La Petite Mort
25 Romantismo Bucólico - Parte II
Notas iniciais
O quarto localizado no segundo andar da casa rústica de pedra era ocupado por um ar morno que contrastava com o orvalho fresco do dia que nascia. Os primeiros raios de sol entraram preguiçosos, pálidos e delinearam os dois corpos entrelaçados no meio da cama de lençóis bagunçados e amassados. No centro do colchão, fios loiros misturavam-se aos castanhos e a pele perolada evidenciava o tom moreno da outra tez. Mesmo tão diferentes, os dois corpos femininos pareciam se completar como se fossem somente um.
Sendo tão diferentes, um dos corpos — aquele que estava sobre o outro, o da pele perolada e de fios loiros — manifestou os primeiros sinais de despertar. Assim que os raios solares tocaram a tez clara, Fleur se mexeu, procurando afastar-se do calor e, principalmente, das garras do despertar que já arranhavam o seu sono.
Fleur escondeu o rosto de encontro ao corpo moreno embaixo do seu que, infelizmente, permanecera vestido na noite anterior. Ainda assim, o perfume amadeirado de Hermione flutuava através das camadas de tecido, fazendo com que a francesa o inspirasse profundamente, embriagando-se nele. Fleur desconfiava poder ficar o dia todo em uma cama, desde que acompanhada pelo corpo de Hermione que, naquela noite, servira-lhe de travesseiro. As suas mãos foram tomadas por uma sensação repentina de saudade e a francesa se viu tocando e acariciando o corpo moreno.
Hermione estava imersa em um sono pesado e merecido, as noites tensas sob a ameaça de Othon estavam, lentamente, esgotando-a. Fleur se viu, mais de uma vez, em um sofrimento calado, observando-a permanecer forte mesmo que toda a situação estressante parecesse impossível de ser resolvida. A morena foi a força da francesa quando essa fraquejou e, também, foi a calmaria diante de todas as tempestades que desabaram na cabeça de ambas.
Fleur jamais esqueceria o olhar corajoso de Hermione ao enfrentar Othon, também não esqueceria a audácia dela em agredir para defender a sua honra, muito menos, a tenacidade dela em olhar a Família Delacour nos olhos, tratando-os como iguais. A britânica era uma mulher apaixonante e, principalmente, sua. Depois de todos os eventos vividos na França, não havia como questionar a natureza do que sentiam.
Era puro e, simplesmente, amor.
Do tipo que não cabe questionamento nem dúvida, aquele que se faz presente, todos os dias, em pequenas atitudes e que se fortalece diante de grandes provas de amor.
Essa simples conclusão, simplista e silenciosa, já fez brotar um sorriso sonolento nos lábios de Fleur. Também foi capaz de enviar uma onda de energia quente através de seu corpo e essa fez o seu coração acelerar. A paixão e o amor estavam além de seu peito, chegando a sua alma e evidenciando-se em seu corpo. Os olhos azuis cerúleos brilharam e procuraram Hermione, encontrando-a dormindo, de forma pacífica. Fleur, por sua vez, levantou e rumou para o banheiro, o mais silenciosa que pode.
Afinal, o seu amor pedia pela rotina e pelo diário, por isso, assim que terminou a sua higiene e o seu despertar, ela desceu as escadas de madeira, enrolada em um leve robe, rumo à cozinha. Um café-da-manhã na cama não era tudo que Hermione merecia, mas, era o que podia fazer no momento. Fleur precisava que a morena acordasse sabendo toda a profundidade e intensidade de seu sentimento.
Ela precisava que Hermione soubesse, com toda certeza, que a amava e nada melhor do que entregar, todo esse amor, naquilo que fazia melhor, naquilo que, ironicamente, as unira. Ao tocar o paladar de Hermione, Fleur pretendia tocar a sua alma e, sobretudo, o seu coração.
Porém, assim que chegou à cozinha, a francesa percebeu que não era a única que pensara aquilo. Phillipe tinha os cabelos loiros arrepiados enquanto, concentrado, dividia-se entre a panela e a chaleira no fogo e os diversos alimentos espalhados na pia e na mesa — frutas, queijos, embutidos — Fleur também sentiu o aroma dos pães sendo assados ao forno. Não conseguiu deixar de sorrir, de certa forma, orgulhosa para o empenho do primo na cozinha.
Era impressionante a forma como a culinária se fazia presente entre os Delacour.
Phillipe estava empenhado e concentrado em sua tarefa de preparar um café-da-manhã para Lorena, as suas mãos eram fortes e trabalhavam com habilidade, ele também era capaz de dividir-se entre as tarefas sem, jamais, negligenciar uma delas. Fleur não precisou de muito para ter certeza de que ele seria um excelente chef. Ela esperou que ele pousasse a chaleira, com a qual despejara água quente no filtro do café, no fogão e pigarreou. Phillipe sobressaltou-se e virou-se alarmado para o som, o suspiro aliviado dele foi engraçado aos olhos de Fleur e ela sorriu grandemente ao cumprimentar:
— Bonjour, primo! Eu não esperava encontrar alguém, tão cedo, na cozinha!
— Bonjour, Fleur... Eu também não esperava ter companhia tão cedo. — Phillipe cumprimentou com as bochechas rosadas e o sorriso largo, digno de quem estava apaixonado, fazendo-se presente nos lábios. Ele arrumou alguns embutidos e queijos em um pequeno prato de porcelana e agachou-se para observar o andamento dos pães no forno. — O que lhe traz aqui a essa hora?
— Eu suponho que seja exatamente o mesmo motivo que lhe fez madrugar. — Fleur respondeu charmosa com o sorriso satisfeito brincando em seus lábios enquanto ela começava os seus preparativos. Teve que parar por alguns segundos apenas para recordar-se da onde estava a louça que precisaria, em seguida, caminhou em direção a um dos armários de madeira da cozinha, trazendo uma bandeja de volta e depositando-a ao lado de uma, igual, que já tinha alguns componentes de um café-da-manhã sobre ela. — Mas, a pessoa responsável pelo meu motivo é Hermione... Sempre ela.
Fleur dedicou um sorriso especial para as palavras que proferiu, um sorriso que não veio apenas do movimento de seus músculos faciais, mas, também, do músculo que contraía-se e relaxava acelerado em seu peito. O seu coração falou e agiu por ela e a francesa não fez menção alguma de calá-lo, sabia que sequer teria forças para tal... Era muito sentimento para ser sufocado. Pelo canto dos olhos, viu o sorriso de Phillipe e também, o balançar de cabeça dele. Ele não precisava dizer muito, sabia que sentiam o mesmo. Seriam, pelo tempo que fosse, apaixonados pelas mulheres que se apossaram de seus corações e fizeram, deles, as suas moradias.
Enquanto Phillipe ocupava-se no fogão, Fleur foi à geladeira e separou o leite, as frutas e a manteiga. Os dois trabalharam em silêncio por alguns minutos, tudo que se ouvia era o chiado do fogo e o som da faca de Fleur trabalhando nas frutas. Por fim, Phillipe observou a prima por cima dos ombros — ele estava ajudando-a, esquentando a água para o chá de Hermione e dividindo, mentalmente, os pães, que colocara para assar, e que já cheiravam a cozinha — e disse realizado:
— Eu acho que você não pensava em, um dia, voltar à França... Tampouco, esperava companhia.
— Você está certo e eu continuaria ignorando minha ascendência se Gabrielle ou maman não tivessem aparecido em Londres... — Fleur respondeu sincera, as suas belas feições assumiram ares pensativos e distantes e ela parou o que fazia, apoiando a ponta da faca sobre a tábua de cortar. Os olhos cerúleos nublaram apenas por alguns segundos, aqueles em que ela se lembrou do medo asfixiador em revelar o seu passado a Hermione e logo voltaram a brilhar ao sentirem a familiar energia quente preencher o seu peito, recordando-se da compreensão e do amor com os quais foi recebida na hora da verdade. — E não sei se tivesse voltado se não fosse por Hermione... Eu não sei se você entenderia o que ela representa para mim, cousin.
— Eu não entendo, mas, eu vejo. — Phillipe disparou rapidamente, um sorriso compreensivo tomando conta de seus lábios. Ele agitou a cabeça e desligou o fogão, abrindo-o e depositando as assadeiras sobre a mesa em que Fleur trabalhava. O aroma de croissants, baguetes e pain au chocolat perfumou o olfato de Fleur e ela suspirou, pelo cheiro, Phillipe acertara em tudo que fizera. Ele deixou os pães descansarem e apoiou-se na pia, de frente para Fleur, observando a prima com intensidade e admiração. A chef corou diante daquele olhar e o seu coração respondeu às palavras, agitando-se e batendo acelerado. Era curioso como qualquer um era capaz de perceber o que ela tinha com Hermione, de certa forma, significava que elas transbordavam aquilo que sentiam. — Eu não me lembrava do seu sorriso até vê-lo direcionado a ela, também não me recordava da leveza de seus atos até ver você gravitando em torno dela. Eu compreendo, de certa maneira, porque também amo. Contudo, Lorena foi minha cura enquanto Hermione lhe parece como um sopro de vida. Você voltou a viver e foi por causa dela, Fleur.
Caso Phillipe não conseguisse algo com a Gastronomia, Fleur sabia que ele conseguiria chegar longe com as suas palavras. Cada uma delas, naquele momento, atingiram por inteiro, fazendo-a entender coisas que ela já julgava serem entendidas há muito tempo. Claro que tinha uma vaga ideia do que Hermione significava em sua vida, mas, jamais pensara naquela forma. Com as palavras do primo, ela realmente viu a verdade em todos os pequenos significados que acumulara desde que a morena impetuosa entrara em sua vida.
Hermione a tirou de sua zona de conforto, entregando-a, novamente, às coisas que se acostumara a perder e não possuir. A britânica devolvera-lhe a leveza, a sinceridade e, posteriormente, o amor e a paz. Através dela, Fleur voltou a ser a garota apaixonada e sonhadora que se perdera nas garras de Othon, também voltou a acreditar nas pessoas e, principalmente, permitiu que elas voltassem a entrar em sua vida. Hermione lhe mostrou que era possível confiar simplesmente porque tomou a decisão de, teimosamente, amá-la. Ela não desistiu diante da primeira negativa e sim, insistiu.
Fleur voltou a sentir-se desejada e amada, sobretudo, ela voltou a acreditar nos sentimentos que foram poluídos por causa do seu passado.
Por isso, Phillipe estava certo. Hermione era o seu sopro de vida, a sua segunda e necessária chance... E Fleur ousava pensar que ela era a única chance da qual precisava. Diante de todas essas verdades fazendo-se presentes em sua cabeça e acalentando o seu coração, Fleur ergueu os olhos para primo e eles brilhavam mais, dessa vez, porque lacrimejavam de felicidade e de realização. Phillipe cruzou os braços, satisfeito com o resultado que obtivera e Fleur, dessa vez, suspirou apaixonada antes de responder:
— Hermione chegou no momento em que eu achava que não precisava mais de alguém. Ela veio quando eu acreditava estar acostumada à solidão, eu acreditava que poderia viver na Inglaterra, trabalhando e sufocando qualquer outro aspecto da minha vida que pudesse me tirar da minha zona de conforto. E ela veio fazendo justamente o contrário, me pressionando, se fazendo presente quando tudo que eu queria era estar sozinha... Ela foi insistente e teimosa a ponto de me tirar do sério, do eixo... Hermione me fez voltar a sentir, não somente, a amar. Ela me mostrou que eu ainda era feita de coração e paixão. Principalmente, ela me entregou, de volta, o que Othon tinha tirado de mim...
As palavras eram intensas e repletas de um significado que transpunha qualquer tom empregado na voz emocionada de Fleur. Eram palavras vindas do coração que a faziam sorrir e lacrimejar ao mesmo tempo, frases que a faziam suspirar e respirar fundo, expressões que aceleravam o seu coração ao mesmo tempo em que entregavam a calmaria aos seus olhos cerúleos... Eram tão intensas quanto frágeis, tão apaixonadas quanto racionais. Palavras que tentavam descrever o que, de fato, era o amor.
Ainda assim, Fleur as achava pequenas para a grandiosidade do sentimento que habitava o seu peito. Porém, essas palavras pareceram agradar Phillipe, o rapaz sorriu compreensivo para a prima, satisfeito e feliz pela realização dela. Os olhos dele não estavam na prima e sim, em algum ponto as suas costas. Fleur se virou e encontrou a figura pequena e sonolenta de Hermione, a morena estava parada, com as bochechas coradas e os olhos castanhos brilhantes, junto à porta da cozinha. Hermione, cujas palavras costumavam vir facilmente e sem obstáculos, estava calada, sem saber o que dizer.
Um breve olhar traduziu o que Fleur precisava saber. Hermione ouvira tudo e estava calada porque não sabia o que dizer. Os olhos da morena recuperaram um pouco da racionalidade que perderam naquela profusão de sentimentos dita por Fleur, ela sorriu, sem jeito, para a francesa e discreta, disse:
— Eu não queria interromper... E-eu... Eu vou voltar para o quarto, me desculpe.
Tão silenciosa como chegara, Hermione abandonou a cozinha. Os sons dos passos dela mal haviam chegado às escadas e Fleur já estava, novamente, de olhos presos aos do primo. Phillipe ria silenciosamente e a chef, corada, disparou:
— Quanto ela ouviu?
— O necessário para saber o quanto você a ama. — Phillipe respondeu entre gargalhadas roucas, virando-se em direção às bandejas de café-da-manhã. Ele apanhou aquela que Fleur preparara com tanto empenho. As suas feições voltaram a ficar sérias e ele depositou a bandeja nas mãos da prima com um olhar repleto de carinho. — Agora, vá. Vá e mostre, através de gestos, aquilo que disse.
Fleur acenou para o primo e precisou respirar fundo, diversas vezes, antes tomar o seu caminho. Nas escadas, as suas pernas tremeram e, em frente à porta do quarto, o seu coração acelerou.
Nada mudara, era, exatamente, como se estivesse se apaixonando, de novo, por Hermione Granger.
O vazio que havia sentido, ao acordar, se fora completamente. Hermione Granger encontrava-se, naquele momento, preenchida por tudo que fosse relativo a Fleur Delacour. As palavras que escutara, ao procurá-la na cozinha, ainda ecoavam em sua mente e, especialmente, em seu coração.
Tudo que Fleur dissera tinha uma carga pesada, mas, isso não maltratava os seus ombros, nem castigava as suas costas. Pelo contrário, cada palavra relativa ao amor das duas enchia os seus pulmões de oxigênio, insuflando os seus vasos sanguíneos, acelerando o seu coração e fortalecendo os seus músculos. Escutando o que Fleur sentia, Hermione se nutria do que ambas precisavam para sobreviver.
As palavras traziam coragem e determinação, Hermione não era de lutar batalhas, mas, estava disposta a travar uma guerra por Fleur.
Nada do que presenciara a surpreendia, exceto o brilho nos olhos cerúleos que aprendera a decifrar. Esse brilho não era conhecido, mas, a morena o apreendia e o sentia. Essa era mais uma das conexões, relativas a Fleur, que não compreendia. Contudo, diferentemente de outras situações em sua vida em que precisou compreender para viver, Hermione preferia entregar-se às dúvidas e, talvez, até ser pega pela surpresa.
Qualquer coisa relativa a Fleur era irracional e visceral, como se fosse feita somente de emoções e do inesperado. E Hermione não queria contaminar aquilo com perguntas, pensamentos e lógica... Naquele momento, ela não precisava de lógica. Tudo que ela precisava era aquilo que aquecia o seu coração e a fazia se sentar na cama, ansiosa, apertando os lençóis e sorrindo sem parar.
Era irônico que ela, tão ponderada, estivesse tão entregue ao que acelerava o seu coração.
A porta do quarto se abriu devagar e Fleur entrou por ela, carregando uma bandeja de madeira com os mais variados componentes de um café-da-manhã. As duas só se olharam quando a francesa encostou a porta com a lateral do corpo e se virou para contemplar a morena, na cama. Fleur parou, bruscamente, com um sorriso caloroso nos lábios e o brilho avassalador nos olhos cerúleos. O tecido leve do robe que usava fazia um péssimo trabalho ao esconder as formas de seu corpo, Hermione piscou os olhos, adequando-se àquela aparição perfeita em sua frente... Lentamente, um sorriso leve brotou nos lábios da morena e ela se levantou para ajudar.
Fleur parecia tão perdida em seus próprios pensamentos — e sentimentos — que não percebeu Hermione tão perto. A morena retirou a bandeja das mãos pálidas, depositando-a cuidadosamente sobre os lençóis bagunçados na cama. O seu corpo gravitou em busca da outra, Hermione logo estava frente a frente, novamente, com a francesa. E Fleur, completamente fora de seu torpor e entregue aos seus sentimentos, segurou-a pela cintura e a beijou.
Era mais um beijo, mas, podia muito bem ser o primeiro que trocavam.
Hermione não se lembrava de ser tão requisitada em um beijo. Fleur parecia estar por toda parte, das mãos que adentravam os seus cabelos e arranhavam o seu couro cabeludo, arrepiando-a, até os lábios que se espremiam de encontro aos seus, mordendo e sugando a sua boca que estava tão afoita quanto a dela. A morena apertava-se junto à francesa, não sabendo se queria fundir-se a ela ou, simplesmente, senti-la.
As duas passaram a noite juntas, dividiram a mesma cama e, ainda assim, pareciam estar tão ou mais necessitadas do que estiveram. Podia ser definido como um vício, mas, Hermione preferia definir que apenas precisava, muito, de Fleur por perto. Era clichê, porém, não conseguia mais se imaginar acordando sem estar acompanhada daquele corpo esguio que se encaixava tão perfeitamente ao seu.
Em algum momento nos segundos — ou seriam minutos? — do beijo, o ar faltou a ambas e elas se separaram. Fleur ofegava com os lábios entreabertos e Hermione, sôfrega, aplicou curtos beijos na boca rosada. A morena sentiu quando a francesa sorriu próxima a ela, Fleur respirou fundo e beijou a região acima da sobrancelha esquerda antes de dizer entusiasmada:
— Bonjour, mon amour... Eu fiz o café-da-manhã para você.
Hermione virou-se nos braços da chef, mas, essa parecia receosa em deixá-la ir. Os braços pálidos, ágeis, envolveram a sua cintura e a morena sentiu o respirar mais tranqüilo da francesa em seus cabelos. A advogada descansou o corpo junto ao dela, sentindo-se segura como nunca esteve em abraço algum. Os conteúdos da bandeja cheiravam deliciosamente e a barriga morena se manifestou, Fleur riu roucamente, próxima a orelha de Hermione, arrepiando-a. A francesa soltou-a, sentando-se na cama, próxima a bandeja enquanto a britânica fazia o mesmo. As duas se olharam e Hermione, com uma expressão corada e divertida no rosto, sussurrou:
— Você fez muito mais.
Fleur arqueou a sobrancelha direita para a pergunta, antes de cortar uma fatia de pão recém-saído do forno e levá-la à boca. Hermione acompanhou cada gesto dela atentamente, ainda surpresa pela forma como a francesa conseguia ser elegante àquela hora do dia. Os olhos azuis cerúleos desviaram-se da bandeja e voltaram a encontrá-la, alguma coisa em sua expressão fez com que Fleur corasse. A francesa suspirou e, visivelmente acanhada, perguntou:
— O quanto você escutou naquela cozinha?
— O bastante. — Hermione respondeu prontamente, aproximando-se da cama e sentando-se em frente a Fleur, com a bandeja entre elas. A chef tinha os olhos na bandeja, distraída enquanto procurava comer e se recompor da súbita timidez que corara as suas bochechas. Hermione sorriu deliciada para o comportamento tão inesperado de Fleur... Honestamente, achava que cabia a ela a timidez naquele relacionamento. — O necessário. Enfim, tudo o que eu gostaria de ouvir e não sabia ser digna de escutar.
Os movimentos de Fleur pararam e ela repousou a faca sobre a bandeja. Lentamente, ela ergueu a cabeça e um dos fios loiros saiu do lugar. Hermione foi mais rápida do que ela ao recolocá-lo no lugar, atrás da orelha. A mão morena não abandonou a pele pálida, dedilhando a bochecha e afagando o queixo. Os olhos cerúleos atingiram Hermione, requisitando partes dela que sabia não pertencerem mais a si. Fleur levou a mão junto a sua, afagando o seu pulso e aproximou-se, beijando-a lentamente. Com os lábios ainda juntos, a francesa sussurrou:
— Eu quis dizer tudo que disse... Je t’aime, mademoiselle Granger.
— Eu sei... Eu sei. E eu também te amo. Sempre. — Hermione sussurrou a resposta de olhos fechados, mantendo-a perto e aproximando-a ainda mais. Os raios solares da manhã não eram mais tão pálidos e adquiriram um tom amarelo convidativo e quente. E, no ar cálido daquele quarto, o café-da-manhã na cama e na bandeja foi, brevemente, esquecido.
As palavras pareceram ecoar entre elas e os seus corpos, pareceram se fundir. Era um belo amanhecer... Um lindo recomeço.
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Fleur e Hermione até terminaram com o café-da-manhã rapidamente, mas, isso não quis dizer que elas desceram cedo. Quando todo o conteúdo da bandeja foi consumido, as duas simplesmente deixaram-na na cômoda ao lado da cama e voltaram a se deitar, aconchegadas nos lençóis e no calor uma da outra. O ar morno do quarto não incomodava, muito menos, a proximidade entre pelas. Pelo contrário, existia certo ar de lar naquilo que dividiram... Dormir e acordar ao lado da outra parecia, para ambas, a coisa mais certa que fizeram em anos.
Por isso, quando elas finalmente resolveram despertar de seu universo particular, a hora já era próxima a do almoço. Fleur e Hermione desceram as escadas de mãos dadas, escutaram Éponine Delacour pontuar a respeito do conforto do quarto com a voz cheia de suposições e somente foram salvas do embaraço por Phillipe e Lorena que chegaram no mesmo momento. A avó, então, desviou a sua mira para o casal recém-chegado. Gabrielle revirava os olhos para a felicidade romântica que a rodeava e os pais Delacour pareciam deliciados com toda a situação para não implicarem com a falta de tato da mais velha da família.
O clima era leve, caloroso e familiar. Coisas das quais Fleur sentia falta e das quais Hermione jamais tivera, por isso, ambas sentiam-se satisfeitas e entorpecidas. Existia muita felicidade naquela construção rústica de pedra próxima a Feucherolles e, rapidamente, ambas pensaram que, talvez, existisse felicidade demais em suas vidas naquele momento. Se a mereciam, era um mistério... Mas, ambas sabiam que deveriam aproveitá-la.
Nesse ambiente enérgico, Fleur e Phillipe voltaram a ajudar Éponine na cozinha durante o preparo do almoço. Hermione tentou auxiliar da melhor forma possível, cortando o que colocavam em sua frente — o que era difícil com três chefs na cozinha, o trio discordava de quase tudo — e Lorena estava ao seu lado, mais rindo da confusão do que ajudando. Até mesmo Gabrielle resolveu ajudar, encarregando-se das louças e, posteriormente, da mesa a ser arrumada.
Por fim, Phillipe abandonou a cozinha por breves minutos e junto de Raoul, carregou uma mesa de madeira para a varanda. Apoline organizou os bancos juntamente com Gabrielle e quando Fleur trouxe a primeira travessa do almoço, a mesa já estava posta. Hermione estava sentada quando fez menção de se levantar, mas, Fleur que passava por ela depositou a mão levemente em seu ombro e disse autoritária:
— Você é visita, não precisa ajudar, chérie.
Dizendo isso, a francesa olhou diretamente para a irmã caçula que estava pronta, à espera dos demais pratos que constituíam o almoço. Gabrielle bufou audivelmente e revirou os olhos, em seguida, grunhiu indignada:
— Eu achei que ela fosse da família e poderia muito bem ajudar.
— Vá ajudar a sua irmã e nos poupe de seus dramas, Gabrielle. — Apoline bronqueou séria, fazendo com que a caçula quase derrubasse a mesa em seu rompante de insatisfação. Gabrielle mal tinha levantado e Apoline ria da filha mais nova que passava, feito um furacão, pela irmã mais velha. Fleur agitou a cabeça negativamente, ela se inclinou e beijou Hermione nos lábios, antes de voltar à cozinha.
Obviamente, as bochechas morenas coraram. Apoline e Raoul perceberam o rubor e sorriram deliciados, Phillipe e Lorena estavam envolvidos em seus próprios olhares para perceberem e Éponine, mesmo séria, ergueu uma taça em sinal de brinde a Hermione antes de tomar um gole de seu vinho. A morena chacoalhou a cabeça e sorriu para si mesma, conforme o seu sorriso crescia, o rubor desaparecia por completo e quando Fleur voltou, pela última vez, do interior da casa, ela já estava recomposta — ainda que o seu coração estivesse acelerado e a sua respiração ofegante — para almoçar.
Naquele dia, como em todos os outros, havia muita comida. Hermione aprendera que os Delacour gostavam de comer tanto quanto gostavam de cozinhar. Na mesa, o aroma da carne marinada no vinho tinto trouxe água à boca da morena. Ela também sentia o cheiro das batatas cozinhas e dos pães torrados com alho e azeite.
Fleur já apanhara o prato de Hermione e a servia, a morena olhou encantada para a francesa medindo as porções antes de depositá-la na louça. Mais uma vez, a britânica se viu surpreendida por uma atitude aparentemente trivial de Fleur, jamais havia sido cuidada daquela forma, a ponto de alguém preocupar-se em servi-la antes de servir a si mesma. O prato foi depositado a sua frente, com generosas porções de cada um dos constituintes do almoço, Hermione cortou um pedaço de carne e o levou à boca, deliciando-se com a maciez e o sabor da carne enquanto mastigava. Tão entregue ao seu paladar, não percebeu o ronroado satisfeito que irrompeu de seus lábios fechados, nem percebeu que fechara os olhos diante da explosão de sabor. Escutou Fleur rir roucamente ao seu lado, o que chamou a atenção da morena, a francesa servia as suas taças de vinho enquanto comentava satisfeita:
— Eu seria feliz se somente cozinhasse para você, todos os dias e recebesse esse tipo de reação em cada um dos meus pratos.
— Você me pegou pelo estômago, Delacour. — Hermione brincou, com um sorriso nos lábios antes de levar mais uma garfada à boca. Em seguida, tomou um gole do vinho. Esse era tinto, mas, um exemplar mais pálido, de forte aroma adocicado e um sabor que remetia a frutas silvestres. Hermione estava surpresa por apreender tanto por si mesma, parecia que estava adquirindo gosto por vinhos assim como adquirira pela França. — E sobre essa reação, eu só fui pega de surpresa. Foi demais para saborear calada.
— Só pelo estômago, Granger? Sério? — Fleur perguntou baixinho, tão baixo que Hermione teve dificuldades em discernir o tom que ela usara. Contudo, quando voltou a desviar os olhos do prato, Fleur tinha os olhos elétricos, observando-a por cima da taça e antes que ela se servisse do vinho, a morena teve certeza que ela sorrira sedutora. Era isso? A francesa resolvera flertar àquela hora, na frente de toda a família?
Novamente, Hermione corou e suspirou profundamente, Fleur somente riu, antes de pegar a sua mão livre por debaixo da mesa e depositá-la na própria coxa. A morena respirou fundo, tomando mais um gole de vinho para tentar distrair-se das palavras e do calor de Fleur em sua mão. Contudo, ela falhara miseravelmente em disfarçar porque Gabrielle olhava dela para Fleur, do outro lado da mesa. A caçula fez uma careta e acusou indignada:
— Por favor, não façam isso na hora do almoço. Eu corro o sério risco de colocar tudo para fora, por mais delicioso que possa estar.
— Eu não sei do que fala, Gabby... — Fleur dissimulou com um sorriso inocente enquanto a sua mão alcançava a porção interna da coxa de Hermione. Não fora um ato lascivo, mas, aparentemente, a morena sentia mais saudades da francesa do que admitia. Imediatamente, os seus pelos arrepiaram-se e ela se viu encarando qualquer ponto além de Gabrielle ou qualquer um dos Delacour. A caçula olhou para Hermione, apenas para confirmar as suas suposições antes de dizer entre risos:
— Ah, fala sério, irmãzinha! É só olhar para Hermione para perceber que, com certeza, você está fazendo algo que não é apropriado para o horário!
Phillipe e Lorena foram os primeiros a rirem, seguidos por Apoline e Raoul. Fleur corou as bochechas pálidas e Hermione, mais uma vez, se entregou ao vinho apenas para ocupar a cabeça e não preocupar-se com a vergonha. Contudo, aquilo estava longe de acabar porque Éponine, que se mantivera calada com um sorriso maldoso nos lábios enrugados, resolveu dizer maliciosa:
— Enfants, poupem essa velha senhora, s’il vous plaît... Almoçamos em paz e, depois, acho que Fleur deveria levar Hermione ao lago, oui? Afinal, é o mesmo lago que Apoline apresentou a Raoul antes de aparecer grávida. Se bem que não devo me preocupar com isso em relação às duas.
Gabrielle precisou se esforçar tremendamente para não cuspir o vinho que engolia antes de rir. Lorena ficou tão chocada que não sabia se ria ou se ficava boquiaberta e Phillipe, ao seu lado, chacoalhava-se todo em uma gargalhada silenciosa que enchia os seus olhos de lágrimas de riso. Apoline franziu a testa para a mãe, mas, não a respondeu enquanto Raoul parecia decidido a apenas comer. Fleur e Hermione se entreolharam e riram antes de voltarem aos seus pratos... Lá pela terceira garfada desde a revelação de Éponine a respeito do lago, Fleur se aproximou cheia de interesse e lascívia, o aroma do hálito da chef cheirava a vinho ao dizer:
— Eu realmente acho que devemos ir ao lago à tarde, mon amour...
E Hermione se viu, novamente, pateticamente embriagada de amor por aquela maldita francesa.
Hermione não saberia dizer se Fleur realmente tinha intenção de levá-la ao famoso lago dos Delacour depois do almoço, afinal, Éponine praticamente as obrigou a ir, dispensando-as da tarefa de lavar as louças e ordenando que Lorena e uma Gabrielle emburrada a realizassem.
Por isso, a tarde começava quando o casal se viu, mais uma vez, nos caminhos de pedra da pequena propriedade rural. Dessa vez, elas retomaram um caminho oposto ao do pomar. Os passos continuavam os mesmos, masserando o cascalho embaixo de seus pés, contudo, existia certa cumplicidade diferente entre elas. Naquele dia, Fleur segurava a mão morena. Não existia pressa em seu caminhar e mesmo que os seus olhos cerúleos estivessem atentos ao seu redor, era evidente que a sua mente e, sobretudo, o seu coração estavam concentrados em Hermione.
As duas caminharam mais do que poucos metros, Hermione não tinha uma noção exata da distância, mas, desconfiava que se aproxiavam de quilômetros. Contudo, nenhuma das duas estava cansada, ainda que o calor começasse a maltratá-las. Era um estranho dia quente, o céu nublado refletia o ar abafado, mas, o sol que penetrava através das nuvens cinzentas ainda conseguia esquentar suas peles, fazendo-as transpirarem. Porém, o cheiro que vinha de Fleur não era desagradável... Pelo contrário, era o cheiro da pele e, principalmente, o real cheiro de Fleur.
O cheiro puro, sem os aromas dos temperos usados na cozinha ou a fragância de lavanda de seus produtos de beleza. Era um perfume natural, em contato com o ar bucólico que as circundava. Hermione não sabia como descrevê-lo, mas, cheirava a visceral. O seu olfato respondia imediatamente a ele, fazendo-a discernir os toques do aroma como fizera, mais cedo, com o vinho. E os toques presentes no cheiro real de Fleur eram muito mais intensos e, essencialmente, sensuais.
Hermione virou-se para Fleur enquanto caminhava. A francesa tinha os lábios entreabertos, expirando o ar inspirado através deles. Uma fina camada de suor começava a se formar em sua testa e a morena viu-se suspirando pesadamente. Era estranho como, mesmo com toda proximidade física dividida naqueles dias, ela ainda necessitasse de algo muito mais profundo do que tinha no momento. Hermione precisava de Fleur, em toda a sua totalidade. Feita de aromas naturais e pele transpirante, de lábios entreabertos e respiração ofegante, de corpo e, sobretudo, de alma.
A morena teve que desviar os olhos, os seus sentidos começavam a responder de forma intensa demais. O seu tato sentia os pelos de seu corpo arrepiados, o seu paladar lambia os seus lábios, a sua visão tinha as pupilas dilatadas e o seu olfato sorvia enormes quantidades de perfume natural e viciante... E o seu coração acelerado batia de encontro aos seus ouvidos. Estava à flor da pele, entorpecida e maravilhada com a mulher que tinha do seu lado.
Flashes do que acontecera na tarde anterior rapidamente chegaram à mente de Hermione. As lembranças atiçaram os seus sentidos, o toque elétrico de Fleur em sua mão, o suco da maçã escorrendo pelo canto dos lábios franceses, os olhos escurecidos pelo desejo e este se manifestando em apertos, abraços, arranhões e beijos. Hermione ofegou necessitada. O que sentia pela mulher ao seu lado era irracional, insasciável e incompreensível. Características que, perfeitamente, cabiam em apenas um sentimento.
O amor.
— Parece que grand-mére não abandonou a ideia de fabricar um vinho próprio aos Delacour. — A voz divertida de Fleur tirou Hermione de seus devaneios carnais, a francesa acelerara o passo em direção à estrutura ao lado esquerdo da estradinha pela qual caminhavam. Os olhos castanhos acompanharam os elegantes movimentos da chef, perdendo-se neles para, em seguida, encontrarem um parreiral de uvas que se estendia por alguns hectares. Era uma pequena cultura, mas, aparentava ser bem cuidada e as uvas eram escuras, roxas. — Os cultivadores de Borgonha acreditam que o vinho é resultado do solo em que a uva foi cultivada. Se isso for realmente verdade, não me surpreenderei se os vinhos Delacour forem fortes, intensos, encorpados e...
— Sensuais? — Hermione completou com a voz carregada de malícia, os olhos castanhos brilhantes e escuros, como cobre derretido. O tom em sua voz fez com que Fleur se virasse para olhá-la, o azul estava elétrico, brilhando tanto quanto o castanho.
A francesa tinha a postura relaxada, a sobrancelha ligeiramente arqueada e um sorriso gatuno formando-se em seus lábios. Ela queria roubar algo com aquele sorriso, mas, era Hermione quem reinvindicava por algo agora. A morena se aproximou e Fleur se afastou como em um jogo de gato e rato, as duas se olhavam intensamente e o ar, a sua volta, pesava. Não era mais quente e sim, escaldante. Fleur esticou o corpo longilíneo e apanhou um pequeno cacho de uvas acima de sua cabeça, arrancou um dos frutos e encostou o corpo de encontro a uma das sustentações do parreiral. Ela lambeu os lábios e levou o fruto à boca, o fruto desapareceu em sua língua, mas, o suco escorreu pelo canto de seus lábios, exatamente como na tarde anterior.
E se antes ela parecera a própria tentação com a maçã em mãos, agora, ela tinha as uvas do Cupido em mãos, mas, parecia a própria Afrodite no auge de sua beleza e sensualidade. Hermione ofegou e se aproximou, o seu corpo moldou-se de encontro a Fleur, ela estendeu a mão para o suco foragido, limpando-o com o dedo indicador e saboreando-o em sua própria pele, logo em seguida. Os olhos de Fleur acompanharam os movimentos de sua língua e as sucções de seus lábios, ela sorriu deliciada e perguntou roucamente:
— Gostaria de explicar melhor o que disse anteriormente, mademoiselle Granger?
— Eu não sei se consigo falar sobre o que eu não provei. — Hermione rebateu ofegante, tentando encontrar réplicas à altura quando estava totalmente entorpecida por toda a aura avassaladora que Fleur emanava. O que Fleur despertava em si não era normal, era louco... Era como se aquela loucura adentrasse em seus poros cada vez que a francesa falava roucamente ou sorria daquela forma, Fleur tirava-lhe a razão e Hermione não mais tinha medo de se jogar na loucura com ela. Hermione ergueu o queixo pálido, expondo o pescoço e a pele que estava imaculadamente branca. A sua língua habilidosa sorveu a transpiração de Fleur, deliciando-se com o suor até chegar a curva da mandíbula, embriagando-se do suco doce da uva. O sal do suor se misturou ao doce da fruta e Hermione se viu ofegante de encontro à pele pálida. — Talvez, eu devesse provar diretamente da fonte. Ver, sentir e saborear aquilo do qual os Delacour são feitos.
Hermione sorveu a tentação diretamente dos lábios de quem a possuía, Fleur não decepcionou ao retribuí-la, tão desejosa quanto ela. Enquanto as suas bocas se deliciavam, as mãos ganhavam vida. O cacho de uvas caiu das mãos de Fleur, dando lugar aos fios castanhos nos quais ela se agarrava para não desmontar embaixo do parreiral. Hermione a segurava, possessiva, pela cintura, lutando contra todos os tecidos que a separavam da pele que tanto desejava. A boca de Hermione abandonou os lábios deliciosos, subindo através da pele alva, alcançando a orelha e suspirando pesadamente:
— Eu não sei os outros, mas, você é feita de loucura, Fleur.
— Je? — Fleur parou todos os seus movimentos para perguntar e Hermione pensara que fizera algo errado até enxergar o sorriso divertido e devorador nos lábios inchados pelo beijo. A francesa apoiou os braços nos ombros da britânica, inclinando a cabeça numa tentativa inútil de parecer inocente. Contudo, os fios loiros desalinhados e as pupilas azuis dilatadas desacreditavam essa postura. Fleur era perigosa, era sedutora e, sobretudo, irresistível. Ela se aproximou, o rosto a centímetros de Hermione e, exalando a quentura de seu corpo sobre os lábios da morena, permaneceu devorando-a com o olhar. — Talvez, você deveria colocar um pouco de razão na minha cabeça... Ou deixar que eu faça você perder a sua. De vez.
Dizendo isso, Fleur foi surpreendente rápida ao inverter as posições, prensando Hermione de encontro à sustentação. A morena ofegou quando as suas costas bateram na madeira, os seus olhos arregalaram-se quando sentiu as mãos de Fleur indo diretamente ao ponto, mais precisamente, ao seu ponto. Hermione conseguiu pará-la quando a francesa estava prestes a abrir o botão de sua calça. Lentamente, os olhos azuis eletrificados encontraram os seus, existia dúvida dentro deles e Hermione tratou dissipá-las, mordendo o lábio inferior inchado levemente e sussurrando sobre ele:
— Eu achei que discutíamos a respeito do que você era feita.
— Eu não posso resistir à tamanha tentação... — Fleur murmurou em resposta, as mãos pálidas desvencilhando-se das prisões morenas e voltando ao trabalho. Com a respiração descompassada e o olhar ansioso, Hermione viu a francesa desabotoar a sua calça jeans e afastar o leve tecido da camisa que usava. Os lábios dela encontraram a pele de seu colo e a mão direita dela encontrou o seu centro. A morena gemeu pelo contato, Fleur tinha as mãos quentes e ela estava úmida. Sentiu o sorriso da francesa de encontro à pele de seu colo, em seguida, ela mordeu-lhe apenas para beijá-la depois. — Ainda mais quando ela está assim... Tão entregue a mim.
Hermione até tentou, mas, novamente, se viu perdida na loucura que circundava Fleur. O corpo pálido e esguio voltou-se ao seu, tão próximo que parecia querer fundir-se. A morena não conseguia respirar, corresponder e sentir. Era demais, muitas sensações a preenchiam. Do calor ao arrepio, do doce ao salgado, do ofegar ao suspiro... Os seus sentidos estavam bagunçados e totalmente entorpecidos por Fleur. E talvez, por isso, ela tenha demorado tanto a perceber que a francesa havia parado.
Quando os seus sentidos voltavam à órbita, encontrou os olhos azuis acanhados antes de se desviarem dos seus. Fleur virou-se rapidamente, colocando o corpo em frente ao seu enquanto um distante zumbido perturbava a sua audição. Hermione demorou a entender que esse som pertencia a um carro que acabara de passar por elas. Também demorou a entender que Fleur, naquele momento, a protegia do carro que passava e que, do contrário, veria muito mais coisas do que deveria.
Com os dedos trêmulos e os pensamentos distantes, Hermione conseguiu abotoar a camisa e a calça. O aperto abaixo de seu ventre não foi possível de ser ajeitado, mas, logo, foi substituído por uma frustração latente. O carro desapareceu pela estradinha — um velho caminhão — e Fleur virou-se para Hermione, as bochechas coradas e a frustração também presente em suas feições indignadas. Hermione bufou e, inquieta, comentou:
— Péssimo timing.
Fleur sorriu de lado, como se pedisse desculpas e a morena, deixando a sua frustração em segundo plano, aproximou-se e aplicou um beijo casto nos lábios que, até anteriormente, enlouqueciam-na. Fleur correspondeu, ligeiramente envergonhada e Hermione, segurando o rosto dela com as duas mãos, murmurou desiludida:
— Eu realmente espero que a água desse lago seja fria.
Fleur gargalhou antes de puxá-la de volta para a estradinha. Os passos estavam pesados daquela vez e Hermione sentia o calor queimar a sua pele... Ou, talvez, fossem apenas as lembranças da boca de Fleur traçando padrões indeterminados por ali. Depois do parreiral, Hermione não tinha os sentidos atentos a Fleur e sim, bagunçados por ela.
Como dissera, Fleur era a loucura e, aparentemente, Hermione a deixara levar a sua sanidade também.
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Mais alguns bons metros adiante na estradinha de cascalho e os olhos de Hermione finalmente conheceram o tão famoso lago da propriedade dos Delacour. A coleção de água não era extensa, menos de 1 km2 e a sua superfície era azulada e escura, aparentava profundida. O lago estendia-se em forma circular e regular, banhando uma margem feita de pedra e árvores que, lentamente, tinham as suas folhas amarronzadas pela chegada do Outono. A estradinha pela qual caminhavam era superior e contornava o lago, contudo, a margem estava bem abaixo delas, ao fim de um barranco de pedras bem inclinado. Hermione duvidava que pudessem ser vistas, da estradinha, quanto estivessem lá embaixo.
Fleur apanhou a mão da morena, atraindo os olhos castanhos para si e sorrindo realizada quando eles fixaram-se nos seus cerúleos. A francesa afagou a mão que segurava com o polegar, adiantou-se, saindo da estrada de cascalho e tomando cuidado ao colocar o pé direito no acidente do relevo logo à frente. Hermione estacou, preocupada, mas, Fleur parecia familiar ao terreno. A chef sorriu e disse calmamente:
— Eu nunca soube o nome desse lago, sequer sei se ele tem um... Mas, eu sei que sempre vim até aqui em todas as vezes que passamos um período em Feucherolles. E como grand-mère fez questão de salientar, esse lago é importante para os Delacour.
— Sim, a importância ficou bem clara para mim. — Hermione respondeu cautelosa, mais pelos pés que tentavam imitar as pisadas de Fleur no tecido íngreme do que por qualquer piada que pudesse ser feita. A morena nunca fora muito relevante tratando-se de atividades físicas, todo cuidado era pouco naquela descida. Fleur parou abruptamente, olhando-a por cima dos ombros com um sorriso misterioso. — Eu só não entendo porque temos que descer até lá embaixo.
A francesa revirou os olhos azuis, julgando a pergunta muito ofensiva para o que quer que estivesse pensando. A morena, por sua vez, franziu a expressão para o que vira. Fleur suspirou, o sorriso voltou aos seus lábios no mesmo momento em que ela beijava as rugas na testa de Hermione, ambas suspiraram e Fleur migrou os seus beijos pela bochecha, até chegar à orelha da morena e sussurrar sedutora:
— Tem certeza que não quer descer e descobrir o que esse lago tem de tão especial?
Hermione precisou ser puxada pelo resto da descida porque estava muito envolvida dentro do seu próprio corpo. Ela voltou a sentir a adrenalina preencher o seu interior, assim como, também sentiu o desejo extravasar-se por sua pele em forma de suor, arrepios e coração acelerado. Os seus pés flutuaram e os seus olhos enxergavam tudo e, ao mesmo tempo, nada. Assim como estava plenamente consciente da mão que sustentava e esquentava a sua, Hermione perdera a maioria das reações racionais que pudesse ter.
Novamente, estava entregue aos seus desejos e impulsos que pareciam querer somente uma coisa e uma pessoa.
O casal aterrissou às margens do lago, o ar morno tornou-se úmido e fresco. Hermione olhou para cima, apenas para constatar que estavam protegidas pelas árvores e pedras pelas quais haviam passado. Fleur estava parada a sua frente, de costas para o lago, com as mãos na cintura e um sorriso brilhante nos lábios. Os fios loiros seguiam a direção do vento, batendo em seu rosto e Hermione não se conteve ao se aproximar para segurá-los, somado a isso, suas mãos também envolveram o belo rosto da francesa. As duas encostaram as testas e as respirações intercalaram-se, Fleur fechou os olhos e Hermione disse cheia de risos de felicidade plena:
— Como eu posso querer descobrir o que esse lago tem de especial com você na minha frente, desse jeito?
Fleur riu deliciada e rompeu a distância entre elas, beijando Hermione como se o último beijo entre elas tivesse acontecido há anos e não, há minutos. Aquele era o tipo de beijo que tornava qualquer problema ínfimo, Othon já era passado, mas, com Fleur beijando-a daquela forma, Hermione sentia como se ele nunca tivesse existido.
A advogada nunca pensou que fosse ser o tipo de pessoa a sentir o clichê quando se apaixonasse... Mas, ali estava ela, sentindo que o mundo parava de girar quando era beijada daquela forma. Afinal, cada segundo sem respirar parecia durar uma eternidade de suspiros, arrepios e mordidas. E, ainda assim, mesmo que sentia que tudo estivesse parado, não parecia suficiente. Nunca parecia suficiente. E Hermione tinha a sensação que, provavelmente, nunca seria o suficiente.
Ela sempre ia querer mais de Fleur.
Imersa em suas necessidades, Hermione não percebeu o que Fleur fazia além de beijá-la. Porém, sentiu quando as suas mãos frias pelo ar úmido do lago tocaram a pele quente do abdômen de Fleur. Como se tivesse sido eletrocutada, — e realmente sentia-se dessa forma — a morena se afastou bruscamente, segurando os pulsos de Fleur para mantê-la afastada e, principalmente, para manter a si mesma consciente.
Alguém deveria ser racional ali e depois do episódio do parreiral, Hermione aceitava aquela posição.
Porém, ela difícil permanecer inatingida pelo magnetismo que Fleur exercia quando deixava aquele lado dela, cheio de luxúria e malícia, vir à tona. A francesa tinha os lábios inchados pelo beijo, sorrindo descarada para a surpresa de Hermione ao encontrar os botões de sua camisa abertos, os olhos cerúleos tinham as pupilas dilatadas e os cabelos estavam bagunçados. O peito se movia a cada inspiração e Hermione teve que se concentrar em não fixar os olhos no colo exposto exceto pelo sutiã branco. Engoliu em seco e fechou os olhos, agitando a cabeça.
Os pulsos de Fleur se libertaram, o que fez Hermione abrir os olhos. Contudo, as mãos não procuraram abotoar a camisa e sim, escorregar o que restava do tecido pelos ombros. Hermione observou, escutando as batidas de seu coração ensurdecerem os poucos pensamentos racionais que ainda possuía. Os olhos castanhos viram Fleur tirar os sapatos e desabotoar a calça antes das mãos morenas segurarem-nas, impedindo-as de continuar.
Outra vez, a sobrancelha de Fleur arqueou e o sorriso malicioso tomou-lhe os lábios. Hermione suspirou e, sentindo-se vencida sem nem ter começado a lutar, perguntou exasperada:
— O que você está fazendo?
— Aproveitando o lago, aliviando o calor e mostrando a você o que esse lago tem de especial. — Fleur respondeu com falsa inocência, as mãos dela se libertaram da prisão em que Hermione as confinara. Contudo, ela não abandonou o contato e sim, o intensificou, deslizando as mãos pálidas pelos braços morenos, deixando um rastro de arrepios por onde passavam.
Hermione suspirou mais de uma vez, fechou os olhos, mas, Fleur arranhou a porção interna de seu braço, forçando-a a olhá-la. Então, os olhos castanhos se abriram, escurecidos pelo desejo e a morena se lançou à frente, disposta a mandar a razão às favas pela segunda vez naquele dia... Contudo, antes que pudesse beijar Fleur, risadas estrondosas vieram da estradinha de cascalho.
O casal se sobressaltou, virando-se em direção ao som. Hermione, instintivamente, colocou-se em frente à Fleur enquanto a francesa se agachava e lutava contra o tecido da camisa. Acima delas, Lorena e Gabrielle riam abertamente. A caçula estava vermelha e não conseguia falar, portanto, foi Lorena quem retomou o ar e disse brincalhona:
— Eu sei que esse lago é afrodisíaco e tudo mais... Mas, vocês tiveram tempo o bastante para aproveitarem, a não ser que pararam em algum lugar antes. O parreiral é tão sedutor quanto, eu sei...
— Estou extremamente feliz por empatar a foda de vocês e o faria outras tantas vezes... Mas, não temos tempo, Viktor chegou e grand-mère quer ajuda na cozinha! — Gabrielle completou quando conseguiu tomar ar, apoiando-se no ombro de Lorena que, agora, estava encarregada de rir. As duas se afastaram assim como chegaram e Hermione sentiu Fleur suspirar as suas costas, ao se virar, a francesa abotoara parte da camisa, contudo, amarrara o final dela. Fleur suspirou e levou a mão a testa, respirou fundo e sussurrou frustrada:
— Estou tentada a envenear a comida de Gabby nesse jantar.
— Não faça isso, é a sua última noite com a sua família, logo, estaremos sozinhas e poderemos fazer qualquer coisa... — Hermione comentou meio desatenta, mais disposta a consolar do que a deixar algo no ar, porém, Fleur percebeu o que quer que fosse. A francesa a segurou pelo pulso e murmurou maldosa:
— Qualquer coisa?
— Sim, o que você quiser, Delacour. — Hermione deixou que um sorriso voltasse aos seus lábios e afastasse toda a vergonha que sentira anteriormente. Com as mãos de Fleur em sua cintura, ela subiu o relevo íngreme e acidentado.
E com o coração acelerado, ela caminhou de volta pela estradinha de cascalho... Fleur estava distraída, mas, Hermione não. E a morena não pode deixar de notar o quanto o sorriso casava bem às belas feições francesas. Melhor do que isso, Hermione sentiu-se extremamente orgulhosa por ser a única a provocá-lo.
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A noite já caíra sobre os campos da propriedade, os sons noturnos encarregavam-se da trilha sonora do jantar e Hermione conseguia discernir o canto das cigarras, os uivos dos cachorros e o som do vento à distância, porém, mais perto, tudo que ouvia era o som das panelas, o francês rápido falado na cozinha e as risadas masculinas dos seus companheiros de taça de vinho. Enquanto o seu olfato aprendia os aromas deliciosos dos pratos que eram cozidos, fervidos, temperados e preparados.
O vinho em seus lábios era doce e ela não pode deixar de relacionar essa doçura ao que vivia no momento. Hermione não se lembrava de se sentir tão em casa antes — nem mesmo em sua própria casa, com os seus pais — tampouco se lembrava de estar tão leve e tão feliz... Eram sensações estranhas, como se não as pertencesse, contudo, sabia que podia se acostumar a elas.
— Hermioni-ni... — A voz grossa e cheia de sotaque carregado de Viktor Krum interrompeu os seus pensamentos. Hermione segurou-se para não fazer alguma careta diante da dificuldade do rapaz em pronunciar o seu nome. Ele acabara de voltar do interior da casa, com uma das cervejas compradas na Moreau Épicerie e a abria. Quando teve a atenção da morena sobre si, sorriu. Hermione não pode deixar de notar que ele era bonito, mesmo parecendo tão intimidador e sisudo, o oposto de Gabrielle. A caçula tinha bom gosto, afinal. — Fleur está chamando-lhe lá dentro.
— Obrigada, Viktor. — Hermione respondeu educadamente, pousando a sua taça sobre a mesinha na varanda e levantando-se do banco de madeira. O búlgaro sorriu e piscou brincalhão para ela, aí sim, a morena revirou os olhos. Ela caminhou sorrindo, passando por Raoul que conversava com Viktor e por Phillipe que fora expulso da cozinha. Aparentemente, Gabrielle queria causar uma boa impressão no namorado e resolveu ajudar Fleur e a avó sem reclamar.
Apoline também estava na cozinha e Hermione nem sequer precisara chegar à sala de jantar para escutá-la discutindo com a mãe. Aparentemente, todas as mulheres Delacour eram indomáveis.
Quase trombou com Fleur quando a chef saía da cozinha. Ela tinha um avental amarrado à cintura e os cabelos presos em um coque; totalmente diferente da chef alinhada em seu dólmã e com a bandana nos cabelos que coordenava a cozinha do La Petite Mort com mão de ferro. Hermione achou-a linda da mesma forma, incapaz de determinar qual das duas facetas de Fleur era mais bela.
Fleur também tinha uma panela em mãos que afastou com cuidado antes de aplicar um leve beijo nos lábios da morena — um beijo totalmente diferente daqueles que a incendiaram, mais cedo, naquele dia -, ela ofereceu uma colherada do conteúdo da panela, o qual Hermione provou e se deliciou, mais uma vez. Aparentava ser um molho para uma massa e somente ao degustar o sabor que Hermione foi capaz de sentir o aroma de ervas, antes, estava envolvida demais no perfume de lavanda da chef.
— O que acha? Grand-mère está me enlouquecendo com o preparo desse molho, ela já gritou comigo por não saber de cabeça um prato búlgaro... Resolvemos fazer algo italiano, afinal, quem não gosta de comida italiana? — Fleur desatou a falar visivelmente nervosa e inquieta. Hermione conseguia entendê-la, a chef passara anos comandando a própria cozinha e, ao voltar para casa, tinha que lidar com a avó que era tão autoritária quanto ela. O confronto na cozinha deveria estar interessante. Hermione não a deixou falar mais e foi a sua vez de se inclinar e beijá-la antes de responder confiante:
— O molho está maravilhoso como tudo que você faz...
Fleur inclinou a cabeça, deliciada pelo que Hermione dissera. Mais uma vez, a morena percebeu o quanto a gastronomia era importante para a francesa. Mais do que sua paixão, era algo que corria em seu sangue, vindo de sua família e que, com certeza, trazia as melhores lembranças que possuía. Hermione sabia o que significava fazer algo que amava, sentia-se dessa forma todas as vezes que entrava em um tribunal. Os olhos azuis brilhavam ao olhá-la e a língua de Fleur deslizou pelos próprios lábios antes de ela franzir a testa e perguntar:
— Está bebendo vinho? Mesmo com Krum furtando as suas cervejas?
— Sim, mas, não me pergunte qual... Foi o seu pai quem escolheu. — Hermione confessou com um sorriso culpado, já começava a discernir algumas notas no vinho, mas, não era uma conhecedora como Fleur e grande parte de sua família. A francesa esticou a cabeça e os olhos semicerraram-se, disposta a encontrar a garrafa. Porém, ela encontrou outra coisa e Hermione teve que se virar ao ver nascer um sorriso emocionado nos lábios de quem amara.
Pela janela que dava para a varanda, as duas viram Gabrielle levar um prato de aperitivos e, rapidamente, roubar um beijo de Viktor. Ela teria voltado rapidamente para cozinha se ele não a tivesse segurado, puxando-a para sentar em seu colo. Raoul conversava com o jovem casal e eles sorriam, acenando.
— É muito bom vê-la tão feliz depois de tudo que aconteceu... — Fleur comentou tranquilamente, os braços relaxando diante do segurar da panela e os olhos brilhando. Hermione a observou, tão feliz e aliviada, completamente o oposto da mulher tensa e melancólica que conhecera em Ottery St. Catchpole. Metaforicamente falando, era como se Fleur realmente florescesse e, finalmente, saísse do inverno de sua vida. Era outono, mas, a francesa parecia ter encontrado a sua primavera. O renascimento dela começara e ela não poderia ser mais bela do que era agora. — Na verdade, é muito ver todos assim... Juntos e unidos, como sempre deveria ter sido. Ver Gabrielle apaixonada, Lorena e Phillipe se firmando, os meus pais se amando e grand-mère com saúde... Eu não sabia se veria isso um dia, eu não sabia se mereceria tudo isso.
— Você merece, sempre mereceu. — Hermione completou com a voz grave, enlaçando a cintura delgada da francesa (até onde a panela, entre elas, permitia) e beijando-lhe o ombro. Fleur se inclinou ao seu toque e a morena sorriu de encontro ao seu corpo. As palavras vieram antes que a morena pudesse contê-las, vindas diretamente de seu coração e distantes de sua razão. — Eu te amo e nunca duvide que mereça ser feliz de novo.
Fleur não entregou palavras, mas, os seus olhos brilharam mais intensamente, entregando todos os seus sentimentos. E elas teriam ficado nessa atmosfera se Éponine não tivesse vociferado algo em francês dentro da cozinha, Fleur voltou correndo para a avó, sem antes soprar um beijo para Hermione.
A morena suspirava apaixonada antes de passar por Gabrielle pelo caminho que levava à varanda. A caçula também suspirava e tinha um sorriso tão grande nos lábios que Hermione não conseguiu deixar de tribuir. Gabrielle acenou para ela e disse brincalhona:
— Estamos pateticamente apaixonadas, cunhadinha.
— Sim, estamos. — Hermione respondeu com uma risada rouca, escutando o mesmo de Gabrielle. Cada uma continuou o seu rumo e quando a morena chegou à varanda, sentiu que um olhar a acompanhava. Pela janela que dava para cozinha, viu Fleur a observando, não estava séria, nem sorria. A francesa tinha uma expressão misteriosa no rosto, contudo, quando ela sussurrou as palavras, Hermione as reconheceu.
Je t’aime.
Essa era outra coisa com a qual Hermione podia se acostumar... Um “eu te amo” nunca foi tão sedutor e, sobretudo, tão real. E estava disposta a ouvi-lo quantas vezes coubessem numa eternidade.
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