La Vie En Rose
8 Fúcsia
Notas iniciais
—E como seus pais se conheceram? – pergunto depois de contar minha história.
Rose toma mais um gole em seu chá respira fundo e contorce os lábios para baixo como se não tivesse nada de mais para se contar.
—Você não vai querer saber. – ela balança a cabeça em negação – Ela não é tão interessante quanto a incrível historia de seus pais se conhecendo numa festa depois dos Oscar de 1983.
—Eu tenho certeza que é uma historia incrível, pra ter uma filha tão incrível quanto você! – belisco levemente seu antebraço.
—Você nem me conhece, como sabe que sou incrível? – ela afasta seu braço do alcance de minha mão.
Dou os ombros. Procuro freneticamente pelo meu cérebro alguma desculpa ou palavras que possam responder a pergunta.
Toda essa coisa de nos conhecermos me fez esquecer o que eu já sabia sobre Rose. Por um curto período de tempo, eu me esqueci do quão misteriosa e surpreendente ela pode ser. Sempre com uma pergunta complicada na ponta da língua, ou com uma reação totalmente diferente do esperado. E o único jeito de lidar com suas incalculáveis façanhas é fazer exatamente o que ela faz comigo.
—Apenas uma opinião precipitada, defeito meu de fato. – dou uma piscadela. Nunca abro meus defeitos com tanta transparência. Dificilmente falo de meus defeitos. E não é por não saber, muito pelo contrario. Meus defeitos me deixam feio, quando os reconheço, omito-os até minha ultima oportunidade de mantê-los de tal forma.
Já a piscadela foi para manter-me forte. Eu tenho certa imagem a manter.
—Anotado mentalmente esse detalhe, senhor! – Rose sorri e hesita por um momento – Eu também tenho defeitos, acho que defeitos definem um ser humano forte.
Inclino-me para frente mostrando interesse.
—E quais seriam esses defeitos, senhorita Esme?
Ela se inclina deixando uma distância de milímetros entre nossos rostos. Sua respiração faz cócegas em meu rosto.
—Você não queria saber como meus pais se conheceram? – ela dá dois tapinhas em minha bochecha e se afasta de meu rosto.
—Estamos aqui para nos conhecemos, moça. – relaxo minhas costas no encosto da cadeira – Você mesma disse isso.
Ela arregala os olhos surpresa e depois de um suspiro ela inicia seu discurso:
— Bom, meus pais estão separados então, não será uma historia tão bonitinha quanto a sua. – ela estrala as juntas dos dedos e prossegue sua fala – Meu pai era um professor de historia, seu nome é René e minha mãe chama Fuchsia e ela... Bem... Vamos usar a palavra “dançarina” para não usar um sinônimo muito sujo. Meu pai tinha acabado de perder o emprego dele e ele estava devastado, então, ele foi... Um... Ver minha mãe dançar.
Nunca vi Rose ficar incomodada ou inconfortável daquela forma. Era como se ela quisesse estar chorando sem lágrimas. É uma dor imponderável, como se ela estivesse cobrindo de rosas os espinhos.
—Ei Rose! – interrompo-a antes de ela continuar – Você não precisa me contar se você quiser.
—Alain, você só se livra de um demônio depois que acaba com ele, meio obvio isso né? – ela sorri de forma simpática – Se é tão obvio assim, não podemos mentir para nós mesmos nos obrigando a escondê-los. O que aconteceu com meus pais é problema deles, eu sou eu, eu lido com as consequências da união deles, mas chegou num ponto que eu simplesmente admiti para mim mesma que é melhor assumir a tristeza do que forjar minha felicidade.
Suas palavras alvejam meu espírito de forma sagaz. Posso afirmar, talvez, que Deus colocara a vida de Rosa na minha para ajeitar meus defeitos, por que, Jesus Cristo, cada palavra que sai daqueles lábios intocáveis é como se fosse todas as palavras que eu preciso ouvir para por minha vida em linha. Sou incapaz de falar que Rose tem sido inútil em minha vida ou que ela seja “só mais uma mulher”. À medida que ela tira uma de suas camadas que a impedem de se expor, à medida que ela se mostra mais vulnerável, eu fico cada vez mais e mais curioso. Meu único receio é me envolver demais e acabar dando de cara com um grande nada, afinal, temos Rose Esme como sujeito da história.
—Como eu ia dizendo – ela acorda de meus pensamentos – Minha mãe gostou de dançar pro meu pai, e ele virou um cliente regular, ela até começou a cobrar menos e então ela ficou doente. Uma doença muito peculiar, que você pode ter certeza que eu já tomei vacina dessa doença. Não estou falando de DST , estou falando de amor. Minha mãe se apaixonou pelo meu pai. Ela deu um fim em sua carreira e meu pai, cego pelo amor, conseguiu um trabalho horrível, e com o dinheiro que eles juntaram, se casaram. Detalhe que tudo isso em um mês!
—Mas amor não tem prazo de inicio ou validade, simplesmente acontece! – comento, mas sou completamente ignorado.
—Enfim, não vou entrar em detalhes agora. – ela brinca com um de seus anéis, colocando-o e tirando-o de seu dedo repetidamente. – Nove meses depois, eu nasci! Depois de cinco anos as brigas começaram, meu pai dizia constantemente que minha inocência iria aliviar a situação, minha mãe concordou e esperaram pelo tal alivio por mais cinco anos, foram os melhores cinco anos da minha vida, eu acreditei que eu estava sendo luz naquele lar, eu achei que o amor fluía pela atmosfera de nossa casa. Até que meu pai foi demitido, e ele voltou para onde ele conheceu minha mãe, um dia ela descobriu por uma amiga dela que continuou trabalhando lá. As gritarias voltaram junto com a burocracia do divorcio. – ela para de falar por um momento, atônita – E tudo foi muito rápido. Eu me sinto tão iludida até hoje.
Estendo minha mão e seguro na dela. Ela permite.
Momentos como esses são muito chatos para mim. Talvez seja por isso que ela deixou de acreditar na ideia de constituir uma família ou o porquê ela odeia tanto meu estilo de vida. Seu pai foi como eu.
Tudo o que consigo dizer.
—Rose, as pessoas mudam. – ela concorda num sorriso. Rose nem ao menos demonstrou tristeza durante todo o tempo que ela esteve contando a história.
—Eu sei Alain, olhe para mim e para você, olhe o quanto nós mudamos em uma semana. Eu discordo com você em apenas um detalhe.
Aceno com a cabeça para ela explicar o que ela quis dizer.
—Não são as pessoas que mudam, elas, na verdade, influenciam umas as outras.
A conversa morre numa troca de olhares sorridentes.
Palavras têm impacto, palavras simples e sábias machucam e marcam. Rose aprendeu isso de mim, e eu aprendi isso dela. Um ciclo vicioso de troca de informações que comprovam que palavras possuem um grande poder persuasor e influenciador, o que nos levam a rever e mudar nosso caráter.
—Sua vez de falar Alain! – Rose me joga um olhar ameaçador. – Conte-me como foi o seu primeiro beijo, já que estávamos falando sobre amorzinho!
Olho para o lado soltando uma curta risada nervosa.
—Porque não levamos essa conversa para meu trailer, hein? Está ficando tarde e esse café já vai fechar. – Rose concorda com a cabeça e se levanta logo depois de mim, entrelaçando carinhosamente seu braço ao meu.
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