora, e mais antiga ainda por dentro. Diversos tapetes com desenhos exóticos decoravam o piso de madeira. Um lustre com luzes amareladas pendia no meio do aposento, de um teto altíssimo. Uma longa escada de madeira dava para um mezanino elegante e mais moderno, e imaginei que a parte de cima era mais recente. Me perguntei qual das portas que eu via lá em cima era do quarto de Anthony, então me perguntei como seria o quarto dele. Simples, provavelmente, já que servia puramente para dormir. Outra possibilidade de utilidade do quarto me veio à cabeça, e eu me peguei corando. Inúmeras cenas me vieram à cabeça, de garotas aleatórias entrando naquele quarto para satisfazer a sede e outros desejos de Anthony. Eu estava completamente absorta nesses pensamentos quando ele falou, me assustando um pouco.

–Não sei no que está pensando, mas é bom parar de corar – disse tranquilamente, terminando o curativo e baixando meu pulso. – Eu já estou com sede o bastante sem ter que lidar com a tentação.

Isso, é claro, só serviu para me fazer corar ainda mais. Então me levantei, me afastando dele e andando ao redor da sala, ainda observando.

–Quem decorou? – gesticulei para os tapetes e os quadros diversos nas paredes.

–Todos, um pouco – respondeu e recostou-se no sofá antes de continuar, parecendo bem relaxado. – Os tapetes são de Alex, italianos. Os quadros são meus. Coleção particular. O lustre é de Mark...

–Mark? – virei para olhá-lo.

–Markus. Ele estava conosco naquela noite. – Ele estava pensativo de repente. – Foi o único que não falou.

O mais velho que desapareceu logo. Claro. Assenti e continuei andando, imersa nos problemas que tínhamos. Ou que eu tinha, pra falar a verdade.

–Está bem à vontade? – ele perguntou sarcástico. Revirei os olhos.

–Pode me expulsar a hora que quiser – rebati. Só para irritá-lo, peguei um dos vinis de uma pilha ao lado de uma vitrola antiga. Era um dos Beatles. Franzi a testa.

–Victor – ele explicou. Assenti.

–Esperava algo mais...

–Assustador? Intenso? – o sorriso estava lá de novo. Imaginei que se alguém nos visse naquele momento, não pensaria que ele tinha tentado me matar um dia.

Eu ri um pouco nervosa com a lembrança. Não entendia porque ele havia mudado comigo. Talvez porque eu o salvara – agora mais de uma vez. Mas se fosse esse o caso, ele não teria aparecido na casa de Annie naquela noite.

Ainda estava dando minha volta ao redor da sala quando, ao me virar, encontrei seu corpo a centímetros do meu, e arfei de susto, recuando um passo. Ele riu por me assustar.

–Pode não fazer isso? – mas eu estava rindo também. – Que coisa irritante.

–Desculpe, estava preocupado que sua caminhada árdua pudesse fazê-la desmaiar. – Ele agora estava exageradamente sério.

–Ha, ha. Você é o vampiro mais engraçado que conheço. – Cruzei os braços. – Está de bom humor demais pra alguém que estava quase morrendo.

–E você está pensativa demais pra alguém que fala pelos cotovelos. – Ele se aproximou um pouco. Eu recuei, na defensiva.

–Não estou pensando em nada, na verdade – afirmei com sinceridade. – Só o de sempre. Rose... O que significa ela estar atrás de mim. Porque ainda não me matou. – Suspirei, subitamente perdendo o bom humor. – Sou um alvo bem fácil, se você parar pra pensar.

–Jura? Nunca tinha percebido isso.

Encarei-o com raiva.

–Tudo bem – ele ficou sério. – Na verdade, tem algo que eu preciso contar a você. Algo que descobri há uns anos, mas não tinha importância até agora.

–Estou ouvindo – arregalei os olhos, ansiosa.

Ele voltou para o sofá e indicou o lugar ao lado. Em vez disso, me sentei em uma poltrona. Ele suspirou, mas começou a falar.

–Acho que mais ou menos vinte anos atrás, eu estava morando em New Orleans. Conhecia um escritor de lá que sabia sobre nós, vampiros, e fazia pouco caso. O nome dele era Brant. Encobria alguns de nossos deslizes, de vez em quando. Na época em que eu estava lá, ele trabalhava num livro novo, sobre rituais sobrenaturais.

–Rituais... – repeti lentamente. – O que isso tem a ver...

–Quando você falou sobre Rose perseguindo bibliotecários e pesquisadores, eu pensei imediatamente nisso. A questão é que Brant jamais publicara o livro, mas muitos se interessaram na obra inacabada. Havia informações lá que não podiam ser encontradas em nenhum outro lugar.

–E era tudo verdade? – perguntei. – Como Brant conseguira tanto conhecimento sobre essas coisas?

Anthony deu de ombros.

–Ele era amigo das pessoas certas. Vampiros, bruxas...

–Bruxas existem agora – fechei os olhos assentindo de leve. – Sim. Claro. Por que não?

–Deixe-me terminar – pediu. – Talvez Rose estivesse atrás de algum ritual presente no livro. Algum raro o suficiente para estar lá. Por isso estava em New Orleans... – ele franziu a testa. – Só não faço ideia do porque ela teria de vir atrás de você para realizar qualquer ritual que fosse.

–Quem sabe – bufei. – Talvez estivesse escrito “o sacrifício da pessoa com a pior sorte do mundo”.

–Há um lado bom nisso tudo – ele ponderou. – Rituais geralmente têm dias específicos para acontecer. Então, se ela ainda não a matou, deve estar esperando o dia certo. Alguma lua cheia, algum evento natural...

Pensei. Não previ nada interessante acontecendo nas próximas semanas, fora que estávamos tecnicamente próximos do natal. Mas então Anthony sorriu de forma sombria.

–O solstício de inverno é daqui a poucas semanas – sussurrou. – A noite mais longa do ano.

–Então... Meu prazo de validade acaba de encurtar – disse desanimada.

Ele me olhou. Eu o encarei de volta, me sentindo perdida. Pela primeira vez, vi alguma emoção nos seus olhos, algo que eu não havia percebido antes. Uma tristeza mais profunda do que ele deixava transparecer. Lembrei de quando havia estado em sua mente, sentindo o que ele sentia, e isso me deixou melancólica. Ele vivia num mundo solitário demais. Sentia-se tão perdido quanto eu.

E naquela noite ele tinha rido e zombado de mim como se me conhecesse a vida inteira.

E ele tinha chamado por mim quando estava morrendo.

E uma parte considerável da minha mente quis, quase dolorosamente, que isso significasse alguma coisa. Porque eu estava começando a entender, e a gostar, dele.

De repente, a expressão dele mudou. Sua sobrancelhas se juntaram e ele trincou os dentes, irritado.

–Não esperava ver você tão cedo – murmurou virando-se.

Ele acabava de entrar na sala. Vestia um sobretudo marrom escuro que parecia meio surrado e botas de caminhada mais detonadas ainda; o cabelo castanho enrolado bagunçado em todas as direções, as mãos nos bolsos, a expressão meio aérea. Vi uma mancha vermelha nos seus lábios e fiquei encarando. Até que ele notou meu olhar e passou o polegar na boca, vendo que estava suja, e sorriu.

–Perdão – mas sua voz indicava que não sentia remorso algum. Seus olhos verdes e felinos estreitaram-se, e percebi que por baixo daquela expressão sarcástica ele estava furioso. – Não sabia que tínhamos visitas.

–Você não está em posição de reclamar – Anthony continuava falando baixo, quase controlando a voz. A tensão no ar era quase palpável. Tive medo que a qualquer momento alguma coisa explodisse.

–Não sei do que está falando – Mark sorriu ainda mais, prosseguindo com a fachada irônica. Ele parecia meio louco. Inconscientemente, dei um passo para trás.

–Claro que não sabe – Anthony deixou transparecer sua fúria. – Claro que você não sabia que ela era filha de um Caçador. Claro que não sabia exatamente para o que estava me arrastando.

Senti minha boca se abrir com a surpresa. Recuei outro passo. Agora eu estava certa de que devia sair dali o mais rápido possível.

–Ah, isso – Mark fingiu um suspiro cansado. – Como você escapou, aliás? Matou todos eles?

–Não, Mark – Anthony praticamente cuspiu ao dizer o nome dele. – Eles quase me mataram. Chegaram muito perto, na verdade.

–Sério? – agora ele parecia genuinamente surpreso. Mas quem sabe? Eu imediatamente não confiava nele. – Pensei que seria preciso mais do que alguns Caçadores para derrubar você. Na verdade, coloquei você no caminho deles por isso. Estava com preguiça de acabar com todos e pensei que sua fúria seria o suficiente para exterminá-los.

–Não eram alguns Caçadores – Anthony estava prestes a perder o controle. – Eram sete. Todos armados.

–Sete? – perguntei alto antes que pudesse me impedir. Ambos olharam para mim como se só agora lembrassem da minha existência. Minha voz abaixou consideravelmente. – Mas só havia três na casa...

–Consegui derrubar um – Anthony admitiu. – Antes que me prendessem. Os outros foram embora e aqueles três tinham ficado para ficar de olho em mim.

Mark olhava de Anthony para mim com uma expressão estranha.

–Então... – aquele sorriso sarcástico estava de volta. – Angel, estou certo?

Anthony sutilmente deu um passo para o lado, se colocando na minha frente.

–Acho que está na hora de você ir embora – disse. Demorei um instante para perceber que ele falava comigo. Hesitei mais do que gostaria; não queria me despedir assim. Mas decidi que era melhor sair de perto dos dois logo. Passei cautelosamente por Mark, e ele me seguiu com os olhos até que fosse desconfortável. Enfim cheguei à porta da frente e saí, correndo para o carro, e voltei para casa enquanto a luz cinzenta da manhã aparecia no horizonte.