La Petite Mort

24 Romantismo Bucólico - Parte I


Notas iniciais
Olá pessoal, como vocês estão? Peço, novamente, perdões pela demora... Essa realmente foi das grandes! Como justificativa, só posso dizer que estive envolvida no fim de outra fanfic minha e, também, que tive sérios problemas pessoas que, por algum tempo, travaram a minha escrita e bloquearam a minha inspiração. Pardon :( Bem, como puderam notar pelo título, esse capítulo é dividido em duas partes e ainda mantêm as nossas meninas na França. Porém, ele traz um lado muito especial da fanfic... Aqui, as meninas são, definitivamente, um casal. Sem passado ou presente as atrapalhando. A abordagem é mais leve e espero que isso os deixe ansiosos e animados. Para esse capítulo, indico a música "The Story of Oak" da cantora francesa Gabriella. A letra muito fala sobre o relacionamento de Fleur e Hermione nessa história... Espero que gostem! Boa leitura!

O dia seguinte na Mansão Delacour começou cedo, não pelo despertar de seus moradores e sim, por toda a agitação do lado de fora. Os de sono mais leve — e esses incluíam Éponine (que passara a noite com os demais), Hermione, Apoline e Raoul — acordaram com os sons dos motores estacionando no quintal e da equipe de segurança da família se organizando para proteger a privacidade de seus membros.

Hermione nunca tivera sono pesado, pelo contrário, a sua rotina era bem determinada e o fato de ainda dormir separada de Fleur — foi uma decisão própria, não se sentiria à vontade dormindo junto dela logo após assumirem algo para a família — somente contribuía para a leveza de seu descanso. A morena despertou, piscou os olhos para acostumá-los à claridade e, enfim, abriu uma fresta nas cortinas da janela que dava para o jardim.

Três vans de emissoras de TV parisienses estavam dispersas na área de trânsito do jardim. Os repórteres estavam sendo contidos por quatro seguranças e, mesmo assim, faziam barulho. Provavelmente, a notícia da prisão de Othon Delacour vazara e se alastrara, naquele momento de bagunça, Hermione teve uma bela noção de como a Família Delacour era influente em Paris.

No corredor, passos em cima de saltos ritmaram de encontro ao chão. Hermione percebeu que não dormiria e, por isso, resolveu tomar um banho e realizar a sua higiene matinal, antes de descer as escadas para verificar se podia ajudar em algo. O que motivava essa atitude era, além do instinto naturalmente protetor em relação a Fleur, um sentimento de pertencer a algo. Hermione nunca se sentira em casa, junto aos seus pais e, de alguma forma, aqueles franceses complicados motivavam esse tipo de percepção dentro dela.

Afinal, fora muito bem recebida quando sequer tinha pensado em pedir para ficar.

Alguns minutos depois, Hermione estava tomada banho e desperta. A morena apanhou uma de suas calças jeans e combinou-a com uma blusa leve de lã — ainda que fizesse frio em Paris, não era comparado ao que enfrentava em Londres — seus pés estavam aquecidos e confortáveis dentro de sapatos Oxford que também ritmaram de encontro ao chão quando ela desceu as escadas.

Ao aterrissar na sala de estar, ajeitando os cabelos no processo, encontrou Raoul observando a movimentação do lado de fora, através de uma fresta nas cortinas das imensas janelas. O senhor virou-se ao escutar os sons e, com um sorriso cansado, cumprimentou:

Bonjour, mademoiselle. Espero que esses urubus não tenham lhe acordado.

— Bom dia, senhor. Não vou negar que eles tiveram uma influência no meu despertar... — Hermione respondeu gentil, abrandando a carranca que se instalara nas belas feições de Raoul. Ele fechou a fresta nas cortinas com um gesto brusco e esticou-se em uma poltrona, Hermione manteve-se em pé, nervosa e ansiosa. — De qualquer forma, meu sono é leve e eu teria acordado, ainda assim. Tem algo que eu possa fazer pelo senhor ou pelos outros?

— Você já fez muito... E não queremos que se envolva nessa podridão em que Othon despejou no nosso sobrenome. — Raoul respondeu de forma gentil, esticando a mão para o livro sobre a mesinha ao lado da poltrona. Os olhos castanhos até tentaram, mas, não conseguiram discernir o título escrito em francês.

Dentro de si, Hermione lutava contra a necessidade de dizer a Raoul que ela queria, sim, se envolver. Na realidade, ela já estava envolvida antes mesmo de toda a situação estourar. E ainda se não estivesse envolvida, não negaria em entrar numa confusão daquelas... Faria qualquer coisa por Fleur e, principalmente, pela felicidade de Fleur. E se, para vê-la sorrir de novo, tivesse que sair da sua confortável zona reservada... Hermione o faria.

Raoul se entregou às páginas amareladas do livro e os seus olhos claros se envolveram nas letras ali impressas. O silêncio na sala de estar contrastou com a bagunça que continuava do lado de fora, Hermione deu às costas ao senhor e caminhou pelo corredor, chegando à cozinha.

Nesse cômodo não havia silêncio e sim, vozes francesas vindas da TV ao lado da pia. Agnès estava dividida entre cuidar os preparativos do café-da-manhã e prestar atenção ao conteúdo do jornal matinal, ela sequer percebeu que estava acompanhada. Hermione dedicou a sua atenção à reportagem transmitida, conseguiu traduzir algumas palavras da manchete como “tragédia” (tragédie) e “família” (famille) e nem precisou se esforçar pelo resto da manchete, logo, a imagem de Othon sendo conduzido para o interior de uma delegacia. Muitos flashes iluminaram seu rosto ferido e Hermione sentiu-se orgulhosa pelos seus feitos, porém, suas mãos doeram como que em resposta.

Oh, Monsieur Othon...!— A voz aflita de Agnès foi o bastante para que Hermione desviasse os olhos da TV. A governanta e cozinheira, finalmente, percebeu que não estava sozinha na cozinha e, corada, observou Hermione. — Bom dia, mademoiselle Granger! Perdoe a minha falta de educação, eu estava distraída.

— Não há problema algum, Agnès... O dia mal começou e já está complicadíssimo. — Hermione respondeu educadamente, sorrindo encorajadora para a senhora que parecia prestes a derreter de vergonha. Agnès agitou a cabeça e as mãos pronunciando palavras rápidas em francês. Era visível que ela estava bem mexida com o que vira e a morena cogitou que, provavelmente, ela não soubesse quem era Othon na verdade.

Na realidade, poucos sabiam quem era Othon Delacour e, por isso, essa prisão chocava.

Agnès retirou a chaleira do fogo e mexeu em uma panela que continha ovos cozidos, também verificou algo que preparava no fogão e ao abrir essa porta, um delicioso cheiro de pães assados ocupou toda a cozinha. Hermione realmente não pensava em comida, naquele momento, mas, o cheiro fez o seu paladar se atiçar e, principalmente, fez a sua boca encher de água. Os olhos castanhos demoraram-se na cesta de pães recém-saídos do forno que pousavam sobre o balcão e Agnès, sempre atenta, perguntou gentil:

— Gostaria de se adiantar e comer algo?

Hermione estava prestes a responder quando mais sons de passos chegaram aos seus ouvidos, estes vinham acompanhados de trocas de palavras rápidas em francês. Em algum momento entre a sala de estar e a cozinha, um dos pares de passos se distanciou e, quem chegou à cozinha foi Apoline Delacour. A senhora ajeitou a postura e respirou fundo antes de cumprimentar Hermione:

— Bom dia, mademoiselle. Peço perdão pelos trogloditas que aterrissaram em nosso quintal.

Com o fim de sua fala, os sons de motores sendo ligados e de pneus triturando o cascalho foram ouvidos. Também houve uma significativa diminuição nos sons de vozes do lado de fora e Hermione percebeu o sorriso satisfeito de Apoline. A morena engoliu em seco e respondeu acanhada:

— Não foi nada, senhora... Estou acostumada a acordar cedo.

— Ah, que ótimo! Assim, você pode se juntar a nós no café enquanto Fleur, Gabrielle e Lorena acordam. Acho que nunca tivemos uma companhia jovem à mesa tão cedo. — Apoline disse animada, estendo a mão para Hermione que, desconfiada, aceitou.

A morena sentiu-se puxada pelo corredor e logo estava na sala de jantar, diante de uma bela mesa de café-da-manhã e sendo atentamente observada por Éponine — que se sentava na ponta da mesa — enquanto Raoul lia o jornal. Apoline rapidamente foi até o lado do marido e Hermione procurou sentar-se em frente a eles, deixando que um lugar a separasse da matriarca. Contudo, Éponine arqueou a sobrancelha para o seu comportamento e, tomando um gole de seu café, disse:

— Achei que, depois daquilo que conversamos ontem, eu pudesse considerá-la da família, mademoiselle.

O rubor tingiu as bochechas de Hermione e a morena se viu praticamente correndo para obedecer à senhora. Éponine sorriu discretamente para a xícara e Apoline também sorriu orgulhosa, apertando a mão de Raoul sobre a mesa. Os três mais velhos olharam agradecidos para Hermione e a britânica não sabia, exatamente, pelo que.

Contudo, teve uma ideia quando passos e risadas interromperam o silêncio confortável instalado entre eles. Lorena e Gabrielle entraram na sala de jantar, cumprimentando os pais — e tios — com beijos e abraçando a matriarca com carinho. Por último, Fleur entrou. A chef tinha um sorriso grandioso nos lábios e os olhos azuis estavam brilhantes, por um breve momento, ela encontrou Hermione e o seu sorriso assumiu o ar apaixonado antes de ela cumprimentar os pais e a avó. Fleur sentou-se ao lado de Hermione, a morena abaixou os olhos para o seu prato e xícara vazios, sentindo o rubor esquentar o seu pescoço.

Hermione estava sentindo-se uma idiota apaixonada, assim como também sentia os olhares atentos dos Delacour a sua interação com Fleur.

Bonjour, mon amour... Dormiu bem? — A voz aveludada de Fleur chegou aos ouvidos de Hermione, deslizando preguiçosamente por sua audição até, enfim, atingir o seu peito. O coração bateu acelerado e ela não conseguiu mais resistir à ânsia de olhar para a francesa. Tão próxima a ela, sentiu o cheiro de lavanda assim como, surpresa, sentiu os lábios dela sobre os seus. Hermione retribuiu o beijo, afoita, os olhos castanhos abertos pelo choque de ser beijada em público novamente. Fleur riu de encontro aos seus lábios e beijou-a mais uma vez antes de afastar aos suspiros. — Sinto muito por não termos crepes hoje, mas, temos chá feito especialmente para você.

— Vocês conseguem ser estupidamente melosas juntas. — Gabrielle grunhiu enojada antes de apanhar um pequeno baguete e cortá-lo em fatias, as tartines, cobrindo-as com mel. Apoline lançou um olhar indignado para a caçula, Raoul riu junto a Éponine e Lorena, com uma expressão de divertimento no rosto, retrucou brincalhona:

— Nem ouse falar de melosidade, você e aquele búlgaro são ainda piores.

— E nem vamos começar a falar de você e Phillipe... Do que você o chama? Mon prince? — Gabrielle tinha a voz dengosa e um biquinho jocoso nos lábios ao responder, provocando ainda mais risos na família, inclusive, da própria Lorena. Hermione dividia-se entre o riso e a timidez, sentindo-se estranhamente pertencente àquela família mesmo que os conhecesse há tão pouco tempo.

Ao seu lado, Fleur ria abertamente, leve como Hermione nunca a vira. A felicidade e a alegria verdadeiras fortaleciam os traços naturalmente belos da francesa, desanuviando os seus olhos cerúleos e relaxando as suas feições e atitudes. A mão direita de Fleur procurou e encontrou a sua, envolvendo-a. Hermione resolveu nutrir-se daquilo que fazia Fleur sorrir para se afastar de toda a timidez que começava a se tornar insustentável, ela aproximou as mãos enlaçadas de seus lábios, beijando a pele do dorso de Fleur, delicadamente.

A francesa mastigava um pedaço queijo e sorriu deliciada com o carinho, em seguida, cortou outro pedaço, levando-o à boca de Hermione. A morena o apanhou obediente, entre os dentes e, enquanto os demais se serviam, Fleur sussurrou próxima:

— O que faremos hoje?

— Honestamente, essa é uma das poucas vezes em que eu não sei a resposta de uma pergunta. — Hermione respondeu de forma sincera, deliciando-se com o forte sabor do queijo e servindo-se de chá do bule que Lorena lhe entregara. Fleur riu roucamente para a sua resposta e beijou a bochecha morena, antes de bater nas mãos de Gabrielle que deslizavam perigosamente de encontro à cesta de pães mais próxima de si.

As duas irmãs brigaram avidamente por um pain au chococolat — um pãozinho recheado com algumas barras de chocolate — e o confronto resultou com uma Fleur sorrindo vitoriosa com o pãozinho em mãos e uma Gabrielle emburrada, de braços cruzados. Apoline agitou a cabeça em negativa para o comportamento das filhas e comentou severa:

— Os anos passam e vocês duas não aprendem a dividir.

Maman, eu divido muitas coisas de bom grado em minha vida. Mas, Hermione e o pain au chococolat da Agnès não estão inclusos nesse pacote. — Fleur respondeu soberba, olhando de forma sedutora para Hermione antes de morder o pãozinho. A morena estava tão atenta aos lábios da francesa que conseguiu perceber o chocolate derretido tingindo os lábios rosados, Hermione suspirou desejosa e riu de si mesma.

Estava perdida, mesmo.

As risadas tomaram à mesa e, dessa vez, Hermione não se sentiu envergonhada e, muito menos, ruborizou. Ao lado de Fleur, ela sentia-se pateticamente invencível e isso a fazia rir, por mais idiota que parecesse. Tampouco a assustava, podia ter usado a razão para regrar a maior parte de sua vida... Mas, não se arrependia por ter dado voz à emoção para lidar com aquela francesa maravilhosa sentada ao seu lado.

Alguns segundos depois, o último Delacour finalmente chegou à mesa. Phillipe tinha os cabelos arrepiados e olheiras embaixo dos olhos, contudo, a expressão de felicidade em seu rosto não deixava espaço para o cansaço que ele, provavelmente, sentia.

Ele cumprimentou todos os presentes e sentou-se ao lado de Lorena, trocando um delicado beijo com ela antes de servir-se de café. Éponine que, até então, degustava o seu ovo cozido com languettes — fatias de pão cortadas com quantidades generosas de manteiga — descansou os talheres e a xícara de café forte. Mesmo que os demais ainda estivessem degustando o café-da-manhã, as atenções estavam destinadas à matriarca através de olhares de lado ou simples cessares nas mastigações. Éponine pigarreou para fortalecer a voz e disse calmamente:

— Acho que nenhum de nós deve dar às caras à imprensa, pelo menos, até que toda essa confusão com Othon se acalme e até que os nossos advogados terminem com as acusações contra ele. Por isso, eu quero propor algo a todos vocês.

— Com todo o respeito, mère, eu espero que esteja falando de uma festa. Nós bem que precisamos de uma depois do inferno que passamos com aquele moleque. — Raoul comentou brincalhão e piscando para Éponine, a senhora riu do genro e gesticulou afirmativamente para ele. Apoline também ria da interação, já Hermione observava os três mais velhos tão extrovertidos que sequer se lembrava das impressões negativas que tivera deles ao chegar em Paris.

Éponine juntou as mãos e apoiou os cotovelos na mesa, o sorriso apenas engrandeceu em seus lábios rachados e abrilhantou os seus olhos cerúleos, não lembrava, em nada, a senhora de exigente e de expressão fechada que recepcionara Hermione. Naquele momento, Éponine Delacour se assemelhava mais a uma vovó carinhosa do que a uma matriarca poderosa. O seu olhar cerúleo e sábio passou por todos os membros da família e, por fim, ela respirou fundo para anunciar animada:

— Não teremos uma festa, mas, tiraremos férias... Quero que todos me acompanhem para um final de semana em nossa propriedade em Feucherolles, acho que os ânimos estarão mais calmos na segunda-feira depois de uma estadia no campo!

Hermione não sabia o que aquilo significava, quer dizer, compreendera muito bem a parte de que uma viagem seria realizada, mas, não tinha conhecimento algum a respeito de uma nova propriedade dos Delacour e nem de quantos quilômetros seriam percorridos para se chegar lá. Aparentemente, Fleur era muito mais rica do que imaginava.

— Feucherolles, grand-mère? Sem qualquer planejamento? — Fleur perguntou tímida com a voz tentando disfarçar o tom alarmado, a francesa segurava a mão de Hermione sobre a mesa, apertando-a em busca de um alívio na tensão que se instalara em seu corpo. A morena assustou-se com a reação da chef, mas, manteve-se calada, tentando manifestar o seu apoio mantendo-se firme e forte, segurando-lhe a mão. Éponine apenas acenou afirmativamente com a cabeça e esperou por uma explicação, Fleur engoliu em seco e encolheu os ombros, nervosa. — Pardon, mas... Eu e Hermione precisamos voltar à Inglaterra.

— Vocês ainda não compraram as passagens... E podem comprar pela internet, caso viajemos. Uma semana na França não fará mal a vocês. — Phillipe sugeriu prestativo, a animação brilhava em seus olhos azuis. Era a primeira vez, depois de anos, que viajariam juntos e ele ansiava por aquele tipo de reunião. Sem mencionar que toda aquela provável viagem significava um recomeço sem Othon e todos os seus crimes contra a família. Fleur não se deixou convencer, por mais seduzida que estivesse. Ela tinha que respeitar a opinião de Hermione e sabia que a morena precisava voltar ao seu trabalho, contudo a família esperava ansiosa por sua resposta e ela não sabia qual poderia dar.

Hermione sabia que aquele era mais um daqueles momentos em que precisava reafirmar o que sentia por Fleur, não porque ela não sabia e sim, porque era necessário. A britânica sabia que a família francesa a acolhera e, mesmo que estivesse ansiosa para voltar a Inglaterra — e, consequentemente, a ficar sozinha com Fleur — sentia que precisava ficar, fosse para comemorar ou para firmar relações, Hermione sentia que a França tinha mais a lhe oferecer naquela semana. Sem mencionar que a curiosidade também falava alto e ela queria conhecer mais dos Delacour.

— Fleur... — A morena sussurrou e Fleur, distraída por suas dúvidas e seus pensamentos, não percebeu. Portanto, as mãos entrelaçadas se apertaram uma contra a outra e a chef, finalmente, virou-se para Hermione que lhe sorriu, compreensiva. — Nós podemos ir, não é como se tivéssemos algo importante nos esperando na Inglaterra.

— Mas, e o seu trabalho...? E o La Petite Mort...?! — Fleur balbuciava repleta de insegurança, mais uma vez, colocando-se em segundo plano para que os outros pudessem se satisfazer com as situações em que estava envolvida. Hermione admirava aquela atitude, era um tipo de generosidade que achava não possuir, todavia, ela aprendera a ler o que os pequenos sinais corporais de Fleur e, principalmente, a morena compreendia muito do que os olhos cerúleos não conseguiam esconder.

E, naquele café-da-manhã, enquanto toda a família esperava por uma resposta delas, tudo o que aqueles olhos queriam dizer era o sim. Hermione sentia a excitação de Fleur com aquela possível viagem e ainda que não sentisse nada, sabia que Fleur precisava de mais tempo com família... Anos não podiam ser recompensados com alguns dias. Era preciso mais. Os Delacour e Fleur mereciam isso.

Diante de todas essas observações e sentimentos, Hermione desviou os olhos de Fleur, entregando-lhe um sorriso seguro e decidido. A morena virou-se para a mesa e encarou Éponine, a matriarca arqueou a sobrancelha prateada direita para a morena e Hermione, de bom grado, respondeu educadamente:

— Eu adoraria que Fleur me apresentasse a mais uma parte da França.

— Que bom que você possui mais nervos e juízos do que a minha neta, mademoiselle Granger! — Éponine respondeu severa, a satisfação eletrificando os seus olhos azuis e o sorriso desenhado em seus lábios rachados e rugas. Hermione retribuiu o sorriso enquanto todos comemoravam a sua forma, o castanho procurou o cerúleo e o encontrou resignado e surpreso ao seu lado. Fleur sorriu e inclinou a cabeça, mais uma vez, as palavras lhe faltavam e as atitudes não pareciam corresponder ao que Hermione fazia e entregava a ela.

A francesa poderia pensar isso, contudo, a morena entendia tudo de outra forma. Hermione amava enxergar a surpresa e a falta de jeito nos olhos daquela mulher que, em outro momento, somente tinha melancolia e agressividade. Era um progresso e, essencialmente, um resultado. Um resultado que evidenciava a participação de Hermione em toda aquela equação... E ela não podia se sentir menos do que extasiada por ser o motivo e a razão daquele sorriso sem jeito. Sentia-se bem ao ver Fleur verdadeiramente feliz e o seu sorriso se igualava ao dela em momentos como aquele.

Hermione não tinha uma família carinhosa, tampouco, uma riqueza esperando por elas em Londres... Mas, tinha tempo, devoção e amor a serem entregues. Mais do que isso, a morena se entregava por inteiro e Fleur a recebia de bom grado porque, para si, era muito mais do que merecia.

As duas imersas ficaram em sua lógica que buscava a compreensão do que sentiam e assim ficariam se, novamente, Éponine não tivesse chamado a atenção para si. A senhora limpou a boca em um guardanapo de pano e se levantou enérgica, ainda que com dificuldade, antes de alcançar a bengala ao lado da cadeira, ela se virou à família e anunciou imperativa:

— Ótimo, quero todos prontos após o almoço! Quero estar em Feucherolles no final da tarde!

Mais sorrisos, mais exclamações de alegria e, para Hermione, principalmente, mais um sorriso que chegou aos olhos de Fleur. O coração da morena se acelerou e ela percebeu que tudo que sentia estava sendo bombeado para o resto do seu corpo. Motivada por essa sensação, ela roubou um beijo de Fleur e a francesa riu de encontro aos seus lábios.

E Hermione chegou à conclusão de que aquele som e aquele toque eram as melhores coisas que poderia sentir dentre tudo o que experimentara e o que poderia experimentar na vida.

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Os olhos cerúleos tentavam apreender o máximo que podiam da bucólica paisagem francesa, os orbes estavam brilhantes pela excitação e, nem mesmo ela era capaz de disfarçar a saudade que, por vez ou outra, tornava opaco o olhar tão melancólico. Fleur vivia na Inglaterra, amava pessoas que lá residiam, mas, isso não conseguia aplacar a saudade que sentia de sua própria terra.

Nos anos em que acreditou na ausência de explicações de Othon e em que se afastou da família, ela até tentou odiar a França, mas, foi em vão... Fleur sentia falta dos gramados que permaneciam corajosamente verdes, mesmo na iminência do inverno, também sentia falta do aroma do campo e da distância da civilização assim como também sentia saudades da boemia parisiense e da culinária francesa... A França, com todas as suas paisagens e climas, estava nela assim como a Inglaterra fizera casa em seu peito em todos aqueles anos vividos na terra chuvosa e nublada.

Não havia como negar o seu carinho e o seu agradecimento às duas nações, assim como não havia como disfarçar que era — e sempre seria — dividida entre dois países tão diferentes e que a acolheram da mesma forma. Fleur orgulhara-se de ser uma francesa nata, apaixonada pelos vinhos do país e pela culinária, falante a respeito do amor e da paixão, naturalmente apreciadora da boemia, dos livros e da música do país... Contudo, tampouco, poderia deixar de assumir, orgulhosamente, que aprendera a apreciar a reserva dos ingleses, o seu clima nublado e chuvoso, a convivência de múltiplas etnias em Londres, o rock britânico e, principalmente, as pessoas que acolheram quando o lar lhe deu às costas.

E uma dessas pessoas ressoava tranquilamente, abrigada na curva de seu pescoço. Fleur sentia-se arrepiar em cada expiração de Hermione que encontrava a sua pele, não deixava de sorrir diante daquela sensação tão natural e visceral diante da simples existência adormecida de quem amava. Pequenas respostas de seu corpo, como aquela, davam imensas certezas ao coração da francesa. Fleur sorria para esses sentimentos, embriagada pelo amor descrito em diversas mídias francesas, motivado unicamente pela existência de uma britânica que, mesmo reservada e contida, lhe entregava tudo que precisava.

Esse sorriso não passou despercebido pelos olhares atentos de Phillipe e Lorena que estavam sentados nos bancos da frente do pequeno utilitário. Ele dirigia e ela falhava miseravelmente ao tentar parecer discreta em suas observações, Fleur revirou os olhos para os primos e, ainda sorrindo, perguntou:

— Perderam algo por aqui?

— Não, mas, não podemos deixar de notar que você recuperou muitas coisas desde que chegou aqui, acompanhada por ela. — Lorena respondeu sabiamente e deixando-se levar pelo sorriso caloroso em seus lábios, era evidente que ela estava muito feliz pela prima. Phillipe acenou, concordando com a amada e completou gentil:

— Não nos leve a mal, só estamos felizes por você... Não a víamos há muito tempo e eu, especialmente, não me lembrava de vê-la sorrir dessa forma.

Aquele era mais um momento em que Phillipe e Fleur dividiam o que somente eles tinham vivido nas mãos de Othon, nas demais vezes, essa divisão os magoava só que, agora, diante de todas as resoluções possíveis para aquele passado que seria esquecido, eles trocaram olhares de compreensão e, principalmente, de alívio.

Fleur ajeitou Hermione de encontro a si, circulando o corpo menor da morena com o seu braço esquerdo e afagando as partes dela que conseguiu alcançar. Hermione, ainda entregue ao sono e ao cansaço, aconchegou-se em seus braços, afundando-se ainda mais em seu pescoço. Mais uma vez, os arrepios em sua pele clara fizeram Fleur sorrir, ela beijou o topo da cabeça morena e respondeu realizada:

— Eu imagino como deve ter sido estranho, para todos vocês, me receberem de volta com ela... Mas, não teria acontecido de outra forma. Eu não teria voltado a França, para resolver o meu passado, se não a tivesse do meu lado.

Lorena piscou para a prima através do retrovisor central do carro e Fleur corou diante do olhar dela, Phillipe riu roucamente e acenou afirmativamente com a cabeça, ele sabia o que ela sentia e esse sentimento — tão parecido e intenso — o fez abandonar o câmbio de marcha do carro e segurar a mão de Lorena, apertando-a. Ela sorriu para ele e ele voltou-se para a estrada, olhando para o SUV que levava os outros Delacour.

Alguns quilômetros à frente, os primeiros contornos da pequena cidade de Feucherolles começavam a se desenhar no horizonte. Fleur sorriu nostálgica diante das lembranças que começavam a se desenhar em sua memória.

As idas à propriedade rural dos Delacour sempre eram repletas de descobertas e de aventuras. Antes mesmo de se aventurar nas cozinhas dos muitos restaurantes que compartilhavam a marca da Cuisine Delacour, Fleur se apaixonou pela culinária ainda na modesta cozinha da pequena propriedade. Ali, Éponine descobriu o talento da neta e Fleur viu a avó crescer em seus olhos, tornando-se uma mestra além de uma grand-mére carinhosa. Naquele refúgio distante de Paris, Fleur encontrou muita coisa que sequer imaginava existir.

Feucherolles era importante e retornar para ela, com Hermione, era especial. Mais uma vez, Fleur entregava mais um pedaço de si, um dos muitos que a compunham e tornavam-na apaixonante.

Cerca de quinze ou vinte minutos depois, os Delacour e Hermione finalmente chegaram a Feucherolles. A cidade preparava-se para voltar à rotina após o almoço, existia movimento na rua, mesmo tratando-se de um final de semana em uma cidade com pouco menos de 4 mil habitantes. Os ares campestres estavam evidentes nas ruas de calçadas e construções simples, na ausência de prédios e construções elaboradas e na Igreja de St. Genevieve que era o centro de toda cidadezinha.

O ar ali parecia mais puro, mais leve, sem toda a atribulação e correria parisiense. E, depois de tudo que tinha se passado nos últimos dias, tudo que Fleur e todos os demais queriam era justamente essa tranqüilidade que a pequena cidade passava.

O SUV que seguiam parou na rua principal, ladeada de flores e logo atraiu a atenção de muitos que circulavam pelas calçadas. Raoul desceu do carro, ele sorria, mas, ainda assim, Phillipe franziu a expressão para a atitude do tio. Fleur ajeitou-se no banco, inquieta, suspeitando que, talvez, todos os problemas de Paris tivessem os seguido até ali. O seu movimento acordou Hermione que, ainda desorientada pelo sono, olhou através da janela.

Phillipe abaixou o vidro do utilitário e o tio, ainda sorridente e despreocupado, apoiou-se na lataria do carro. Os olhos claros procuraram a filha e sorriram ao vê-la tão protetora junto a Hermione, Raoul olhou ao seu redor e disse tranqüilo:

— Minha amada sogra está desesperada para chegar à propriedade, segundo ela, os funcionários não são os melhores e ela teme que não encontremos a casa do jeito que foi solicitado... Por isso, ela pediu que fôssemos em frente com Gabrielle e que vocês se encarregassem de comprar algumas provisões para a nossa estada por lá.

Raoul entregou um papel para Phillipe e ele rapidamente passou para Lorena que correu os olhos pelo papel antes de se esticar para trás, entregando-o para Fleur. A chef analisou a lista, sorrindo para as exigências da avó e perguntou curiosa ao pai:

— A mercearia dos Moreau ainda está aberta?

— Sim, inclusive, Éponine os mandou ir lá e somente lá. — Raoul orientou aos risos, antes de acenar aos ocupantes do utilitário e voltar ao SUV. Fleur viu Gabrielle fazer uma careta desesperada por estar só com os “adultos” e tanto ela, como Lorena, não contiveram o riso. Enquanto Phillipe desligava o carro, os mais jovens viram Gabrielle pedir, silenciosamente e dramaticamente, por socorro.

As risadas os acompanharam até quando os quatro, enfim, saíram do carro. Fleur, involuntariamente, alcançou o pulso de Hermione, entrelaçando os dedos de sua mão aos dela. A morena, dividida entre o despertar e o sono, ronronou e, com um sorriso preguiçoso, disse:

— Vai me mostrar mais um pouquinho de você?

— Mostrarei tudo que quiser ver, chérie... — Fleur respondeu charmosa, arrancando um rubor envergonhado das bochechas de Hermione. A francesa riu roucamente, o ar puro campestre renovou os seus pulmões e ela beijou a face morena antes de guiar Hermione pelas calçadas simples ladeadas de flores.

Algumas cabeças viraram na direção delas, mas, elas não enxergaram e nem sentiram muita coisa além daquilo que vinha da outra. Fleur sentia que atingira um patamar em que tudo que importava era unicamente aquilo que tinha em suas mãos e próximo ao seu coração. Hermione era sua, fosse em Feucherolles, Paris, Londres ou Ottery St. Catchpole. E permaneceria sua, pelo tempo que fosse...

Hermione leu as letras que formavam o letreiro Moreau Épicerie e, em seguida, os seus olhos observaram o movimento no interior do estabelecimento. Estava agitado, mesmo para uma cidade tão interiorana e a morena não demorou muito a perceber que aquela era a melhor mercearia de Feucherolles.

Belas frutas eram exibidas do lado de fora, assim como belos vegetais. As folhas e cascas possuíam gotículas de água em suas superfícies, recentemente lavadas para serem postar em exposição. Pelos vitrais, era possível enxergar os imensos sacos contendo grãos, também podiam se enxergar imensas peças de queijos dos mais variados tipos, assim como produtos enlatados e encaixotados. Era tudo muito simples, distribuído em prateleiras de madeira e dispostos em toalhas brancas e bem limpas. Contudo, parecia ser o essencial.

Hermione era uma pessoa minimalista, geralmente, o pouco lhe fazia feliz e, por isso, sentiu certo conforto no local. Aquele era um local que poderia atender perfeitamente as suas simples exigências.

— Creio que a cerveja da lista é para agradar Hermione. — A voz risonha de Phillipe chegou aos ouvidos da morena e ela virou-se para ele, o rapaz sorria amigavelmente com Lorena ao seu lado. Fleur também rira antes de entrar no estabelecimento, ela entrara enquanto Hermione ficou do lado de fora, com o casal Delacour, dedicando-se a apanhar todas as frutas, legumes e vegetais que Éponine exigira e que não eram produzidos na propriedade. — Você já conquistou a parte mais difícil da família, coisa que poucos conseguiram... Oncle Raoul sofre até hoje com grand-mère, deveria dar algumas dicas a ele.

A britânica riu junto a Philippe e Lorena agitou a cabeça para o comportamento dos dois. Os três apanharam algumas folhas e vegetais, as frutas foram deixadas de lado porque, aparentemente, a propriedade dos Delacour possuía uma variedade relativamente grande em seu pomar. Lorena os guiou para dentro e Phillipe caminhou diretamente para os refrigeradores em que as bebidas estavam armazenadas, ele observou as marcas de bebidas e perguntou:

— Tem alguma preferência?

— Acho que vou precisar de porcentagens relativamente altas de álcool em minhas cervejas nesse final de semana. — Hermione respondeu insegura e nervosa, o sorriso amarelo em seus lábios provocou risos em Phillipe e Lorena, que estava próxima apanhando alguns grãos, sussurrou prestativa:

— Hermione, a pior parte já passou. O máximo que pode acontecer, a partir de agora, é Gabrielle fazer algum comentário absurdo ou grand-mère envergonhá-las na frente de toda família ao investigar a vida sexual de vocês. Ela fez isso comigo e com Phillipe.

— Sim e, deixando todo o embaraço de lado, foi bastante engraçado. — Phillipe completou nostálgico, o sorriso apaixonado em seus lábios era refletido pelo olhar acinzentado e brilhante de Lorena. Eles não conseguiam ficar distantes um do outro e Phillipe já circundava a cintura de Lorena com uma das mãos enquanto a outra segurava um engradado de garrafas de cerveja. Algumas pessoas passaram e esbarraram no trio, mas, nada os retirava da felicidade amena que os circundava. — Grand-mère bancou a Hitler ao nos dizer que a herança Delacour ficaria pura, graças a nós dois... Eu me pergunto o que ela vai dizer a você e Fleur.

— Os netos serão o primeiro pedido e garanto que ela vai querer saciar a curiosidade que possui a respeito da vida íntima de vocês... Lembre-se: Éponine Delacour não tem filtro algum. — Lorena aconselhou com um tom assustado, provavelmente, lembrando-se de tudo que passara nas mãos da avó. Hermione corou diante da possibilidade de ser submetida a um interrogatório a respeito de sua vida com Fleur dentro de um quarto, começava a suspeitar que, talvez, preferisse bater em Othon mais uma vez a responder aquele tipo de pergunta.

Com as cervejas asseguradas e menos um item da lista, os três se viraram para encontrar Fleur. Porém, encontraram a chef acompanhada de um rapaz moreno, de olhos escuros voluptuosos e barba por fazer, muito bonito e charmoso. Hermione fechou os punhos ao lado do corpo, o ciúme lentamente se fazer presente em toda a sua postura tensa. O rapaz tinha um avental branco preso à cintura, segurava uma peça de queijo enrolada em papel enquanto sorria descaradamente para Fleur.

Phillipe e Lorena trocaram um olhar risonho ao observarem Hermione tentando conter a fúria silenciosa que se instalara em seus olhos castanhos. Em momentos como aquele, a britânica sentia-se pequena diante de tudo que Fleur representava, confiava na francesa, contudo, era complicado vê-la atrair olhares e, principalmente, pessoas como acontecia naquele momento.

Mesmo sabendo que, no final do dia, Fleur estaria em seus braços, Hermione não podia deixar de sentir o ciúme amargar a doçura que Fleur trouxera a sua vida. Em situações como essa, a morena apenas compreendia que o que tinha com Fleur estava a algumas palavras e gestos de, talvez, acabar.

Fleur a escolhera e a afirmara, ainda assim, Hermione temia perdê-la porque a amava o bastante para sentir isso.

Instintivamente, Hermione marchou na direção dos dois. A sua mão formigava, lembrando o toque tão carinhoso de Fleur ao guiá-la até aquela mercearia. Os seus lábios estavam secos, sedento pela umidade sedutora que habitava os lábios franceses. E o seu coração batia acelerado, ensurdecendo qualquer razão que pudesse ser usada para lidar com aquela situação. Diante daquele rapaz, tão próximo a mulher que amava, Hermione só conseguia escutar o seu ciúme esbravejando para que retomasse Fleur somente para si.

A britânica parou ao lado de Fleur e esta, imediatamente, percebeu. O magnetismo entre elas era, provavelmente, mais forte do que o ciúme e a insegurança e, essencialmente, provava que não podia haver espaço para essas duas pequenas porções em algo que era absolutamente grande. Fleur lhe sorriu, o rapaz olhou para as duas sem entender e a francesa, circundando a cintura de Hermione com seu braço, apresentou-os:

— Pierre, essa é Hermione...

Oui, prazer, mademoiselle. Sou Pierre Moreau, um dos filhos do fundador dessa mercearia. Eu e Fleur costumávamos brincar nos verões em que ela passava por aqui com a família. — Pierre era um rapaz educado e cavalheiro, além de charmoso. De perto, não havia muito que não gostar nele. Hermione, ainda assim, não conteve o muxoxo impaciente e Fleur observou-a, de sobrancelha arqueada e com um discreto sorriso no canto dos lábios. A morena respirou fundo, ignorando o olhar de Fleur que parecia queimar em sua pele e respondeu educadamente fria:

— Prazer, sou Hermione Granger, sou inglesa... O seu empreendimento é bastante agradável.

— A mercearia é mais do meu pai do que minha ou dos meus irmãos, mas, merci! — Pierre respondeu gentilmente, lançando um olhar repleto de intenções para Fleur que o retribuiu, ainda que estivesse fazendo tudo por educação, a francesa até mesmo chegou a sorrir para ele e Hermione revirou os olhos, não tinha estômago para aquele tipo de cortesia. Os lábios da morena se crisparam e ela se manteve em silêncio, Fleur resolveu tomar a conversa para si e disse:

— Hermione é advogada e está me acompanhando nesse retorno a França, eu me encarreguei de mostrar a ela as melhores partes do nosso país.

— Advogada? Acredito que se dará muito bem com o meu irmão... Louis! — Com o máximo de polidez que lhe era permitido, Pierre chamou pelo irmão e este apareceu dos fundos, limpando as mãos no avental.

Louis era, praticamente, uma caricatura mais jovem do irmão. Tinha os mesmos olhos e cabelos escuros, mas, não usava barba. Louis abriu um sorriso imediato ao ver Fleur e Hermione, ele avaliou as duas e os seus olhos se demoraram em Hermione. A morena observou, pelo canto dos olhos, a eletricidade tomar conta dos olhos cerúleos de Fleur.

Não era a única que estava com ciúmes, afinal.

Hermione abriu um sorriso — muito educado e extremamente endiabrado — e cumprimentou o recém-chegado com um aceno na cabeça. Fleur a estudava analiticamente e sequer escutou quando Pierre, animado pelo que pensava ser um encaixe entre os quatro, sugeriu:

— Se as senhoritas esperarem mais alguns minutos, o movimento diminuirá e poderemos atendê-la individualmente.

— Ah, não se preocupe, acredito que temos tudo que viemos buscar, Pierre. — Fleur respondeu com uma polidez fria e um sorriso sem graça, olhando atentamente para as mercadorias separadas a sua frente, checando se não precisava de mais nada na lista de Éponine.

Hermione, por sua vez, estava acostumada àqueles jogos de ciúme e manipulação. Infelizmente, a sua relação com Astoria lhe dera a habilidade necessária para situações como aquela, por isso, a morena depositou o engradado de cerveja que carregava no balcão de madeira e sequer precisou delinear a sua próxima atitude. Louis foi mais rápido e franzindo as sobrancelhas para o que via, sugeriu galanteador:

— Cerveja, mademoiselle? Não posso permitir que venha a França e ocupe-se em beber esse tipo de coisa, posso lhe mostrar todos os segredos de um bom vinho francês em qualquer noite que esteja disponível e...!

— Eu já estou me encarregando disso, aliás, estou me encarregando de muitas coisas relacionadas a ela, merci. — Fleur interrompeu Louis e, dessa vez, ela não se preocupou em parecer educada, mas, sim, possessiva e, de certa forma, autoritária. Hermione abaixou a cabeça antes de, novamente, erguê-la para olhar Fleur. A francesa a observava, irritadiça, contudo, tudo passou quando viu que a morena ria. Fleur abrandou a expressão e o aperto na cintura de Hermione se tornou mais firme, um sorriso orgulhoso se desenhou nos lábios cheios e Hermione respirou fundo, o aroma de lavanda invadindo e entorpecendo os seus sentidos. Fleur olhava para ela e havia divertimento naqueles olhos claros, além de amor. — Na verdade, acho que temos tudo... Não temos, mon amour?

Hermione não teve como presenciar as expressões chocadas nos rostos dos irmãos Moreau porque estava muito ocupada sentindo os lábios de Fleur depositarem todo o néctar que a mantinha presa naquele universo que apenas elas compartilhavam. Naquele mundo de respirações entrecortadas, mordidas carinhosas, umidade e ofegares, não havia espaço para Louis, Pierre ou qualquer outra pessoa... Elas se faziam suficientes uma para outra e, principalmente, saciavam-se.

Deliciando-se dos lábios de Fleur, Hermione sequer percebia que a mercearia se esvaziara como os irmãos Moreau previram. Também não notava que Pierre e Louis carregavam tudo o que escolheram para o utilitário, sendo devidamente acompanhados por Phillipe e Lorena que sufocavam gargalhadas.

O mundo ao redor delas continuava, mas, elas somente enxergavam uma a outra.

Quando o oxigênio faltou, elas se separaram com sorrisos idênticos nos lábios inchados. Os olhos cerúleos de Fleur permaneciam elétricos e a sobrancelha arqueada evidenciava que, mesmo depois daquele beijo, a francesa ainda estava entorpecida pelo ciúme. Ela apertou os dedos na pele da cintura de Hermione antes de se virar, Pierre voltara ao balcão e mantinha os olhos baixos enquanto calculava o valor da compra. Ao terminar, ele anunciou sério e profissional:

— São 89 euros, mademoiselle.

— Fique com o troco. — Fleur respondeu maldosa, depositando uma nota de cem euros no balcão e, praticamente, arrastando Hermione para fora da Moreau Épicerie. Às costas do casal, os irmãos Moreau as fuzilavam com os olhos e elas riam.

Ao chegarem ao carro, Fleur abriu a porta para Hermione e antes que a morena pudesse entrar, segurou-a pelo braço. As duas se olharam, a eletricidade se dissipara dos olhos cerúleos e, naquele olhar, pareciam com o céu azul que se estendia acima delas, mesmo naquele clima ameno — e quase frio — do campo. Hermione arqueou a sobrancelha para o olhar recebido, os seus olhos castanhos se assemelhavam à terra que dava vida às flores que ladeavam a rua... As duas tão destoantes como seus olhares, uma feita do terreno e a outra, do celestial. Ainda assim, elas se encontravam da mesma forma que, em algum ponto no horizonte, o céu encontrava a terra.

Fleur se aproximou, a sua expiração tocava a pele de Hermione, arrepiando-a e fazendo-a sorrir pelo calor e umidade. A francesa segurou-lhe o rosto, delicadamente e fechou os olhos. Um sorriso desenhou-se nos lábios cheios e Fleur, apaixonada, disse:

— Eu devo amar você demais para fazer esse tipo de loucura.

— Somos duas loucas. — Hermione completou, antes de avançar e roubar mais um beijo de Fleur. Phillipe buzinou para chamar a atenção das duas, elas até teriam ignorado e partido para outro beijo se não fosse Lorena, ofegante de tanto rir, dizer:

— É melhor irmos embora ou Monsieur Moreau terá que deixar a loja de herança para o filho caçula. E creio que seis anos não é uma idade propícia para herdar uma mercearia.

Fleur riu roucamente e empurrou Hermione para dentro do carro, Phillipe arrancou assim que a porta traseira se fechou, ele ria da felicidade da prima e observava, pelo retrovisor, os rubores desavergonhados de Fleur e Hermione. Os seus olhos azuis e esverdeados só se desviaram quando ele decidiu, também, reencontrar a felicidade que via nos olhos da prima.

E ela estava, exatamente, ao seu lado. No momento, não olhava para ele e sim, também, para Fleur e Hermione. Ainda assim, Phillipe enxergou o sorriso de Lorena e sequer teve inveja de Fleur... Afinal, era tão sortudo quanto ela.

# # # # #

Depois de algumas broncas pelo atraso e muitas risadas ao contarem o que aconteceu na Moreau Épicerie, Fleur e os demais finalmente conseguiram se acomodar na varanda que contornava a casa da propriedade.

A casa era feita de pedra escura, rústica e com telhados em cor creme. Era uma construção de três andares, contando com o sótão e com oito quartos enormes, além de uma sala de estar, uma sala de jantar, cozinha e um aposento para recreação. Ali, não havia o luxo encontrado na Mansão Delacour, mas, a identidade da família estava presente na decoração rica e elegante.

Um gramado esmeralda circundava a casa e uma pequena varanda dava, justamente, para essa vista. Existiam calçadas de pedras que interrompiam o tapete de grama aqui e ali, mas, tudo era bastante simétrico e organizado. Alguns quilômetros além da casa, um pequeno lago existia e pomares podiam ser vistos da varanda, além de uma horta orgânica que se localizava a alguns metros. Animais não eram criados e, por isso, a carne era adquirida de vizinhos ou em Feucherolles.

A propriedade não era grande, mas, fornecia alguns mantimentos para o Cuisine Delacour, os outros restaurantes que se utilizavam da marca da família possuíam fornecedores próprios, mas, o restaurante principal dos Delacour se orgulhava por ter tudo originado dentro da família.

Hermione admirava aquele senso familiar e, principalmente, aquele orgulho dos Delacour diante de tudo que se disponibilizavam a fazer. Mesmo que — agora Hermione decidira — os Delacour fossem ricos, não existiam arrogância em seus comportamentos, muito menos, mesquinhez ou qualquer traço negativo. Pelo contrário, mesmo donos de tanto, eles se contentavam com poucos. A unidade familiar, o carinho e o amor eram muito mais importantes e toda a situação com Othon evidenciara quais os tipos de pessoas que formavam aquela família e, principalmente, os tipos que educaram Fleur.

A morena tinha muito orgulho de quem Fleur era e hoje entendia da onde vinha toda a força que ela mantinha intacta mesmo diante dos ataques de Molly Weasley e das lembranças desagradáveis a respeito de Othon... Fleur tinha a quem puxar.

— Mesmo que eu não queira puni-las pelo que fizeram com os pobres Moreau, eu preciso dar o exemplo. Isso foi a sua mãe quem disse, eu não. — Éponine Delacour discursou em tom irônico, arrancando risos de Fleur e Hermione. A senhora estava sentada em uma elegante cadeira de madeira escura almofadada enquanto Fleur sentava-se aos seus pés e Hermione se mantinha em pé, os olhos fixos no céu azulado que, lentamente, assumia tons mais quentes. O sol logo se poria. — Por mim, eu as aplaudiria, nunca gostei daqueles dois... Mas, Apoline prega a política da cortesia e, considerando o que fizeram de mau tom, me intimou a mandá-las fazer algo. Algo braçal, aliás.

Fleur enrugou a testa para as palavras da avó e, preguiçosa, fez menção de levantar-se. Hermione a ajudou, segurando-a pelo antebraço e puxando-a para cima, Fleur sorriu para a ajuda e beijou-lhe a bochecha ao ficar em pé. A morena podia sentir os olhos azulados da senhora sobre elas e surpreendeu-se ao visualizá-la sorrindo orgulhosa. Éponine pigarreou e disse autoritária:

— Sendo assim, vou mandá-las ao pomar. Eu realmente quero uma Tarte Tatin para o jantar que cozinharemos hoje, creio que ela descerá melhor agora que aquele imprestável do Othon não estará por perto.

Nem mesmo a menção ao nome de Othon pode prejudicar as risadas de Fleur e Hermione. Éponine riu junto delas antes de se levantar, com tremenda força e jovialidade, e empurrá-las para os degraus de pedra. O casal já dera os primeiros passos no gramado quando Éponine voltou a esbravejar:

— Que fique claro que a megera aqui é a Apoline! Eu até mesmo vou verificar o quarto de vocês para ver se está tudo nos conformes! Por isso, não voltem sem algumas dúzias de maçãs!

Fleur observou a avó entrar na casa antes de se virar para Hermione, a morena tinha as mãos nos bolsos e olhava curiosa para a varanda. A francesa retomou o caminho, com a morena em seu encalço, antes de perguntar insegura:

— Eu escutei errado ou ela se referiu ao nosso quarto?

— Se você escutou errado, eu também escutei. Tenho certeza que ouvi a mesma coisa... — Hermione respondeu pensativa, repassando o diálogo em sua cabeça apenas para ter a certeza de que escutara aquilo mesmo. Éponine realmente dera a entender que as duas passariam as noites, no campo, juntas. Não sabia como interpretar aquilo, claro que a aprovação dos Delacour era evidente, mas, não esperava tanto apoio.

E, como tudo de estranho que ocorria a Hermione Granger, ela procurou destrinchar os detalhes e as minúcias da situação. E até continuaria se não tivesse perdido o fio de seus pensamentos ao sentir o braço de Fleur em seus ombros e o corpo dela junto ao seu. Qualquer coisa que vinha de Fleur a tirava dos eixos e a colocava nas nuvens, a francesa era a sua irracionalidade e ela, de alguma forma, a fazia pensar melhor.

Tanto é que os seus pensamentos abandonaram o que pensara ter escutado de Éponine e concentraram-se no presente. Estava nos braços de Fleur, sozinha depois de algum tempo, as duas se afastavam dos outros e não havia algo que pudesse impedi-las, naquele instante. Por isso, Hermione se entregou ao aroma de lavandas e ao calor daquele corpo mais alto do que o seu. E Fleur a recebeu, apertando-a, guiando-a pelo caminho de terra e grama, rumo aos pomares e ao sol que se punha.

— Eu não acreditava que pudesse voltar aqui. — Fleur confessou com um sorriso nos lábios, beijando os cabelos de Hermione e respirando o aroma almíscar que vinha deles. A morena sorriu para os seus passos que caminhavam juntos ao da francesa, as duas estavam em sintonia sem, sequer, se preocuparem com isso. Hermione afagou a cintura de Fleur e a chef suspirou. — Tampouco, imaginava voltar acompanhada.

— Eu também não imaginava que pudesse arrumar alguém em um caso judicial. — Hermione confessou baixinho, como se contasse um segredo e, talvez, o fosse porque suas bochechas coraram e ela se viu escondendo-se no peito de Fleur e sentiu a francesa lhe envolver em um abraço desengonçado enquanto ria de suas palavras. — Ainda mais, uma cliente tão relutante.

— Você mexeu comigo desde o começo, mademoiselle Granger. — Fleur respondeu charmosa, deixando que o sotaque brincasse com as palavras em inglês e soasse extremamente sedutor aos ouvidos de Hermione. A morena respirou pesado. A proximidade sensibilizava cada aspecto de seu corpo e nublava os significados de mãos, abraços e toques.

Hermione jamais presenciara tanta necessidade e tanta ânsia, mesmo que estivesse próxima a Fleur, era como se não bastasse. Sempre queria mais, sempre precisava de mais... E não era como se Fleur fosse um vício, estava mais para uma medicação que aplacava toda a racionalidade e o marasmo de sua vida por meio de doses de paixão e amor.

Agora, a morena entendia o verdadeiro significado e as derradeiras conseqüências daquele sentimento. Diante de tanto, o que vivera com Astoria parecia ínfimo e desconexo, nada se comparava ao que sentia por Fleur. Essencialmente, porque a francesa a tirara do eixo, de sua zona de conforto e a jogara num turbilhão de adrenalina que apenas a motivava a ter mais.

Hermione nunca se imaginara corajosa, nem obstinada, tampouco, protetora... Todavia, Fleur trouxera todos esses seus aspectos à superfície, motivando-a a ser mais do que imaginara ser. Ao romper com toda a razão que a morena tentar empreender naquela relação, Fleur entregara algo muito importante que, agora, fazia parte de Hermione.

Não era possível permanecer alheia à emoção diante de algo daquela magnitude.

Os poucos metros que a separavam do pomar da propriedade Delacour foram percorridos em silêncio, apenas os passos ecoavam delicados no cascalho macerado. As suas sombras caminhavam lado a lado no solo e distorciam-se conforme os raios de sol abandonavam o céu, deixando um trajeto de tons quentes impressos na imensidão azulada. E elas caminhavam juntas, próximas o bastante para se sentirem como uma.

Fleur e Hermione chegaram ao pomar quando o sol já começava a se tornar uma esfera alaranjada no horizonte. A francesa caminhou à frente, abrindo o portãozinho de madeira que separava as frutas do resto da propriedade. Fleur o manteve aberto e Hermione o atravessou, ali, as solas de seus sapatos encontravam folhas secas e frutos que maduraram o bastante para cair. O pomar se estendia por alguns metros de leve escuridão provocada pelas copas das árvores, altas o bastante para bloquear algum tipo de luminosidade. Contudo, os raios do sol, alaranjados e vivos, atravessavam os troncos e folhas das árvores, mesclando luz e trevas, distorcendo as suas sombras e criando certa magia no que as cercava. Também havia um frescor mais proeminente no ar e a brisa que soprou entre elas trouxe certo o cheiro de decomposição mesclado à doçura das frutas que ainda estavam nas árvores.

Os olhos de Hermione estavam inquietos, tentando memorizar aquela magia bucólica em muito diferente aos prédios que a cercavam em Londres, assim como em Ottery St. Catchpole — com o seu mar, a sua tranqüilidade interiorana e o seu litoral — Feucherolles lhe entregava o melhor das coisas simples e naturais, coisas que antes não a sensibilizavam e que, agora, depositavam calmaria em sua vida antes tão atribulada.

A mesma sensibilidade que a fez contemplar o pomar com olhos brilhantes também a fez sentir o aproximar de Fleur, assim como, as mãos de dedos finos que acariciaram a sua cintura, antes de envolvê-la. A frente do corpo de Fleur encaixou-se às costas morenas e Hermione relaxou, a francesa respirou fundo em seu pescoço, arrepiando-a por completo antes de sussurrar roucamente em seu ouvido:

— O que viemos fazer aqui, mesmo?

— A sua avó pediu maçãs e mesmo nova na convivência com ela, já entendi que não é bom contrariá-la. — Hermione respondeu com um sorriso nervoso e o corpo tenso, já que todo o magnetismo e todo o desejo por Fleur se manifestavam em seu corpo. A francesa parecia interpretar cada um dos sinais que Hermione tentava, em vão, esconder e sorria satisfeita para o que provocava.

Fleur se afastou e tomou a frente, novamente, ela guiou Hermione e as duas atravessaram as folhas caídas e as árvores frutíferas. A macieira se destacava das outras, antiga e bem cuidada e os frutos estavam avermelhados e suculentos em seus galhos. Hermione passou por Fleur e, imediatamente, apanhou um fruto. Contudo, ele logo estava caído aos seus pés porque o seu corpo tinha sido surpreendido pelo de Fleur.

Como sempre, a francesa sabia exatamente o que provocava.

Hermione se viu cativa dos braços de Fleur, com as costas prensadas de encontro ao tronco da árvore. A loira tinha um daqueles sorrisos genuínos que entregavam tudo que Hermione lutava por merecer, os olhos cerúleos estavam brilhantes e os lábios cheios entreabertos. As mãos apertavam a cintura morena e o rosto se aproximou o bastante para cobrir os lábios de Hermione, contudo, Fleur não a beijou e sim, disse sedutora:

— A tarefa de colher maçãs pode sim ser bastante demorada. O que acha disso?

— E-eu... Eu não sei se posso achar alguma coisa, nunca colhi maçãs. — Hermione foi sincera em sua resposta, tanto é que não pensou que as suas palavras pudessem desenhar um sorriso tão maquiavélico nos lábios de Fleur. Contudo, aquele sorriso estava ali e a morena se viu engolindo em seco, sentindo o seu bom senso seriamente ameaçado pelo que poderia vir a seguir.

Tudo começou com a mão direita de Fleur escorregando sorrateira pelo seu braço até encontrar a sua mão esquerda que envolvia a maçã. Fleur também envolveu o fruto antes de tomá-lo das mãos morenas e levá-los aos lábios, ela o mordeu e o suco escorreu pelo canto de seus lábios enquanto a francesa, de olhos fechados, se deliciava com sabor que chegava ao seu paladar.

Fleur se deliciava com a maçã enquanto Hermione percebia que desejava o fruto, o suco e, principalmente, Fleur. Suas mãos, primeiro, se fecharam em punhos ao lado de seu corpo antes de procurarem, desesperadamente, tocar Fleur. As mãos encontraram o rosto da francesa e ela abriu os olhos, dessa vez, o brilho havia se tornado elétrico e entorpecia os olhos escuros de Hermione. As mãos morenas seguraram o rosto pálido, segundos se passaram de respiração ofegante e tensão latente no ar que dividiam, antes de Hermione morder o lábio e, sôfrega, maldizer:

— Porra, Delacour...!

Fleur parecia um demônio sedutor naquele momento, os lábios umedecidos pelo suco da maçã e pela saliva, os olhos viscerais e animalescos, a postura desafiadora e a beleza estonteante, capaz de cegar. Hermione não se conteve e entregou-se ao pecado, sorvendo-o diretamente dos lábios de Fleur.

O beijo tinha gosto de maçã, de saudade e de desejo. As mãos tocavam os tecidos das roupas, mas, queriam a pele e o calor uma da outra. O ar faltava e elas o sorviam aos solavancos, Hermione sentia as suas costas amaldiçoarem a dor provocada pela violência com que era prensada ao tronco da macieira e Fleur não conseguia preocupar-se com isso quando tinha Hermione incontrolável e sedenta em seu abraço.

Além delas, o sol se punha, distorcendo ainda mais as suas sombras e soprando uma brisa mais fria que, em nada, fez o calor nelas se dissipar. Pelo contrário, o frio da noite que começava as aproximou e elas se viram mais fundidas ao calor que dividiam. Hermione ofegou e os lábios de Fleur abandonaram a sua boca inchada, encontrando a pele sensível de seu pescoço, mordendo-a e degustando o seu sabor, esquecendo-se completamente da maçã.

Naquela bagunça de mãos, braços e bocas, elas tentavam saciar o que quer que tenha surgido para perturbar os seus juízos durante aquele pequeno momento com os irmãos Moreau.

Cada uma pretendia marcar a outra, por meio de mordidas, chupões ou reações extremas de carinho, para que nenhuma outra pessoa pudesse reivindicá-las ou, sequer, desejá-las. Em meio aos frutos da tentação, elas cederam aos seus desejos e teriam continuado imersas em seus torpores se uma brisa mais fria não tivesse, enfim, arrepiado os seus corpos.

Elas se afastaram ofegantes e descabeladas, com as bocas inchadas e as peles marcadas. Sorriram uma para outra e Fleur foi a primeira a respirar fundo e apanhar um cesto, ela olhou risonha para a maçã que mordera, esquecida aos pés de Hermione. A morena apoiava-se no tronco, rindo para a copa da macieira, tão imersa em seus pensamentos bagunçados a ponto de não sentir Fleur, novamente, próxima. A francesa beijou-lhe a testa e sussurrou de encontro a sua pele:

— Salva pela noite, Granger.

Hermione riu, abraçando-a antes de se afastar para, finalmente, colher as maçãs. Elas haviam perdido o pôr-do-sol, mas, ao menos, tiveram um pouco da outra. O céu se escurecera, mas, o cerúleo ainda estava presente, límpido nos olhos de Fleur e também existia certo brilho dourado no castanho de Hermione. Talvez, diante de toda a felicidade que respiravam, também existisse o pôr-do-sol dentro delas. E isso tornava a noite uma mera e querida companheira e as duas a recebiam, de braços abertos.

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As duas voltaram a casa, pararam nos gramados para verificar suas aparências e, principalmente, as maçãs colhidas. Fleur tomou o cesto da mão de Hermione e adiantou-se, chegando à varanda e, depois, adentrando na casa. A luz da cozinha se acendeu e Hermione observou pela janela, com um sorriso, Fleur depositar o cesto na mesa e Éponine apanhar uma, observando-a.

Em seguida, as duas começaram a separar ingredientes e a conversar.

Hermione já vira Fleur cozinhar mais de uma vez, contudo, não se lembrava de vê-la sorrir daquela forma ou de vê-la tão animada diante de algum prato. Porém, lá estava ela, cortando as maçãs enquanto Éponine a orientava. Gabrielle e Lorena apareceram na cozinha e roubaram alguns pedaços dos frutos e, pela expressão indignada da avó, foram devidamente bronqueadas e expulsas da cozinha. Phillipe chegou depois e Éponine acenou e apontou, o jovem desapareceu pronto para atendê-la na provável ajuda para confecção do jantar e da sobremesa.

A gastronomia, de fato, era inerente às personalidades apaixonantes de cada um daqueles franceses.

Hermione sorria orgulhosa de Fleur — e da família dela — quando foi subitamente surpreendida pelo olhar astuto de Éponine. A senhora a observava enquanto Phillipe e Fleur trabalhavam ao seu lado e, por alguns minutos, Hermione se viu presa aos olhos da senhora que, por fim, lhe entregou um sorriso antes de cutucar a neta.

Mais uma vez, Fleur a encontrou em meio à escuridão de uma noite e, novamente, o belo sorriso da francesa iluminou tudo ao seu redor.

Fleur fez sinal para que Hermione entrasse e a morena a obedeceu. Ao penetrar na construção de pedra, o aroma da boa culinária tocou o seu olfato e antes mesmo que pudesse encontrar Fleur, essa a interceptou na sala de jantar e murmurou em seu ouvido:

— Se quiser se trocar em nosso quarto, pode ir. O jantar ainda vai demorar.

Hermione não soube explicar, mas, existia certa domesticidade no que Fleur dissera que a arrebatou. Poderia se acostumar com aquelas orientações e promessas, sabia que poderia dividir um quarto e, sobretudo, uma vida com Fleur. Por isso, a morena nutriu-se da mesma coragem usada para proteger e lutar pela francesa para, finalmente, beijá-la sem medo na frente da família dela e responder apaixonada:

— Eu vou fazer isso, obrigada... E eu amo você, Fleur.

Hermione também poderia se acostumar com o olhar de surpresa devoção que Fleur lhe entregou, assim como poderia se acostumar com tudo que viesse dela, inclusive, o silêncio diante de suas palavras.

Afinal, a morena estava bem acostumada ao fato de que elas não diziam muito o que sentiam porque, de fato, tudo estava devidamente às claras no que faziam, fosse proteger uma a outra, ou dar uma crise de ciúmes e, até mesmo, fugir para uma sessão de amassos escondida dos familiares... Elas sempre diriam que se amavam, com palavras ou não.

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Notas finais
O que acharam dessa pequena viagem de Hermione e dos Delacour? Espero que tenham gostado e que a espera tenha valido a pena... Não irei prometer nada em relação ao próximo capítulo, mas, se tudo der certo, ele logo sai. Aguardo as impressões de vocês nos reviews ou nas recomendações... Muito obrigada por me acompanharem, beijos e até a próxima! ;*