Notas iniciais
Esse ficou meio longo :/

–Angel!

Meu pulso doía. Mas quando abri os olhos, a mordida não estava mais ali. Havia apenas uma fina cicatriz rosada. Lentamente, levei as mãos ao pescoço, mas estava inteiro também. Tentei me sentar e o mundo girou ao meu redor. Eu sentia gosto de sangue.

–Aqui – sussurrei enjoada.

Summer apareceu entre as árvores, e logo em seguida Annie também. Elas correram na minha direção gritando diversas exclamações de alívio e de raiva por eu ter desaparecido. Ainda estava escuro, e muito frio. Eu tremia. Quanto tempo havia se passado?

–O que aquele cara fez com você, afinal? – Annie me olhou preocupada.

–Nada... Acho que eu apaguei por causa da bebida. – Respondi sem expressão. Ainda estava em choque. – E... Ele me deixou aqui.

–Que tipo de cara deixa uma garota sozinha em um cemitério? – Summer estava indignada. – Vamos, está congelando!

–Ele... Me deixou aqui – repeti sem escutar o que elas diziam. – Ele realmente me deixou aqui. E não fez nada.

–Angel, você está bem?

Focalizei o rosto de Annie. Minha mente clareou um pouco. Assenti e suspirei, depois tentei sorrir.

–Acho que esperava um pouco mais da parte dele, se é que vocês me entendem.

Elas me olharam como se eu fosse louca, então riram alto.

–Ok, você parece bem. – Summer tirou uma folha do meu ombro. – Vamos, a gente te dá carona.

Cheguei em casa quase quatro da manhã. A dor de cabeça havia passado, mas meus olhos ardiam, como se eu não tivesse dormido durante a maior parte da noite, o que era verdade.

Como sempre, a casa estava vazia. Apenas o cheiro de couro do sofá e as fotos de família que me faziam companhia. Sem fogo na lareira. Sem comida decente na geladeira. Meu tio Dave viajava pelo país por causa do trabalho, seja lá qual fosse. Pagava minha escola e mandava dinheiro de vez em quando, fora isso, não era a melhor família, mas era a única que tinha restado para mim.

Presa no meu espelho tem uma foto dos meus pais. Eu a observava agora, enquanto tirava o casaco e o vestido, e colocava meu pijama. Eles morreram em um incêndio quando eu tinha doze anos. Eu estava na casa de Annie, por isso não morri também. Depois disso fui morar com o Dave.

O engraçado é que depois do choque inicial, minha primeira reação não foi entrar em pânico, chorar ou cair em depressão. Eu simplesmente não sabia o que fazer, o que pensar. É difícil. Você sai de casa um dia, pensando que quando voltar sua maior preocupação vai ser arrumar seu quarto, e então algumas horas depois descobre que não existe mais casa para voltar, seus pais não existem mais, eles não vão estar lá reclamando que você chegou tarde.

É apenas... Difícil.

Na foto do meu espelho, eles estavam sorrindo, sentados no sofá. Eu me lembrava desse dia, eu tinha tirado a foto, no dia que ganhei minha primeira câmera. Apenas dois anos antes do incêndio.

Não que eu não gostasse do Dave. Quando ele estava em casa, era divertido. Ele geralmente bebia e me contava histórias de terror, depois nós fazíamos pizza e assistíamos alguma série policial. Mas logo ele recebia uma ligação importante e ia embora de novo.

Dave sentia falta da minha mãe. Eles eram gêmeos. Quando eu o olhava, era impossível não me lembrar dela. Os mesmos olhos castanhos, o mesmo nariz. Mesmos cabelos castanhos. E eu me perguntava se ele tinha espelhos no quarto. E se era por isso que trabalhava tanto, pra ficar longe daqui, longe das lembranças. Se fosse isso, eu o entendia. Naquela noite em especial, a única coisa que eu queria era fugir dali.

No dia de Ação de Graças, eu fui para a casa de Annie com uma torta comprada no supermercado. Dave tinha ligado mais cedo, dizendo que não poderia chegar a tempo, mas estaria em casa no fim de semana. Estava enrolado com o trabalho em algum lugar no sul do país. Enquanto eu andava até a casa dela, o vento gelado da Carolina do Norte fazia meu cabelo atrapalhar minha visão. O céu estava cinza escuro, sinal de que haveria uma tempestade em breve, talvez naquela mesma noite. Isso me fez lembrar do Halloween. Eu não tinha visto Anthony de novo. Mas havia uma cicatriz no meu pulso que não me deixava esquecê-lo.

A casa de Annie era como um refúgio para mim. As janelas e portas brancas, as flores do jardim; era tudo tão familiar e reconfortante. Eu pensava que deveria me sentir assim em minha própria casa.

Quem abriu a porta foi o primo de Annie, Rodrigo. Ele e a família sempre vinham do Texas passar os feriados aqui. E eu agradecia por isso. Rodrigo e eu tínhamos... Alguma coisa. Ele, com aqueles olhos castanhos e pele bronzeada, com certeza mexia comigo de uma forma única.

–Oi – meu sorriso foi enorme e meio bobo, mas ele retribuiu. Então tirou a torta das minhas mãos e me abraçou.

–Senti sua falta – disse. Então riu quando comecei a corar.

–Angel! – Summer apareceu atrás dele e me puxou para dentro de casa. – Até que enfim, só faltava você... Erick!

Ele tinha acabado de esbarrar em um vaso que era da mãe de Annie, mas o pegara antes que caísse. Summer soltou um suspiro de alívio, e ele sorriu. Erick era um amigo nosso da escola, secretamente apaixonado por Annie, e secretamente correspondido. Eu e Summer vínhamos nos empenhando em juntá-los, mas os dois eram teimosos. Os pais dele viviam em viagens extravagantes pelo mundo, e ele morava com a avó, cuja casa era na rua ao lado. Então ele sempre passava por aqui.

Annie apareceu logo depois para anunciar que o jantar estava pronto, e nos reunimos na grande mesa de mogno da sala de jantar. Os tios dela, Catarina e Ricardo, conversavam com a mãe de Annie, Katy, sobre a fazenda da qual eram donos. Annie era muito parecida com sua mãe, era como olhar para gêmeas. Já Catarina tinha cabelos castanhos, mas também era quase uma cópia da irmã.

Eu me sentei entre Summer e Rodrigo, e ficamos conversando e espiando Annie e Erick, sentados lado a lado no outro canto da mesa. Eles falavam baixo como se discutissem, mas ambos sorriam. Erick mexia no cabelo loiro dela, e ela afastava sua mão com um leve tapa e uma risada, olhando ao redor para ver se alguém prestava atenção neles. E era mais ou menos nessa hora que fingíamos estar concentrados na comida.

Rodrigo me perguntava sobre músicas novas que eu tinha encontrado, já que nosso gosto musical era bem parecido, e Summer falava sobre o último livro de aventura que tinha lido. Mais tarde, esparramados no sofá da sala, com vontade de nunca mais ter que comer na vida, jogaríamos qualquer coisa que não precisasse de muitos movimentos e como sempre, Summer ia ser a primeira a dormir e a primeira a acordar, chamando Annie e eu para irmos tomar café.

Aquela era minha família. Era onde eu me sentia em casa.

No entanto, aquele não foi um dia comum. Algumas horas depois do jantar, Summer apareceu com uma proposta interessante. Um clube noturno chamado Deep Blue tinha acabado de inaugurar e ela ia conseguir nos colocar pra dentro. Como? Nós nunca soubemos. Mas de alguma forma, Annie, Erick, Summer, eu e Rodrigo acabamos no carro de Erick trinta minutos depois dos adultos dormirem. O clube era meio longe, no centro da cidade, e parecia o último lugar onde alguém nos procuraria. Nunca tinha estado num lugar como aquele, cheio de pessoas bêbadas e animadas dançando, com um cheiro tão peculiar de álcool e suor. Annie e Erick ficaram perto da entrada, conversando, talvez sobre as pessoas estranhas, já que eles apontavam para alguém com freqüência. Rindo da situação inusitada, eu e Summer tentávamos flertar com um grupo de garotos mais ou menos da nossa idade que estava perto do bar, até que Rodrigo me levou para o centro da pista de dança e os outros desapareceram naquele mar de gente. Durante um tempo nós apenas dançamos muito próximos um do outro, e eu tinha certeza de que aquela seria a noite. Seus olhos castanhos estavam fixos nos meus, e aquele sorriso era convidativo o bastante, eu só precisava ficar na ponta dos pés...

Subitamente, senti uma dor de cabeça que me fez perder o raciocínio. Fiz uma careta e Rodrigo parou de dançar.

–Você está bem? – ele gritou acima da música alta.

Fiz que não com a cabeça. Meu coração estava acelerado. Olhei ao redor, para o mar de pessoas que deixavam pouco espaço para respirar ou mesmo para pensar. Não. Não aqui, não agora. Aquele tipo de dor de cabeça eu só tivera uma vez na vida, no Halloween.

–Preciso de ar – disse a Rodrigo. Ele assentiu e começou a me guiar para fora. Encontrei Annie no caminho.

–Onde está Erick? – perguntei a ela. Sua expressão estava meio carrancuda.

–Encontrou uma “amiga” dele aqui. Não faço ideia de onde está. – E percebi a garrafa de cerveja na sua mão. – O que aconteceu com você?

–Dor de cabeça. – Continuei olhando ao redor, com medo de ver quem eu achava que estava por perto. – Vou sair um minutinho.

–Quer que eu vá com você? – ela perguntou preocupada. Balancei a cabeça.

–Fique aqui... Ah, ali está Erick. – Vi ele voltando na nossa direção, sozinho. Ela queria sorrir, mas apenas balançou a cabeça, tomando outro gole de cerveja. – Volto logo.

–Saia pela porta dos fundos – ela sugeriu. – Tem muita gente aí na frente. Vai acabar sendo pisoteada.

Agradeci e a deixei conversando com Rodrigo enquanto ia para o outro lado do salão. Encontrei a tal porta e saí para outra rua, mal iluminada, com algumas pessoas fumando na calçada. Respirei aquele ar gelado da noite. Por que tinha que sentir essa dor agora? Significava alguma coisa, afinal? Aquela noite nunca tinha acontecido. Não foi nada mais que um pesadelo. Era nisso que eu vinha acreditando há semanas.

–Com licença?

Girei assustada na direção da voz. Era de um garoto alto, moreno, parado bem atrás de mim. Mas eu não o tinha visto ali antes.

–Sim? – respondi meio irritada.

–Desculpe, não queria incomodar. – Ele tinha um sotaque. Era bonito, percebi, com aqueles olhos verdes e jeito de estrangeiro. – Esta rua tem algum café aberto agora?

Olhei meu celular para ver que horas eram. Quase meia noite.

–Não, a maioria já fechou – respondi.

–Ah... – ele pareceu desapontado. – Fiquei de encontrar uns amigos em um café 24 horas em algum lugar por aqui. Mas já deve ter percebido que não sou da cidade. – Ele riu. Minha dor de cabeça aumentou.

–Eu não conheço muito bem essa área, mas acho que sei do lugar que você está falando – disse.

–Jura? – ele sorriu e em seguida me estendeu o braço. – Ah, que má educação. Meu nome é Alex.

–Angel – apertei sua mão. – E sim, eu vou lá de vez em quando. Acho que fica... – olhei para os dois lados na rua e não consegui formular o endereço correto. – Sabe de uma coisa, eu sei onde é, mas não sei dizer... – minha mente estava confusa. Se eu fosse a pé até lá, com certeza acertaria o caminho.

–Entendo – ele hesitou, parecendo em dúvida quanto suas próximas palavras. – Não quer me levar até lá?

Encarei Alex da cabeça aos pés. Aquele ar de estrangeiro perdido era bem convincente. Em um dia normal, eu teria dito um sólido “não” e esperado ele se retirar da minha frente. Afinal, quem pedia uma coisa dessas a um estranho e esperava que ele aceitasse? Mas aquele não era um dia normal, infelizmente.

–Acho que posso – me ouvi falando, e quando percebi já estava indo na direção da esquina. Alex me seguiu.

O café não era tão longe, realmente. Passamos por ele apenas alguns minutos depois. E continuamos andando. Eu não notei. Na minha cabeça, eu ainda estava na rua, sempre quase chegando à esquina, mas nunca a alcançava. Estava começando a ficar tonta. Eu queria deitar. A dor de cabeça era agonizante.

Quando finalmente paramos, precisei me apoiar em Alex para não cair. Olhei ao redor, minha mente um pouco mais clara. Eu não fazia ideia de onde estávamos. Era uma rua completamente escura e vazia. Poderíamos estar em outra cidade, em outro planeta, e eu não teria como saber.

Meu primeiro instinto foi me livrar de Alex e sair correndo na direção oposta à rua. Então enfiei meu joelho entre suas pernas com força, esperando incapacitá-lo por alguns segundos pelo menos, mas ele segurou minha perna no meio do processo. Não fez nenhum esforço. Virou-me de costas para ele e ficou segurando meus ombros, e de repente eu não conseguia mover um músculo. Senti sua respiração na minha orelha.

–Desculpe. – E sua voz soou sincera.

Enquanto eu fitava a rua escura, o terror tomando conta do meu corpo inteiro, silhuetas humanas começaram a aparecer. Um saiu de um beco, outro de uma casa com aspecto abandonado, e o último pulou de um prédio baixo. Realmente pulou, e caiu de pé. E eu percebi que não se tratava de ladrões, estupradores, nem assassinos comuns. Mesmo se eu pudesse me mexer agora, não conseguiria. O medo tinha me paralisado a tal ponto que eu não conseguiria nem gritar, se houvesse alguém para me ouvir.

O que fazer? Minha mente girava em busca de alguma saída. Eu não morreria naquela noite, e era nesse único pensamento que eu me agarrava. Seria muito fácil simplesmente desistir e desmaiar, deixando-os terminar o serviço. Eu não podia correr. Não podia lutar. Uma ideia me veio à cabeça, mas parecia muito improvável. Eu poderia negociar; levá-los até o clube noturno e dar a eles mais pessoas para morrer. Logo em seguida me arrependi desse pensamento. Era egoísta demais, até para mim.

Sem saída. Totalmente sem saída.

–Sem graça – um deles disse. Estava bem mais perto agora, e tinha cruzado os braços. – Ela não está nem gritando.

–Porque está paralisada – Alex respondeu. – Ela não pode gritar.

O outro bufou. Ele era bem mais novo que os outros, uns dezesseis ou dezessete anos. Era loiro e tinha olhos azuis. Ele era o que tinha pulado do prédio. Mas porque eu estava observando todas aquelas coisas? Eu ia morrer.

O que saiu de dentro da casa abandonada já era mais velho. Estava parado, encostado em um poste que não funcionava, a poucos metros de distância. Tinha um ar entediado. Algo nele lembrava um felino. Talvez os olhos, ou o cabelo espetado em todas as direções.

–Eu disse, se queria uma presa mais divertida, deveria ter pegado alguma bêbada em cima de saltos. – Ele disse.

–Podemos... Só... Acabar logo com isso? – Alex estava visivelmente desconfortável. Não podia vê-lo, já que ele ainda segurava meus ombros por trás, mas imaginava seu rosto contorcido em uma careta.

–Anthony? Você vem? – o garoto loiro virou para chamar a terceira figura, a que tinha saído do beco, que ainda estava paralisado no lugar, como eu.

Meu coração acelerou, e eu não consegui evitar, me estiquei para poder vê-lo. Naquela escuridão, ele estava quase irreconhecível. Mas levando em consideração que não havia se aproximado nem mais um passo desde que apareceu, ele tinha me reconhecido.

O que ele estaria pensando? Estava em dúvida quanto a me matar? Então me lembrei do cemitério, e de como eu havia, de alguma forma, salvado sua vida. Seria nisso que ele estaria pensando naquele momento, enquanto eu o encarava?

–Alex – ele disse, quase baixo demais para eu ouvir. – Pode soltá-la.

E ele soltou. Tropecei para frente, minhas pernas fracas, mas logo me recuperei. Pensei no que fazer em seguida. Ele me deixaria ir embora? Hesitante, me virei na direção oposta, mas gritei de susto e quase caí para trás, mas ele me segurou. Anthony estava bem na minha frente, quando há um segundo estava há mais de dez metros. Seus olhos estavam normais, mas eu ainda estava assustada.

O garoto loiro sorriu e se preparou para atacar.

–Não – Anthony disse, e olhou para ele. – Ela não.

Isso me fez ficar um pouco mais calma, apesar de confusa, e fez o garoto voltar à posição inicial, meio contrariado. Que diabos? Anthony voltou a me encarar. Inexpressivo. Ele tinha me soltado.

–E por que não? – perguntei com um sussurro. Novamente, a curiosidade.

Ele apenas apertou os olhos.

–Vá embora. – Disse. – Volte pra sua festa.

–É por que eu salvei você? – continuei, cruzando os braços. De repente estava muito frio.

–Ah... Anthony? – o garoto loiro se intrometeu novamente. – Tem algo que você queira compartilhar?

Anthony não respondeu. Seus olhos estavam fixos em mim.

–Plano B. – Ele disse por fim. Ouvi um ruído de desaprovação.

–Plano B? Sério? Você só pode estar de brincadeira... – sempre o garoto loiro. Virei para encará-lo, mas ele estava andando na direção da esquina. Ele se voltou para mim com uma expressão nada satisfeita e então desapareceu. Alex parecia meio aliviado. Até sorriu quando viu que eu estava olhando. Mas logo desapareceu também. O último já tinha saído de lá sem que nós notássemos.

–Plano B? – repeti, voltando a encarar Anthony.

–Sim – ele disse, então passou por mim. Mas não desapareceu. Apenas caminhou normalmente para a esquina. Eu o segui. Que escolha eu tinha?

–Vai me explicar qual é o plano B?

–Não.

–Vai me deixar viva então?

–Sim.

Pisquei, surpresa.

–Por quê?

–Prefere morrer? – ele parou e repetiu. – Volte para sua festa, Angel.

Bom, ele lembrava o meu nome. Não sei se isso era uma coisa boa.

–Se eu me lembrasse do caminho, com certeza voltaria. Não vai mesmo me falar qual é o plano B?

Ele suspirou. Talvez eu devesse parar de falar antes que ele mudasse de ideia sobre me matar.

–Está curiosa? – aquilo era um sorriso?

–Talvez – dei de ombros.

Então ele me pegou pelo braço e me virou para a esquerda. Estávamos na frente de outro clube noturno, mas esse parecia bem mais... Assustador do que o outro. As pessoas que entravam e saíam usavam botas com pontas de ferro e a maioria tinha tatuagens e muito piercings no rosto. A música que saía de lá eram apenas gritos e lamentações com fundo de guitarra. Senti minha boca se abrindo lentamente por causa da surpresa.

–Plano B – falei baixinho. Olhei para ele e notei que ria. Eu devia estar com uma careta.

–Você não deveria ficar tão surpresa.

–Não estou surpresa. Um pouco enjoada, talvez. Vocês vão matar de qualquer jeito.

–Apenas Victor vai. Ele era o único realmente animado hoje. E afinal... – ele baixou os olhos e me fitou. – Eu lhe devia uma. E eu pago minhas dívidas.

Agora eu realmente não sabia o que dizer. Aguentei o peso do seu olhar por alguns segundos, mas logo voltei meu rosto para a luz da boate.

–Por que me salvou, afinal? – ele perguntou.

–Está curioso, não é? – eu meio que sorri. De repente me senti nervosa, quase do jeito que eu estava no baile, antes de saber que ele era um vampiro.

–É uma vida bem monótona – ele explicou. – Quando encontro um fato que não consigo decifrar, eu me apego a ele. Eu teria matado você se não fosse pelo Caçador, você sabe disso. E mesmo assim me salvou. Por quê?

Meu coração estava acelerado. Eu deveria voltar pra festa. Deveria sair de perto dele, que causava aquela dor de cabeça, pedir para que ele e os outros ficassem longe de mim e dos meus amigos. Mas Anthony ainda me encarava, esperando uma resposta.

–Talvez... Eu não diga por que, e assim você fica curioso por mais tempo e ganha um propósito de vida além de beber o sangue das pessoas.

–Boa resposta. Bem pensada. – Ele suspirou. – Pode ir pra festa agora.

–Eu não lembro...

–Lembra sim. Vá até a esquina desta rua e vai achar o caminho de volta.

Olhei para onde ele disse e reconheci a rua. Suspirei de alívio. Annie devia estar preocupada comigo. E Rodrigo... Eu o havia deixado lá. Olhei no relógio e arregalei os olhos. Não fazia nem meia hora que eu saíra da festa. Incrível como tanto havia mudado em poucos minutos.

Anthony encarava o nada como se estivesse tendo más lembranças. Em algum lugar lá dentro, Victor devia estar seduzindo alguma garota que adoraria saber que vampiros existem. E Alex e o outro, que eu não sabia o nome, deviam estar procurando alternativas. Bancos de sangue, talvez. Reprimi um tremor.

–Então... Tchau. – Sussurrei. – Anthony.

Mas quando enquanto eu me virava para ir embora, ele subitamente me pegou pelo braço e me puxou na sua direção. Eu arquejei. Jurei que ele ia me beijar. Mas em vez disso, pegou meu pulso com a cicatriz e afundou os dentes na linha rosada que ele mesmo havia deixado.

Eu mal podia acreditar. Suguei ar para soltar um grito, mas sua outra mão cobriu minha boca, e eu apenas suspirei. Não doía, pelo menos, não muito. Senti apenas um calor levemente desconfortável, e uma fraqueza súbita. Fitei meu sangue escorrendo pelo meu braço e pelo queixo dele, sem reação alguma. Depois comecei a contar.

Trinta segundos depois, ele me soltou. Eu quase caí, mas então ele me segurou de novo, e sentou na calçada com a minha cabeça no seu colo. Eu estava fraca e paralisada, mas não sentia medo, por incrível que pareça. Anthony mordeu o próprio pulso e o posicionou sobre meus lábios.

–Beba – ordenou.

–Por quê? – perguntei. Minha voz era quase inaudível. Eu só queria dormir. Ouvi sua risada baixa novamente.

–Vai se sentir melhor.

Então eu bebi seu sangue. Era quente, e metálico, o mesmo gosto de sangue humano, e enquanto eu bebia fui me sentindo mais forte. Muito mais forte. Era como tomar café de manhã, me sentia disposta a fazer absolutamente tudo. Mas logo ele retirou o pulso. Levantei, me sentando do seu lado, e olhei para meu braço. A ferida tinha se fechado, restando apenas aquela cicatriz rosada. O mesmo havia acontecido no braço dele.

–Por quê... Você fez isso? – perguntei sem olhá-lo.

Ele não respondeu de imediato.

Encarei seu rosto. Não pude ler sua expressão porque estava escuro, apesar da luz do hospital. Mas ainda via um fio de sangue escorrendo dos seus lábios.

–Sou um vampiro – ele deu de ombros.

Então me levantei e fui andando na direção da esquina, para longe dele, de volta para a festa, para a realidade.

–Tchau – ouvi ele gritando. Eu quase ri, mas sem humor algum. Era demais para processar. Escolhi não pensar no que havia acontecido.

De volta à festa, encontrei Rodrigo dançando com outra garota. Uma mulher, na verdade. Então peguei a cerveja mais próxima e dei um grande gole.

–Angel! – Annie me repreendeu. Ela e Erick estavam no bar. – Você era a motorista da noite!

–Que pena – e dei outro gole. Então encontrei Summer no meio da pista e dancei com ela e seus amigos. E me desliguei do mundo durante algumas horas.

Por volta das três e meia da manhã, vi Rodrigo com a mesma mulher de quando voltei. Uma com cabelos escuros e longos, pele muito branca e usando muita maquiagem. Decidi que estava na hora de roubá-lo de volta.

–Olá – cheguei perto dele. Eu estava bêbada. Mas ainda me sentia indestrutível.

–Angel! – ele sorriu. – Essa é a Rose.

Rose me olhou da cabeça aos pés então deu um sorrisinho malicioso.

–A pessoa que eu queria ver.

Então ela tocou na testa de Rodrigo e ele desmaiou ali mesmo, e percebi que havia dois furos no seu pescoço. Recuei com um grito. Ela tapou minha boca e me tirou da pista de dança. Ninguém prestou atenção em nós. Fomos para o mesmo beco onde eu tinha encontrado Alex, mas agora ele estava vazio.

–Quem é você? – perguntei assim que ela me soltou.

Mas em vez de responder ela apenas sorriu e mostrou seus dentes. Caninos longos e ameaçadores. Engoli em seco. Duas vezes na mesma noite? Eu não podia ter tanto azar.

Minha mente estava a mil, pensando em cada possibilidade de escapar viva.

Meu telefone escolheu aquele momento oportuno para tocar. Olhei no visor. Era Dave! Mal tive tempo para apertar a tecla de atender, e o celular fora brutalmente arrancado das minhas mãos, jogado em algum lugar do beco.

–Eu não atenderia se fosse você – num segundo, ela estava segurando meu pescoço contra a parede, e eu estava sufocando, encarando seus olhos de tempestade.

–Por quê? – perguntei sufocada.

–Você é um problema, Angel.

–Eu nem... Conheço você...

–Não... Mas conhece um... “amigo” meu.

–Anthony? – perguntei sentindo minha visão escurecer. Ela sorriu mais ainda.

–Sim. – Seu aperto afrouxou. — Antes de matá-la, quero saber por que ele não fez isso hoje, quando teve a chance. Por que ele a salvou?

–Porque ele me devia – consegui responder. – Eu... Salvei... A vida dele antes.

–Eu duvido muito disso.

Chutei sua barriga. Arranhei seus braços até sair sangue. Lutei com todas as minhas forças, até que ela me jogou no chão, do outro lado do beco, e eu bati a cabeça, quase perdendo a consciência. Mas me obriguei a levantar.

–Se ele é seu “amigo”, você deveria saber – ofeguei. – E deve ter ouvido nossa conversa quando ele me deixou ir hoje.

–Pois é, esse é o problema, ele não sabe exatamente que eu estou na cidade – ela deu de ombros. – Não posso ficar perto o bastante para ouvir, ou ele sentiria minha presença. Por isso estou recorrendo a meios mais... Sujos.

Rose tocou na minha testa, e eu gritei de dor, mas ninguém estava por perto para ouvir. Todas as lembranças que envolviam Anthony, desde o Halloween até aquela noite, passaram pela minha mente. Ela estava vendo tudo. Se mantendo informada.

Então subitamente parou, e eu caí de joelhos.

–Ele tem sido tão bonzinho com você – disse com um tom enojado. – Não estou gostando nada disso.

–Então vá ter uma conversinha com ele, não comigo. – Encarei Rose com raiva, mas ela ainda sorria.

–Queria que fosse simples assim. Mas além dele, tenho outros assuntos com você, Angel. – Ouvi um barulho de carro, e ela mudou para uma expressão furiosa. – Infelizmente, eles terão que ficar para outra hora, já que o seu tio chegou.

O carro de Dave dobrou na esquina do beco, que era quase estreito demais para isso, mas ele conseguiu de alguma forma. Rose, aproveitando a última oportunidade, me pegou pelo cabelo e mordeu meu pescoço. Dessa vez doeu como o inferno. Como se dois pregos tivessem sido enfiados na minha carne. Eu gritei e tenho certeza que desmaiei por um ou dois segundos.

Então Dave desceu do carro, ao mesmo tempo em que ela me soltou e me olhou com uma expressão assassina.

–Ele trocou sangue com você – sibilou. Isso não estava na minha mente? Eu estava fraca demais para ficar confusa.

Dave carregava uma arma estranha. Uma besta, alguma parte do meu cérebro lembrou. Apontou na direção de Rose e atirou. Uma estaca de madeira se cravou nas costas dela, mas não no coração. Ela não ficou tão abalada. Apenas me olhou mais uma vez com fúria e fugiu.

–Angel, você está bem? – Dave correu na minha direção.

–Não... Eu preciso... – eu precisava de sangue. Sangue de vampiro. Ou aquele corte não fecharia tão cedo. Eu ia morrer.

–Anthony – eu sussurrei. Não conseguia falar mais nada. Meus olhos se fecharam por conta própria, e eu apaguei.