Notas iniciais
mais ummmm

—Cena 10! Pierre vai num encontro com Mirelle, mas erra as cores de sua gravata. Ação! — Respiro fundo para entrar em cena, essa é o tipo de cena mais difícil para mim, é p tipo que mostra que o casal está completamente feliz com o relacionamento deles, seguindo o padrão de comedias românticas, é uma junção de pequenas cenas do casal fazendo coisas de casais depois da cena de sexo. A cena de sexo é a mais fácil, o problema é que, eu não estou acostumado a ver a mesma pessoa com quem dormi no dia seguinte. E é exatamente o que acontece nessa cena.

Entro em cena. Um restaurante, usando uma gravata incrivelmente cafona e segurando um buquê de rosas esperando por Mirelle. É exatamente nessa cena em que o amor deles é solidificado e envolve o telespectador, faz com que a meta de vida dele seja ter um par tão romântico quanto o que ele está assistindo.

Chacoalho minhas pernas em ansiedade de acordo com o roteiro. Mas parte de mim também está verdadeiramente ansioso, vai ser a primeira vez em que verei Rose depois de nossa... Digamos que, primeira vez que nos conhecemos. É difícil fingir que nada o que acontecera antes de recomeçarmos nunca aconteceu.

E num gesto feito pelo diretor para Rose entrar em cena, eu a vi.

O roteiro descreve para eu “olhar fascinado”, e honestamente, estou deslumbrado, admirado e todos os sinônimos para fascinado.

Rose usa um vestido longo de tomara que caia, com um decote que deixa seus seios mais redondos. Eu gosto muito de reparar nas cores, o contrario de meu personagem, mas tenho que admitir que esse vestido ressalta perfeitamente cada curva e os tons de verde dissolvem aos poucos na saia branca do vestido.

Ela caminha de acordo com a cena e senta-se em minha frente, e por um momento, eu me esqueci de todas as câmeras, luzes e pessoas me encarando, e por um momento, eu sou Pierre e Rose é Mirelle. Não existe roteiro, não existe câmera. Só um cara embasbacado e miserável em busca de adjetivos e sinônimos para a única palavra que é capaz de sair de meus lábios:

—Uau.

Rose pisca com força e eu volto para a realidade. Uau não estava no roteiro.

Pigarreio e prossigo com o roteiro:

—Mirelle... É... Bem eu... Eu trouxe essas rosas para você! – estico o buque para Rose que o pega agradece com um sorriso. – Elas... Bem, eu sei que elas são suas flores favoritas e escolhi uma gravata para combinar!

Mirelle ri de acordo com o previsto e ela recita a frase que eu já havia decorado:

—Sua gravata é tão verde quanto um limão!

E eu respondo depois de uma risada constrangida de ambos? :

—Sabe Mirelle. – pego em sua mão – Eu realmente não ligo. Para mim rosa é a única cor que existe. Por que eu sei que é sua favorita e é aquela que originou o nome da sua flor favorita. Com você Mirelle, não existe verde, azul, amarelo, ou quaisquer sejam as cores que existam no mundo. Com você, eu vejo a vida em rosa.

***

Enxugo minha última gota de suor escuto uma batida na porta vindo da porta do meu trailer.

Sem minha permissão, ela se abre e Maurice entra.

—Cara e se eu tivesse pelado? – saio do banheiro reforçando o nó em meu roupão.

Ele ignora meu comentário e se apoia contra a parede com os braços cruzados.

—Precisamos conversar. – o diretor umedece os lábios como uma preparação para um grande discurso, mas como eu o conheço, eu sei que ou ele vai me elogiar, ou criticar algo de mínima importância para manter sua autoridade. – Você e Rose não estão... Você sabe...

Arregalo meus olhos e nego com a cabeça.

—Não, não, não, não, não, não. – solto uma risada para tentar abafar a situação, é embaraçoso saber que ele pensa que tem algo entre nós. Por mais que eu desejasse ter visto o corpo de Rose em minha cama, é uma situação que meu cérebro já está psicologicamente pronto para entender que pode não acontecer.

—Seis nãos, sério mesmo? – ele levanta uma sobrancelha – Tem certeza que não rola nenhum esquema de “amigos com benefícios” ou coisa que o valha?

Acabo rindo bruscamente como Rose sempre acaba fazendo comigo. E tenho que admitir que agora obtenho conhecimento do porquê ela sempre faz isso, é uma sensação tão satisfatória. Eu nunca ri dessa forma, tão largada e alta. Amigos com benefícios é a ultima definição que eu descreveria minha relação com Rose. Honestamente, eu nem sei mais como nossa relação está. Fizemos um recomeço, e eu não falei com ela desde então. Sinto que no fundo de todas essas gargalhadas que agora ponho para fora, eu deveria acertar algumas contas com Rose a respeito de nosso atual status de intimidade.

—Por que diabos você pensa assim? – indago ofegante depois de tanto rir. – Você veio aqui para saber sobre meu relacionamento com Rose, sério isso?

Maurice olha para os lados, inconfortável com a situação.

—Eu só queria elogiar o seu trabalho hoje... Foi exatamente como eu imaginava que a cena seria na minha cabeça, só que com um ritmo muito natural. E eu pensei que, sei lá, você de fato não estivesse atuando por um momento.

Meus olhos piscam, e a piscada pode ter durado alguns décimos de um segundo, mas para mim, durou o tempo de lembrar-me da cena de hoje, do vestido que Rose vestira, do jeito em que sua pele pálida estava modelada perfeitamente naquele traje.

—É meu trabalho. – sorrio gentilmente por fora, mas parte de mim está sorrindo falsamente, por que não foi Pierre que estava admirando Mirelle – Faço de tudo para viver o personagem.

Ele sorri satisfeito e orgulhoso de seu trabalho e me deixa sozinho novamente em meu trailer.

Pego meu celular e vejo uma mensagem de Rose.

“Mandou bem hoje, queria mandar bem assim todo vez! Encontro-te no café do estúdio pra conversar?”

“Sempre mando bem, gatinha!” Respondo e me arrependo de chama-la de gatinha “Estou a caminho”.

Jogo meu celular com forca sob minha cama e visto a primeira muda de roupa que encontro, camisa xadrez e jeans. É estranho o fato que uma simples troca de mensagens com pessoas especiais te deixa completamente louco.

Paro por um momento. E penso no que estou fazendo. Algumas coisas passam pela minha mente e eu nem percebo. Maurice elogiando minha cena de hoje, minha reação que não estava no roteiro, minha pressa para ver Rose... Estou tão desesperado assim para transar com ela? Estou realmente deixando com que ela vire uma amiga? Alain Blanche não tem amigas, ele tem mulheres que trocam dinheiro por períodos curtos de prazer.

Foco. Eu vou levar Rose para meus aposentos. Eventualmente, principalmente com essa ideia maluca dela de querer saber como é ter um relacionamento, ela acabará acordando ao meu lado. Esse é o porquê ficou feliz quando a vejo, sua presença só me lembra do meu objetivo. O problema é que meu coração anda ofuscando esse objetivo.

Balanço minha cabeça repetidamente afastando pensamentos indesejados e abandono meu trailer.

Olho meu celular e vejo uma notificação de Rose.

“Cadê você?”

Não respondo nada. Apenas caminho determinadamente até o café.

Quando chego ao lugar combinado, eu a vejo de longe, sentada em uma das mesas.

Ela está com o cabelo preso num coque e usa uma camisa social, e na medida em que me aproximo, meu coração acelera e eu o obrigo a desacelerar.

—Ei! – ela me percebe e se levanta para me cumprimentar.

Ela me recebe num abraço. Suas mãos envolvem meu pescoço e minhas sua cintura. E sinto um arrepio em minha perna. Devo estar doente, eu nunca estremeço perto de mulheres.

—Alain! Você arrebentou hoje nas filmagens! – ela diz se sentando novamente.

—Ah... – digo me ajeitando na cadeira a sua frente – sabe que eu sigo meus próprios métodos!

Ela ri um pouco e ajeita uma mecha de cabelo que estava na sua testa.

—Por que você me chamou aqui afinal das contas? Não vejo nenhum roteiro...

Olho confuso para a mesa que estava vazia ao não ser pelo chá de Rose. E como ela é quem me chamara, criei a expectativa que ela queria mais dicas ou repassar a próxima cena.

—Estamos nos conhecendo Alain! – ela apoia o queixo fino em uma de suas mãos – Quero saber tudo sobre você!