La Vie En Rose
2 Branco
Preparo duas taças de vinho e atendo a porta com a minha melhor cara de “Bem vinda à minha casa vou dormir com você hoje!”, um clássico meu.
—Vamos fazer isso do jeito mais rápido – Rose disse com um sorriso irônico. – O ensaio de hoje foi bem produtivo para falar a verdade, e por isso, gostaria de te presentear com isso.
Ela entra e entrega meu papel com meu numero e endereço de volta, mas com algo escrito no verso.
—Vai se... Oh mas que gentil da sua parte!
Fecho a porta com força, depositando toda a vontade de xinga-la de volta.
—Vinho? – entrego a taça para ela enquanto caminhamos para a minha sala de estar.
—Que apartamento hein! – Ela suspira observando atentamente meus móveis todos
num padrão branco. A garota se senta e continua a falar empolgada – Deveríamos começar
pela cena em que Mirelle fala pro Pierre que ele é um idiota e da um tapa na cara dele!
Sento-me em meu sofá deixando minha taça na mesa de centro, Rose toma um gole de seu vinho e faz o mesmo.
—Essa parte não existe! – Protesto.
—Claro que existe! – Ela ri suavemente – Você ao menos sabe do que se trata a historia?
Olho ofendido para Rose.
Ela está deslumbrante esta noite. Um casaco de pele branco com uma calça preta. Seu cabelo negro está solto fazendo sombras engraçadas em seu rosto fino e o mesmo me joga um olhar confuso.
-Alain? – ela me acorda de meus pensamentos.
-Claro que sei! Eu li o roteiro com você antes das filmagens! – Pego o roteiro que estava ao lado do vinho.
Rose solta uma risada alta e depois bebe um pouco mais do vinho:
-A Cor do Amor é sobre um cara daltônico, no caso você, que conhece Mirelle, uma florista, num bar, ele acha ela linda, mas não sabe como encontra-la depois de uma noite no bar, então ele começa sua busca. Ele a acha, presenteia-a com rosas, canta La Vie Em Rose pra ela, eles fazem amor, ele é um babaca e simplesmente cansa dela, ela bate nele – Rose dá uma ênfase no verbo bater – E no final ele percebe que ele a ama e corre para os braços dela, e ela como toda boa mulher forte o rejeita. Fim.
-E o titulo se chama A Cor do Amor por que para Pierre é como se a única cor que ele enxergasse quando ele estava com Mirelle fosse rosa, e o mundo dele não era tão preto e branco. E a parte do tapa não existe, porque Pierre não é trouxa e sim um cara desesperado pela atenção de Mirelle.
Rose me olha com aprovação:
—Estou impressionada, parece que alguém realmente leva a sério o trabalho. – ela me olha por um tempo e num súbito suspiro começa a falar seu texto como se aquele suspiro tivesse encarnado a personagem dela:
-Sabe Pierre. As coisas simplesmente acontecem. Você mesmo me disse isso. Sejam elas para a nossa felicidade ou não.
Levanto-me e entro no personagem. Meu personagem é o tipo de cara que fica a vida toda esperando pela menina dos sonhos, e quando a encontra, faz de tudo para não perde-la. Portanto, meu personagem tem uma reviravolta, ele não sabia o que era amor até ele conhecer Mirelle, e ele se constrange tanto com esse sentimento novo que acaba afastando-se dela por motivos de orgulho próprio.
-Mirelle eu sei o que eu falei! – agarro o braço dela, tudo parte do roteiro – Mas, eu estava tão perdido quando estou com você... É uma sensação tão boa. Eu estava feliz, você estava também, não estava?
Ela me encara conforme a cena solicita por um momento. Mas algo inesperado acontece. Algo que o clima não proporcionava. Algo que me fez perceber que Rose Esme é muito mais que uma mulher, ela é uma caixinha de surpresas, repleta de novidades que apenas as pessoas escolhidas a dedos pela própria poderiam ir fundo e descobri esses segredos. Rose simplesmente riu. Mas não foi uma risada nervosa, foi uma risada totalmente direcionada para puro deboche de minha pessoa.
-Desculpa! – Rose indaga no meio de gargalhadas. Ela tenta recuperar o folego para terminar sua sentença – Eu... Não consigo fazer isso! – mais risos. Eu comecei a ficar envergonhado – Não aqui, não na sua casa... É patético!
-Então por que veio? – pergunto paralisado.
-Estaria entediada em casa... – ela dá os ombros e pega seu vinho e esvazia a taça – Você tem algum filme legal ai pra assistir?
Congelado de surpresa, de alguma forma eu nego o pedido dela.
-Eu prefiro comer alguma coisa.
***
-Você... – digo timidamente para Rose devora o sanduíche que preparei pra ela – Gosta de meninas?
Ela me olha com os olhos arregalados por um momento e depois ri. Ela ri alto. Que nem da última vez.
-Acha mesmo que essa é a razão pela qual eu não fiquei com você ainda?
Concordo com minha cabeça em uma cara desapontada. Uma mulher, que gosta de homens, depois de passar uma hora comigo, fazendo algo que não envolve cama, já estaria de joelhos implorando para me ver sem camisa. Mas Rose é diferente, ela resiste, ela ignora todas as vezes que ajeito meu topete negro.
-Eu não sou lésbica... – ela diz com um sorriso – Eu só não gosto dessa ideia de namorado e namorada...
-Engraçado, eu também não! – digo ironicamente – Eu sou curto a parte que envolve cama!
Rose não ri dessa vez. Ela me olha com um olhar distante, como se estivesse tendo um flashback. Como disse previamente, Rose é uma caixinha de surpresas, talvez a ideia de ter um relacionamento sério realmente não é algo que ela apoie.
-Sabe Alain, o filme que nós estamos trabalhando é algo ficcional, foi escrito por um ser humano. – ela esboça algo que seria um sorriso, mas morre tão rápido que não consigo decifrar precisamente – Pierre e Mirelle acabam juntos no final, assim como todo casal de filme romântico. Mas como tinha dito, é uma ficção. Algo idealista, que influencia a mente humana a ter esperança de que um dia o mesmo que acontece nos filmes poderia acontecer com elas.
Rose fixa o olhar no horizonte, um olhar vago e indecifrável. Tão misterioso que me fez buscar palavras para me expressar depois de tudo o que ela falou. Mas antes que eu pudesse ao menos pensar num sinônimo para “wow”, ela se levanta e pega sua bolsa:
-Eu deveria ir... Obrigada pelo sanduiche e pelo vinho.
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