—Bom dia senhorita – digo caminhando em direção a Rose que ainda toma café. Ela está sentada na porta de seu trailer.

—Bom dia senhor, presumo que você dormiu mal já que não teve minha companhia em sua cama. – Rose retribui meu bom dia com um sorriso.

Suspiro e roubo o copo de café dela dando um rápido gole.

—Será um mês assim, mesmo? – pergunto devolvendo o copo – Quero dizer, você não consegue falar uma frase comigo sem fazer uma piada sobre meu estilo de vida?

—Será um mês tendo que te ensinar que eu não vou ficar, beijar, dormir ou se quer praticar qualquer ato sexual com você. – ela limpa a borda do copo.

Faço uma careta, essa mulher é tão imprevisível, é como se ela tivesse um poder de ler mentes e falar exatamente tudo o que é verídico da forma mais dura o possível.

Rose ri, ela tem um ponto fraco em relação à risada. Ela sempre ri demais, sempre está sorrindo ou rindo alto. É tão inocente e tão misterioso ao mesmo tempo, por que afinal de contas, ela não tem motivos para tal felicidade, pelo menos é o que eu penso.

—Você tem uma mente muito suja Alain! – Ela se levanta terminando seu café e entra em seu trailer.

Para evitar um silencio estranho, entro em seu trailer também.

—Você está me seguindo? – ela diz sentada no sofá de seu trailer. É um trailer normal. Uma pequena cozinha, um sofá com uma tv, no final do trailer é possível ver uma cama de casal e uma porta, o que eu deduzo ser o banheiro. E ao lado do banheiro porta para um armário.

—Eu até diria que sim. – jogo-lhe um sorriso cínico – Mas eu só vim te avisar que temos que estar no set daqui dez minutos.

—Alain, você esta mentindo. – Rose me olha com uma de suas grossas sobrancelhas levantada. – Nós ainda temos uma hora, é o tempo de fazerem minha maquiagem e cabelo.

Apoio-me na bancada da cozinha que fica de frente para o sofá o qual Rose está sentada.

—Eu realmente não sei qual é a sua Rose Esme.

—Eu vou te dizer qual é a minha. – ela se levanta e caminha lentamente em minha direção com um olhar provocante. Seus grandes olhos castanhos estavam grudados em meus olhos azuis. Rose se aproxima de mim e gruda seu corpo ao meu, ela deposita uma de suas mãos em meu peito e a outra passa entre meu braço e para na bancada em que estou apoiado. Ela mexe esse braço como se procurasse algo. Mas não estou interessado. Só estou hipnotizado pelo seu rosto que nunca esteve tão perto do meu antes. Será que ela finalmente caiu um meu charme? É isso mesmo? Rose Esme está prestes a ficar comigo?

Ela sorri maliciosamente e continua a dizer:

—O fato é que... – ela tira um copo de suco de laranja da bancada e joga na minha cara – é que você é um idiota que se deixa ser seduzido facilmente!

Rose começa a rir alto mais uma vez. Eu por outro lado fico paralisado sentindo o suco escorrer pelo meu queixo quadrado.

—Eu vou pegar uma toalha pra você Alain! – ela balbucia em meio de risos. – Vem aqui no meu quarto que eu devo ter uma toalha no meu armário.

Não digo nada. Apenas a sigo e sento-me em sua cama. Com a cara toda molhada.

Rose abre o armário e fica na ponta dos pés para alcançar uma toalha, fazendo com que sua blusa de levante e mostre parte de suas costas, tão pálida quanto à neve.

—Continuo não te entender... – comento enquanto ela gentilmente passa o tecido pelo meu rosto, enxugando cada gota.

—Porque a curiosidade? – ela pergunta sem tirar os olhos de onde ela está limpando.

—Por que você é uma mulher! – aumento meu tom de voz. – Sabe, querendo ou não, eu me sinto atraído por você! E você não é como as dezenas de mulheres com as quais eu já tive casos, você é tão peculiar e diferente! Isso desperta uma curiosidade tão gigante em mim que você não faz ideia!

Ela fica em silencio. Nenhuma risada ou sorriso, apenas silêncio e o mesmo olhar vago da noite passada.

—Prontinho. – Rose joga a toalha em cima da cama e depois cruza os braços. – Você deveria ir se arrumar também.

Levanto-me e a olho pela última vez antes de sair do trailer. O engraçado é que ela simplesmente ignorou tudo o que eu disse sobre ela. Acho que estou destinado a morrer de curiosidade a respeito dessa mulher.

***

—Corta! – Maurice grita no meio de uma cena. – Vamos fazer uma pausa de cinco minutos! Rose vem aqui que eu preciso falar com você!

Imediatamente todos saem do cenário e correm para retocar maquiagem ou estralar as costas. Eu, diferentemente do resto, continuo no cenário. É uma tática pessoal minha, eu tento permanecer no personagem o máximo de tempo o possível.

Olho de relance para Rose que conversa com o diretor. Ela parece vulnerável, coisa rara de se ver.

Maurice aponte constantemente para o roteiro sem tirar os olhos nos olhos de Rose. Pelo jeito, e pela minha experiência trabalhando com ele, ou é elogio, ou ela está fazendo tudo completamente errado.

Analisando as duas possibilidades, é bem mais provável que seja algo errado. Maurice é o tipo de cara orgulhoso demais para elogiar. Ele raramente elogia os atores, sou um dos poucos que tive a oportunidade de presenciar esse privilegio que é ser elogiado por Maurice Egour. Foi um momento tão especial para minha carreira! Não só ele me elogiou como me indicou para grandes diretores americanos.

Olhando por outro lado, não vejo por que Rose levaria bronca. Ela se esforça tanto em seu trabalho. Já assisti outros filmes com ela e tenho que ser sincero que ela manda bem não só no critério de aparência. Porem, considerando meu olhar para o profissionalismo que ela possui, sou incapaz de discordar de que ela seja uma atriz ruim.

Rose vive enchendo seu roteiro com anotações, ela muda falas e adiciona expressões com sua caligrafia redonda e caneta roxa. Eu não acreditaria se Maurice estivesse brigando com ela.

—Vamos voltar com as filmagens! Cena cinco! Figurantes em posição! – Maurice grita e Rose caminha em minha direção e antes dela voltar para seu lugar na cena ela sussurra em meu ouvido com a voz quase falhando:

—Preciso de sua ajuda.