Entrei no salão me sentindo idiota. Odiava festas como esta, mas Annie e Summer tinham insistido, então ali estava eu. Muito irônico, já que nenhuma das duas tinha chegado ainda. Procurei entre as pessoas com fantasias ridículas de segunda mão e não as encontrei. Peguei meu celular.

–Estamos chegando! – Summer gritava do outro lado da linha. – Tem uma tempestade horrível, e o trânsito...

–Como foi que eu cheguei cedo, então?

–Espera aí, estamos chegando! – disse de novo e então desligou. Deixei pra lá. Fui até a mesa de bebidas pra ver se tinha algo mais forte do que o ponche, eu não estava de bom humor. Primeiro, minha própria fantasia era ridícula. Nem era uma fantasia, era só um vestido vermelho rasgado que eu tinha em algum lugar do armário. Segundo, o cara do táxi ficou dando em cima de mim durante o trajeto todo até ali. As pessoas da festa eram quase todas da nossa escola, conhecidos meus, e os casais mais inusitados estavam se agarrando pelos cantos. E também tinha a dor de cabeça infernal que começou no segundo em que eu entrei ali.

Senti um calafrio repentino, mas deixei pra lá, concentrada demais em ignorar os ruídos de fundo.

–Está sozinha? – um cara chegou por trás de mim enquanto eu virava um copo. Não sabia qual era a bebida, mas minha garganta ardeu. Era um bom sinal.

–Sim, e gostaria de permanecer assim, se não se importa... – virei para encará-lo com um sorriso sarcástico, que se transformou em uma expressão surpresa. Ele era realmente bonito. Bonito do tipo estrangeiro. Cabelos bem negros, nariz reto, uma boca convidativa. E ele estava com o sorrisinho que eu pretendia usar.

–Uma pena – respondeu. Seus olhos eram azuis, meio acinzentados, muito claros. – Não conheço ninguém aqui. Pensei em arranjar companhia...

E, sim, ele estava dando em cima de mim. A noite poderia estar mais estranha?

Annie e Summer escolheram então esse momento para chegarem.

–Angel! – elas vieram na minha direção. Annie usava uma fantasia de mágica, com uma capa e cartola pretas, e Sum de policial, o cabelo ruivo preso num rabo de cavalo alto. Elas me abraçaram sem notar a pessoa na minha frente.

–Meninas... Esse é o... – indiquei a cabeça freneticamente para ele, que parecia se divertir. Ele arqueou uma sobrancelha.

–Anthony – respondeu. – É um prazer, Angel.

Corei. E me repreendi muito por isso, mentalmente.

Agora eu podia ver as expressões delas, estavam encantadas. E constrangidas, acho, por terem interrompido. Elas olharam para mim e assentiram. Tinham entendido.

–Então... Annie! Vamos dançar – Summer a puxou para longe.

–Até mais, Angel – Annie acenou sarcasticamente para mim, e eu revirei os olhos.

Coloquei um pouco mais de bebida – seja lá o que fosse – para mim e virei o copo de novo. Anthony me observava.

–Dor de cabeça – expliquei.

–Você cura dor de cabeça com bebida? – sorriu.

–Hoje, sim.

Ele assentiu, agora sério, e se aproximou de mim.

–Pensei que eu era o único a fazer isso.

Dei um meio sorriso sem graça, sem saber o que fazer. Eu estava nervosa, e isso não era comum pra mim. Geralmente sabia como lidar com garotos, mas ele não era... Normal, eu acho. Primeiro, ele não estava fantasiado. Parecia mais velho, estava todo de preto, tinha uma barba por fazer, e estava bem mais controlado do que os outros garotos de lá. Não gargalhava que nem um retardado, nem tinha tentado passar a mão em mim. Isso significava muito.

Ele pegava um pouco de bebida agora, e apontou para a pista de dança.

–São suas amigas?

–Sim, Annie e Summer. – Vi as duas dançando com algumas pessoas da escola. – Eu as conheço desde... Sempre.

Anthony assentiu. Não parecia muito interessado nessa informação.

–E você? – virei para ele. Estávamos frente a frente agora. – Novo na cidade?

–Um amigo me falou dessa festa, e eu vim... Conferir.

–Então? Achou interessante?

Ele sorriu e me olhou dos pés a cabeça. De repente aquele vestido pareceu muito indecente.

–Sim... – sua voz não passava de um sussurro agora. – Muito interessante.

Era ridículo, mas eu estava sem ar. Quem diria.

–E a dor de cabeça? – ele perguntou. – Passou?

Quando ele tocou no assunto, percebi que não. Na verdade, tinha até aumentado. Balancei a cabeça e bebi mais um pouco. Agora eu começava a ficar tonta.

–Quer dançar?

–Se eu dançar agora, provavelmente vou cair – eu ri. – Mas vou arriscar.

Ele sorriu e me deu sua mão. No momento em que eu a toquei, quase desmaiei por causa da dor na minha cabeça.

–Na verdade... Acho que eu devia sentar um pouco – soltei a mão dele. Eu estava meio enjoada.

–Claro – ele colocou a mão no meu ombro e me guiou para fora do salão, onde havia alguns bancos vazios ao ar livre. A tempestade ainda não tinha chegado, mas o céu estava pesado e roxo com as nuvens. Anthony sentou-se ao meu lado.

–Melhor?

O ar frio da noite ajudou, com certeza, mas ainda me sentia tonta. Assenti e inclinei a cabeça para trás, encostando no banco, de repente com muito sono.

–Acho que você está me dando dor de cabeça – brinquei. Virei para ver se ele tinha rido, mas seu sorriso era estranho.

–Você devia fechar os olhos – sugeriu.

–Sim... – fiz o que ele disse. Minha cabeça estava uma confusão. – Eu deveria...

–Deveria chegar mais perto.

–Por que você não chega mais perto? – rebati. Eu queria dormir. Ir para casa, cair na cama e desligar a dor. Não sentia nada além da dor.

Ele riu, e eu abri os olhos para olhá-lo com raiva, lhe dar um tapa, talvez. Então vi seus olhos. Estavam completamente negros.

–O que... – levantei do banco, assustada, mas ele me pegou antes que eu pudesse correr e me segurou pelos braços.

–Não grite – sussurrou. – Vamos para um lugar mais calmo, e vai acabar logo.

Não conseguia me mexer. Aquilo não estava acontecendo.

Sem dizer mais nada, Anthony me levou na direção das árvores, entrando no bosque, e andamos até encontrarmos o antigo cemitério da cidade. Ele me encostou numa árvore e afastou meu cabelo, deixando meu pescoço exposto. Estava realmente aproveitando cada segundo daquilo.

–Annie e Summer vão me procurar. – Minha voz não passava de um murmuro, e meu apelo era patético. Não sabia porque ele simplesmente não acabava logo com isso.

–É uma pena. – Ele sorriu. Parecia muito demoníaco naquela luz pálida do céu nublado. – Vou ter que matá-las também.

–Não... – tirei as mãos dele de mim e tentei empurrá-lo, mas era inútil. – Você não vai machucá-las, seu... – O quê? O que ele era? Porque ele definitivamente não era humano. Eu me sentia num pesadelo.

Seu sorriso aumentou.

–Quer apostar?

E pegou minhas mãos e as prendeu ao lado da minha cabeça. Se ele não estivesse prestes a me matar, aquela proximidade do seu rosto teria me desconcertado. Minhas pernas estavam fracas, ainda me sentia meio tonta, e a dor de cabeça tinha aumentado até ser impossível pensar. Não havia escapatória.

–Apenas... Seja rápido com isso – suspirei, pensando em como a vida não era nem um pouco justa. Em como no início da noite, a morte certa parecia algo o mais distante possível, e tinha se tornado, naquele momento, apenas inevitável.

Anthony se afastou um pouco e me olhou. Realmente me olhou, como se percebesse algo. E me perguntei o que ele estaria vendo. Uma garota órfã de dezessete anos que morava praticamente sozinha, já que o tio vivia viajando. Comum. Excepcionalmente comum. Não exatamente o tipo de garota que era encontrada morta em florestas.

–O que vai fazer comigo? – perguntei, já que ele parecia hesitar. Talvez alguém nos encontrasse. Talvez eu tivesse uma chance. Ele ainda me encarava, sem expressão.

–Vou morder seu pescoço, talvez outros lugares, e beber todo seu sangue. – Disse. E mesmo no meu estado de entorpecimento, consegui ver a sinceridade com que ele dizia aquilo.

–Você é o quê, um vampiro? – minha risada soou fraca. Ele não ria.

–Sim.

O medo que eu sentia agora era algo totalmente diferente. Um tipo de sentimento que não pensava ser possível processar. Algo mais paralisante, que gelava todo meu interior. Meu corpo se livrou do torpor como se uma vela fosse acesa, e me senti incrivelmente consciente de tudo ao meu redor.

Era medo, mas era outra coisa também. Aquilo que acabaria me matando, sem dúvidas. Curiosidade.

–Você ainda vai me matar? – sussurrei.

–Sim. – Seus olhos completamente negros me analisavam. Ele tinha me soltado, notei. Mas eu ainda não conseguia me mexer. – Mas você realmente me deixou intrigado...

Um barulho nas árvores nos interrompeu.

–Silêncio – ele cobriu minha boca com uma mão e aproveitei para bater no seu rosto. Não foi muito útil. Ele pegou meu pulso e o mordeu, e eu gritei.

Então algo o atingiu por trás, e ele me soltou. Havia uma flecha espetada nas suas costas. Meu pulso ardia, mas aquilo era muito mais perturbador. Olhei ao redor e vi um homem, bem mais velho, segurando um arco. Ele acabara de encaixar outra flecha e apontava para Anthony.

–Claro, porque não? – Anthony disse. Estava furioso. – Era só o que faltava...

–Fuja, garota. – O homem disse. Eu ainda estava paralisada no lugar, com uma expressão de horror. Então ele atirou outra flecha e acertou Anthony na perna. Ele gritou de dor.

–Espere... – comecei a dizer, mas então ele se virou e me olhou. Tinha olhos injetados de ódio.

–Vá embora! Antes que se arrependa.

Mas algo me impulsionou para frente e me fez tirar aquela flecha das costas de Anthony. Talvez tenha sido a expressão no seu rosto, ou o sangue, ou o fato de que se alguém ia matá-lo seria eu, mais ninguém. Talvez fosse minha curiosidade me fazendo agir como uma idiota novamente. Por um segundo seus olhos encontraram os meus com um misto de surpresa e agradecimento. Eu não soube o que dizer.

Então virei para o homem e reprimi outro grito. Ele segurava uma estaca de madeira agora. E vinha na nossa direção.

–Não, espere – disse, me levantando, ficando na frente de Anthony.

O que eu tinha na cabeça, sinceramente?

–Saia da frente, ou você é a próxima. – Ele não tinha se amedrontado com meu ato heróico totalmente equivocado.

Mas enquanto ele dizia isso, vi um vulto e então Anthony apareceu atrás do homem, segurando a flecha que havia estado na sua perna, e a enfiou onde o coração do homem devia estar.

Dei um passo para trás, horrorizada demais para fazer outra coisa. Minhas costas encontraram o tronco da árvore, e eu desabei no chão. Todos dizem que quando estamos com medo nosso primeiro instinto é gritar, mas estão errados. O verdadeiro e puro medo é aquele que nos paralisa totalmente, e era assim que eu me sentia. Não fiz nada além de ficar sentada ali, observando enquanto Anthony largava a flecha e o homem caía morto no chão. Ele olhou para mim, e pareceu que o céu tinha ficado limpo de novo, pois pude ver seus olhos. Azuis. Muito claros. Caminhou na minha direção, e eu me encolhi para longe, finalmente me arrependendo de tê-lo salvado.

Mas quando ele se ajoelhou na minha frente e segurou meu rosto, e eu fechei os olhos, só ouvi uma única palavra, e então adormeci.

Notas finais
Mandem reviews!